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domingo, 15 de março de 2020

Depressão, quando ela volta...


Depressão é uma doença, assim como a diabetes, pode voltar, se permitirmos.
Quando você conhece uma pessoa, e ela muda seus hábitos praticamente da noite pro dia, algo errado está acontecendo na vida dela. E pode ser depressão.
Há uns oito anos eu superei um longo tempo  deprimida. E com isso eu não saía de casa, apenas sobrevivia com a rotina do dia a dia. Se perceberam, não quiseram tocar no assunto, mas isso já é passado.
AQUI tem o texto sobre como venci a depressão.
É doloroso, vazio, triste... Na verdade não sabemos onde dói. A diferença quando ela volta é que sabemos que existe um caminho para sair dela. Porém continua sendo difícil encontrar a estrada.
O que desencadeou, certeza, foi alguma situação difícil que aconteceu. E sim, ficamos pensando na situação, e além dela várias outras situações ressuscitam. É horrível.
Queremos silêncio, chorar, comer de tudo sem sentir gosto de nada, ficar deitada e esperar algo sabe-se lá o quê, não existe graça em mais nada...
Só passando por isso pra saber como é.
Muitos ainda acham frescura, ou sugerem falta disso ou daquilo, ou até (pasmem!) nos culpam por não darmos mais a atenção que dávamos antes.
Depressão tem isso, além de não entendermos qual foi o ponto exato do começo e nem o primeiro passo para sair. Não entendemos, mas é sabido que nada foi da noite pro dia e se já chegou no corpo físico é porque é a hora de curar.
O que menos precisamos é de julgamentos. E, olha, saiba que os julgamentos chegam até nós, certo? E não é nos arranques que vamos sair de onde nos colocamos. Isso só piora.
Não sabe o que fazer? Não faça nada! Muito menos comentários desnecessários. Nem nós entendemos como lidar com isso, imagina quem não tem nem ideia do que acontece em nossa mente e em nosso corpo.
Quer ajudar de algum jeito?
Até procurarmos ajuda ou encontrarmos a porteira de volta pra casa. Presença. Colo. Abraço.
"Se precisar estou aqui", não funciona. Não queremos ninguém por perto, mas se tiver, não vamos maltratar ninguém.
"Vamos sair, dar uma volta que passa". Não funciona. Não queremos sair na rua, e se o fazemos é por precisão mesmo. Não vai passar dando uma volta ou fazendo algo bom. Nada mais tem graça, então não existe algo bom.
É o tanto faz estar viva ou estar morta.
Na primeira recaída fica mais fácil sim, pois já sabemos os mecanismos mentais e a melhora vem, quando a procuramos, claro.
O mais difícil é controlar os pensamentos que ficam todos embolados...
Mas, com ternura por nós mesmos, com autocarinho, amor em abundância, conseguir se olhar no espelho e não encontrar nenhum rosto estranho, já é um grande progresso.
Se quisermos e soubermos que temos o poder pra isso, só convencer a mente que são só pensamentos, que está tudo bem, eles vão passar, e imediatamente tornar-se presente sentindo todo seu corpo, sua respiração, o funcionamento de cada detalhe, e tudo vai se ajeitando.
Claro que não é só isso, pois a vontade de sumir e de morrer ainda estão lá no fundinho da alma...
Há tratamentos... E são necessários pra desbloqueio e limpeza. E são maravilhosos!

É isso.
Não menosprezem quem está em sofrimento interno. Se não souberem o que fazer, não façam e não digam nada, por favor!
E não se sintam culpados ou responsáveis também. Não existem culpados...

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A Pequena May


- May, tomar banho, agora, vamos! - a mãe chamou a pequena que brincava em sua "floresta, que tinha velhos panos presos nos cabelos com pregadores de roupa. Era seu véu de rainha.
- Hammmm - interrompeu sua fantasia de rainha, virou-se para a mãe, arrancou os panos dos cabelos e correu em disparada para a casa.
No caminho foi conversando com sua rainha, dizendo que hoje era o dia de ir na loja comprar coisas pra usar no Natal. Ela conversava e respondia pra ela mesma... - Um a um ia listando as prováveis coisas a serem compradas. Uma delas seria um par de sapatos pretos brilhantes, como ela havia pedido pra mãe tempos atrás. Outro item que ela tinha certeza que teria seria um vestido. Não tinha preferência, qualquer um combinaria com seus sapatos.
May, nos seus cinco anos, já sabia escolher detalhadamente o que usar devido aos livros infantis que tinha e aos desenhos animados que assistia.
A floresta era um lugar mágico, com dragões e cobras, porém não eram bichos maus, eram seus amigos e estavam lá pra defendê-la da bruxa malvada que ficava escondida atrás do muro, ouvindo ela brincar e cantar.
Quando chegava fim de ano, era costume da família ir a uma grande loja comprar roupas, sapatos, utensílios para a casa e alguns presentes. Eram definidas como "as compras do ano".
Junto ao encanto de ter roupas novas e sapatos novos, May sabia que era época de comer coisas gostosas e de reunir na casa dos avós e ganharem vários presentes. Esses detalhes ela contava pra rainha da floresta:
- Hmmmm, vai ter refrigerante, bolo, macarrão da vovó, sorvete... E eu vou ganhar um montão de presentes! - confidenciava May.
Também era definida como "a reunião familiar do ano".
Enquanto tomava seu banho, May cantava músicas desconexas, inventadas por ela mesma, como se fossem histórias cantadas. Tinha uma imaginação sem fim.
A roupa já estava em sua cama e sua sandália, que já estava pequena para seus pés, estava posicionada alinhadamente do lado cama.
A mãe de May ajudava-a a se enxugar e a colocar o vestido. Depois penteava seus cabelos cacheados, segurava seu rosto, olhava-a com ternura e, com um sorriso, dizia a ela que era a rainha mais linda da floresta. May sorria e respondia "sim, eu sou".
O pai de May já estava há um bom tempo aguardando as "madames" se embonecarem para irem às compras, impaciente, como todo homem atarefado, mesmo estando em férias da empresa em que trabalhava.
Quando May apareceu na sala, sorriu para seu pai e, inclinando a cabeça para o lado, disse que já estava pronta. Seu pai, como fazia todos os anos, pegou-a no colo e elevou-a ao alto e voltou-a ao chão, fazendo com que seu vestido abrisse como um para-quedas e seus cachos balançassem no ar. Ela gargalhava feliz.
A grande loja ficava longe de casa, por esse motivo a família usava o transporte público. Estava lotado e sem lugares para sentarem-se. May não entendia muito o acúmulo de pessoas dentro do ônibus, apenas observava um e outro, agarrada na mão de seu, que também se equilibrava segurando no suporte algo do ônibus.
May deitou seu olhar numa senhora que estava sentada bem no seu rumo, com várias sacolas e um embrulho bem grande ajeitado entre as pernas. Era um presente.
- O que é isso? - perguntou à senhora.
- É um presente. - respondeu sorrindo para May.
- É pro seu filho? - insistiu a pequena.
- Não, é Papai Noel pro meu neto Tiago.
May encarou a senhora e ficou imaginando o Papai Noel dentro da caixa e logo pensou que ela não teria presente do Papai Noel porque ele estava preso dentro da caixa, e que a avó havia comprado ele somente pro seu neto Tiago.
Próxima parada desceriam. May encarou a senhora até descer do ônibus, inconformada.
Na loja, que estava lotada, May corria pra lá e pra cá, sempre sob os olhos atentos dos pais, que a repreendiam caso esbarrasse em algum objeto. Vez ou outra seu pai pegava sua mão pra que ela se aquietasse. Mesmo assim May continuava brincando, conversando, cantando e apontando uma coisa ou outra. Tudo era encantador, com luzes piscando, músicas natalinas, brilhos, bolas coloridas, e lá no fundo, quem estava lá? O Papai Noel.
May parou e ficou boquiaberta ao saber que o Papai Noel não estava dentro da caixa da senhora do ônibus. Imediatamente ela apontou para ele e gritou: - Papai Noel!
Seu pai repreendeu-a mais uma vez, e sua mãe, com toda paciência, pegou na pequena mão de May e levou-a até ele.
May, com os olhos brilhantes, perguntou:
- O que você está fazendo aqui?
Papai Noel, surpreso pela pergunta, respondeu:
- Estou aqui te esperando, menina!
May sorriu, aproximou-se dele e começou a contar a história do ônibus, mas o tempo era curto e haviam pessoas na fila, foi interrompida. Deu um abraço nele e saiu saltitando de alegria. May tinha certeza de que ele havia fugido da caixa.
Sua mãe sentou-a num puff para provar os sapatos. Não eram brilhantes como havia pedido. May cruzou os braços e não quis experimentar. Os sapatos brilhantes, em verniz, eram um pouco mais caros e o casal teria que abrir mão de alguma coisa para satisfazer os gostos da filha. Ficaram cochichando até chegarem num acordo. Comprariam um presente mais barato para May e assim poderiam comprar os sapatos em verniz. Realmente eram lindos!
As compras seriam entregues na casa deles, pois eram volumosas, muitas caixas e alguns itens eram pesados.
Saíram da loja e foram comer pastéis, como era costume. Pastéis de carne e garapa.
A família de May era bem simples, porém eram organizados nas despesas. A "compra do ano" era sagrada e o dinheiro era guardado mês a mês.
Fim de ano era o tempo de reunir a família e esbanjar um pouco na alimentação, comer pudim de leite, beber guaraná, vestir roupas novas e trocar presentes. Todos ganhavam, todos compartilhavam o que podiam, todos matavam as saudades e tinham o "dia do ano" mais feliz do mundo.
May, vestindo roupas novas, sapatos brilhantes, cachos esvoaçantes, e uma história pra contar cantando pra todo mundo, sobre o Papai Noel na caixa do Tiago.
Coisas da vida.

Clara Lúcia

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sábado, 9 de novembro de 2019

Eu, minha criança



"A criança interior é responsável pela nossa conexão com o nosso processo criativo, com o nosso poder de atrair o que queremos através da vibração de alegria que emanamos. Em desequilíbrio não criamos, viramos reféns das frequências que vibram de forma inconsciente, que traz para a nossa realidade todos os processos de espelhamento."
Texto de Renata Pereira.

"Vinde a mim as criancinhas, pois delas serão o Reino dos Céus";  Jesus.
Por que será que Jesus disse isso e ninguém entendeu, ou entendeu que somente as crianças que teriam condições de entrar no Reino dos Céus?
Para o Universo somos crianças em fase de aprendizado.
Infelizmente, e isso faz parte da evolução, ao longo da vida somos inundados com crenças e limitações infundadas. Mas isso também tem um propósito, essas crenças são para que possamos vivenciá-las e aprendermos a lidar com elas.
Todo tipo de processo não deve ser evitado e sim vivenciado, sem deixar que nos limite ao processo evolutivo.
Vamos nos lembrar da infância. A minha foi solitária, porém não sabia o que era ser solitária. Brincava sozinha e amava tudo! Criava meus próprios brinquedos: vaquinha de chuchu, boneca de espiga de milho, bolo de barro, cabana de folhagens, floresta imensa no meu quintal, enfim, eu era o brinquedo. E amava tudo isso. Toda criança tem esse processo criativo e que com o tempo se acaba. Ou então na infância mesmo, a criança é privada de brincar como deve ser, explorando sua imaginação.
Hoje é tecnologia, que também não é ruim, pois a criatividade pode ser desenvolvida na criação de infinitas ferramentas facilitadoras para o trabalho humano.
E mesmo assim ainda são privadas de exercer a criatividade. Talvez pela falta de incentivo,  não sei, e também por ouvir muitos "ditados", isso é pecado, tem que... para que... para ser... isso não dá dinheiro... moça de família... pai de família... ou seja, costumes impostos sem nenhum fundamento. (eu acho que não tem nenhum fundamento qualquer tipo de tradição).
Quando Jesus diz que o Reino dos Céus são das crianças, creio eu, é o modo como elas convivem com todos.
Não guardam mágoa, amam incondicionalmente, não têm preconceito, nem racismo, não sabem o valor do dinheiro e nem o valor das coisas, mas prezam e procuram muito o valor do coleguinha. Não são vingativos, riem de tudo, brincam, se divertem, criam, choram...
Tudo isso é a base para a vida adulta fluir... Já nascemos sabendo e não usamos essa sabedoria na idade adulta.
O que é preciso para ser próspero e abundante?
Tudo o que criança faz! Na inocência, sabe-se viver como adulto e adulto se esquece de sua criança interior.
Um detalhe sobre como não cultivar a ansiedade na primeira fase da vida. O soltar...
O soltar significa não ficar ansioso e nem duvidar que algo chegará até você. Essa é uma Lei poderosa do Universo para realizarmos nossos desejos. Você deseja algo, imagina-se na situação de já ter esse algo, com gosto, cheiro, tato, cores e depois solta, na certeza de que tudo é real e que já tem o desejo realizado. O Universo trará a você exatamente a sua imaginação. O Universo não sabe o que é real ou imaginário, não sabe se é bom ou ruim, se pode ou não pode. É o foco, a fé.
Onde entra a criança nisso? Criança já sabe o dom que tem, brinca, imagina, conversa com o brinquedo e... Depois vai dormir. Solta... E no outro dia começa tudo de novo, imagina tudo de novo e a imagem holográfica (como o Universo lê) fica em sua mente. Dependendo do que a criança mais gosta de brincar, esse é o projeto de vida dela. E daí vem o adulto e priva-a de todo o dom despertado, porque não é bom, não dá dinheiro blá blá blá.
E cria-se um adulto infeliz, com vida conjugal infeliz, trabalho infeliz, sem prosperidade e sem sonho nenhum.
Outro fato interessante, sobre os bebês e crianças menores. Por que são tão adoráveis? Acho que se não fossem, não teriam satisfeitos seus desejos, já que não sabem se comunicar direito. Tudo em bebê e em criança pequena é fofinho, é lindinho e quando aprendem algo são aplaudidos, abraçados, amados! Tudo que todo mundo precisa para prosperar.
Amor. Somente amor. Amor é a base de tudo e criança sabe disso como ninguém.
Elas emanam vibração de amor para nos atrair. Depois começam as chantagens e os famosos testes de nossa paciência. Mas basta um sorriso e pronto, tudo por água abaixo.
Dia desses, fui num evento e eu brinquei de jogar bexiga com o filho de uma amiga, no meio do povo lá. Todo mundo esperando e ele e eu jogando bexiga. Eu amava jogar bexiga quando era criança. Brincava sozinha, claro...
Por que perdemos todo esse encanto?
Podemos fazer um teste.
Quando tiver algo a ser resolvido e não encontrar solução e não ter a mínima criatividade pra isso, pergunte a sua criança interior o que ela faria pra resolver. Acho que você vai se surpreender.
Lembro quando meus filhos eram pequenos e eles viam algo e perguntavam o que era. Talvez um brinquedo diferente... E eu respondia apenas "é um brinquedo". Simples assim e eles se contentavam com a minha resposta. Até hoje eu dou respostas assim quando perguntam, por exemplo. o que vou fazer para almoçar? Eu só respondo "comida". E eles riem.
Por onde anda sua criança interior?

Clara Lúcia

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Um segundo...


"... Ele levantou-se e, sorrindo, percorreu toda a sala, abaixou-se na minha frente, segurou em minha nuca e me beijou o rosto. Gelei.
E caminhou até a saída levando minha respiração e meu coração acelerado. Por alguns segundos me perdi num estalo em minha bochecha, que, certamente, enrubesceu. Boca entreaberta, suspirei e abaixei a cabeça, tentando disfarçar como se nada tivesse acontecido. Porém ele me pegou completamente despreparada pra receber um olhar, um toque que seja, imagina um beijo!
Algumas pessoas me olharam, talvez curiosas com minha timidez, não sei, talvez por eu estar vermelha e com a boca entreaberta esperando ele voltar e preencher meus lábios com seu gosto quente e úmido... Será querer demais?
Trocamos poucas palavras, sorrisos, gargalhadas em grupo, e foi a mim que ele se dirigiu pra me tocar levemente e provocar uma erupção gigantesca que não poderia sair pelos poros por receio de demonstrar o que não teria nenhum sentido... Um delicioso exagero feminino.
Sensibilidade aflorada, cheia de fantasias, encontros noturnos, beijos quentes, olhares perturbadores, união... Afinal pra que serve a imaginação se não podemos nem sonhar acordadas um instante? Posso sim e gosto disso.
Gosto de situações inusitadas... Surpresas... Nem que sejam temporárias...
Hoje eu fui beijada, hoje eu senti minha vida pulsar, mudei de cor e perdi o jeito, hoje passará e será ontem...
O que se passa da cabeça de um homem provocante assim? Será que sabe que há um turbilhão de emoções dentro da mulher?
Só uma pegada no pescoço e um beijo...
Gosto de viver os momentos intensos, mesmo sendo segundos, mesmo não sabendo do que me espera... Nem eu espero nada.
Foi só um beijo, uma mão na minha nuca... 
Só..."

Clara Lúcia



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quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Farol

 

   
      Ele me achou... E eu fugia por uma estrada comprida, levantando as saias de meu vestido que, vez ou outra, me faziam cair na terra úmida por causa da chuva da manhã, cobrindo meus joelhos com lama. Rapidamente me levantava e continuava correndo. Olhava para trás e ele continuava a me perseguir, quase me alcançando.

      O vento frio de outono cortava meu rosto e jogava meus longos cabelos cacheados para trás, esvoaçantes balançavam em harmonia e tapavam meu rosto quando eu virava para trás para espiar a distância que eu estava dele... Corria, como se minha salvação dependesse da velocidade dos meus pés e da força de minhas pernas. Já estava escurecendo e minha angústia aumentava a cada passo em falso que dava e tropeçava em alguma pedra solta pela estrada. Não tinha para onde me esconder. De um lado da estrada um abismo com o mar azul escuro aumentando a maré e batendo nas pedras espalhando espuma branca por toda a orla. Do outro lado uma floresta fechada, um labirinto arriscado e misterioso, digamos ser medonho pelos barulhos estranhos que ecoavam a noite toda, chegando até o pequeno vilarejo.

     Mathias, um vilarejo novo, habitado por pescadores e homens das florestas, como assim eram chamados pelos viajantes comerciantes que apareciam por lá. Havia apenas uma rua principal e as casas, todas simples e rústicas, feitas de pedras e forradas com troncos cortados de árvores, unidos harmoniosamente um ao lado do outro, com acabamento de uma cola artesanal que impedia as goteiras e ao mesmo tempo, proporcionava um frescor no interior das casas. A única moradia mais bem-feita e ornamentada era do chefe-guardião, que tudo via, tudo sabia e era obedecido por todos. Era o deus de todos. Tinha o poder de ler os pensamentos, descobrir ovelhas desgarradas, apontar para algum malfeitor, julgá-lo e condená-lo em questão de segundos. O respeito que todos tinham por ele era, na verdade, o medo de descobrirem alguma teimosia ou algum descuido no trato com os animais. Estes eram sagrados. Era um homem alto, com mais de dois metros de altura, forte, cara amarrada, grotesco, de poucas palavras e muitas ações. A ordem no vilarejo era invejada por muitas cidades maiores ao redor, mas quando se tratava de Nêumo, o chefe-guardião, preferiam ficar longe de sua vidência.
   
     O homem me perseguia, eu gritava, mas a voz embargava. Comecei a ficar ofegante e meus passos diminuíram. O homem me alcançou, puxou-me pelos cabelos fazendo com que meu corpo encurvasse para trás. Olhou bem nos meus olhos e sorriu com sarcasmo. Eu cuspia em seu rosto e apertava seus olhos com os polegares e mesmo assim e ele me beijava a boca. Nojo! Limpei meus lábios com o braço, esfregando várias vezes, tentando tirar o gosto de álcool com hálito quente daquela boca carnuda e asquerosa.

      Ele me puxava pelos cabelos arrastando-me pela estrada até chegar num atalho que seguia direto para o farol, que ficava à beira do mar. Este estava bem agitado.

      Naquela época, mais precisamente em 1832, as jovens eram sacrificadas quando não queriam se casar com os homens que as escolhiam. Se revoltavam, se rebelavam, mas de nada adiantava. Acabavam mortas, ou enforcadas, ou lançadas num penhasco que tinha o mar como chão. 

      Era para esse lugar que o homem forte, bonito, mas nojento, vestindo roupas mal cheirosas, cabelos pretos e longos, barbudo e um nariz comprido e pontiagudo que parecia o bico de um papagaio, me levava.

      Me segurava pela cintura com um dos braços, me apoiando em seu corpo fazendo como o que meu pendesse e anulasse qualquer possibilidade dele receber um golpe meu, proporcionando-me liberdade. Eu gritava, mas minha voz continuava embargada; então ele repetia várias vezes, mas sem precisar gritar, para eu ficar quieta. Eu me debatia, tentando me livrar de seus braços, mas a força do homem era infinitamente maior que a minha.

      Ainda me segurando pela cintura subimos a escada em forma de caracol e chegamos ao topo do farol. Grandes janelas nos mostravam o céu com algumas estrelas e alguns raios de sol do outro lado. O mar batia nas pedras e fazia um barulho que penetrava em minha mente, como se me esperasse para o derradeiro mergulho em suas águas geladas e profundas. Sussurrava e lançava gotas até chegarem à janela que me aguardava ansiosa por minha queda. Um vento gelado uivava competindo com o barulho das ondas, entrava pelas janelas e esvoaçava nossos cabelos, quase que entrelaçando-os, num balé de quase fim de ato.

      O homem me levou até uma janela que ficava do lado mais fundo do mar, segurou meu rosto e me mostrou a linda paisagem. Cochichou alguma coisa no meu ouvido, mas que não conseguia
entender, com sua enorme mão me segurando o queixo, virou bruscamente meu  rosto de frente para o seu e mais uma vez me beijou fortemente. Mordi seu lábio inferior que sangrou, então ele se afastou e me deu um tapa no rosto, ainda me segurando firme pela cintura, com seus longos braços entrelaçados. Eu me debatia, mas estava praticamente imóvel e exausta. Ele começou a me xingar, mas eu não conseguia entender nada do que ele dizia. Sabia que estava xingando pela expressão de ódio em seus olhos. Mais uma vez ele segurando  meu rosto, mostrou-me a paisagem que seria a última visão que eu teria. Eu tentava gritar e não conseguia.

      Num movimento rápido, ele me ergueu  e apoiou-me no parapeito da janela. Olhei para baixo e senti vertigem. Gritava, mas era inútil. Mais uma vez ele cochichou algo no meu ouvido e me empurrou para o abismo.

      Neste momento, gritei tão alto que minha voz ecoou. Segundo a segundo eu via aquele homem se distanciando de meus olhos enquanto eu caía. Um frio tomou conta de meu corpo, meus cabelos longos taparam meu rosto antes mesmo de meu corpo tocar o mar agitado. Parecia que a queda não teria fim. Sentia falta de ar, como se minhas narinas estivessem fechadas e meu grito abafado tivesse cortado minha garganta impedindo a saída do ar. Fui caindo e desfalecendo. O barulho do mar era cada vez mais forte, mas já não me importava com a morte. Queria a morte de uma vez por todas. Praticamente já sentia as gotas do mar respingando meu corpo. Abri os braços e me entreguei! Por uma última olhada, de relance vi, na outra janela do farol, Nêumo, com seu olhar frio e calculista. Entendi tudo.

     A Lei cumpriu seu destino. Mais uma desobediente a ser esquecida no vilarejo Mathias. Quanto à força de um homem, um olhar instigante e tudo se acaba. O fim foi consentido e determinado.

     Caia no mar agitado e não fazia questão de sobreviver, nem se houvesse um milagre.




     Clara Lúcia

     

terça-feira, 19 de março de 2019

O Dia Em Que Eu Gostei De Lady Gaga


Shallon é uma música linda, letra e melodia, e é de Lady Gaga e Mark Ronson.
Faz um bom tempo que presto atenção em Lady Gaga, mas nem sempre foi assim.
O ápice de minha eventual "revolta" com ela foi quando apareceu vestida de carne.


Achei simplesmente ridículo, gente que só quer aparecer. Essa era minha opinião. Somente minha.
Nem prestava atenção em suas músicas, nem nada, o que valia era como ela aparecia na mídia. E eu não gostava e criticava. Pra quê? Porque eu era assim, talvez preconceituosa por nada, crítica sem noção, infeliz e completamente fora do quesito "o outro faz e é do jeito que quer e é".
Faz muitos anos que eu tive essa postura, realmente eu era infeliz, amargurada, depressiva, rancorosa, e Lady Gaga não tinha nada a ver com isso.
Como tudo no mundo muda, eu mudei também e comecei a ver o mundo de uma forma maravilhosa!
Meu Deus, como a Terra é linda e o ser humano fantástico!
Como eu pude ser tão medíocre com quem nem sabe de minha existência? O que importava minha opinião?
Bem, passou...
Não assisti ao filme Nasce Uma Estrela, mas a música é linda e ela interpretou-a lindamente no palco do Oscar, juntamente com Bradley Cooper.
Esses dias vi um vídeo em que ela interpreta Elton John. Amei!
E também tive a oportunidade em ler sobre sua biografia. É uma vencedora e merece todo o brilho que possui.
Ela e todos que vivem seus dons, suas vidas, e estão no mesmo barco nesse planeta maravilhoso.
O tempo que temos por aqui é curto e cada um faz sua parte, o que bem entende.
Não existe certo ou errado, existe a maneira como enxergamos algo. O que é bom pra mim não precisa ser pra você.
O que determina nosso mundo é o conjunto de vivências que temos e como lidamos com os acontecimentos, sentimentos e escolhas que fazemos.
A gente enxerga o mundo de acordo com o que está em nosso coração.
E assim o mundo continua com seus humanos a bordo, fazendo o que têm vontade, independente de mim ou de você.

É isso.

Clara Lúcia


segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Guaraná só no Natal


Sabor da infância, guaraná Maçã!
No meu tempo de criança, as coisas não eram fáceis pra nós. Vida simples, regrada, porém não faltava nada. E também não tínhamos sempre.
Roupas novas e guaraná eram as coisas que tínhamos só no Natal.
Não era como hoje, com farturas e comidas diferentes. Era tudo muito simples, caprichado e com algumas coisas com gosto de Natal.
Ah, o guaraná Maçã!
Macarronada, feijão gordo, frango assado e pudim não podiam faltar!
Mas o guaraná Maçã era esperado com água na boca...
Hmmmm, uma semana antes já estava em casa um engradado inteiro com guaraná docinho, com gosto levemente sabor maçã, que podíamos beber à vontade, mesmo sabendo que, como éramos crianças, apenas dois copos ou três cabiam na nossa barriga. Era muita comida boa e a regra era só beber depois de rapar o prato.
A gente rapava o prato na infância e na adolescência brigava com a balança...
Era justo!
E depois vinha o pudim de leite... Ah...
E vejo hoje a facilidade em ter essas gostosuras, que se tornaram corriqueiras em nossa mesa, porém, nem tanto.
Quem diria que com toda a facilidade em comprar comidas e bebidas, algumas guardamos justamente para ocasiões especiais. É o caso do guaraná, nem sempre esse docinho de maçã.
Isso mesmo, voltei à época de vacas magras, porém deliciosas, me permitindo usufruir de guloseiras somente em ocasiões especiais.
Hoje não é como nos tempos passados, onde os alimentos eram quase todos naturais, sem conservantes, nem açúcares em exagero, nem gorduras trans e nem agrotóxicos embutidos.
Não dá pra facilitar a entrada de venenos no nosso organismo, afinal temos que cuidar da carcaça temporária que nos foi emprestada. Não cuidou direito, adoeceu e morreu!
Ainda hoje encontro guaraná Maçã para comprar, e quem sabe ele fará parte de minha mesa de Natal?

Um Feliz Natal a todos, com paz, saúde e felicidades!
E um Ano Novo repleto de boas atitudes e muita gratidão!

Clara Lúcia

domingo, 2 de dezembro de 2018

Tudo Começa e Termina em Você


"Você se torna responsável por aquilo que cativa", O Pequeno Príncipe. Quem já leu o livro conhece muito bem esse garoto fofo que espalha pureza e amor. Porém essa frase eu nunca concordei.
Há tempos eu me sentia com a consciência pesada por ter feito algo, que pra mim não foi nada demais, apenas uma consequência de algo que tinha acabado, mas pela reação da pessoa envolvida, me sentia culpada. Isso durou anos e anos.
Quem tem a consciência pesada sabe, ou imagina, que prejudicou alguém de alguma forma.
Depois de vários anos reencontrei a pessoa. Queria saber como estava, se havia "sobrevivido" bem ao acorrido e soube que estava tudo bem sim.
Mas a consciência pesada permaneceu até que eu, depois de muitos estudos, análises e conclusões, soube que não é bem por aí esse negócio de responsável pelos sentimentos do outro.
Me colocando no lugar do outro, se alguém fizesse o mesmo que eu fiz, e, claro que já fizeram, simplesmente seguiria minha vida normal. A chateação dura pouco tempo, mas é questão de cultivar o sentimento negativo ou não, de aceitar uma suposta derrota ou não. E nem é derrota, é coisa que acontece sempre, querendo ou não.
Se eu tivesse voltado atrás e seguido à risca a responsabilidade pelo sentimento do outro, certamente a situação teria piorado bastante. Seriam duas pessoas infelizes que seguiriam apenas o ego de crenças impostas, passando por cima do real significado da vida, que é o amor, o respeito a si e ao próximo.
A responsabilidade é individual, o sentimento também, portanto cada um que cuide de seu sentimento e sua responsabilidade por si mesmo. A não ser que sejam filhos, pais ou alguém dependente de nós. Mesmo assim há ressalvas quanto a isso.
Como podemos ser responsáveis por algo que o outro sente? Se é o outro que sente, partiu dele sentir e partirá dele permanecer sentindo ou não.
Tudo começa e termina em nós mesmos.
Desde sempre somos instruídos (educados) a seguir normas e aconselhados a obedecer sob pena de castigo dos céus, de Deus.
Como Deus pode castigar se Ele é puro amor?
Tudo depende de nossas escolhas, nosso livre-arbítrio. E acredite ou não, tudo retorna a nós, inclusive essa responsabilidade aparente em provocar no outro qualquer tipo de sentimento.
Se o outro se sente ofendido ou magoado, significa que a expectativa dele por mim foi errada. Aliás a pior atitude é esperar algo de alguém. Cada um tem uma vida, um ritmo, uma verdade e pronto.
Do mesmo jeito que eu errei em me sentir de consciência pesada. Eu cultivei esse sentimento pensando ter prejudicado uma pessoa e não foi bem assim.
Mesmo sabendo disso, precisei saber quais eram as atitudes da pessoa no dia a dia, como ela encara a vida e as pessoas e fui percebi que o vitimismo sempre esteve presente na vida dela. Sempre os outros são culpados, os outros fizeram, os outros saíram e os outros prejudicaram.
E com certeza todo aquele meu passado me veio à memória, anos com depressão e pânico, sempre culpando os outros pela minha infeliz vida.
Bastou me responsabilizar por todas minhas escolhas, todas minhas atitudes e mudar totalmente meu foco e meus pensamentos pra tudo encaminhar da melhor maneira possível.
Depois de anos com os fantasmas desse fato rondando minha mente, dei o caso por encerrado e me libertei da suposta culpa.
Hoje sei que essa suposta culpa me retornou através de outras pessoas, como se houvesse um aviso num canto da minha mente pra não repetir aquela atitude ou então seria mais uma vez culpada.  Eu atraí tudo isso. E como obedeci minha mente e minha culpa, sofri desnecessariamente.
Mais uma certeza do poder da mente, dos pensamentos, das atitudes, de nossas escolhas e as consequências delas.
Nós escolhemos, nós aceitamos ou não, nós decidimos, nós sentimos, nós agregamos ou soltamos, nós, e ninguém é responsável por isso a não ser nós mesmos.
Cada um tem uma vida, e toda escolha tem retorno certo. A vida cansa de nos mostrar isso e mesmo assim achamos que conosco é diferente... Vai ver a gente veio de outro planeta e o que acontece com a gente não acontece com mais ninguém.
O ego brigando com a realidade...

Clara Lúcia

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Inteligente


"Nossa, como você é inteligente!"
Típica frase para diferenciar uns dos outros, ou melhor dizendo, para classificar os seres como inteligentes ou não inteligentes.
Afinal, o que é ser inteligente?
Conhece algum? Já prestou atenção em seus gestos, questionamentos, argumentos? Conseguiu decifrar uma pessoa pensante?
Todo inteligente é curioso, logo, todos podem ter a inteligência denominada por muitos.
O tamanho do cérebro é o mesmo, os neurônios idem, portanto, ao longo da vida alguns se destacam pela capacidade de raciocínio, pela ousadia, pela coragem e perspicácia em atingir algum objetivo.
Dependendo de como lhe é passado o mundo, a mente reage a tal situação. Se desde o nascimento é incentivado a questionar, argumentar, estudar, pesquisar, criar etc, a mente, logicamente, ganha uma expansão, tornando o ser com uma capacidade evidente, a tal da inteligência.
Há também os que parecem nascer com todos esses adjetivos, não precisando de ninguém ou de nenhum outro incentivo para desenvolver a mente mais rapidamente.
A alma é eterna, e, para quem crê nesse assunto, há reencarnações. Se a alma é eterna e se reencarnamos, acumulamos conhecimentos passados. E a cada vinda à Terra, a mente continua progressivamente em expansão.
Nada mais poderoso no Universo do que o conhecimento.
Repito que todos podem ter a inteligência, basta somente criar hábitos para expandir a mente.
Nem todos inteligentes são ricos, pois uma coisa não tem nada a ver com outra. Talvez o grau de conhecimento faz com que os que têm uma capacidade maior, não veja a riqueza física como essencial para a vida.
Nada mais poderoso no Universo do que o conhecimento - 2.
Mas para sustentar uma mente pensante e criativa, há um preço não muito confortável.
Percebam que há o costume de seguir uma rotina, principalmente quando alguém, claro que inteligente, dita alguma regra e todos concordam e espalham. Até chegar alguém para contestar aquela verdade que foi obedecida há anos. E geralmente não existe a resposta, provocando no questionador uma pesquisa e um estudo aprofundado. Até chegar a uma segunda conclusão que a partir daquele momento existe uma outra regra sobre o mesmo assunto.
Geralmente quem não se contenta com apenas uma regra, quem questiona e conclui que talvez não seja bem assim, é classificado como chato. E talvez seja mesmo, mas é necessário haver divergências para que hajam mais pesquisas, mais conclusões e mais resultados a serem analisados.
É tão mais fácil deixar tudo como está, em perfeita zona de conforto, não é mesmo?
O inteligente sempre chama a atenção e provoca um certo mal-estar naqueles que não se preocupam com assuntos alheios aos seus costumes de vida. E, claro, esse mal-estar é provocado também em quem tem um conhecimento maior, que tem vontade de esclarecer aos demais, mas prefere o silêncio a demonstrar sua capacidade.
Cada um fica no seu mundo.
E aparece aquele ditado "Devemos ensinar a quem quer aprender".
É sabido que usamos somente 5% da capacidade de nosso cérebro. Vocês não acham muito pouco? E os outros 95%, a mente inconsciente, como podemos usá-las?
Ah, hoje em dia há inúmeros registros e fórmulas para expandir a capacidade cerebral.
Como diz um outro ditado "O que você procura também está te procurando".
Num mundo mecânico, capitalista e com facilidades infinitas, quem arrisca a se tornar um chato ou um ser exemplar a compartilhar informações a quem queira?
Quem? É só procurar!
Nada mais poderoso no Universo do que o conhecimento - 3.
Qual a diferença de quem tem um vasto conhecimento?
Consegue ver os vários lados de uma questão; é observador; dificilmente acompanha a grande massa sem antes pesquisar e chegar as suas próprias conclusões; não se conforma com alguma afirmação imposta e que não seja convincente; é questionador; resolve problemas apenas ignorando-os; não reclama futilidades; lê muito sobre tudo (o ato de ler expande a mente); enfim, apesar de morar no mesmo planeta, enxerga o mundo de uma forma diferente. Alguns se sentem na obrigação de ajudar o próximo; são autodidatas e colocam o foco onde realmente vale a pena.
Lembrando que ter conhecimento é diferente de ter informação. E esperteza é bem diferente disso tudo.
Quem quer ser inteligente? Para quê?
Já pensou em ser autodidata e ampliar seus conhecimentos dependendo somente de sua vontade e capacidade em pesquisar e tirar suas próprias conclusões?
Cientistas, criadores, inventores etc, são autodidatas...
Nada mais poderoso no Universo do que o conhecimento - 4.
Por falar em ler, na vasta internet existem vários meios de adquirir conhecimento. Uns de graça, outros com preços ótimos e existem também os cupons de desconto. Tem o CUPOM VÁLIDO, que já foi destaque na revista Exame, e que tem várias editoras parceiras: Saraiva, Americanas, amazon etc. Entrem no site para conhecerem os parceiros e fazerem uso dos descontos!
Coisa boa a gente compartilha!
Então, vamos expandir a mente lendo livros!

Clara Lúcia

terça-feira, 10 de julho de 2018

AS PANTUFAS DE NONNA


O tempo era meio esquisito no inverno, num dia um calor seco, no outro um frio cortante, daqueles de soltar fumaça pela boca. Ana Vitória nem podia sair de dentro de casa para brincar, devido a sua sensibilidade com o clima seco. Sofria no inverno a pequena. Mas invenções para brincadeiras é que não faltavam para entretê-la.
Ana Vitória, uma menina de cabelos encaracolados, olhos grandes e verdes, sardas no nariz e, no auge dos seus cinco anos, as janelas na boca eram inevitáveis. Os quatro dentes de leite da frente já não faziam mais parte de sua figura. Era uma criança doce, meiga, porém teimosa como uma mulinha em crescimento. Adorável quando queria alguma coisa, cativante para evitar broncas por alguma travessura, mas educada, que era o que mais importava.
Em sua casa, além dela e seus pais, sua bisavó vivia com eles em harmonia perfeita. Afinal que família não vive em harmonia quando se tem uma bisneta a querer brincar com a bisavó fazendo-a sentar no chão e cruzar as pernas? Ana fazia isso e depois gritava pela mãe para ajudar a nonna a se levantar. E ria da situação. Nonna se divertia demais! Fazia de propósito só para ouvir as gargalhadas da bisneta. E ficava mole quando sua neta, mãe de Ana Vitória, ia acudi-la para se levantar. Percy, mãe da pequena, tinha medo de nonna se machucar ou quebrar algum osso. "Que nada", dizia nonna, "aguento muita coisa ainda, fia".
E nesse tempo frio, Percy fez pantufas para nonna, toda colorida em crochê. Ela adorou! Qualquer ventinho mais frio que dava, lá estavam as pantufas a esquentar os pés da nonna.
Ana Vitória também ganhou pantufas, mas as dela eram de ursinho bem peludo. Tinham a sola antiderrapante e eram bem macias. Já as da nonna eram somente em crochê, sem sola antiderrapante nem nada. Mas  eram quentinhas e confortáveis. Nonna calçava-as e ficava sentada no sofá cobrindo as pernas com uma manta leve.
Ana Vitória ficava observando as suas pantufas e comparando com as da nonna. Eram diferentes uma da outra, apesar de terem o mesmo nome, deduzia a pequena. Ana indagava a bisavó sobre a sola não ter aquelas bolinhas, as antiderrapantes, e nonna apenas dizia que as pantufas que tinham bolinhas eram somente para crianças felizes poderem correr, brincar e não cair. Ana abria uma sorriso, colocava seu pé do lado do pé de nonna e comparava o tamanho, depois dava um beijo na bochecha dela e voltava aos seus brinquedos.
Num dia frio nonna preferia não se aventurar no chão com a bisneta. Mas engana-se quem imaginava que Ana Vitória ficasse quieta perto da nonna! Fazia questão de trazer seus brinquedos para perto dela, arrumava tudo em volta dos pés da nonna formando um círculo, e ali cantarolava com as bonecas e fazia chá para servir à nonna.
Percy ficava observando a criatividade da filha com a bisavó e sentia paz. A diferença de idade era de oitenta anos, porém não fazia a menor diferença. Nonna, encurvada e com os cotovelos apoiados nos joelhos, entrava na brincadeira e fazia tudo que Ana Vitória pedia. E riam descontroladamente das caretas que nonna fazia quando tomava o chá.
Percy, que ficava observando da porta da sala, ria também e se lembrava de quando era criança e nonna fazia chá para os netos. Era o chá de cheiro, saboroso e perfumado. Sempre era acompanhado por pão caseiro, bolinho de chuva ou bolo de fubá. Os netos se fartavam com as delícias de nonna! Depois de moça é que Percy descobriu o segredo do chá, apenas água com açúcar. E pensava que além desses dois ingredientes, havia também muito amor envolvido, muito capricho e bom humor. Percy fechava os olhos e imaginava o aroma do chá de cheiro com o pão caseiro invadir a casa... E olhava para a filha que brincava com nonna e se emocionava pela falta de seu bisavô e de seus pais, todos falecidos. A família havia diminuído, mas a energia do amor enchia a casa de Ana Vitória!
Não sabia por mais quanto tempo nonna estaria entre eles, mas fazia questão de proporcionar o maior conforto possível para ela. E fazia questão de Ana Vitória participar de tudo e ter uma lembrança maravilhosa da infância ao lado de nona por toda a vida.

Clara Lúcia

quinta-feira, 12 de abril de 2018

ME DIGAS COM QUEM ANDAS




Para quem usa as redes sociais, ou mesmo só a internet para pesquisas, sabe do gatilho ligado as nossas escolhas que impulsionam a nós vários links que poderiam nos interessar, de acordo com nosso gostos.
Chega a ser cansativo quando clicamos em algum link e logo depois um turbilhão de informações referentes ao assunto em questão nos aparece como sendo de nosso interesse também.
Às vezes pode ser que sim, mas na maioria das vezes foi só uma consulta que fizemos, nada além disso.
Vamos supor que você tenha um sonho, um plano, uma vontade de fazer algo, mas que acha difícil, mesmo antes de começar.
Qual o problema em ser difícil? Será que as coisas difíceis nunca deverão ser realizadas? Será que é difícil mesmo ou você já criou o hábito de rotular tudo que não faz parte de sua rotina?
Pela lógica, o mais difícil é fazer algo que nosso corpo não consegue fazer. De resto, tudo é possível. É difícil, fácil, tudo depende da intensidade ou do obstáculo que você coloca à frente de tudo que está por vir.
Se você tem, desde criança, um dom, mas que ao longo da vida não deu valor a ele e seguiu uma estrada que desvia desse dom, digo-lhe que mais cedo ou mais tarde esse dom vai bater forte na sua porta, e talvez seja sua segunda chance de ter o sucesso tão almejado.
Lembre-se que sucesso não quer dizer fortuna.
Então, caso esteja disposto a tentar fazer o que realmente sempre quis fazer, então tente!
Se é dom, então terá toda a facilidade em lidar com qualquer coisa, e além disso, acredite, tudo relacionado ao assunto virá até você.
Aquele ditado que diz que "tudo que queremos o Universo conspira a nosso favor" é verdadeiro...
O segredo disso tudo é o foco que você terá em realizar algo na vida. Se há o foco, há o ímã que impulsionará você a conquistar o que almeja.
Nós temos o livre arbítrio, e isso pode ser ótimo e pode ser um desastre também.
Lembre-se de sua infância, das facilidades que você tinha em desempenhar alguma tarefa... E que por influência do meio em que você vivia, deixou de lado, por motivos variados que já conhecemos. O maior motivo sempre foi "isso não dá dinheiro". E talvez tenha dado se você tivesse insistido e persistido no que realmente sabe fazer com facilidade.
Quando sabemos de nosso dom, certamente temos um diferencial de quem não tem o dom para o mesmo quesito. Então, não importa se metade da população já faz o que você sabe fazer com facilidade, seu dom, pois só por você tê-lo, já terá um diferencial, uma pitadinha mágica, uma cerejinha do bolo, e isso fará toda a diferença para seu sucesso.
Acredite nisso, acredite no seu potencial!
Outro ditado que é verdadeiro, "faça o que goste e nunca mais precisará trabalhar".
Quando temos um dom e trabalhamos nele, a satisfação em fazer sempre melhor, em executar com mais capricho e ser diferenciado no mercado, é visível. E isso pode lhe render além do que imaginava, além do que tantas pessoas lhe tiraram de cabeça em seguir seu instinto e vocação. Dependendo da estratégia que você usará, será bem-sucedido também.
Não importa o que seja, se há amor, dedicação, se for sua vocação e tiver uma boa estratégia, olha, o sucesso será garantido.
O mesmo acontece com as pessoas que vivem conosco no dia a dia. Se prestarmos atenção, todas têm um objetivo e muitas vezes são parecidos com os seus. Se você mudar os contatos, talvez seu objetivo também mude, e até seu modo de enxergar o mundo também mude.
Por essa lógica, me diga, qual seu objetivo? Você tem contato com pessoas que têm o mesmo objetivo que você? Não necessariamente o mesmo dom, mas pelo menos o mesmo tipo de conversa, os mesmos lugares frequentados, o mesmo modo de enxergar o mundo e os mesmos valores. Já pensou sobre isso?
Se forem pessoas que têm a curiosidade em aprender, seguir caminhos diferentes do seu, não há problema nenhum, mas quando você opta por seguir uma estrada e quer ter o foco absoluto para que seu objetivo seja alcançado, talvez seja necessário mudar os ares de sua vivência. E é normal isso. Ninguém vai abandonar ninguém, apenas irão seguir estradas diferentes.
Se você passar a ter contato com pessoas que têm a mesma vocação que a sua, certamente alguns deles já passaram por dificuldades e não terão problemas em compartilhar as pedras que encontraram pelo caminho. Quem já atravessou uma estrada e venceu o desafio, sente orgulho em compartilhar a batalha e mostrar a guerra vencida. Isso seria meio caminho andado para quem está no início da trajetória.
Portanto, se você perceber que está fora do contexto com algumas amizades e pretende se aprofundar no que realmente lhe importar, faça isso! Você obterá respostas das pessoas que já trilharam o caminho que você deseja percorrer, e como tem a vocação, você não terá dificuldades em aperfeiçoar o proposto objetivo. Tudo surgirá para você com a maior facilidade, creia, meu querido!
E, vamos pensar, a vida é tão curta e o mundo tão imenso de oportunidades, que não dá para abrir mão de nossos objetivos por essa ou aquela pessoa, afinal qual vida tem maior valor, a sua ou a de quem está com você lhe impedindo de prosseguir para o que você realmente quer? Todas as vidas são importantes. Cada uma deve ter um propósito a seguir, só isso.
Siga o seu, sem remorso!
Isso não é egoísmo... 
O que você acha?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Picuinhas De Casal


Alguns e-mails que recebo sobre relacionamentos abusivos, nem sempre são abusivos. Às vezes as pessoas são complicadas, difíceis e não conseguem enxergar o outro como uma outra pessoa, um outro universo, um outro ser independente e pensante.
A maior dificuldade é essa mesma, de se colocar no lugar do outro, entender o que se passa com o outro, saber o que pensa, o que gosta, como age, como quer viver, como quer compartilhar. Em vez disso instala-se uma enxurrada de acusações e cobranças, muitas vezes infundadas.
O que eu percebo é a falta de comunicação, como sempre.
A mulher gosta de falar, gesticular, discutir (nem todas), e o homem foge de discutir alguma coisa (nem todos). Ou seja, há quem goste de discutir e há quem não goste de discutir nada, independente quem seja.
Conviver com outro ser humano é muito complicado.
Aí pode aparecer alguém e dizer: "Ah, mas você nem é casada, como pode dar palpite e saber se é assim ou assado?".
Eu fui casada, sei como é difícil, e a questão nem é sobre casamento, mas sobre o ser humano e sua individualidade.
Quantas vezes você chegou pra a pessoa que vive com você e perguntou se ela estava bem, se queria que fizesse de uma outra maneira, se estava confortável assim, se gostaria de alguma ajuda, enfim?
E quantas vezes você reclamou pra a pessoa, essa mesma que vive com você, que não aguenta mais, que só você faz as coisas, que não há colaboração de nada, ou então que só sabe reclamar e não tem a dignidade em ajudar ou tomar a iniciativa de nada?
Fatos corriqueiros em todo casamento.
O que falta é o diálogo E a aceitação do outro como sendo diferente de você.
Há os costumes que carregamos de casa, do seio da família, de pai, mãe, avós, irmãos e afins. E esses costumes estão entranhados em nós e definimos eles como se fossem a verdade absoluta a ser seguida. Essa atitude é inconsciente. E não é errado seguir regras e costumes que aprendemos dos pais. Errado é pensar e querer que nossos costumes se prevaleçam sobre os costumes da pessoa que vive com a gente.
Talvez o motivo de hoje em dia haver tanta separação, sem ao menos tentar superar os problemas é esse, não ter a tolerância em seguir os costumes impostos pelo(a) parceiro. Hoje a maioria é independente financeiramente, o que faz pensar que não é necessário passar por situações de incômodo com a outra pessoa, se se pode viver sozinho ou então ir procurando, procurando, até encontrar alguém que se encaixe em nossa vida como queremos que ela seja.
Isso também não é errado, isso é liberdade, é livre arbítrio.
O erro é não tentar entrar em um acordo, aceitar o outro como ele é, sem querer moldá-lo ao seu jeito, e também se encaixar na vida do outro, aprendendo a viver de uma maneira diferente da sua, mas que seja tão boa quanto.
Quando há o conflito, o que se imaginou na preparação para o casamento, acaba pouco tempo depois. Por falta de diálogo, a vida se torna um inferno! E conversas não existirão, nem acordos, nem respeito, nem vida individual.
Vocês acreditam mesmo que quando há o casamento os dois se tornam uma só pessoa? E a individualidade fica aonde? Talvez fique com um soberano reinando e o outro apenas se calando e aceitando tudo que lhe é imposto. Aí sim, apenas um vive, o outro se conforma com o que tem e passa a viver uma vida que não é sua.
Um exemplo bem clássico, mas que existe: a mulher, em vez de falar claramente o que lhe incomoda, prefere comentar sobre a relação com as amigas, a mãe, a tia... E como mulher é um ser pensante e que tem várias terminações nervosas no cérebro, embaralha tudo e chega a sua própria conclusão de que está certa e que o homem que ela escolheu não deveria agir de tal maneira. Isso sem que ele saiba o que se passa na cabeça linda dela. E ela começa a investigar, fuxicar, cheirar, perseguir, e transformar a vida dele, e dela também, claro, num inferno.
Com isso, o que o homem faz? Vai se afastando, aquele carinho que sentia quando namoravam vai se acabando, não há o entusiasmo de antes, não entende porque ela mudou tanto da noite pro dia, não quer conversar sobre o assunto pra não piorar... E os dias vão passando.
E a mulher, pressentindo o homem distante, sem aquele interesse que antes sentia por ela, fica mais encabulada e o acusa de ter mudado tanto do dia pra noite.
E a vida continua aquele inferno, cada um pro seu lado, sem conversa, sem carinho, sem sexo, apenas fazendo as vezes do casamento perfeito e esperando só uma oportunidade pra jogar tudo pro alto e se separarem.
Outra situação: o homem percebe que a mulher está se dando bem, está evoluindo no trabalho, anda bem arrumada, tem amigos, tem vida própria, e começa a perseguição, o ciúme infundado. Confisca celular, quer senha disso, daquilo, proíbe de usar certas roupas, afinal agora ela é casada e tem que se dar o respeito, não quer saber de amigas por perto, enfim...
Então nessa situação, a mulher, em vez de conversar, prefere contar com a ajuda da amiga, aquela que tudo entende e que sabe como ninguém dar conselhos. Ela volta diferente pra casa, cada vez mais. O homem continua com cenas de ciúme, não elogia mais, não colabora com a casa nem com nada, vive de mau humor... Então ele prefere sair e beber com os amigos, desabafar, esquecer um pouco, ou seja, ele se proporciona sair e espairecer com os amigos, mas a mulher dele, por ser casada, tem que se dar o respeito e ficar confiscada em casa.
E a vida vai se tornando um inferno.
Não há o diálogo, não há a paciência e a admiração acaba. O homem não consegue entender nada, e a mulher, que pensa muito, não consegue perceber que o homem é diferente dela. Não existe ela querer impor sua rotina, seu raciocínio. O homem não percebe que a mulher tem hormônios com vida própria e isso é involuntário a sua vontade.
Um gesto busca uma consequência, e outra, e outra. Tudo por falta de diálogo e entendimento.
Falta de conhecer e respeitar a individualidade do outro.
Falta de aceitar que cada um é cada um e que a casa, agora deles, é deles, e não de um só que vai impor regras.
Talvez a vida íntima do outro seja até mais interessante que a sua. Talvez o que você poderia aprender com o outro, seja de grande valia pra sua vida. Talvez o modo complicado ou então a facilidade com que o outro encara as dificuldades seja a resposta pra superar qualquer pendenga do casal. Gentilezas não significam submissão. Gentilezas são gentilezas mesmo. E feitas com vontade, certamente serão retribuídas.
Aceitação.
Respeito.
Admiração.
Companheirismo.
Amor.
Um não vive sem o outro.
Simples.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Em Qual Segundo O Amor Se Perdeu?


— Alô, por favor, tem algum quarto pequeno e simples vago aí? Sim, pode ser, em meia hora eu chego e acerto tudo. Obrigado! — Arnaldo, após fechar a mala, lavou o rosto e ficou se olhando no espelho.
Enquanto detalhava sua fisionomia refletida, procurou uma explicação para que tudo tenha terminado tão rápido. Ontem mesmo havia se casado, tudo lindo e perfeito!
Anitta, linda toda de branco e com um sorriso terno e cativante, que foi um dos motivos que ele tinha se encantado. Meiga, calma e charmosa, chegava a irritá-lo quando precisava de uma urgência ou de uma rapidez que pra ela seria incapaz de executar. Os opostos se atraem e com eles não foi diferente.
Arnaldo apoiou as mãos na pia, abaixou a cabeça e chorou. Foi a primeira vez que lamentou não ter dado certo a união que prometia ser eterna. O amor também acaba...
Anitta ficaria no apartamento, ele seguiria seu rumo sem certeza nenhuma. Apenas partiria.
Olhou novamente seu reflexo e, voltando os pensamentos ao passado, tentou se lembrar em qual instante o amor havia se perdido. Não conseguia se lembrar. Talvez o desgaste, a falta de diálogo ou de tempo para os dois. Lembrou-se da época de namoro quando os dois tinham tempo um para o outro. Finais de semana, feriados, ou mesmo à noite, durante a semana, sempre davam um jeito de estarem juntos.
A rotina acabou com o casamento exatamente um ano depois.
Não tinham mais vida social, os amigos se afastaram, ou melhor, eles se afastaram dos amigos, o encanto havia se transformado em presença invisível, tudo muito automático e tedioso.
Não se lembrava de ter conversado com Anitta sobre o assunto. Ela também não gostava de discutir relação e nem implicar com nada. Apenas vivia sua vida tranquila e talvez a responsabilidade de dirigir uma casa tenha sobrecarregado sua rotina. Estava sempre cansada, mesmo não reclamando, era clara a insatisfação em ter que fazer coisas corriqueiras. Arnaldo ajudava, mas reconhecia que deixava a desejar na ajuda doméstica. Talvez ele esperasse por um puxão de orelhas, ou então uma ordem para fazer isso ou aquilo, mas partindo de Anitta, a tranquilidade em pessoa, seria impossível. Não percebeu que os dias passaram e que Anitta foi perdendo o interesse pela vida de casada.
Lembrou dos conselhos de sua avó, de que quem governa o lar é sempre a mulher. Ela quem determina como será a vida a dois, o momento de cada coisa e, para ele ficar atento, pois se ela se desinteressasse, dificilmente voltaria atrás. Uma luz brilhou refletida no espelho e Arnaldo chegou à conclusão de que nem todas as mulheres são como sua avó mencionou. Talvez Anitta fosse diferente, e ele ficou esperando ela governar uma casa que nem ela mesma queria governar. Talvez ela esperasse uma atitude voluntária de sua parte em participar dos afazeres.
Por fim, pela falta de interesse dela, ele saía com amigos e até se interessava por outras mulheres, mas a presença da mulher era grande demais para se aventurar em outras camas. Para ele era normal ser assim, mas hoje, depois de fechar a mala, percebeu que foi ele quem se afastou do casamento. Ela sempre esteve ali ao seu lado, e ele preferiu se calar e esperar por uma atitude dela.
Um arrepio percorreu sua coluna só em pensar em Anitta nos braços de outro homem... Será?
O que diria sua avó? Seus conselhos seriam bem-vindos nessa hora, mas preferiu resolver tudo sozinho.
Arnaldo colocou os sapatos, pegou a mala e o casaco que estava sobre a cama, respirou fundo e seguiu para a sala.
Anitta estava sentada no sofá, pernas cruzadas, braços abertos e apoiados no encosto do sofá, e olhou profundamente o marido. Também respirou fundo e chorou. Arnaldo, vendo aquela cena não se conteve e se ajoelhou aos seus pés, como se implorasse uma segunda chance a ela, em nome do amor. Não disse nada, apenas ficou esperando uma palavra dela. E a história de esperar uma atitude de Anitta se repetiu. Com dificuldade disse a ela que a amava, que não queria sair dali com mágoa e se houvesse uma única chance de recomeçar, ele aceitaria as condições que ela quisesse.
Anitta levou as mãos ao rosto e chorou. Depois limpou as lágrimas, colocou suas mãos sobre as mãos dele e disse que também o amava, mas estava cansada e queria ficar sozinha um pouco. Não havia se adaptado ao casamento e estava incomodada com o descaso dele todos os dias. Na verdade ela não percebeu que esse era o jeito dele.
Arnaldo, num impulso, levantou-se, segurou as mãos de Anitta, e fez com que ela também se levantasse. Imediatamente ela o abraçou, forte...
Se beijaram e logo se entregaram um ao outro. O sexo era o ponto forte daquela relação. Arnaldo não soube precisar quando o sexo deixou de fazer parte da rotina. Para ele era sempre o cansaço dela, e para ela era o descaso dele durante o dia que a deixava sem vontade nenhuma de ter relação com ele. Como sempre um não soube decifrar o que o outro queria. Queriam que desse certo, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa para evitar o fim do casamento.
Se declararam, apaixonados... A noite toda se amaram...
Arnaldo, tranquilo em sua cama, levantou-se de manhã, abraçou Anitta acordando-a. Ela, porém, se afastou dele e disse que o que havia acontecido foi apenas uma despedida. Ela não havia mudado de ideia da separação.
Arnaldo foi ao chão! Não conseguia entender o raciocínio dela em consentir uma noite maravilhosa e depois afirmar que estava tudo acabado.
Ele sentou-se na cama sobre os calcanhares e riu...
Isso deixou Anitta muito irritada. Ela levantou-se, se enrolou no lençol e foi ao banheiro. Antes de fechar a porta disse a ele que não sairia de lá até que ele pegasse suas coisas e fosse embora.
Arnaldo, colocou as mãos na cabeça, respirou fundo, vestiu-se, pegou a mala e saiu, batendo a porta atrás de si.
Antes de entrar no elevador, começou a chorar, depois a rir, depois ficou sério.
Anitta chorou compulsivamente no banheiro e ficou lá, sentada no chão, a manhã toda.
Teve rompantes de arrependimento, mas sabia que se continuasse com Arnaldo, tudo voltaria a ser como antes. Não reconheceu que também falhou ao não se abrir com ele sobre a sobrecarga doméstica que sentia todos os dias. Para ela, era obrigação dele saber o que fazer.
Ela era mais independente que ele, se virava sozinha há anos. Arnaldo não, sempre foi orientado a fazer isso ou aquilo.
Anitta esperava uma atitude digna dele, pelo menos em insistir em continuar o casamento e teve a decepção quando ele concordou, sem discutir, em sair de casa. Para ela ele já esperava e até queria se separar, pela frieza com que ultimamente a tratava. E ele, sem entender nada, preferiu não piorar a situação e seguir seu rumo.
Coisas de casal.

Clara Lúcia

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Autossabotagem


"Sei o que fazer, sei como fazer, quero fazer, mas não faço!"
Todo mundo já deve ter passado por essa situação. Autossabotagem.
É estranho, mas nem tanto, é complicado, mas fácil de resolver, é difícil, mas vai depender unicamente da gente mesmo tomar as rédeas e começar.
Na verdade o que mais existe por aí são palavras negativas, desanimadoras, broxantes, tudo para poupar trabalho que nem há a certeza de que irá dar certo.
Zona de conforto.
O melhor lugar do mundo e mais destruidor de todos.
Tão mais fácil ficar quietinho, se contentar com o que se tem, agradecer e só. Que seja da vontade de Deus.
Alguém imagina Deus se locomovendo até aonde estamos e nos esfregando o que queremos na cara, sem nenhum esforço?
De que vale toda a inteligência e capacidade racional se é para ter tudo pronto? Praticamente a falência da mente, do raciocínio, do crescimento intelectual, da inteligência...
Ser inteligente não é saber tudo, mas é não se contentar com uma única resposta, é querer conhecer o que há por trás de cada coisa, é não deduzir nada e sim se informar sobre o resultado correto.
Ser inteligente é estar raciocinando o tempo todo, é estar com sede do saber, do conhecer, do viver, é estar com a curiosidade afiada à vida, é saber que pode ir além da sua capacidade.
Vejo as facilidades da vida hoje em dia e também vejo muita tecnologia adquirida. Pessoas pensantes e curiosas indo além da capacidade estipulada pela maioria.
Isso em todos os setores!
Jovens querem passar em concurso com a intenção de não mais se preocuparem em se qualificar e procurar evoluir dia a dia. Passam num concurso com ótimo salário e se instalam na zona de conforto. Tudo certo também. Cada um sabe o que melhor lhe sirva.
Outros tantos não se contentam em permanecer inertes num único emprego, e vivem mudando de atividade mais do que deveriam. Tudo bem também.
Outros têm a certeza de que há sempre o que aprender, o que começar ou recomeçar, com sede de saberes e fazeres, tudo bem, como os demais acima.
Mas, vamos pensar, se temos a inteligência e capacidade de ser o que quisermos, o que nos impede realmente de seguir em frente?
Várias desculpas!
Várias dificuldades imaginárias, tragédias antecipadas, faltas financeiras sem ao menos tê-las, preguiça... Ah, a preguiça, essa delícia de ser o que é...
Cada um é único, isso todo mundo já disse, mas cada um tem a capacidade de chegar aonde quiser, como quiser e a hora que quiser. Isso raramente alguém concorda.
É tão mais fácil colocar o "não" na frente e continuar confortável, não é?
Preguiça de ousar, de extrapolar o costume, de refazer uma rotina que já encheu o saco, de inventar um jeito mais prático, porém nada fácil, de quebrar ditados e modos e atravessar um mar de dificuldades estipuladas por outra pessoa, desafios medonhos que são mais fáceis do que chupar uma manga...
As desculpas são infinitas, desde objetos a pessoas, trabalhos a estudos, dores e amores, enfim, o "não" continua sendo soberano na vida da maioria.
Somente uma pouquíssima parcela que ousa viver além do que ensinaram. E chegam lá, com certeza!
Aonde?
Aonde quiserem, como quiserem, com quem quiserem, quando quiserem.
A decisão é individual. Tem um dom? Ótimo, já está meio caminho andado. Explore-o e seja o melhor do mundo!
Simples assim.
Ah, sim, estava me esquecendo, faça o favor de não anular o dom de ninguém e nem de bloquear sua vontade de evoluir, ok? Não dificulte a vida de ninguém! Não dificulte sua vida!

Clara Lúcia

domingo, 3 de setembro de 2017

Geração De Crianças Mimadas


Ultimamente a geração diminui cada vez mais. Antes, quando era contada de dez em dez anos, hoje, creio eu, é de cinco em cinco anos (se alguém souber, por gentileza, me informe).

Não se pode comparar gerações, pois cada uma tem suas delícias e suas derrotas, mas o que vemos hoje são crianças em redomas, que não podem ser contrariadas ou que não devem sofrer.

Um dia, faz tempo, um grupo de psicólogos disse que criança tinha que ter autonomia e decidir, desde cedo, o que queria. Me lembro muito bem disso, mas não sei quando foi. Até hoje fico pensando qual o aprendizado, qual a opção de uma criança que ainda não tem histórico nenhum, em escolher o melhor pra ela?

Hoje em dia está tudo muito fácil, o que não é errado, só que, claro, a maioria não aproveita essa facilidade.

Viajando na minha infância, tínhamos que buscar respostas, fabricar brinquedos, esperar a roupa ficar pronta, a comida era feita em casa, enfim, coisas de minha geração. Pra mim, que não sabia como seria se fosse diferente, não foi dificultoso. Era costume.

Na infância de meus pais, era bem difícil em tudo! Eram de família humilde, como a maioria era, e tudo era longe! Não havia condução coletiva, carro, só os ricos tinham. A comunicação à distância era através de carta, ou então pelo rádio, caso houvesse algum falecimento.
Aprenderam tudo na lida dura do dia a dia, e não sofreram nada com isso. Sobreviveram muito bem!

Meus avós moravam em fazendas, comiam o que plantavam, não tinham geladeira, o fogão era à lenha, tudo muito simples. Escola era muito difícil, pois era tudo muito longe. Minha avó apenas assinava o nome e, pra mim, era a pessoa mais doce e esperta que já conheci, justamente pela dificuldade de não saber ler nem escrever. Meu avô sabia. E também sempre foi um exemplo. Tiveram sete filhos e do mais velho ao mais novo, uma diferença enorme! O mais novo tinha bicicleta e depois carro. Desfilava pelas ruas como se fosse o famoso do pedaço. Tudo bem ser assim, mas engraçado como um objeto modifica uma pessoa.

Voltando a minha infância, me lembro que brincava sozinha, conversava sozinha e era muito curiosa, como toda criança é.

Mas as crianças de hoje, gente, o que mais eu ouço do pais "Nossa, mas meu filho é muito esperto, aprende tudo muito rápido". Sim, eles são assim mesmo pela quantidade de informações que recebem. E são tratados como tal, como gênios, donos da verdade e supremacia. Não podem ser contrariados e nem adianta impor condição nenhuma. Não estão nem aí pra regras. Não são todos, claro, mas uma grande quantidade deles sim.

Eu não me acostumo em ver criança dando birra em público ou então ofendendo pai e mãe, seja a hora que for. A hierarquia mudou de lugar, o respeito deu lugar aos caprichos, filhos mandando mãe calar a boca e debochando de alguma frase dita por ela. E nem digo que são ricos, que têm tudo, são simples também. E vejo pais reclamando desses mesmos filhos, dizendo que são sem educação, agressivos e que não respeitam nada. Por que será, né?

Dia desses ouvi uma filha adolescente mandando a mãe calar a boca porque ela ainda estava falando. Me deu arrepio, mas como não tenho nada a ver com a vida de ninguém, engoli e continuei quieta.

Pra quem é de uma geração em que uma olhada do pai bastava pra obedecer, hoje presenciando filhos mandando os pais calarem a boca, dói.

Geração que basta um clique pra ter tudo à mão, que basta teclar e já se comunica com quem quiser, que basta um celular e o mundo à volta se torna invisível.

Não sei como é viver numa geração diferente da minha, mas fui muito feliz quando era criança, mesmo não tendo condições pra ter o que eu queria. Escorregar na terra, esfolar os joelhos no asfalto, tentar subir em árvore e não conseguir, devido ao pavor de altura, arrancar a tampa do dedão no asfalto e voltar sangrando pra casa, ah, isso nunca teve preço! A gente cresce sabendo como é a dor, como é a derrota, como é o querer e não ter, mas que futuramente, com trabalho, pode se ter tudo o que quiser, isso me fortaleceu muito! E o sofrimento não dura pra sempre, a dor um dia vai embora, o sorriso às vezes fica incontrolável, as lágrimas continuam sendo salgadas, o suor é saudável, andar descalço fortalece o corpo, cair, machucar, sarar e continuar tudo no outro dia, isso só acrescentou em mim. E cair, pra mim, nunca foi problema. Sempre tive a opção de me levantar e continuar. Apenas continuar...

Cada geração com sua infância, seja como for, nem melhor, nem  pior, apenas diferente.

domingo, 6 de agosto de 2017

O Dia Em Que Eu Te Desconheci


"Eu passei por uma situação difícil, sabe? Agora nem tanto, mas ainda não entendo. Já estou em outra, ela também já está... Quer dizer, ainda não cabe na minha cabeça uma vida inteira ao lado de uma pessoa e, do nada, tudo muda!
Não sei qual foi o dia em que tudo terminou... Não sei se foi aos poucos... Estávamos bem, fazendo planos... Tínhamos planos de cuidar dos netos, viajar... Eu, como conheço muitos lugares no Brasil, disse que levaria ela pra conhecer os lugares que mais gostei. São lugares lindos, mágicos... E esse era meu plano. Depois de nossos filhos casarem, e vierem os netos, cuidaríamos deles também. E viajaríamos pelo Brasil, como eu fiz quando jovem... Queria mostrar tudo a ela.
Um dia, engraçado que não consigo me lembrar o que aconteceu antes desse dia... Então, um dia eu cheguei em casa, ela estava calada, disse que queria conversar e tal... Eu pensei que fosse coisa comum, do dia a dia... Daí ela veio com a conversa de separar... Eu parei e fiquei olhando pra ela, sabe? "Por que?" Eu perguntei. Ela falou tanta coisa que só consigo me lembrar de que ela estava cansada dessa vida, de mim, de tudo. Nunca fui de discutir. Fiquei ouvindo e sem acreditar, até pensando que seria passageiro. Nunca tivemos uma conversa sobre isso.
E já no outro dia minhas malas já estavam prontas. Foi o pior dia de minha vida! 
Sabe quando você vê seus planos indo pro ralo? Seu chão sumir? Era eu naquele dia.
Pedi um tempo até eu arrumar um lugar pra ficar. Nisso demorou uma semana.
Peguei minhas malas e fui embora. Ela nem sequer olhou na minha cara! Nessa uma semana fiquei pensando se eu tinha feito algo errado. Não, tenho certeza de que não fiz nada errado, ou nada que pudesse magoá-la. Ainda fiquei na esperança de ser alguma crise de TPM ou sei lá o quê. 
Me hospedei numa pensão no centro da cidade, simples, familiar...
Avisei meus filhos onde eu estava, eles vieram me ver e me abraçaram... Também não entenderam nada. São jovens, natural não entender essas coisas de gente madura.
Ficaram algumas coisas minhas na casa. Aliás, eu deixei tudo pra ela e pros meus filhos... Fui lá buscar e vi que ela havia trocado a fechadura. Entendo, agora a casa é dela, não é?
Esses dias minha filha disse que queria conversar comigo. Fui até lá e ela veio a mim e ficamos no carro. Ela disse que a mãe estava namorando e que o homem esteve lá na noite anterior tomando cerveja com ela. Minha filha estava indignada! Me doeu o coração, sabe? Mas faz parte da vida. Expliquei que agora a mãe é livre, que eu também sou livre e podemos namorar quem quisermos. Eu também já estou namorando, e está bom assim, namorando. 
Olha, depois de dois anos separado ainda não entendo como uma vida a dois pode ser desfeita assim, tão facilmente. De que adiante planejar, querer, programar, pra depois acabar tudo, desmoronar tudo?
Que vida é essa? 
Minha namorada quer que eu vá morar com ela, mas não vou! Não agora... Talvez um dia, quem sabe?
O que sobrou? Só o dinheiro da pensão, que tenho que ser correto, que não posso atrasar nem um dia, que quando sobe o salário ela já aciona o advogado pra aumentar a pensão... Isso que sobrou.
Como pode viver mais de vinte anos com uma pessoa e depois não poder nem conversar? Nem amizade ficou...
Ah, mas tá bom, espero que ela se ajeite com quem ela quiser. Eu também estou bem, e está tudo bem assim."

Esse foi o desabafo de um amigo...

Clara Lúcia

sábado, 22 de julho de 2017

Depressão Não Tem Cura

Foto pertence ao blog Simples e Clara


Uma fase, acho que a mais difícil da minha vida, quando me separei, me vi sozinha com duas crianças pequenas. Hoje sei que não estava sozinha, mas na época era o que sentia, solidão. Perdi o chão. A responsabilidade de ter filhos pequenos, sem trabalho fixo, extremamente magoada, decepcionada... "E agora, o que eu faço?" — pensava.

Um dia acordei e chorei. Muito! O dia todo. E no outro dia também. Disfarçava quando meus meninos estavam perto, depois me recolhia em algum canto e continuava a chorar. Não me lembro o que se passava em minha cabeça, acho que tudo, desde o começo, não só do casamento, mas o começo da vida. E dúvidas, dúvidas, dúvidas.

No outro dia continuei chorando... Minha mãe me telefonou e eu não consegui disfarçar e nem responder nada do que ela perguntava. Só me lembro de ouvir dela "Arruma suas coisas que vou aí te buscar".

Obedeci. Tranquei a casa e fui. Continuei chorando. Voltei pro meu quarto de solteira, agora com meus filhos. Que tristeza... Não pelo fim do casamento (todo fim é sofrido), mas por tudo, por onde eu tinha errado, porque estava acontecendo tudo aquilo, enfim, mais perguntas sem respostas.

Daí em diante me tranquei. Trabalhava como autônoma e com isso conseguia me manter, e, claro, com a ajuda do ex e de meus pais também. Não saía de casa mais pra nada, a não ser levar os filhos à escola! Era casa, filhos, casa, filhos. Só isso. Engordei muito. 

Passado mais um tempo não me importava com mais nada, além de meus filhos. Digo que fiquei uma pessoa idosa e sem alegria nenhuma.

Quando me deitava pra dormir, conversava com Deus. Perguntava a Ele até quando eu viveria? Queria uma resposta, saber quando seria meu último dia. Comecei a ter insônia. Passava noites em claro, me alimentava mal, mas meus filhos ficaram inume a tudo isso. Graças a Deus! Quando acordava na manhã seguinte, ao abrir os olhos, questionava Deus por eu ainda estar viva. Queria nunca mais acordar, queria sumir dali, desaparecer e contava com a ajuda d'Ele. Ficava até brava em ter acordado. Nas noites de insônia eu planejava minha morte. Como seria eu morrer? Como eu morreria sem causar sofrimentos às pessoas? Mais uma vez pedia ajuda a Deus, pois não tinha coragem de acabar comigo. 

Ele nunca atendeu meus pedidos...

Depois de um bom tempo, talvez anos, comecei a ter taquicardia. Do nada meu coração acelerava. Ficava com medo de entrar nos lugares e morrer sufocada. Filas, bancos, supermercados? Tinha pavor! Sentia calafrios e taquicardia. Sensação de morte...

Numa de minhas idas ao minimercado, perto de casa (já havia voltado pra minha casa), na fila do caixa, comecei a sentir tonturas. Deixei tudo lá e disse pra moça do caixa que não estava me sentindo bem. Ela, gentilmente me ajudou a atravessar a rua. Eram duas quadras de minha casa... Custei a chegar... Liguei pro meu pai e pedi que me levasse ao Pronto-Socorro. 

Cheguei lá o médico fez os exames de praxe e pediu pra que eu me levantasse. Eu respondi que não aguentaria, que iria desmaiar, ou então morreria ali mesmo. Ele insistiu e eu obedeci. Fiquei encostava na mesa, com tonturas. Ele pediu pra eu me sentar e disse que eu não tinha nada. Eu fiquei nervosa e perguntei a ele se ele não via que eu estava morrendo. Ele disse pra eu me acalmar, receitou um floral e disse pra quando eu chegasse em casa, deitasse e não pensasse me nada, apenas respirasse e só isso. Diagnóstico: Síndrome do Pânico, e provavelmente também estava com Depressão.

Acho que depois de ouvir isso de um estranho me dei conta do que eu estava fazendo com minha vida. Hoje eu sei que provoquei, que talvez tenha sido fraca, que não soube lidar com a situação, que, de certa maneira, me tornei vítima da vida e de todos.

Muitas coisas aconteceram durante esse relato, mas o que eu queria colocar era isso: Depressão, mais a Síndrome do Pânico, matam! Perdemos a noção da vida, das coisas, dos valores, das pessoas... Perdemos tudo! A dor é tão intensa e inexplicável, que queremos acabar com ela a qualquer custo. Qualquer lugar seria melhor do que a vida vivida. É a dor da alma... É uma tristeza constante, um desânimo, que pode muito bem ser disfarçado. Mas lá no íntimo é morte em vida, é o desassossego de respirar, de enxergar, de comer, de beber, de fazer coisas, de ter coisas, de ser coisas... É o "tanto faz" estar aqui ou lá, respirar ou não, viver ou morrer... Tanto faz.

Ainda demorou alguns anos pra eu me sentir "curada", mas sei que Depressão não tem cura. Apenas não permitimos mais que tudo isso se aproxime. 

Cada pessoa lida de um jeito. Eu, por exemplo, desviei o foco, mudei de direção, deixei pra trás o passado, voltei a enxergar cores, voltei a me enxergar no espelho... Vocês sabiam que quem tem depressão não se enxerga no espelho? Não se identifica com a imagem refletida?

Deus não ouviu minhas preces... Obrigada, Deus! Obrigada por ter me confiado filhos maravilhosos! Eles me seguraram por aqui... 

Tem um texto meu, de 2014, que é um dos mais lidos: O Dia Em Que Eu Venci A Depressão. 

Portanto, não subestime quem tem sintomas de Depressão. Não é frescura, nem falta do que fazer, nem falta de umas chineladas e muito menos falta de um pinto. Quem tem Depressão precisa de ajuda sim! Tenha paciência e nunca, em nenhuma hipótese, julgue o outro. Ninguém sabe o que se passa e as consequências em ouvir o que não se deve, o desnecessário. Se não tem palavras de conforto pra transmitir, fique calado. 

Clara Lúcia