Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O Último Dia

 


A noite demorou chegar, antes das dez o quarto já estava arrumado. A cama que ficava encostada na parede já estava com o travesseiro e o cobertor estendido. No chão, dois colchões, um ao lado do outro, bem apertadinhos, prontos para serem desfrutados. 

Na cama de verdade, a pequena Bianca, nos colchões, Benê e mamãe.

Um beijo na testa em cada um, a oração do Pai Nosso, bem pausada, pra todos acompanhem, boa noite e dorme com Deus.

Pronto. Mais uma noite com estratégias.

Será que se sair andando sem rumo, se enfiar num matagal, deixar ser mordida por todos os bichos que aparecerem, até desfalecer e ficar por ali mesmo, seria uma boa solução? Dificilmente encontrariam o corpo e com isso não sofreriam com a morte, e sim com o sumiço, até que as crianças amadurecessem e nem se lembrariam mais do rosto de mamãe.

Ou se se jogasse numa lagoa, numa cisterna, com pedras amarradas nos tornozelos, seria praticamente impossível encontrar o corpo. 

E se deixasse de comer, já que o alimento era bem escasso e assim sobraria mais pras crianças, e aos poucos ia sumindo, assim as crianças acostumariam e não sofreriam tanto.

Pular de um penhasco, num lugar com pouca movimentação, duvido alguém encontrar o corpo.

As horas passavam e mamãe não pregava os olhos tentando encontrar o melhor jeito de sumir, desaparecer, sem deixar rastro e sem que ninguém sofresse. Por fim, os olhos fecharam e mamãe pode dormir, só o necessário pra não se transformar num zumbi.

Assim que o Sol nasceu, a primeira a abrir os olhos era mamãe. Um suspiro e uma seleção extensa de reclamações por ainda estar viva. O diálogo com Deus era severo, triste, lacrimoso, e de nada adiantava. Que Deus era esse que não respondia? E a saga continuava, agora com questionamentos, inconformidades sobre a vida, a inutilidade de viver, coisa mais sem sentido, concluía.

A rotina diária era sempre a mesma, levantar-se, arrumar o café, ajudar nos afazeres da casa... Ah, esqueci de comentar, o quarto em que mamãe e família dormiam era da casa da vovó.

E entre resmungos, reclamações e insônias o tempo passava, e a morte não vinha. Mamãe se sentia incapaz de tirar a própria vida, mesmo não encontrando nenhum sentido pra continuar viva. Pra quê?

Vez ou outra uma lágrima escorria e logo tinha que ser camuflada por causa da chegada das crianças ou de vovó. E continuava tudo bem.

Numa situação como essa, mamãe brincava com as crianças, ria, comprava doces, fazia bolinho de chuva e ficava completamente plena. Porém sua mente exalava morte...

Mamãe não se olhava no espelho... Tão linda na juventude, porém estava irreconhecível. Pra quê?

Seus pensamentos eram sobre a morte, o que tinha lá do outro lado, se era pior, se era inferno... Não podia ser, o inferno era o que ela estava vivendo. Uma dor sem ter como apontar aonde. Um choro atravessado que não saía de jeito nenhum. Tragédias, notícias sinistras, mortes, assassinatos, tudo era assunto interessante pra mamãe. Pelo menos se distraia um pouco.

Bem, as crianças cresceram, mamãe voltou pra sua casa com elas, conseguiu se reerguer e hoje em dia só cuida pra depressão e a vontade de morrer não voltarem mais. Ela sabe que pode voltar e não deseja essa situação pra ninguém.

*****************************

Essa é uma história comum entre várias pessoas. A depressão e a vontade de sumir não escolhe cara, nem dinheiro e nem família. 

Como ajudar quem está perto? Prestando atenção nos detalhes, no modo de falar, na quietude (essa é a mais importante), se houve mudanças de hábitos, tanto pessoais quanto alimentares. A pessoa com distúrbios não se importa em estar bem. Na verdade ela quer estar muito mal pra poder acabar com tudo de uma vez.

É uma dor interna, na alma, insuportável. Tudo perde o sentido, não existe empatia com nada e nem com ninguém. A situação é tão intensa e forte que muitos, infelizmente, tiram a vida. E muitos permanecem na depressão suicida por anos.

Não podemos falar nada, nem oferecer livros, nem músicas, nem nada. Isso tudo não tem sentido nenhum. E talvez ficando por perto também só iria incomodar. O deprimido sempre vai procurar a solidão.

O que fazer? Ficar por perto, pegar na mão e levar pra algum tratamento. Se necessário, medicamentos. Mas fique atento aos sinais sutis. E não se sinta culpado por estar diante de alguém que passa por depressão suicida. Ninguém tem culpa. Apenas seja uma ponte, nem que seja uma pinguela, pra mostrar um caminho pra pessoa começar a voltar à vida.

Como pode ter iniciado? Morte de alguém muito importante, perda de emprego, de dinheiro, traição, separação no casamento, separação de algum filho, algo que afete profundamente a pessoa.

Quimicamente, a depressão é causada por um defeito nos neurotransmissores responsáveis pela produção de hormônios, como a serotonina (regula sono, resposta à raiva, comportamento sexual e humor), noradrenalina (capacidade do corpo de reconhecer o estresse), dopamina (hormônio do bem-estar) e endorfina (felicidade).

Quem está deprimido está vivendo no passado, nas dores e vivências que não voltarão mais, e que estão fazendo parte no dia a dia e serão espelho para um futuro próximo, se não for tratado.

Os sinais sutis, esses não devem ser desprezados.

Clara Lúcia


quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Farol

 

   
      Ele me achou... E eu fugia por uma estrada comprida, levantando as saias de meu vestido que, vez ou outra, me faziam cair na terra úmida por causa da chuva da manhã, cobrindo meus joelhos com lama. Rapidamente me levantava e continuava correndo. Olhava para trás e ele continuava a me perseguir, quase me alcançando.

      O vento frio de outono cortava meu rosto e jogava meus longos cabelos cacheados para trás, esvoaçantes balançavam em harmonia e tapavam meu rosto quando eu virava para trás para espiar a distância que eu estava dele... Corria, como se minha salvação dependesse da velocidade dos meus pés e da força de minhas pernas. Já estava escurecendo e minha angústia aumentava a cada passo em falso que dava e tropeçava em alguma pedra solta pela estrada. Não tinha para onde me esconder. De um lado da estrada um abismo com o mar azul escuro aumentando a maré e batendo nas pedras espalhando espuma branca por toda a orla. Do outro lado uma floresta fechada, um labirinto arriscado e misterioso, digamos ser medonho pelos barulhos estranhos que ecoavam a noite toda, chegando até o pequeno vilarejo.

     Mathias, um vilarejo novo, habitado por pescadores e homens das florestas, como assim eram chamados pelos viajantes comerciantes que apareciam por lá. Havia apenas uma rua principal e as casas, todas simples e rústicas, feitas de pedras e forradas com troncos cortados de árvores, unidos harmoniosamente um ao lado do outro, com acabamento de uma cola artesanal que impedia as goteiras e ao mesmo tempo, proporcionava um frescor no interior das casas. A única moradia mais bem-feita e ornamentada era do chefe-guardião, que tudo via, tudo sabia e era obedecido por todos. Era o deus de todos. Tinha o poder de ler os pensamentos, descobrir ovelhas desgarradas, apontar para algum malfeitor, julgá-lo e condená-lo em questão de segundos. O respeito que todos tinham por ele era, na verdade, o medo de descobrirem alguma teimosia ou algum descuido no trato com os animais. Estes eram sagrados. Era um homem alto, com mais de dois metros de altura, forte, cara amarrada, grotesco, de poucas palavras e muitas ações. A ordem no vilarejo era invejada por muitas cidades maiores ao redor, mas quando se tratava de Nêumo, o chefe-guardião, preferiam ficar longe de sua vidência.
   
     O homem me perseguia, eu gritava, mas a voz embargava. Comecei a ficar ofegante e meus passos diminuíram. O homem me alcançou, puxou-me pelos cabelos fazendo com que meu corpo encurvasse para trás. Olhou bem nos meus olhos e sorriu com sarcasmo. Eu cuspia em seu rosto e apertava seus olhos com os polegares e mesmo assim e ele me beijava a boca. Nojo! Limpei meus lábios com o braço, esfregando várias vezes, tentando tirar o gosto de álcool com hálito quente daquela boca carnuda e asquerosa.

      Ele me puxava pelos cabelos arrastando-me pela estrada até chegar num atalho que seguia direto para o farol, que ficava à beira do mar. Este estava bem agitado.

      Naquela época, mais precisamente em 1832, as jovens eram sacrificadas quando não queriam se casar com os homens que as escolhiam. Se revoltavam, se rebelavam, mas de nada adiantava. Acabavam mortas, ou enforcadas, ou lançadas num penhasco que tinha o mar como chão. 

      Era para esse lugar que o homem forte, bonito, mas nojento, vestindo roupas mal cheirosas, cabelos pretos e longos, barbudo e um nariz comprido e pontiagudo que parecia o bico de um papagaio, me levava.

      Me segurava pela cintura com um dos braços, me apoiando em seu corpo fazendo como o que meu pendesse e anulasse qualquer possibilidade dele receber um golpe meu, proporcionando-me liberdade. Eu gritava, mas minha voz continuava embargada; então ele repetia várias vezes, mas sem precisar gritar, para eu ficar quieta. Eu me debatia, tentando me livrar de seus braços, mas a força do homem era infinitamente maior que a minha.

      Ainda me segurando pela cintura subimos a escada em forma de caracol e chegamos ao topo do farol. Grandes janelas nos mostravam o céu com algumas estrelas e alguns raios de sol do outro lado. O mar batia nas pedras e fazia um barulho que penetrava em minha mente, como se me esperasse para o derradeiro mergulho em suas águas geladas e profundas. Sussurrava e lançava gotas até chegarem à janela que me aguardava ansiosa por minha queda. Um vento gelado uivava competindo com o barulho das ondas, entrava pelas janelas e esvoaçava nossos cabelos, quase que entrelaçando-os, num balé de quase fim de ato.

      O homem me levou até uma janela que ficava do lado mais fundo do mar, segurou meu rosto e me mostrou a linda paisagem. Cochichou alguma coisa no meu ouvido, mas que não conseguia
entender, com sua enorme mão me segurando o queixo, virou bruscamente meu  rosto de frente para o seu e mais uma vez me beijou fortemente. Mordi seu lábio inferior que sangrou, então ele se afastou e me deu um tapa no rosto, ainda me segurando firme pela cintura, com seus longos braços entrelaçados. Eu me debatia, mas estava praticamente imóvel e exausta. Ele começou a me xingar, mas eu não conseguia entender nada do que ele dizia. Sabia que estava xingando pela expressão de ódio em seus olhos. Mais uma vez ele segurando  meu rosto, mostrou-me a paisagem que seria a última visão que eu teria. Eu tentava gritar e não conseguia.

      Num movimento rápido, ele me ergueu  e apoiou-me no parapeito da janela. Olhei para baixo e senti vertigem. Gritava, mas era inútil. Mais uma vez ele cochichou algo no meu ouvido e me empurrou para o abismo.

      Neste momento, gritei tão alto que minha voz ecoou. Segundo a segundo eu via aquele homem se distanciando de meus olhos enquanto eu caía. Um frio tomou conta de meu corpo, meus cabelos longos taparam meu rosto antes mesmo de meu corpo tocar o mar agitado. Parecia que a queda não teria fim. Sentia falta de ar, como se minhas narinas estivessem fechadas e meu grito abafado tivesse cortado minha garganta impedindo a saída do ar. Fui caindo e desfalecendo. O barulho do mar era cada vez mais forte, mas já não me importava com a morte. Queria a morte de uma vez por todas. Praticamente já sentia as gotas do mar respingando meu corpo. Abri os braços e me entreguei! Por uma última olhada, de relance vi, na outra janela do farol, Nêumo, com seu olhar frio e calculista. Entendi tudo.

     A Lei cumpriu seu destino. Mais uma desobediente a ser esquecida no vilarejo Mathias. Quanto à força de um homem, um olhar instigante e tudo se acaba. O fim foi consentido e determinado.

     Caia no mar agitado e não fazia questão de sobreviver, nem se houvesse um milagre.




     Clara Lúcia

     

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Amor Psicopata - O Livro


"Tem que aguentar, casou tem que aguentar..."
"Tenha paciência que com o tempo ele muda..."
"Acho que é exagero seu, não é não?"
"Que isso, é super gente boa..."
"O que você fez para provocá-lo?"
"É assim mesmo, casamento é assim..."
"Pense nos seus filhos sem pai, que tristeza seria..."
"Acho que você deveria tratar ele melhor, assim ele fica tão irritado..."
"Você aceita porque quer..."
"Vai ver você gosta do negócio..."
"O amor tem poder..."
"Não conta pra sua mãe não porque vai ser pior pra você..."
"Você acha que seu relacionamento não é normal?"
"Apanhar do companheiro é normal, já que você se considera culpada?"
"O amor realmente cura tudo?"


Quantas e quantas vezes ficamos sabendo de um provável relacionamento abusivo de alguém conhecido?
E o que fazemos? Nada! Afinal em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher.
Você sabe como é o dia a dia de uma pessoa que vive com um relacionamento abusivo?
Sugestões e conselhos todos dão, mas e ajudar? Quem sem propõe?

Imagine que aquela sua vizinha que vive chorando e sendo agredida pelo marido tenha apenas uma chance, a de ler esse livro, na vida?
E sua prima que de uns tempos para cá ficou estranha e nem se cuida mais, vive apática e sem humor nenhum? Pense na alegria dela em saber que não precisa aguentar agressão de ninguém e que ela consegue sim viver sem aquele homem estúpido e agressivo?
E a amiga de trabalho que aparece com escoriações de vez em quando? Não vai presenteá-la com esse livro por que?

Será que as mulheres passam por relacionamentos abusivos porque querem ou porque não conseguem raciocinar que isso não é amor e nunca será?

Conhece alguém? Dê de presente! Ou então convide-a a dar um passeio e deixe-a ler o livro perto de você e ofereça seu abraço. Ela irá precisar, com certeza, e lhe agradecerá pelo resto da vida por ter-lhe aberto os olhos e tomado providências, antes que o pior pudesse acontecer.

Seja esse caminho para a liberdade que aquela pessoa que mudou tanto depois que começou a conviver com aquele rapaz e que não há mais aquele brilho nos olhos e nem amor pela vida!

Livro físico:
À venda na Bok2
E também - amazon Americanas Submarino
e-Book aqui


Gratidão!
Clara Lúcia

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Quando Eu Morrer, Não Tenha Medo De Mim


Quando eu morrer, não tenha medo de mim...
Continuarei a ser a mesma pessoa, que estará em outra dimensão. Você acredita na outra dimensão?
Eu sim. Acho um desperdício a gente viver somente aqui, num corpo perfeito, numa alma inexplicável, depois morrer e acabou. Muito pouco, não acha?
No começo sei que vai ser difícil, haverá choros e sofrimentos. Mas passa... Eu sei que passa... Você tem sua vida e deverá cuidar dela até chegar sua hora de partir, assim como eu partirei.
Talvez você sinta calafrios, tremores, arrepios e medo. Pode ser eu, ainda inexperiente, nessa minha nova morada, tentando me aproximar para matar a saudade. Mas nem todas as vezes que sentir essas coisas serei eu. 
Às vezes eu fico pensando na morte, em como ela chegará para mim, se de modo inesperado ou em conta-gotas. Pena não poder escolher, mas é melhor assim. Imagina a angústia ficar em contagem regressiva para o adeus terreno? Eu morreria! Hahaha, foi uma péssima piada!
Talvez você sinta uma brisa suave a movimentar seus cabelos, e se sentir vontade de fechar os olhos, suspirar e se lembrar de mim, saiba que, mesmo não sendo eu, de alguma forma saberei que me imaginou nesse instante. E ficarei feliz.
Acredito que depois da morte alguns sentimentos acabarão. Só o amor sobreviverá...
Talvez você sinta cheiro de rosas... Pode ser eu sentada num lindo jardim a lhe observar de longe... E sorrirei... 
Sinto saudades de muitos que já partiram. Quem será que verei primeiro? Será que vou poder abraçar, beijar? 
Talvez você sonhe comigo, um sonho leve, com luzes, brisas e crianças correndo. Bem, não entendo esse negócio de sonhos, mas sei que não ficarei nesse lugar lindo de imediato. Há todo um aprendizado a percorrer, até subir os degraus da evolução e sentir aquela paz tão recomendada durante o velório.
Por falar nisso, quem irá se despedir de mim?
Talvez você acorde no meio da noite e chore... Certamente chegarei correndo para lhe confortar... Choro a gente não deixa passar. Tentarei lhe tocar, lhe beijar, lhe abraçar, mas não conseguirei, e você não sentirá minha presença. Mas ficará sofrendo até adormecer novamente... E a vida seguirá, sem mim... E eu sem você. Eu lhe verei, você só terá lembranças...
Você estará perto de pessoas que lhe ama, que saberão lhe acolher, lhe confortar, abraçar quando precisar...
Eu estarei sozinha, pois terei uma caminhada até chegar ao plano dos que já se foram. 
Lembra quando eu dizia que nascemos só e morremos só? É isso.
Claro que não estarei sozinha isolada, haverá gente, quer dizer, almas por perto. Você seguirá sua vida, sua família estará por perto, por longos anos, eu espero. Aproveite a vida! Ela é muito preciosa para ser desperdiçada com sofrimento fútil. 
Lembra quando eu falava que a maioria dos sofrimentos nós mesmos que provocamos? Então, ainda acredito nisso. Mas são atitudes que só com o amadurecimento adquirimos. Quanta bobagem nós provocamos, em troco de nada... Quanta dor inútil... Quanto choro em vão... Quando na verdade o que vale a pena é nosso bem-estar, nossa saúde, nosso prazer na vida. 
Ainda acredito que a vida é única, no sentido de ser preciosa, de ser absolutamente divina e que jamais deve ser deixada para lá por causa de uma outra pessoa. Cada vida um valor. Nem mais, nem menos.
Talvez você não consiga entrar no meu quarto, mexer nas minhas coisas, sentir meu cheiro... Talvez você veja vultos...
Olha, lembra do amor que você declarou a mim por esses longos anos? Então peço-lhe que não sinta medo... Sou eu! Não tenha medo!
Vou olhar por você de onde eu estiver, isso eu tenho certeza! E se eu puder fazer com que você saiba disso, farei. Mas talvez não... O medo é traiçoeiro... Talvez demore alguns anos para que isso aconteça... Lembre-se que a alma é eterna, e no plano que estarei, não morrerei mais. 
Como será a contagem do tempo no céu? Podemos chamar de céu o lugar para onde vamos? Sei também que antes de chegar lá há uma longa caminhada, mas sempre fui disciplinada, então chegarei com tranquilidade.
E esperarei até o dia em que poderei lhe abraçar e matar a saudade...
Hoje já sinto saudade, mesmo estando assim, grudadinha em você...
Não se esqueça, nem hoje, nem nunca: eu te amo!

Clara Lúcia


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Quando Chega a Maturidade?

Imagem pertence ao blog Simples e Clara
1 ano

Saudades de quando apenas me preocupava em chegar rápido em casa, ligar a TV e assistir Speed Racer.

Parece que foi ontem, mas estou em contagem regressiva. Não tenho um dia a mais, e sim um dia a menos de vida. Cinquenta e um já, dia 06 de outubro.

Não tem como não se questionar sobre a vida, as coisas, as pessoas, a saúde, o meio em que vive, as dores, as lembranças, as alegrias...

No pacote todo só tenho a agradecer. Apesar de todas as dores, sofrimentos e perdas, estou viva e muito bem, obrigada! Quando olhamos para trás e enxergamos superações, batalhas acabadas, pesos descarregados, sonhos realizados, ou não, o melhor que podemos fazer é agradecer pela dádiva de ter saúde e poder fazer agora, com filhos adultos e muito bem também, o que se tem vontade.

É certo que muitos vão nos achar egoístas, metidos, arrogantes, assim como achavam como éramos jovens, mas a diferença é que isso é tudo uma bobagem... O que tem de mais em sermos egoístas, metidos e arrogantes? Se realmente nos consideramos ser assim, os únicos atingidos somos nós mesmos.

Hoje me dou o luxo de escolher e, principalmente, usar o não como ponto final. Como é poderoso o não na vida da gente!

E o melhor de tudo, usar o sim como a consciência tranquila, sem medo da entrega, do momento desejado, seja ele qual for.

Esta imagem pertence ao blog Simples e Clara
22 anos

Na juventude somos imortais, mas na maturidade somos saudosistas, cuidadosos e medrosos. Sim, costumamos ter medo do desconhecido. Quem nesse mundo não tem uma pontinha de receio da morte? Acho mais medonho o momento dela, e não depois que acontece. Como será a passagem dessa pra melhor? O que sentimos? Dói? O que há do outro lado?

Agora, não é ruim fazer cinquenta. Também não é bom. Eu sendo uma pessoa hiperativa, o corpo nunca acompanha meu raciocínio. Acompanha, mas poderia ser melhor. Acho que faço coisas além do que imaginava fazer quando tinha vinte e dois, como nessa foto acima. Esse foi o dia de minha formatura. Educação Física, que tanto amava. Mas não exerci. Por culpa minha que fui permitindo me podarem as asas pra não voar pra onde sempre quis. Acontece.

Hoje sei, como disse acima, o poder supremo de usar o não. Aos vinte e dois, antes dos vinte e dois, e depois dos vinte dois, eu não sabia que podia o usar o não. É tão mais fácil se calar e fazer o outro sorrir, não é? O que é a vida da gente perante a do outro que tanto amamos? Enfim, depois dos quarenta tive essa resposta. Sim, a minha vida é tão importante quanto a do outro que amamos. Não posso me privar de nada e nem me calar quando algo me perturba ou me faz sofrer, pois isso é prejudicial a mim. Por consequência não serei feliz o suficiente para transmitir essa felicidade a quem está ao meu lado.

O tempo passa, a maturidade vem... Quando chega a maturidade?

Posso voltar a sonhar em lecionar Educação Física? Sim, claro, mas hoje existem outros sonhos, outros planos, outras conquistas, outros valores, outros desejos... Sim, podemos fazer o que quisermos, sempre, a qualquer hora, desde que não interfira na vida do outro. Podemos sim mudar de ideia e começar tudo de novo.

Acho que a maturidade é isso. Viver a vida com leveza, bom humor, rir de si, ter alegrias, satisfações, e saber enfrentar problemas com a mesma garra dos vinte e dois, agora com sabedoria. Sabedoria não só dos livros, mas da vida, repeitar o outro em sua essência. Saber deixar partir e querer que fique por livre e espontânea vontade.

Eu gostaria de voltar aos meus vinte e dois anos, mas com a imaturidade dos vinte e dois. Imagina uma jovem com cabeça saudosista e sabendo de muita coisa que só os maduros sabem? Insuportável! Cada idade tem seu encanto e esse é o segredo da vida, cada fase a seu tempo, cada tempo sua história, cada história um aprendizado...

É isso.

Parabéns pra mim!
Imagem pertence ao blog Simples e Clara
50 anos
Muito obrigada a você leitor, comentarista ou não, que sempre está por aqui! É sempre bem-vindo!

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Maria do Socorro


      Passava da meia-noite quando Maria do Socorro foi tomar seu banho, tranquila. Queria lavar os cabelos, mas o cansaço era tanto que não teve paciência  para caprichar como deveria. Um punhado de shampoo, enxague, uma batida com o bico do condicionador na palma da mão para aproveitar até a última gota, uma massagem nas pontas, enxague e já estava bom. Entre um bocejo e uma esfregada da toalha pelo corpo, ela mais parecia um zumbi à procura de um lugar para deitar o corpo e dormir. Os cabelos ficariam molhados e já estariam condenados a se ajeitarem num coque na manhã seguinte. Mas antes de fechar os olhos uma última olhada nos dois filhos que dormiam no quarto ao lado. A paz tão procurada durante o dia se fazia presente neste exato momento quando olhava os filhos dormirem.

      Mateus, de três anos, e Adriana, a mocinha babá e companheira de Maria do Socorro. Uma preciosidade, um orgulho, um encanto gerado num momento de muito amor. O amor se foi, mas os frutos se fortificaram e enchiam o coração de Maria de orgulho.

      Deitou-se, fechou os olhos e logo o despertador gritava em seus ouvidos. Era essa a sensação que tinha, mesmo já tendo passado cinco horas de sono. Noite curta demais para caber tanto cansaço. Era um cansaço do corpo que tinha que suportar diariamente. Levantou-se e foi logo colocando as mãos nos cabelos cacheados, ajeitando-os antes do susto de se ver refletida no espelho. As olheiras estavam profundas, as bochechas cada vez mais caídas, parecendo um bulldog, rugas na testa quando franzida, pés de galinha que mais pareciam pés de peru, ou de perua, como gostava de falar, rindo de sua aparência. Olhando cada detalhe no rosto e tentando achar mais alguma prova de que o frescor da juventude estava cada vez mais longe, sorriu. Lavou o rosto, escovou os dentes demoradamente e começou a ajeitar os cachos rebeldes num coque no alto da cabeça. Puxou uns fios sobre cada orelha, enrolou-os no dedo tentando fazer um cacho fino e sorriu novamente. Lembrou-se de seu pai que sempre apertava seu coque que, desde a adolescência tinha o costume usá-lo, chamando-o de troço. Maria ficava brava e saía pisando forte enquanto seu pai gargalhava. Não gostava de ter seu cabelo comparado ao estrume de vaca. Chegava a cheirá-los para saber se estavam com fedor. Sorriu, passou um creme hidratante, pó para tapar pequenas imperfeições, lápis nos olhos e batom nude.

      A roupa já estava estirada numa poltrona vermelha, velha, e com o tecido desfiado no encosto, que era disfarçado com uma toalha de crochê, antiga, feita por sua avó. Não combinava, mas era melhor do que sair carregando a espuma que grudava em sua roupa quando se sentava nela. Vestiu-se e foi para a cozinha preparar o café. Apenas um café preto seria o necessário para aguentar até o meio da manhã, onde tinha tempo para se alimentar com calma um pequeno lanche oferecido pela empresa onde trabalhava. Entre uma golada e outra de café, ferveu o feite, fatiou o bolo de fubá e cobriu tudo com um pano de prato branquíssimo, pelas longas horas que ficava de molho em água sanitária, sem ornamento nenhum.

      Olhou no relógio e os ponteiros não colaboravam. Tinha que se apressar ou perderia a condução. Foi até o quarto das crianças, deu um beijo em cada uma e acordou a filha dizendo que já estava indo. Assim que o Sol reinasse absoluto no céu, Camila, a filha companheira se levantaria, aprontaria o irmão e o levaria até a creche. A mochila já estava pronta desde a noite anterior e seu uniforme estava passado e pendurado num cabide e apoiado no puxador do roupeiro. Depois seguiria para seu colégio, que ficava a algumas quadras de sua casa. Maria agradecia por ter escolas perto de sua casa. Se dizia com sorte, apesar da situação em que viviam.

      Assim que colocava os pés para fora de casa, Maria do Socorro fazia o nome do pai, abaixava a cabeça e conversava com Deus para que nada de ruim acontecesse com seus filhos. A lembrança de Bartô, seu marido, era inevitável e com isso não segurava as lágrimas que desciam rasgando seu rosto fazendo um caminho como se fosse uma estrada de chão, devido ao pó compacto. Um caminho duro e seco, assim como se tornou sua vida. Sentia falta do marido, de seus carinhos e principalmente de sua proteção. Deixou a família antes da hora, muito antes de Maria repetir incansáveis vezes o quanto o amava. Se lembrou da última frase que Bartô disse a ela, segundos antes da bala entrar pela janela e acertar em cheio seus miolos: "Tô com vontade de comer picanha, minha preta..." e caiu sobre a cama encharcando os lençóis de sangue ensanguentado. O cheiro quente e forte do sangue contrastava com a brisa que entrava pela mesma janela onde abrigou a bala assassina. A princípio Maria ficou paralisada...

      Até hoje Maria imagina Bartô entrando pela porta, sem fazer barulho, assustando-a e logo em seguida envolvendo-a nos seus braços.

      Maria do Socorro voltaria para casa só à noite, onde a rotina já estava programada: primeiro o filho, com abraços, beijos, carinhos, brincadeiras, conversas, e depois um tempo especial reservado para Camila, com ouvidos atentos a tudo que ela falaria. Uma rápida arrumação na casa, faria o jantar que também seria o almoço dos filhos, um bolo ou um pão caseiro, sovado pelos seus braços fortes e musculosos.

      E assim continuaria a vida, trabalhando, cuidando, amando os filhos e vivendo seu luto, que duraria por muitos anos, ela sabia muito bem disso.

      Texto publicado em 2014 - Editado


segunda-feira, 25 de julho de 2016

O Triste Fim de Donana


      Uma última colherada de sopa na boca de Seu Romero, uma limpada no canto da boca com um guardanapo de papel e pronto, o moribundo já estava alimentado e pronto para dormir o sono dos justos.

      Donana ficava resmungando o tempo todo, dizendo frases feitas, como se quisesse gravá-las na memória para repeti-las no dia seguinte, vírgula por vírgula. Outras vezes parecia conversar com alguém invisível, perguntando e respondendo logo em seguida, outras parecia Deus a lhe ouvir, atencioso, e era nesse momento que as lamentações se aguçavam. Parecia questioná-Lo por tanto sofrimento e um fim de vida tão sofrido, tendo que carregar nas costas o marido puteiro. Mesmo assim cuidava de Seu Romero com um carinho embutido.

      Depois de cobri-lo, apagar as luzes e deixar a porta entreaberta, Donana se dirigia à cozinha para seus últimos afazeres. Ainda resmungando, balançava a cabeça de um lado para o outro, como se lembrasse de fatos não muito distantes e que a fizeram sofrer demasiado. Apoiava as mãos na pia, abaixava a cabeça e simulava um choro. Não saíam lágrimas, mas a ladainha constante e o zunido balbuciado, denunciavam que ainda havia amor e que ela sabia que sua missão, até os últimos dias, seria de cuidar do marido.

      Seu Romero mal se equilibrava em pé. Donana colocava ele apoiado no andador e ficava por perto ajudando-o a caminhar pela varanda, para pegar o ar da manhã e o sol bem fraquinho, tomando cuidado para não queimar-lhe a careca reluzente.

      Ele olhava-a com piedade e gratidão, mas não pronunciava sequer um "obrigado". Tinha vergonha de estar como estava e do trabalho que estava dando a Donana. Era a mulher escolhida, a rainha de seu lar, a mãe de seus filhos, a avó mais carinhosa do mundo e dotada de um coração imenso, incapaz de calcular quantas pessoas cabiam dentro dele. Era agradecido, mas preferia o silêncio a se sentir humilhado reconhecendo a preciosidade que o acompanhou durante uma vida inteira.

      Sabia que seu fim estava próximo, e o máximo que lhe permitia fazer era ficar em silêncio. Donana lhe perguntava coisas, se estava com fome, com frio, cansado, com sede ou se queria assistir à TV. Ele respondia meneando a cabeça e mais nada. Não conseguia mais encarar Donana. Era mulher demais para ele que se sentia tão inútil nesse fim da vida.

      Donana reclamava muito, lamentava, mas no fundo se sentia orgulhosa por ter que cuidar do marido até os últimos momentos. Era puteiro, cafajeste e não escondia de ninguém suas puladas de cerca. Se vangloriava de ser um conquistador nato, um colecionador de corpos estranhos, um Don Juan perdido nesse mundo de meu Deus.

      Mais um dia de cuidados, menos um dia para Seu Romero. Mais um dia de lamentações e menos um dia para lembrar das travessuras vividas fora do casamento. Donana dormia em paz, Seu Romero custava a pegar no sono e chorava em silêncio. Seu fim estava próximo, poderia ser hoje ou semana que vem. As carnes de seu corpo já anunciavam falta de mobilidade e falência. Desejava morrer dormindo. Só não se esquecia de beber bastante água antes de fechar os olhos. Para ele deveria ser muito triste morrer de sede. Morrer de fome não teria problemas, mas morrer de sede seria o inferno.

      O dia clareou, Donana no fogão preparando o café da manhã, mas antes disso uma olhada em seu marido, que dormia feito uma criança, com respiração profunda e olhos entreabertos mexendo as pupilas de um lado e de outro. Corpo deitado de lado, encurvado e com a mão debaixo do travesseiro. Como um anjo esperando sua hora de partir.

      Donana respirou fundo e seguiu a lida, até quando Deus quisesse.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A Vulnerabilidade De Quem Ama


Ainda recebo e-mails de mulheres que sofrem por amor, que mantém uma relação doentia, que não sabem como agir, que aguentam maus tratos em nome do amor, e outras até com pedido de socorro, pois se sentem tão inúteis que não conseguem pensar num modo de sair de um relacionamento doentio. E o pior, há ainda quem acredite que o(a) parceiro(a) mudará, caso ele(a) ajude com um tratamento médico.

Triste constatação. Este texto Amor Psicopata ainda é o mais lido e todos os dias é acessado.

Depois da notícia de Bianca Toledo (não colocarei link aqui) sobre seu relacionamento com um psicopata, talvez muitas outras mulheres a tomem como exemplo e se sintam fortalecidas a colocar um ponto final num relacionamento doentio.

O amor tem esse deslize de nos fazer vulneráveis a aceitar o que se torna doentio e até fatal.

O sonho, a construção de um castelo imaginário com um príncipe dentro dele ainda é muito poderoso pra algumas mulheres. 

Quem não ficaria feliz e completamente apaixonada por conhecer um homem cativante, sedutor e que transmita toda a segurança que se quer? Ainda não sei qual é a essa segurança e proteção que muitas buscam, mas cada uma tem suas fraquezas.

O medo de perder, desapegar, deixar ir, livrar-se do que lhe faz mal ainda é um grande empecilho. E não são só homens não, existem mulheres psicopatas também. Invertem a situação e convencem com tanta categoria que dificilmente são desmascarados no primeiro instante.

A grande característica de quem tem esse desvio de caráter é a total falta de sentimentos e a grande capacidade de manipulação. Terrível!

Mas há também o obsessor, o possuidor, o dono da situação, aquele que guarda sua presa a sete chaves. E a mulher permanece no cativeiro, com o sonho que um dia tudo mude e que o príncipe que virou sapo volte a ser príncipe. Sonham com o amor eterno, cuidador, protetor e a hipótese de abandonar tudo isso seria como a morte solitária, onde nunca mais o coração aceleraria por uma outra pessoa e os olhos não mais brilhariam. Aquele amor que começaria do nada e não terminaria nunca mais. 

Não é culpa de quem ama não perceber que o outro é possessivo, obsessivo, psicopata. Quem agride é que está fora da normalidade. Não é trouxa quem acredita, confia, abre mão de algumas coisas em nome da união; trouxa é quem não valoriza o companheirismo. Não é o mais esperto quem tem a capacidade de manipulação. O mais esperto é aquele que sabe que existem pessoas tão espertas quanto ele e que um dia a máscara cai. Portanto, se há algo errado, se houve mudanças, se há sofrimento, cárcere, agressão moral ou física, ah, isso não é amor.

Não são só os sonhadores que caem na lábia dos doentios. Os que amam podem ser presas fáceis. Qualquer pessoa pode se tornar vulnerável nas mãos de um psicopata. A diferença é a hora de dizer não e romper essa corrente de manipulação.

Não tenha medo de mudanças, não tenha receio de ficar só, não creia que nunca mais será amado, não aceite menos do que mereça... O que você merece?

O ser humano é carregado de emoções e o amor vem e vai várias vezes durante a vida. E talvez o amor eterno seja aquele não vivido, não correspondido, carimbado do "se", eternamente "e se...".

E, graças a Deus, a maioria ama e é amado!


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Um Possível Reencontro


      Algum dia tinha que acontecer. Então seria hoje que Cecília encararia sua dor pegando forças num lugar onde nem imaginava que existia, mas precisava ser forte. Um ano sem o filho Thiago, chorando praticamente todos os dias, vivendo por viver, e hoje, acompanhada do marido, iria ao seu túmulo.

      Acordou disposta, sem chorar, acendeu uma vela para Nossa Senhora das Dores lhe dar forças, orou e por uns bons minutos ficou sem pensar em nada. Um vazio enorme rondava sua alma... O silêncio era tanto que Cecília ouvia as batidas de seu coração, baixas, lentas... Que teimava em não parar por todo esse tempo. Morrera naquele dia em que tivera a certeza de nunca mais ver o filho entrando pela porta, com aquele sorriso largo no rosto, indo direto à geladeira beliscar alguma coisa, depois encher a caneca de alumínio com água gelada e virá-la, de uma vez, goela abaixo. Nunca mais!

      O quarto de Thiago ainda estava intacto, tudo no lugar, inclusive as correspondências que chegaram até meses após, todas em cima do criado-mudo, lacradas. Uma peça para o carro que comprara pela internet ainda estava na caixa, também lacrada. Nada mudaria, ordenou a todos. O quarto era dele e sempre será. Repetia isso insistentemente na esperança de um dia acordar e saber que tudo não passava de um pesadelo. Que Thiago entraria pela porta, abriria a geladeira, beberia água gelada e ficaria em seu quarto, ouvindo música no último volume. Bate-estaca, como ela sempre reclamava. Por que reclamava tanto, meu Deus? Ele só estava vivendo e Cecília reclamava! Como queria ouvir esse bate-estaca no último volume todos os dias!

      Colocou uma roupa discreta, um sapato confortável, amarrou os cabelos num rabo de cavalo e sem dizer uma palavra entrou no carro e ficou esperando Roberval levá-la. Antes passaria numa floricultura para comprar cravos. Sempre achou que cravo era flor de homem, apesar de não gostar de seu perfume. Tinha cheiro de morte...

      Chegando ao cemitério, Roberval estacionou bem em frente. Cecília, de cabeça baixa, desceu, esperou o marido lhe dar o braço e entraram. Continuou de cabeça baixa por todo o trajeto. Roberval já sabia o caminho pois sempre visitava o túmulo do filho. Sempre lhe pedia perdão por não levar sua mãe que não tinha condições de ir vê-lo. Chorava pouco, mas chorava no túmulo, como uma criança, soluçava, tapando os olhos com as mãos, sem se importar ser visto por alguém.

      No meio do trajeto Cecília parou. Roberval olha para a mulher e perguntou se estava tudo bem. Ela disse que sim mas temia não suportar e desmaiar. Melhor seria morrer logo de uma vez e acabar com essa tortura. Já estava morta por dentro, então não sofreria tanto com a passagem. Imaginava a alma lhe abandonando o corpo e Thiago a lhe esperar, com a mão estendida, puxando-a num apertado abraço.

      Mesmo com toda a dor no coração Cecília não chorou. Nem ela entendia porque não chorava naquela hora. Todos esses dias as lágrimas caiam... E agora num momento de profunda tristeza se surpreendeu com a força adquirida repentinamente. Foi Nossa Senhora, tinha certeza disso. Chegaram ao túmulo.

      Ainda segurando no braço do marido, ficou parada olhando para aquele concreto que separava-a de seu Thiago. Nem uma palavra, nem uma lágrima. Calmamente soltou o braço de Roberval e se aproximou colocando os cravos nm vaso de cobre, e acariciou a foto do filho. Não pensava em nada. Apenas olhava a foto, fechava os olhos e imaginava suas mãos tocando o rosto do menino Thiago, que dormia tranquilamente em sua cama. Cresceu rápido demais... Viveu... E se foi...

      Abriu os olhos e continuou com o carinho na foto. Roberval só observava, atrás dela, pronto para segurá-la caso desmaiasse. Também ficou surpreso com a força da mulher. Um ano sem o filho e tinha apenas um corpo da mulher. A sua Cecília nunca mais foi a mesma. Agradeceu a Deus por tê-la sempre ao lado, nos momentos bons e ruins e entendeu essa morte em vida e esse tempo para poder ir ao túmulo do filho. Também não chorava.

      Ficaram um bom tempo, em silêncio, sem choro, sentindo a brisa a lhes tocar a face, imaginando ser um sinal de Thiago a beijar-lhes. A dor continuava imensa, mas agora Cecília tinha certeza de que não era um pesadelo. Sabia onde seu filho estava e que não haveria volta. Nunca mais!

      Se despediram, voltaram como vieram, em silêncio e sem lágrimas, continuariam vivendo até quando Deus quisesse.

      Aos poucos e com o passar do tempo a dor daria lugar ao conformismo e à saudade. Doía, doía... Mas não tinha outro jeito. Esperar, viver, respirar... Morrer, assim como tem que ser. A morte em vida.

      Fim.

      Texto publicado em 02 de novembro de 2014

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Morreu Abreu


      Comoção no bairro, anúncio na rádio, alvoroço dos parentes e amigos: morreu Abreu. Estava trabalhando normalmente em seu pequeno comércio de secos e molhados, quando de repente caiu morto. Infarto fulminante. Tão novo e forte, mas não suportou essa rasteira traiçoeira.

      Muito querido por todos, sempre bom samaritano no quesito ajudar o próximo, não importando qual o próximo, desde que não seja os próximos de dentro de sua casa. Isso mesmo, mulher e filhos sempre ficavam em último lugar na lista de distribuição do sustento.

      Maria Emília, a viúva, casou-se por imposição dos pais, pois um dia pegou-os atarracados e com a braguilha da calça de Abreu aberta. Foi o cúmulo da indecência! Cidade pequena, já viu, não é? Seu Arnaldo, seu pai, preferia a morte do que ver a filha mal-falada na cidade. Cair na boca do povo era um crime bárbaro em seu conceito de pai de família e religioso ao extremo. Só beijou sua esposa, Dona Filomena mãe de Maria Emília, depois de casados. E sexo, só no escuro, com todo o respeito.

      Parecia carma de família, pois o pai de Maria Emília era grosseiro, tosco, estúpido, assim como seu marido, agora morto, Abreu. Pareciam pai e filho por se parecerem tanto e nos mínimos detalhes.

      Bem, mas agora Abreu era morto e nem sequer uma lágrima escorrera do lindo rosto, prestes a enrugar, de Maria Emília. Vestiu-se de preto, como manda os costumes, e de cara limpa, sem maquiagem, foi velar o corpo do defunto seu marido. Para disfarçar sua indiferença, um pouco de sombra escura em baixo dos olhos, como uma panda com insônia, ornava o quadro triste do velório no clube municipal da cidade.

      À medida em que ia se aprontando, lembranças visitavam sua mente. Não se lembrava quando fora o último beijo na boca recebido do marido. Era besteira e coisa de namorado, dizia ele, seco. Sexo, menos de cinco minutos e tudo estava resolvido. Não sabia nada dele, de seus amigos, seus risos, suas satisfações, nada! E ele, muito menos se interessava por conversas caseiras da mulher. Se estivesse tudo pronto e limpo, não passava de obrigação.

      Seus filhos, dois, Abmael e Abjeison, ainda eram pequenos e nada entendiam. Respeitavam Abreu por medo e não por amor. Não iriam ao velório por decisão da mãe, que agora tinha pátrio poder nas decisões que quisesse, a hora que quisesse. Abreu morreu e era sabido que um gordo seguro de vida esperava para ser sacado. Precisou morrer para dar conforto à família. Maria Emília sabia que os parentes viriam como urubus, esperando uma boquinha livre nesse seguro. Mas, apesar de quieta, sabia se defender muito bem. Não queria conversa com ninguém e o que Abreu já havia ajudado a todos era o suficiente para não perturbá-la mais. Cortaria relações, pela raiz, para poder finalmente ter sossego e poder falar de seus sonhos, suas vontades, seus desejos... E se Deus permitisse, não ficaria viúva por muito tempo. Logo mudaria seu estado civil para casada, ou seja, muito bem casada. Com quem? Com quem ela escolhesse.

      Ainda se olhando no espelho e fazendo caras e bocas para a encenação cadavérica de viúva sofredora e solitária, resolveu passar um perfume doce. E muito doce para que não a abraçassem tanto. Queria ficar quieta num canto, sem conversar e sem entrar na hipocrisia de transformar Abreu num santo. A essa hora já o endeusavam pelos quatro cantos da cidade. Como voam as notícias!

      Um irmão de Abreu ficou encarregado de levar Maria Emília até o velório. No caminho, vendo todo aquele verde das árvores e o colorido das fachadas das lojas, ela planejava sua vida. Trocaria suas roupas sóbrias e seus sapatos de saltos baixos, por cores, ousadias e sensualidades.

      Queria voltar no tempo, naquele portão de sua casa, onde há cinco anos, pelo entusiasmo de Abreu que cobria-a de beijos e desejos, promessas e loucuras, e continuar aqueles sonhos, sem ser interrompida por seu pai. Queria abrir a braguilha da calça de seu próximo namorado e continuar ali mesmo, o prazer interrompido. Mas antes viajaria com seus filhos, para a praia, pegar conchinhas e tomar batida de maracujá. Fazer castelos de areia e depois desmanchar com os pés, correr até as ondas e voltar correndo, antes que alcançassem seus pés. Queria viver, rir, gargalhar, comer e se lambuzar um cachorro-quente vendido na barraquinha que ficava no centro da cidade. O aroma invadia-lhe as narinas todas as vezes que iam à missa. Seus filhos chegavam a babar, mas Abreu não permitia certas regalias, pois nem era comida de gente.

      Chegaram. Na porta, Maria Emília parou por um momento, olhou em todos, abaixou a cabeça e foi até o caixão. Passou as mãos no rosto pálido de Abreu, depois nas mãos que seguravam um terço, puxou uma cadeira e ali permaneceu, de cabeça baixa, até a hora do enterro. Sensação de missão cumprida, obediência e infelicidade. Olhou em sua mão esquerda e as duas alianças no dedo anular ofuscavam-lhe a vista. Seriam guardadas como única recordação de um casamento imposto. Cumpriu todo o protocolo de boa viúva de um santo homem.

      Descanse em paz, Abreu, porque agora é hora de viver, pensou Maria Emília.

      Fim.  

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Qual a Maior Dor do Mundo?

Alguém consegue medir a dor? A minha dor é maior que a sua dor? Qual a maior dor do mundo?

Abertura do Programa do Jô, após perder seu filho Rafinha. 

Não dá pra saber o tamanho da dor de um pai quando perde um filho... Como ele diz, é uma inversão natural da vida...

Assistam! Cliquem no link abaixo.





domingo, 17 de agosto de 2014

Até Que a Morte nos Separe


      - Mor, eu te juro que não vai ter nada demais... É só uma reuniãozinha com a turma, beber um pouco, me despedir deles e só!

      - Dré, isso não funciona! Despedida de homem sempre tem mulher no meio...

      - Tem nada! Na minha despedida não vai ter não! Eu gravo tudo e depois te mostro... Não se preocupe, te amo!

      - Tô com medo, Dré... Não deixa aqueles marmanjos te machucarem...

      - Beijo, te amo, futura esposa!

      - Beijo, marido!

      André chegou na casa do amigo Tadeu por volta das 23:00h, onde seria sua despedida de solteiro. Esperou pelos demais amigos e, para sua surpresa, não ficaram por ali. Seguiram para uma chácara, que ficava no final da cidade e que não era longe.

      Eram seus amigos de infância, por isso nem se importou com a surpresa. Queria se divertir com os malucos e beber além da conta, até cair e acordar só no outro dia.

      Chegando na chácara, mais alguns amigos dos amigos e, claro, algumas garotas "um tanto duvidosas". André se lembrou de sua noiva; mas já que ali estava, aceitou tudo sem problemas. Sabia de seus limites e tinha muito juízo.

      Era um local afastado, perto de um rio que cortava a pequena cidade. O céu estava estrelado e a Lua iluminava o matagal e refletia nas águas sua imponência noturna, dando a impressão de uma noite medonha, silenciosa e solitária. Era inverno e vez ou outra ouvia-se o uivo da ventania, que passava e voltava, como se vigiasse quem se atrevia a atrapalhar sua melodia.

      Entre bebedeiras, risadas descontroladas, amassos nas "moças" e cantorias gritadas, os amigos fizeram com que André dançasse sobre uma mesa, somente de cueca, depois colocaram uma moça e dançaram os dois num ritmo sensual. Mas André, ainda lúcido, evitava ao máximo se encostar na garota; olhava com ar de reprovação ao grande amigo de infância, e este ria como uma criança. Desviava o olhar da moça, evitava seu corpo, seu toque, mesmo quando ela insinuava a tocar-lhe onde não deveria, esquivava e continuava, afinal era sua despedida de solteiro. Como estavam todos bêbados nem percebiam que André se afastava da moça quando ela rebolava na sua frente, praticamente grudada nele.

      Depois fizeram com que bebesse um copo com várias misturas de bebidas. Virou de uma vez e quase desmaiou, de tão forte. Mesmo zonzo e falando mole disse que não beberia mais nada, e, apesar da reprovação de todos, sua vontade foi atendida, mas pagaria um castigo por isso.

      Levaram André até o quintal e o amarraram numa árvore, de forma que jamais se soltaria. Estava só de cueca, muito bêbado e o tempo gelado.

      Antes dos rapazes voltarem para casa, enfiaram-lhe goela abaixo, na marra, um copo com aquela mistura forte de várias bebidas. Nessa altura, André já nem enxergava mais e desmaiou.

      A bagunça continuou em todos os lugares da casa e as garotas, todas nuas servindo seus corpos, como assim desejassem cada homem. Se esqueceram de André.

      A madrugada foi gelada e todos acordaram quando já se passava do meio dia.

      - Gente!  O André! - alguém se lembrou da noite anterior.

      - O quê?

      - O André ficou só de cueca lá fora... No frio!

      - Deus do céu!

      - Ele tá dormindo ainda? André... André.... Andrééééééé... - Correram para ir até a árvore onde amarraram André.

      - Me ajuda aqui, gente, acorda ele!

      André estava morto. Hipotermia, segundo o laudo médico.

      A cidade era pequena e a notícia se espalhou rapidamente. Houve comoção geral e alguns se programaram para invadir as casas dos envolvidos para um linchamento. A polícia local foi solicitada para conter a fúria da população. André era querido por todos, boa pessoa, honesto e gentil.

      Sua noiva entrou em desespero, e, mesmo depois de quase 15 anos do ocorrido, nunca se recuperou do trauma. Nunca se casou e sua vida segue entre internações em clínicas devido à depressão e vida de andarilha por toda a cidade, praticamente maltrapilha.

      A família de André aguardou um desfecho da justiça, e quem sabe, uma condenação de todos aqueles que se diziam amigos. Seu pai faleceu pouco tempo depois, de infarto, e sua mãe não saiu mais de casa, a não ser para ir ao cemitério chorar no túmulo do filho.

      Os amigos mudaram de cidade e seguiram suas vidas normalmente, casados e com filhos.
   
      Seu túmulo se tornou referência na cidade, pois a população acreditava que, devido à tragédia, sua alma fazia milagres, principalmente para os noivos.

      Fim.

      Texto publicado em 19 de dezembro de 2011 - Editado


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Vida e Morte, Morte em Vida


Uma semana difícil com tragédias sem sentido nenhum. Essa é a vida. Um dia aqui e outro acolá, num outro plano.

Difícil estar com uma pessoa num dia e no outro ela estar morta. Morre a família junto.

Mas vamos falar de vida e morte. O normal é nascermos, vivermos e morrermos, no seu tempo certo, de morte morrida e não de morte matada, ou provocada, ou acidentada ou fora do percurso natural da vida. Isso nos choca, nos deprime, nos causa infelicidade, agonia e nos faz pensar na vida em que levamos. E ficamos neste estado de abismo por alguns dias. Depois outras coisas acontecem, muda-se o foco e tudo volta como antes.

Muitos falam em aproveitar a vida. O que seria aproveitar a vida? Cada um sabe o que de melhor a vida pode lhe oferecer e o que pode ser aproveitado pra valer.

Mas o pior de tudo isso é a morte em vida. Gente que não vê mais graça em nada, que se fecha em seu mundo e morre... Gente que adoece com a certeza de não ter mais nenhuma volta, de que a partir dali é contagem regressiva pra dar adeus aos que ficam... Gente que não tem mais consciência e nem lembranças, gente que tem as lembranças roubadas por uma doença, que aos poucos lhe faz regredir e desaprender tudo o que aprendeu durante a vida saudável.

Hoje presenciei, no ônibus, um casal. Menos de sessenta anos cada um, creio eu. A mulher bem arrumada, bonita, com os cabelos presos num coque alto, roupa justa, mas não vulgar e o homem não aparentava ter nenhuma deficiência. O tempo todo ela tratava-o de "amor". Muito paciente segurava em sua mão, colocando-o sentado num banco vazio.

Eu já tinha visto este casal dias atrás. E o tratamento era o mesmo. Sempre "amor" pra cá e pra lá. E ele, obedecia seus comandos e permanecia quieto.

Outro dia eles entraram no ônibus e o homem estava irritado e não queria obedecê-la. Mas o carinho e cuidado continuavam o mesmo. "Amor" aqui e ali. Depois vi-a chorando e enxugando as lágrimas com o punho.

Hoje, ao entrarem no ônibus, como sempre o cuidado continuou, mas ele ficou agachado e não queria se levantar de jeito nenhum. Ela insistiu e repetiu várias vezes pra que ele se levantasse e se sentasse. Sentaram-se na minha frente. A mulher olhou pra mim, piscou e sorriu. Depois olhou de novo e comentou que ele tinha Alzheimer. Eu não soube o que dizer, então não disse nada. Ela conversava com ele como se fosse um garoto. Depois me olhou e disse que não era fácil não. E continuou conversando com o marido, perguntando se queria comer quando chegasse em casa. Ele dizia que não, que não gostava de comer. Ela, então, perguntou se queria sorvete. Ele disse que sim, que sorvete ele queria. Ela me olhou, piscou e sorriu de novo.

Perguntei-lhe, então, há quanto tempo ele estava assim. "Há dois anos, mas só descobri há um ano. Diagnosticaram como sendo depressão." Eu lamentei e continuei observando.

Não tive como não me colocar no lugar dele, sendo dependente de alguém depois de mais da metade da vida. Que triste! E que bom ele ter uma pessoa pra lhe cuidar. Tenho medo de ficar dependente de alguém por conta de alguma enfermidade. Sempre fui muito independente e não sei qual seria minha reação ter que esperar alguém fazer algo por mim. Parece egoísmo e deve ser mesmo, não sei.

Mas não me senti bem, tanto com essas mortes de pessoas que nem conheço, e com a lembrança de meu irmão que faz dois anos que faleceu e depois esse casal com o senhor totalmente dependente. Não foi fácil, não é fácil, mas é a vida, ou a morte, ou a morte em vida...

Bom fim de semana pra todos.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

É Minha!


      Finalmente o celular toca... Clóvis atende aos berros perguntando do paradeiro de Agnes, sua mulher. Ela, pacientemente responde que está tudo bem e que já está chegando em casa. E desliga. Clóvis, mais irritado ainda joga o celular sobre a cama, coloca as mãos na cabeça, suspira fundo e chora.

      Vai até a janela e fica escondido atrás da cortina de forma a não ser visto por Agnes quando esta chegar. Adorava vê-la descer do carro, pendurar a bolsa no ombro, ajeitar os cabelos e caminhar jogando os quadris para os lados, se equilibrando num salto agulha. Tinha vontade de ir ao seu encontro e pegá-la no colo, poupando suas belas pernas do pequeno trajeto. Levaria-a para o sofá, aconchegando-a sobre as almofadas para depois venerá-la incansavelmente. Amava exageradamente aquela mulher. Tanto que não suporta a hipótese de não vê-la nunca mais chegando em casa.

      Após vinte minutos o portão da garagem se abre e Agnes entra com seu carro. Clóvis admira a mulher dos seus sonhos, a mulher de sua vida, a futura mãe de seus filhos, adorada e idolatrada...

      Agnes calmamente abriu a porta, colocou a bolsa sobre o sofá e foi direto para a cozinha. De cabeça erguida encheu um copo d'água e bebericou aos goles, calmamente. Já sabia o que estaria por vir.

      Clóvis, vermelho de ódio, não esperou ela terminar de engolir e lhe arrancou o copo de suas mãos. Seu olhar era de ódio, de revolta... Pegou-lhe pelo pescoço e encostou-a na parede. Olhou em seus olhos e obrigou-a a descrever com detalhes o motivo de seu atraso. Agnes nem se assustou com as ameaças do marido, pois essa atitude se tornara corriqueira. Desde o sim na frente do padre que Clóvis se transformara em outro homem. Agnes se calava para evitar o pior.

      Depois de soltá-la Clóvis se afastou e ficou olhando em seus olhos. Abraçou-a e mais uma vez declarou seu amor eterno. Agnes ficou calada, como sempre fazia, mesmo não entendendo o motivo de tanto ódio que sentira por ela. Se declarava e ao mesmo tempo a agredia. Tratava-a com indiferença e aos mesmo tempo tinha a impressão de que ele queria entrar em seu corpo e permanecer por lá, com medo de não tê-la mais nos braços. Tratava-a como abajur empoeirado esquecido num canto e no minuto seguinte exigia mil explicações sobre namorados do passado. Quase surtou quando ela lhe disse que encontrara por acaso o primeiro namorado, de infância. Ficou tão transtornado que ela precisou ficar trancada no quarto, até que ele se acalmasse. Com o tempo Agnes aprendeu a lidar com essa situação e a contornar eventuais chateações. Até gostava de se sentir venerada e desejada. Ficava excitada em ver seu marido deseja-la intensamente quando tirava a roupa sabendo que ele observava-a, quase explodindo de prazer, e depois arrastá-la para algum canto e saciar sua vontade. Tinha prazer em provocá-lo sexualmente, fazendo com que ele se tornasse seu escravo, com joguinhos de sedução e com brinquedinhos de sex shop.

      Nos momentos de ternura era um cavalheiro, intenso, apaixonado, mas bastava estarem com mais pessoas ou mesmo longe de seus olhos que já fantasiava traições, abandonos e mentiras. E culpava-a sem ao menos ter motivo. Virava um louco, chegando perto de dar-lhe uma surra por tantos ciúmes que sentia.

      Agnes se lembrou do dia do casamento, quando todos já haviam ido embora e apenas os dois ficaram no salão esperando alguém que os buscasse. Apesar de fantasiar uma noite de núpcias inusitada a atitude de Clóvis surpreendeu-a. Começou a chutar as mesas e a derrubar as cadeiras, xingando e colocando a culpa na mulher. Chorou, numa noite que seria especial. Mas entendeu o nervosismo do marido e se calou.

      Vendo-a dormir Clóvis contemplava sua musa, sua amada... Observava-a o tempo todo e cada vez mais amava Agnes. E culpava-a por tanto amor não correspondido. Amava pelos dois, vivia pelos dois, respirava pelos dois e sofria por tanto amor, uma dor física e mental que lhe fugia do controle. Quando se dava conta já tinha estourado com Agnes quando deveria amá-la.

      Quase enlouqueceu quando a mulher sugeriu se separarem. Nunca, jamais, nem em pensamento haveria essa possibilidade. Era a mulher da sua vida e se não fosse para morrer junto dele morreria sozinha. Jamais outro homem tocaria num fio de seu cabelo. Mataria se fosse preciso, mataria Agnes e depois se mataria, mas a dor de vê-la nos braços de outro jamais sentiria.

      Agnes, com toda sua meiguice, suportava calada, na certeza de que um dia as atitudes grosseiras de Clóvis se acabassem. Não o provocava, não o enfrentava, não dava nenhum motivo para nenhuma desconfiança. Amava-o, apesar de tudo. Vivia no limite entre a vida e a morte. Sabia que poderia haver um fim trágico e mesmo assim ela gostava. Se sentia poderosa tendo aos seus pés um homem capaz de matar ou morrer por ela. Achava excitante o olhar do marido quando estava com ódio e logo em seguida venerava-a. Gostava das agressões seguidas de juras de amor eterno. Amava-o a sua maneira, mesmo sabendo que qualquer dia poderia ser o último dia de sua vida.

      Fim.



   

segunda-feira, 21 de abril de 2014

(Des)família


Faz um ano e quatro meses que meu irmão se foi. Até hoje não nos acostumamos com essa notícia. Temos a impressão de que ele vai entrar pela porta a qualquer momento com aquele sorriso de orelha a orelha...

Ontem fui à casa de meus pais e meu irmão morava na casa em frente. Cheguei e antes de entrar fiquei olhando a casa... Tão estranho ele não estar lá. Outras pessoas morando, a casa de uma outra cor, o fusca não estando na garagem... Triste. E na casa de meus pais ainda tem o quarto que era dele, com todas suas coisas, intactas. Respirei fundo e fui pensar, na varanda, nos fundos da casa.

Depois almoçamos e minha mãe colocou um vídeo antigo pra assistirmos. Da família. Um vídeo de mais de vinte anos.

Meu avô, minha avó... Que saudade de minha avó, parecia que estava vendo-a por perto. A família toda reunida, mesa farta com panelões, tigelões e uma baciada de macarronada, que delicia que era! Crianças correndo, hoje todos adultos e com suas crianças, Uma oração antes da refeição, votos de felicidades, de união, de amizade, de fartura... E tudo acabou!

Passou o tempo e cada um foi cuidar de sua vida. Meus avós faleceram e a base desmoronou. Não existem mais essas reuniões. Agora cada um faz sua reunião; os filhos de meus avós que agora são avós é que são a base de suas famílias.

Me vi no vídeo, tão novinha, magrinha... Ui!

Vi meu irmão, ainda moleque...

E me deu mais agonia ainda... Passou tão rápido e tudo se modificou. Daqui a pouco e tomara que não seja tão daqui a pouco serei eu a avó com meus filhos e netos, e serei a base deles...

Passa tudo muito rápido, dá até medo...

A gente fica pensando que vida é essa que começa e termina sem anunciar? Modifica, regride, progride... Briga, chora, reza... Abraça, compartilha o alimento... E acaba.

E Jesus renascendo na Páscoa, em todos os lares, em todos os corações, levando esperanças, harmonia, caridade, carinho, atenção...

Não foi um dia fácil... Mas foi. Isso é o que importa.

Uma ótima semana pra todos!





quarta-feira, 2 de abril de 2014

Minissaia


      Se deitou e apagou as luzes. Se virou para o lado em que ficava o criado-mudo onde guardava um punhal na gaveta. Faltava-lhe coragem e força para fazer o que mais tinha vontade. Pensava nos filhos, ainda pequenos, dependentes de cuidado, de carinho, de base decente, de mãe, de pai... Pai é quem coloca no mundo?

      Rui era um bom pai, disso não se podia negar, mas só quem o conhecia entre quatro paredes sabia dizer exatamente como era aquele monstro disfarçado de homem de bem. Maria do Rosário sabia do que se tratava, mas a falta de coragem também lhe impedia de soltar aos quatro ventos quem realmente era o marido que um dia jurou amor eterno, respeito e fidelidade perante o padre. O melhor dia de sua vida, um sonho realizado, uma família que começara no instante do sim. Talvez o último dia de sonhos e ilusões.

      Entraram na nova casa com Rui carregando a amada nos braços e reclamando de seu peso que nem era tanto assim. Talvez faltava-lhe disposição e força muscular para executar com carinho o que deveria ser de livre e espontânea vontade. Não queria saber dessas frescuras de lua de mel. Queria mais era tirar os sapatos apertados, o paletó quente, se jogar na cama e dormir...

      O vestido todo branco, com o corpete rendado, decote discreto era fechado nas costas com pequenos botõezinhos encapados com o mesmo tecido. Pequenas pérolas ornavam sinuosamente a linha da cintura terminando num bico abaixo do umbigo, e uma sutil calda em tule bordado arrastava pelo chão. Um laçarote em cetim arrematava a delicadeza do vestido de noiva escolhido a dedo por Maria do Rosário e sua mãe.

      Rui, com muita dificuldade, fechou a porta com o pé e despejou Maria do Rosário na cama. Arrancou os sapatos, a roupa e ficou só de cueca. Maria do Rosário nunca havia visto um homem só de cuecas! Corou. Fez questão de se manter casta como a Virgem Maria e honraria o sacramento até seus últimos dias. Seria mulher de um só homem e o amaria eternamente.

      Foi delicado, paciente, atencioso, carinhoso... Um perfeito cavalheiro.

      Sete anos depois o que era doce se acabou. Rui esquecera de todo aquele romance, de todo o cuidado, carinho e não demonstrava amor pela mulher.

      Toda noite quando Maria do Rosário se deitava rezava para que o marido não a procurasse. Não suportava a tortura de satisfazer seus caprichos. Parecia um bicho que atarracava em sua presa que nem um banho de água fria seria capaz de interromper seus desejos. Não havia conversa que o convencesse que alguns dias ela não se sentia disposta. Todo dia era dia de se fartar. Afinal mulher tem que cumprir suas obrigações de esposa. Se não tem em casa procurava em qualquer lugar, pois mulher é que não faltava para satisfazer um homem.

      Ela tinha medo e vergonha de ter que passar por tanta humilhação, mas não confiava em ninguém para contar suas intimidades. Não suportaria a hipótese de ficar falada ou de ser julgada como fria e que não fora capaz de satisfazer nem o próprio marido.Numa de suas consultas rotineiras com o ginecologista chegou a comentar que não conseguia sentir prazer, que não havia lubrificação e que era dolorido todas as vezes. E com um sorriso de matar ele apenas completava "é, mas depois fica bom, não fica?". Se no próprio médico não podia confiar imagina para uma pessoa conhecida? Talvez o problema seria dela, como Rui sempre dizia, que era frescura, falta de tesão e que ela deveria se dar por satisfeita por ter um marido como ele. Era travada e fria!

      Mal conseguia abrir as pernas e lá estava ele, com seu bate-estaca a lhe perfurar até o útero, fazendo sangrar e se deliciando com as lágrimas que escorriam dos olhos da mulher. "É tesão, mulher, relaxa!". Muitas vezes não suportando a dor Maria do Rosário gritava, enchendo Rui com mais prazer fazendo com ele tapasse sua boca só para ver a agonia em seus olhos. "Prazer sem dor não combinava com mulher. Mulher precisa sofrer para poder dar valor ao que tem", repetia, enquanto sufocava Rosário.

      Depois do ato consumado, Rui se virava para o outro lado e dormia... Satisfeito...

      Maria do Rosário esperava ouvir o primeiro ronco e chorava, quietinha, tapando a boca com o travesseiro, segurando o soluço para não fazer movimento no colchão e despertar a ira do valente e destemido Rui. Vez ou outra abria a gaveta do criado-mudo e pegava o punhal. Apertava-o no peito e pensava em suas crianças. "Não, eles não merecem uma tragédia dessas...", e guardava-o de novo.

      Sete anos de casamento, seis anos de tortura sexual, um segredo guardado, um pecado prestes a ser cometido, ou melhor, um crime passional.

      Depois de uma noitada regada a bebida, Rui voltou para casa. Maria do Rosário já estava deitada, fingindo dormir. O punhal não estava em seu lugar costumeiro. Rui se jogou na cama e mais uma vez se fartou. Rosário chorou, olhando para o lado, enfiou sua mão debaixo do travesseiro e pegou o punhal. Num movimento em que Rui erguia o corpo esticando os braços, Rosário colocou o punhal entre eles. Ele se abaixou com tudo e ouviu o grito da mulher. Como estava bêbado não percebeu o objeto pontiagudo entrar na mulher, rasgando-lhe a carne. Sentiu mais prazer olhando sua cara gritando de dor até desmaiar. Mesmo assim continuou, pois ainda não estava satisfeito. Só depois quando saiu de cima de Rosário é que percebeu a mancha de sangue no lençol. Se assustou e chamou por ajuda.

      Rosário estava bem, sedada, e por sorte nada de ruim aconteceu, pois encaixou o punhal bem próximo à cintura o que não lhe perfurou nenhum órgão vital. Rui responderá por crime de lesão corporal e não sabe como isso pode acontecer, afinal sempre foi o marido dos sonhos de qualquer mulher.

      Fim.

      Um texto de ficção, mas com muita realidade, pois mulheres também são estupradas por seus maridos. Fraqueza? Não, nem sempre a mulher sabe o caminho para sair de situações de tortura, principalmente de quem deveria amá-la e cuidá-la até o fim.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Quase 19

Imagem Google

Esta semana morreu meu cachorro idoso... Quase dezenove anos. Dezoito e oito meses, pra ser mais exata.

A imagem é do Google mas é como se eu estivesse vendo ele, todo engravatado, quando tomava banho e aparava os pelos.

Um companheiro de uma vida inteira, mesmo nos meus momentos mais difíceis... Sim, ele estava segurando minhas pontas naquela fase ruim, nas tristezas, falta de paciência, falta de dar atenção... Mas sempre estava no meu pé, ao meu lado, onde eu estivesse.

Minha avó falava que é bom ter animais pois eles têm o dom de puxar pra si os fluídos negativos. São como pára-raios e nos protegem, como anjos.

Se eu fosse dar ouvidos a todos que vinham na minha casa e ficavam sabendo de sua idade, eu já o teria "matado" há uns cinco anos. Não teria coragem de jeito nenhum!

Ele não adoeceu... Viveu bem, nos seus limites, até o fim. Morreu deitado perto de sua casinha, de sua água e sua ração. Estava cego, surdo e sem olfato. Mas se nós estivéssemos por perto ele ia tateando com o focinho até esbarrar nas nossas pernas, abanava o cotoquinho do rabinho e ficava por ali. De uns anos pra cá reservei um lugar fechado pra ele. Não um lugar pequeno, mas que dava pra ele andar e saber onde estavam suas coisas. E sabia! Só no último mês é que deixei meus outros cachorros ficarem mais perto dele. O portão ficava aberto e iam e vinham, menos ele que não achava o portão, então ficava sempre no seu espaço. Os outros queriam brincar com ele, pulando em sua cabeça e ele, irritado, não enxergando nada e não sabendo de quem se tratava, ficava rosnando. Depois se acostumou e nem dava mais bola pros outros, os pentelhos arteiros da casa.

Na manhã em que ele não conseguiu mais se levantar, assim que me levantei, os outros já me avisaram. Olharam pra mim, latiram e foram correndo lá no fundo, no espaço dele, cheiraram ele e latiram pra mim como se estivessem me avisando. Foi de cortar o coração... E na manhã seguinte ele já não estava mais vivo...

O nome dele? Caco Antibes!

Meu protetor!

domingo, 10 de novembro de 2013

Mensagem Sem Resposta

No facebook:

Alguém comentou com um amigo muito querido que havia falado com Nilce na noite anterior, dizendo que ela estava cansada de viver e que já havia tomado vários remédios. Esse alguém mandara várias mensagens para Nilce, mas nenhuma fora respondida.

Tarde demais...

Não suportando a vida, os problemas, a solidão na multidão, Nilce se foi...

Espalhou tanto carinho, tanto afeto, sorrisos contagiantes mas sua vida real era dolorida demais para satisfazer e deletar suas dores... A vida pesava muito e fugir era a única opção que conseguia pensar...

Lá se foi Nilce para os braços do Pai...

Nilce Gibson, querida amiga virtual
 
Olha, não viemos a essa vida a passeio, temos sim um propósito de passar pelo que passamos, sofrer o que temos que sofrer, amar quem amamos, enfim, nada é por acaso.

Dores são individuais, assim como alegrias. Não dá para descrever os sentimentos de uma pessoa. Cada um sente de um jeito e de uma intensidade. Dores da carne geralmente se curam com medicamentos. Dores da alma, nem sempre conseguimos.

Às vezes o raciocínio é mais que um complô contra nós mesmos, querendo sair dessa zona de sofrimento, de angustia, nos levando a atos dramáticos contra a própria vida.

Não há o que fazer após esse gesto. Só oração, muita oração...

Mas há o que fazer enquanto se tem vida. Prestar atenção a quem está ao nosso lado, que convive conosco, as tristezas, os choros escondidos, o olhar perdido, as palavras estranhas... Saber ler nas entrelinhas, cuidar, ficar perto, dar atenção, carinho, ouvir, ouvir, ouvir... Sem julgar, sem tentar achar uma solução.

Não adianta tentar resolver o problema de quem sofre da alma doente. Não quer solução, quer atenção, quer gritar que está ali e precisa de algo, mesmo sem saber o quê.

Um abraço faz toda a diferença na vida... Coração com coração... E se puder, um beijo bem carinhoso, um afago nos cabelos, os polegares enxugando alguma lágrima pedindo socorro...

Olhar bem no fundo olhos e se fazer presente, de coração, de alma...

O ser humano é complexo e precisa ser observado, sempre.

Viver dói...

Pai de misericórdia, acolha essa alma sofredora, perdoe seus pecados e lhe dê um bom caminho espiritual.
Nossa Senhora, mãezinha querida, cubra com seu manto sagrado essa amiga que não suportou estar viva...
Amém!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Doente Terminal


      Roberta, depois de mais uma sessão de quimioterapia, voltou para o quarto e dormiu. Sua mãe a acompanhava. Um ano lutando contra uma doença que ela já sabia, desde o início, que não teria cura. Sabia de sua morte premeditada e encarou todo o tratamento como uma guerreira, como sempre ouvia de todos. Nem se importava mais com os enjoos, as dores e os incômodos dos efeitos colaterais dos remédios. Apenas ouvia de todos, o tempo todo, a palavra esperança.

      Esperança de quê, pensava em seu silêncio, sabia que seus dias estavam terminando, que tivera a chance de repensar sua vida, seus erros e acertos e o melhor de tudo, se despedir das pessoas que tanto amava. Sentia nos olhos de cada um que a acompanhava, a dor e o sofrimento antecipado por uma partida dolorida e solitária. Ninguém sabia o que ela passava, o que pensava, o que queria, do que havia se arrependido, e o que ficaria para trás para sempre. Em seu silêncio apenas fechava os olhos e esperava pela hora marcada. Poderia ser hoje, amanhã ou daqui um tempo. Os médicos disseram que ela estava bem, que prolongara seu tempo, por milagre talvez. Mas Roberta sabia que não, que estava passando pelo que tinha que passar, que já estava escrito e que ela aguentava porque tinha que aguentar. Era forte e lúcida o suficiente para esperar a vontade de Deus em tirar-lhe daquele estado de tortura, tanto dela quanto das pessoas à sua volta.

      Dessa semana ela tinha certeza de que não passaria. Pelas visitas que andou recebendo, pelas pessoas que não via e nem tinha notícias há anos, apareceram para se despedir dela. Gente hipócrita! Muitos aqui me traíram, mentiram, riram nas minhas costas e agora vêm chorar lágrimas de colírio barato. Quando uma prima entrou em seu quarto, ela apenas olhou para sua mãe, indignada por permitir a entrada dessa pessoa que a odiava. Não se falavam há anos e agora ela vem, com um gesto de sinto muito e quem sabe, pedir perdão por qualquer coisa.

      - Oi, Roberta, como cê tá, querida? - perguntou a sonsa Neide.

      - Bem, e você? - respondeu, olhando bem no fundo dos olhos da traidora que havia jurado cuspir e pisar em seu túmulo. - É, prima, tá chegando a hora.

      - Fica assim não, vai dar tudo certo - emendou a prima.

      Roberta não suportando tamanha falsidade, virou para o outro lado e fechou os olhos. Pelo menos podia fingir não passar bem para não ter que suportar pessoas indesejáveis. E ficou ouvindo a conversa de Neide e sua mãe, na maior intimidade, como se sua vontade que Roberta se curasse fosse tão grande, que ela seria considerada a milagreira da família por querer tão bem uma pessoa que a qualquer momento se tornaria bondosa e santa. Roberta odiava e dizia para todos que quando morresse não queria o rótulo de santa e nem de boazinha. -"Inha" uma pinóia! - dizia, brava com todos que tentavam passar algum tipo de esperança.

      Neide ficou um bom tempo ao lado da cama, acariciando sua mão machucada por tantas agulhadas e isso irritava Roberta que tentava de toda maneira arrancar um pedaço da carne daquela mão traidora, com suas unhas, mas não conseguia devido à fraqueza do organismo. Neide ficava admirada pois sentia que Roberta apertava sua mão, pensando que fosse de gratidão. E chorava, emocionada.

      Depois que foi embora, Neide continuou sua vida fútil, como sempre teve e não voltou mais ao hospital. Fez sua boa ação do dia e fez questão de contar todos os detalhes para todos, da emoção em que Roberta ficou ao vê-la e o tanto que apertara sua mão. E tentava chorar mostrando realmente a emoção, mas as lágrimas não saíam.

      Roberta, mais uma noite sozinha, agora na UTI, entubada e aos cuidados de gentis enfermeiras, pensava na vida que teve. Aprontou muito, era danada desde sempre, inquieta, e se lembra de todas as vezes que sentira inveja das amigas lindas com cabelos longos. Ela era baixinha, rechonchuda e de cabelos ralos e curtos. Mas não era menos atraente do que as amigas lindas. Como ela mesmo dizia, se não nasceu linda, tinha que chamar a atenção de uma outra forma. E foi com liderança, ideias próprias e uma incontrolável coragem de enfrentar tudo e todos que conseguia conquistar alguns homens. E não era tão difícil se apaixonar por Roberta. Ela era do tipo mãezona, que defendia até os fios dos cabelos de quem ela achava que merecia defesa. Era justa até na alma e demonstrava isso para quem quisesse saber.

      Naquela cama de hospital, com os tubos a invadirem suas narinas e aquela agulha a lhe perfurar a veia, Roberta apertou os olhos, gemeu e chorou. Achava que seria a hora. Morreria sozinha, como tinha certeza que morreria. Na verdade ela sempre soube que todos eram solitários, mesmo acompanhados. Coisas que acontecem com cada um, são coisas solitárias, impossíveis de serem descritas ou imaginadas. Pensou em sua avó, sentiu saudades e alívio. Se encontraria com ela quando chegasse do outro lado. Será que há outro lado? Ela acreditava que sim. Pensou em sua mãe e no sofrimento que ela teria quando a filha partisse. Ninguém sofre mais do que mãe. E pediu proteção aos céus para que confortassem o coração de sua mãe guerreira. Esta sim era a verdadeira guerreira!

     Continuou de olhos fechados e começou a orar. Agradeceu a Deus pela vida, pelas oportunidades, pelos pais, pelos amigos sinceros, pela avó que foi antes dela para recebê-la quando chegasse lá, e agradeceu pela oportunidade que teve, mesmo que sofrida, por essa doença mortal. Teve tempo de rever pessoas, parentes, se despedir, desapegar, chorar... Só não suportava as pessoas sentirem pena dela por conta da doença. Todos morrerão um dia e nenhuma morte é melhor ou pior que a outra. Durante todo o tratamento ela não fez nada, além de repensar sobre sua vida. Não se preocupou com cabelos caídos, com olheiras e nem com picadas de agulha. Quem se preocupou mais foram os médicos que tentaram de todas as formas aliviar seu sofrimento. A dor é corporal, que logo se esquece, mas a dor da alma, de uma palavra indevida ouvida durante um momento em que está bem, uma traição, um descaso, um desprezo... Ahhhh, isso não tem cura. Dói pelo longo da vida. Roberta não era exceção de não passar por transtornos, era como qualquer pessoa que vive e que sofre. E em toda sua vida o que menos doeu foi essa doença que estava levando-a pouco a pouco, com dosagens homeopáticas, até o último suspiro.

      Roberta fechou os olhos e não mais acordou.

      Fim.