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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A Pequena May


- May, tomar banho, agora, vamos! - a mãe chamou a pequena que brincava em sua "floresta, que tinha velhos panos presos nos cabelos com pregadores de roupa. Era seu véu de rainha.
- Hammmm - interrompeu sua fantasia de rainha, virou-se para a mãe, arrancou os panos dos cabelos e correu em disparada para a casa.
No caminho foi conversando com sua rainha, dizendo que hoje era o dia de ir na loja comprar coisas pra usar no Natal. Ela conversava e respondia pra ela mesma... - Um a um ia listando as prováveis coisas a serem compradas. Uma delas seria um par de sapatos pretos brilhantes, como ela havia pedido pra mãe tempos atrás. Outro item que ela tinha certeza que teria seria um vestido. Não tinha preferência, qualquer um combinaria com seus sapatos.
May, nos seus cinco anos, já sabia escolher detalhadamente o que usar devido aos livros infantis que tinha e aos desenhos animados que assistia.
A floresta era um lugar mágico, com dragões e cobras, porém não eram bichos maus, eram seus amigos e estavam lá pra defendê-la da bruxa malvada que ficava escondida atrás do muro, ouvindo ela brincar e cantar.
Quando chegava fim de ano, era costume da família ir a uma grande loja comprar roupas, sapatos, utensílios para a casa e alguns presentes. Eram definidas como "as compras do ano".
Junto ao encanto de ter roupas novas e sapatos novos, May sabia que era época de comer coisas gostosas e de reunir na casa dos avós e ganharem vários presentes. Esses detalhes ela contava pra rainha da floresta:
- Hmmmm, vai ter refrigerante, bolo, macarrão da vovó, sorvete... E eu vou ganhar um montão de presentes! - confidenciava May.
Também era definida como "a reunião familiar do ano".
Enquanto tomava seu banho, May cantava músicas desconexas, inventadas por ela mesma, como se fossem histórias cantadas. Tinha uma imaginação sem fim.
A roupa já estava em sua cama e sua sandália, que já estava pequena para seus pés, estava posicionada alinhadamente do lado cama.
A mãe de May ajudava-a a se enxugar e a colocar o vestido. Depois penteava seus cabelos cacheados, segurava seu rosto, olhava-a com ternura e, com um sorriso, dizia a ela que era a rainha mais linda da floresta. May sorria e respondia "sim, eu sou".
O pai de May já estava há um bom tempo aguardando as "madames" se embonecarem para irem às compras, impaciente, como todo homem atarefado, mesmo estando em férias da empresa em que trabalhava.
Quando May apareceu na sala, sorriu para seu pai e, inclinando a cabeça para o lado, disse que já estava pronta. Seu pai, como fazia todos os anos, pegou-a no colo e elevou-a ao alto e voltou-a ao chão, fazendo com que seu vestido abrisse como um para-quedas e seus cachos balançassem no ar. Ela gargalhava feliz.
A grande loja ficava longe de casa, por esse motivo a família usava o transporte público. Estava lotado e sem lugares para sentarem-se. May não entendia muito o acúmulo de pessoas dentro do ônibus, apenas observava um e outro, agarrada na mão de seu, que também se equilibrava segurando no suporte algo do ônibus.
May deitou seu olhar numa senhora que estava sentada bem no seu rumo, com várias sacolas e um embrulho bem grande ajeitado entre as pernas. Era um presente.
- O que é isso? - perguntou à senhora.
- É um presente. - respondeu sorrindo para May.
- É pro seu filho? - insistiu a pequena.
- Não, é Papai Noel pro meu neto Tiago.
May encarou a senhora e ficou imaginando o Papai Noel dentro da caixa e logo pensou que ela não teria presente do Papai Noel porque ele estava preso dentro da caixa, e que a avó havia comprado ele somente pro seu neto Tiago.
Próxima parada desceriam. May encarou a senhora até descer do ônibus, inconformada.
Na loja, que estava lotada, May corria pra lá e pra cá, sempre sob os olhos atentos dos pais, que a repreendiam caso esbarrasse em algum objeto. Vez ou outra seu pai pegava sua mão pra que ela se aquietasse. Mesmo assim May continuava brincando, conversando, cantando e apontando uma coisa ou outra. Tudo era encantador, com luzes piscando, músicas natalinas, brilhos, bolas coloridas, e lá no fundo, quem estava lá? O Papai Noel.
May parou e ficou boquiaberta ao saber que o Papai Noel não estava dentro da caixa da senhora do ônibus. Imediatamente ela apontou para ele e gritou: - Papai Noel!
Seu pai repreendeu-a mais uma vez, e sua mãe, com toda paciência, pegou na pequena mão de May e levou-a até ele.
May, com os olhos brilhantes, perguntou:
- O que você está fazendo aqui?
Papai Noel, surpreso pela pergunta, respondeu:
- Estou aqui te esperando, menina!
May sorriu, aproximou-se dele e começou a contar a história do ônibus, mas o tempo era curto e haviam pessoas na fila, foi interrompida. Deu um abraço nele e saiu saltitando de alegria. May tinha certeza de que ele havia fugido da caixa.
Sua mãe sentou-a num puff para provar os sapatos. Não eram brilhantes como havia pedido. May cruzou os braços e não quis experimentar. Os sapatos brilhantes, em verniz, eram um pouco mais caros e o casal teria que abrir mão de alguma coisa para satisfazer os gostos da filha. Ficaram cochichando até chegarem num acordo. Comprariam um presente mais barato para May e assim poderiam comprar os sapatos em verniz. Realmente eram lindos!
As compras seriam entregues na casa deles, pois eram volumosas, muitas caixas e alguns itens eram pesados.
Saíram da loja e foram comer pastéis, como era costume. Pastéis de carne e garapa.
A família de May era bem simples, porém eram organizados nas despesas. A "compra do ano" era sagrada e o dinheiro era guardado mês a mês.
Fim de ano era o tempo de reunir a família e esbanjar um pouco na alimentação, comer pudim de leite, beber guaraná, vestir roupas novas e trocar presentes. Todos ganhavam, todos compartilhavam o que podiam, todos matavam as saudades e tinham o "dia do ano" mais feliz do mundo.
May, vestindo roupas novas, sapatos brilhantes, cachos esvoaçantes, e uma história pra contar cantando pra todo mundo, sobre o Papai Noel na caixa do Tiago.
Coisas da vida.

Clara Lúcia

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sábado, 9 de novembro de 2019

Eu, minha criança



"A criança interior é responsável pela nossa conexão com o nosso processo criativo, com o nosso poder de atrair o que queremos através da vibração de alegria que emanamos. Em desequilíbrio não criamos, viramos reféns das frequências que vibram de forma inconsciente, que traz para a nossa realidade todos os processos de espelhamento."
Texto de Renata Pereira.

"Vinde a mim as criancinhas, pois delas serão o Reino dos Céus";  Jesus.
Por que será que Jesus disse isso e ninguém entendeu, ou entendeu que somente as crianças que teriam condições de entrar no Reino dos Céus?
Para o Universo somos crianças em fase de aprendizado.
Infelizmente, e isso faz parte da evolução, ao longo da vida somos inundados com crenças e limitações infundadas. Mas isso também tem um propósito, essas crenças são para que possamos vivenciá-las e aprendermos a lidar com elas.
Todo tipo de processo não deve ser evitado e sim vivenciado, sem deixar que nos limite ao processo evolutivo.
Vamos nos lembrar da infância. A minha foi solitária, porém não sabia o que era ser solitária. Brincava sozinha e amava tudo! Criava meus próprios brinquedos: vaquinha de chuchu, boneca de espiga de milho, bolo de barro, cabana de folhagens, floresta imensa no meu quintal, enfim, eu era o brinquedo. E amava tudo isso. Toda criança tem esse processo criativo e que com o tempo se acaba. Ou então na infância mesmo, a criança é privada de brincar como deve ser, explorando sua imaginação.
Hoje é tecnologia, que também não é ruim, pois a criatividade pode ser desenvolvida na criação de infinitas ferramentas facilitadoras para o trabalho humano.
E mesmo assim ainda são privadas de exercer a criatividade. Talvez pela falta de incentivo,  não sei, e também por ouvir muitos "ditados", isso é pecado, tem que... para que... para ser... isso não dá dinheiro... moça de família... pai de família... ou seja, costumes impostos sem nenhum fundamento. (eu acho que não tem nenhum fundamento qualquer tipo de tradição).
Quando Jesus diz que o Reino dos Céus são das crianças, creio eu, é o modo como elas convivem com todos.
Não guardam mágoa, amam incondicionalmente, não têm preconceito, nem racismo, não sabem o valor do dinheiro e nem o valor das coisas, mas prezam e procuram muito o valor do coleguinha. Não são vingativos, riem de tudo, brincam, se divertem, criam, choram...
Tudo isso é a base para a vida adulta fluir... Já nascemos sabendo e não usamos essa sabedoria na idade adulta.
O que é preciso para ser próspero e abundante?
Tudo o que criança faz! Na inocência, sabe-se viver como adulto e adulto se esquece de sua criança interior.
Um detalhe sobre como não cultivar a ansiedade na primeira fase da vida. O soltar...
O soltar significa não ficar ansioso e nem duvidar que algo chegará até você. Essa é uma Lei poderosa do Universo para realizarmos nossos desejos. Você deseja algo, imagina-se na situação de já ter esse algo, com gosto, cheiro, tato, cores e depois solta, na certeza de que tudo é real e que já tem o desejo realizado. O Universo trará a você exatamente a sua imaginação. O Universo não sabe o que é real ou imaginário, não sabe se é bom ou ruim, se pode ou não pode. É o foco, a fé.
Onde entra a criança nisso? Criança já sabe o dom que tem, brinca, imagina, conversa com o brinquedo e... Depois vai dormir. Solta... E no outro dia começa tudo de novo, imagina tudo de novo e a imagem holográfica (como o Universo lê) fica em sua mente. Dependendo do que a criança mais gosta de brincar, esse é o projeto de vida dela. E daí vem o adulto e priva-a de todo o dom despertado, porque não é bom, não dá dinheiro blá blá blá.
E cria-se um adulto infeliz, com vida conjugal infeliz, trabalho infeliz, sem prosperidade e sem sonho nenhum.
Outro fato interessante, sobre os bebês e crianças menores. Por que são tão adoráveis? Acho que se não fossem, não teriam satisfeitos seus desejos, já que não sabem se comunicar direito. Tudo em bebê e em criança pequena é fofinho, é lindinho e quando aprendem algo são aplaudidos, abraçados, amados! Tudo que todo mundo precisa para prosperar.
Amor. Somente amor. Amor é a base de tudo e criança sabe disso como ninguém.
Elas emanam vibração de amor para nos atrair. Depois começam as chantagens e os famosos testes de nossa paciência. Mas basta um sorriso e pronto, tudo por água abaixo.
Dia desses, fui num evento e eu brinquei de jogar bexiga com o filho de uma amiga, no meio do povo lá. Todo mundo esperando e ele e eu jogando bexiga. Eu amava jogar bexiga quando era criança. Brincava sozinha, claro...
Por que perdemos todo esse encanto?
Podemos fazer um teste.
Quando tiver algo a ser resolvido e não encontrar solução e não ter a mínima criatividade pra isso, pergunte a sua criança interior o que ela faria pra resolver. Acho que você vai se surpreender.
Lembro quando meus filhos eram pequenos e eles viam algo e perguntavam o que era. Talvez um brinquedo diferente... E eu respondia apenas "é um brinquedo". Simples assim e eles se contentavam com a minha resposta. Até hoje eu dou respostas assim quando perguntam, por exemplo. o que vou fazer para almoçar? Eu só respondo "comida". E eles riem.
Por onde anda sua criança interior?

Clara Lúcia

quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Farol

 

   
      Ele me achou... E eu fugia por uma estrada comprida, levantando as saias de meu vestido que, vez ou outra, me faziam cair na terra úmida por causa da chuva da manhã, cobrindo meus joelhos com lama. Rapidamente me levantava e continuava correndo. Olhava para trás e ele continuava a me perseguir, quase me alcançando.

      O vento frio de outono cortava meu rosto e jogava meus longos cabelos cacheados para trás, esvoaçantes balançavam em harmonia e tapavam meu rosto quando eu virava para trás para espiar a distância que eu estava dele... Corria, como se minha salvação dependesse da velocidade dos meus pés e da força de minhas pernas. Já estava escurecendo e minha angústia aumentava a cada passo em falso que dava e tropeçava em alguma pedra solta pela estrada. Não tinha para onde me esconder. De um lado da estrada um abismo com o mar azul escuro aumentando a maré e batendo nas pedras espalhando espuma branca por toda a orla. Do outro lado uma floresta fechada, um labirinto arriscado e misterioso, digamos ser medonho pelos barulhos estranhos que ecoavam a noite toda, chegando até o pequeno vilarejo.

     Mathias, um vilarejo novo, habitado por pescadores e homens das florestas, como assim eram chamados pelos viajantes comerciantes que apareciam por lá. Havia apenas uma rua principal e as casas, todas simples e rústicas, feitas de pedras e forradas com troncos cortados de árvores, unidos harmoniosamente um ao lado do outro, com acabamento de uma cola artesanal que impedia as goteiras e ao mesmo tempo, proporcionava um frescor no interior das casas. A única moradia mais bem-feita e ornamentada era do chefe-guardião, que tudo via, tudo sabia e era obedecido por todos. Era o deus de todos. Tinha o poder de ler os pensamentos, descobrir ovelhas desgarradas, apontar para algum malfeitor, julgá-lo e condená-lo em questão de segundos. O respeito que todos tinham por ele era, na verdade, o medo de descobrirem alguma teimosia ou algum descuido no trato com os animais. Estes eram sagrados. Era um homem alto, com mais de dois metros de altura, forte, cara amarrada, grotesco, de poucas palavras e muitas ações. A ordem no vilarejo era invejada por muitas cidades maiores ao redor, mas quando se tratava de Nêumo, o chefe-guardião, preferiam ficar longe de sua vidência.
   
     O homem me perseguia, eu gritava, mas a voz embargava. Comecei a ficar ofegante e meus passos diminuíram. O homem me alcançou, puxou-me pelos cabelos fazendo com que meu corpo encurvasse para trás. Olhou bem nos meus olhos e sorriu com sarcasmo. Eu cuspia em seu rosto e apertava seus olhos com os polegares e mesmo assim e ele me beijava a boca. Nojo! Limpei meus lábios com o braço, esfregando várias vezes, tentando tirar o gosto de álcool com hálito quente daquela boca carnuda e asquerosa.

      Ele me puxava pelos cabelos arrastando-me pela estrada até chegar num atalho que seguia direto para o farol, que ficava à beira do mar. Este estava bem agitado.

      Naquela época, mais precisamente em 1832, as jovens eram sacrificadas quando não queriam se casar com os homens que as escolhiam. Se revoltavam, se rebelavam, mas de nada adiantava. Acabavam mortas, ou enforcadas, ou lançadas num penhasco que tinha o mar como chão. 

      Era para esse lugar que o homem forte, bonito, mas nojento, vestindo roupas mal cheirosas, cabelos pretos e longos, barbudo e um nariz comprido e pontiagudo que parecia o bico de um papagaio, me levava.

      Me segurava pela cintura com um dos braços, me apoiando em seu corpo fazendo como o que meu pendesse e anulasse qualquer possibilidade dele receber um golpe meu, proporcionando-me liberdade. Eu gritava, mas minha voz continuava embargada; então ele repetia várias vezes, mas sem precisar gritar, para eu ficar quieta. Eu me debatia, tentando me livrar de seus braços, mas a força do homem era infinitamente maior que a minha.

      Ainda me segurando pela cintura subimos a escada em forma de caracol e chegamos ao topo do farol. Grandes janelas nos mostravam o céu com algumas estrelas e alguns raios de sol do outro lado. O mar batia nas pedras e fazia um barulho que penetrava em minha mente, como se me esperasse para o derradeiro mergulho em suas águas geladas e profundas. Sussurrava e lançava gotas até chegarem à janela que me aguardava ansiosa por minha queda. Um vento gelado uivava competindo com o barulho das ondas, entrava pelas janelas e esvoaçava nossos cabelos, quase que entrelaçando-os, num balé de quase fim de ato.

      O homem me levou até uma janela que ficava do lado mais fundo do mar, segurou meu rosto e me mostrou a linda paisagem. Cochichou alguma coisa no meu ouvido, mas que não conseguia
entender, com sua enorme mão me segurando o queixo, virou bruscamente meu  rosto de frente para o seu e mais uma vez me beijou fortemente. Mordi seu lábio inferior que sangrou, então ele se afastou e me deu um tapa no rosto, ainda me segurando firme pela cintura, com seus longos braços entrelaçados. Eu me debatia, mas estava praticamente imóvel e exausta. Ele começou a me xingar, mas eu não conseguia entender nada do que ele dizia. Sabia que estava xingando pela expressão de ódio em seus olhos. Mais uma vez ele segurando  meu rosto, mostrou-me a paisagem que seria a última visão que eu teria. Eu tentava gritar e não conseguia.

      Num movimento rápido, ele me ergueu  e apoiou-me no parapeito da janela. Olhei para baixo e senti vertigem. Gritava, mas era inútil. Mais uma vez ele cochichou algo no meu ouvido e me empurrou para o abismo.

      Neste momento, gritei tão alto que minha voz ecoou. Segundo a segundo eu via aquele homem se distanciando de meus olhos enquanto eu caía. Um frio tomou conta de meu corpo, meus cabelos longos taparam meu rosto antes mesmo de meu corpo tocar o mar agitado. Parecia que a queda não teria fim. Sentia falta de ar, como se minhas narinas estivessem fechadas e meu grito abafado tivesse cortado minha garganta impedindo a saída do ar. Fui caindo e desfalecendo. O barulho do mar era cada vez mais forte, mas já não me importava com a morte. Queria a morte de uma vez por todas. Praticamente já sentia as gotas do mar respingando meu corpo. Abri os braços e me entreguei! Por uma última olhada, de relance vi, na outra janela do farol, Nêumo, com seu olhar frio e calculista. Entendi tudo.

     A Lei cumpriu seu destino. Mais uma desobediente a ser esquecida no vilarejo Mathias. Quanto à força de um homem, um olhar instigante e tudo se acaba. O fim foi consentido e determinado.

     Caia no mar agitado e não fazia questão de sobreviver, nem se houvesse um milagre.




     Clara Lúcia

     

domingo, 2 de dezembro de 2018

Tudo Começa e Termina em Você


"Você se torna responsável por aquilo que cativa", O Pequeno Príncipe. Quem já leu o livro conhece muito bem esse garoto fofo que espalha pureza e amor. Porém essa frase eu nunca concordei.
Há tempos eu me sentia com a consciência pesada por ter feito algo, que pra mim não foi nada demais, apenas uma consequência de algo que tinha acabado, mas pela reação da pessoa envolvida, me sentia culpada. Isso durou anos e anos.
Quem tem a consciência pesada sabe, ou imagina, que prejudicou alguém de alguma forma.
Depois de vários anos reencontrei a pessoa. Queria saber como estava, se havia "sobrevivido" bem ao acorrido e soube que estava tudo bem sim.
Mas a consciência pesada permaneceu até que eu, depois de muitos estudos, análises e conclusões, soube que não é bem por aí esse negócio de responsável pelos sentimentos do outro.
Me colocando no lugar do outro, se alguém fizesse o mesmo que eu fiz, e, claro que já fizeram, simplesmente seguiria minha vida normal. A chateação dura pouco tempo, mas é questão de cultivar o sentimento negativo ou não, de aceitar uma suposta derrota ou não. E nem é derrota, é coisa que acontece sempre, querendo ou não.
Se eu tivesse voltado atrás e seguido à risca a responsabilidade pelo sentimento do outro, certamente a situação teria piorado bastante. Seriam duas pessoas infelizes que seguiriam apenas o ego de crenças impostas, passando por cima do real significado da vida, que é o amor, o respeito a si e ao próximo.
A responsabilidade é individual, o sentimento também, portanto cada um que cuide de seu sentimento e sua responsabilidade por si mesmo. A não ser que sejam filhos, pais ou alguém dependente de nós. Mesmo assim há ressalvas quanto a isso.
Como podemos ser responsáveis por algo que o outro sente? Se é o outro que sente, partiu dele sentir e partirá dele permanecer sentindo ou não.
Tudo começa e termina em nós mesmos.
Desde sempre somos instruídos (educados) a seguir normas e aconselhados a obedecer sob pena de castigo dos céus, de Deus.
Como Deus pode castigar se Ele é puro amor?
Tudo depende de nossas escolhas, nosso livre-arbítrio. E acredite ou não, tudo retorna a nós, inclusive essa responsabilidade aparente em provocar no outro qualquer tipo de sentimento.
Se o outro se sente ofendido ou magoado, significa que a expectativa dele por mim foi errada. Aliás a pior atitude é esperar algo de alguém. Cada um tem uma vida, um ritmo, uma verdade e pronto.
Do mesmo jeito que eu errei em me sentir de consciência pesada. Eu cultivei esse sentimento pensando ter prejudicado uma pessoa e não foi bem assim.
Mesmo sabendo disso, precisei saber quais eram as atitudes da pessoa no dia a dia, como ela encara a vida e as pessoas e fui percebi que o vitimismo sempre esteve presente na vida dela. Sempre os outros são culpados, os outros fizeram, os outros saíram e os outros prejudicaram.
E com certeza todo aquele meu passado me veio à memória, anos com depressão e pânico, sempre culpando os outros pela minha infeliz vida.
Bastou me responsabilizar por todas minhas escolhas, todas minhas atitudes e mudar totalmente meu foco e meus pensamentos pra tudo encaminhar da melhor maneira possível.
Depois de anos com os fantasmas desse fato rondando minha mente, dei o caso por encerrado e me libertei da suposta culpa.
Hoje sei que essa suposta culpa me retornou através de outras pessoas, como se houvesse um aviso num canto da minha mente pra não repetir aquela atitude ou então seria mais uma vez culpada.  Eu atraí tudo isso. E como obedeci minha mente e minha culpa, sofri desnecessariamente.
Mais uma certeza do poder da mente, dos pensamentos, das atitudes, de nossas escolhas e as consequências delas.
Nós escolhemos, nós aceitamos ou não, nós decidimos, nós sentimos, nós agregamos ou soltamos, nós, e ninguém é responsável por isso a não ser nós mesmos.
Cada um tem uma vida, e toda escolha tem retorno certo. A vida cansa de nos mostrar isso e mesmo assim achamos que conosco é diferente... Vai ver a gente veio de outro planeta e o que acontece com a gente não acontece com mais ninguém.
O ego brigando com a realidade...

Clara Lúcia

quinta-feira, 12 de abril de 2018

ME DIGAS COM QUEM ANDAS




Para quem usa as redes sociais, ou mesmo só a internet para pesquisas, sabe do gatilho ligado as nossas escolhas que impulsionam a nós vários links que poderiam nos interessar, de acordo com nosso gostos.
Chega a ser cansativo quando clicamos em algum link e logo depois um turbilhão de informações referentes ao assunto em questão nos aparece como sendo de nosso interesse também.
Às vezes pode ser que sim, mas na maioria das vezes foi só uma consulta que fizemos, nada além disso.
Vamos supor que você tenha um sonho, um plano, uma vontade de fazer algo, mas que acha difícil, mesmo antes de começar.
Qual o problema em ser difícil? Será que as coisas difíceis nunca deverão ser realizadas? Será que é difícil mesmo ou você já criou o hábito de rotular tudo que não faz parte de sua rotina?
Pela lógica, o mais difícil é fazer algo que nosso corpo não consegue fazer. De resto, tudo é possível. É difícil, fácil, tudo depende da intensidade ou do obstáculo que você coloca à frente de tudo que está por vir.
Se você tem, desde criança, um dom, mas que ao longo da vida não deu valor a ele e seguiu uma estrada que desvia desse dom, digo-lhe que mais cedo ou mais tarde esse dom vai bater forte na sua porta, e talvez seja sua segunda chance de ter o sucesso tão almejado.
Lembre-se que sucesso não quer dizer fortuna.
Então, caso esteja disposto a tentar fazer o que realmente sempre quis fazer, então tente!
Se é dom, então terá toda a facilidade em lidar com qualquer coisa, e além disso, acredite, tudo relacionado ao assunto virá até você.
Aquele ditado que diz que "tudo que queremos o Universo conspira a nosso favor" é verdadeiro...
O segredo disso tudo é o foco que você terá em realizar algo na vida. Se há o foco, há o ímã que impulsionará você a conquistar o que almeja.
Nós temos o livre arbítrio, e isso pode ser ótimo e pode ser um desastre também.
Lembre-se de sua infância, das facilidades que você tinha em desempenhar alguma tarefa... E que por influência do meio em que você vivia, deixou de lado, por motivos variados que já conhecemos. O maior motivo sempre foi "isso não dá dinheiro". E talvez tenha dado se você tivesse insistido e persistido no que realmente sabe fazer com facilidade.
Quando sabemos de nosso dom, certamente temos um diferencial de quem não tem o dom para o mesmo quesito. Então, não importa se metade da população já faz o que você sabe fazer com facilidade, seu dom, pois só por você tê-lo, já terá um diferencial, uma pitadinha mágica, uma cerejinha do bolo, e isso fará toda a diferença para seu sucesso.
Acredite nisso, acredite no seu potencial!
Outro ditado que é verdadeiro, "faça o que goste e nunca mais precisará trabalhar".
Quando temos um dom e trabalhamos nele, a satisfação em fazer sempre melhor, em executar com mais capricho e ser diferenciado no mercado, é visível. E isso pode lhe render além do que imaginava, além do que tantas pessoas lhe tiraram de cabeça em seguir seu instinto e vocação. Dependendo da estratégia que você usará, será bem-sucedido também.
Não importa o que seja, se há amor, dedicação, se for sua vocação e tiver uma boa estratégia, olha, o sucesso será garantido.
O mesmo acontece com as pessoas que vivem conosco no dia a dia. Se prestarmos atenção, todas têm um objetivo e muitas vezes são parecidos com os seus. Se você mudar os contatos, talvez seu objetivo também mude, e até seu modo de enxergar o mundo também mude.
Por essa lógica, me diga, qual seu objetivo? Você tem contato com pessoas que têm o mesmo objetivo que você? Não necessariamente o mesmo dom, mas pelo menos o mesmo tipo de conversa, os mesmos lugares frequentados, o mesmo modo de enxergar o mundo e os mesmos valores. Já pensou sobre isso?
Se forem pessoas que têm a curiosidade em aprender, seguir caminhos diferentes do seu, não há problema nenhum, mas quando você opta por seguir uma estrada e quer ter o foco absoluto para que seu objetivo seja alcançado, talvez seja necessário mudar os ares de sua vivência. E é normal isso. Ninguém vai abandonar ninguém, apenas irão seguir estradas diferentes.
Se você passar a ter contato com pessoas que têm a mesma vocação que a sua, certamente alguns deles já passaram por dificuldades e não terão problemas em compartilhar as pedras que encontraram pelo caminho. Quem já atravessou uma estrada e venceu o desafio, sente orgulho em compartilhar a batalha e mostrar a guerra vencida. Isso seria meio caminho andado para quem está no início da trajetória.
Portanto, se você perceber que está fora do contexto com algumas amizades e pretende se aprofundar no que realmente lhe importar, faça isso! Você obterá respostas das pessoas que já trilharam o caminho que você deseja percorrer, e como tem a vocação, você não terá dificuldades em aperfeiçoar o proposto objetivo. Tudo surgirá para você com a maior facilidade, creia, meu querido!
E, vamos pensar, a vida é tão curta e o mundo tão imenso de oportunidades, que não dá para abrir mão de nossos objetivos por essa ou aquela pessoa, afinal qual vida tem maior valor, a sua ou a de quem está com você lhe impedindo de prosseguir para o que você realmente quer? Todas as vidas são importantes. Cada uma deve ter um propósito a seguir, só isso.
Siga o seu, sem remorso!
Isso não é egoísmo... 
O que você acha?

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Quando O Pra Sempre Acaba


Quando temos um amor que ficou no passado, mas que o consideramos o ideal, que não ficamos juntos por culpa do mundo, que cada um foi pro seu lado sem motivo nenhum...
Alguns já devem ter tido esse pensamento, de amor do passado que, provavelmente, teria dado certo se não fosse o "se"...
Há um ditado que diz que tudo que nos pertence junto de nós permanece. Não gosto muito de ditados não, e esse eu acho duvidoso.
Tem um outro ditado que diz que se não deu certo não era pra ser. Também discordo.
Quando queremos algo, claro que lutamos, claro que teremos, independente do "se".
Quando não dá certo, certamente uma das partes não queria, e a outra lamenta por anos a fio a perda da oportunidade de um amor pra sempre.
E se afastam...
Cada um segue sua vida, e, mesmo uma das partes não tendo se esforçado para que tudo acontecesse, ainda crê que aquele amor do passado sobrevive.
E um dia, talvez por conspiração, ou, eu acredito que seja, para resolver essa pendência e continuar seguindo em frente, há o reencontro.
Tudo volta à tona, todas as lembranças, sentimentos não vividos, mas imaginados, sonhados...
E a esperança de renovar aquele amor do passado se faz viva.
E morre logo a seguir.
São outras pessoas, outras vidas, outros assuntos, outros objetivos, outras paixões.
Talvez a maturidade não deu espaço aos sonhos joviais e eternos.
A maturidade é cruel às vezes. Nos priva de sonhar lá na frente, de imaginar a eternidade... A realidade toma conta de tudo e acabamos admitindo que não é bem assim agora.
Agora não dá mais...
E dói...
E dói menos que naquela época da separação por causa do "se". Maturidade ingrata! Por que não permite sonhar lá frente de novo?
Porque naquela época não era amor. Era paixão. E paixão cega todo mundo. E éramos cegos um pelo outro, química absurdamente incontrolável, faíscas nos olhares e borboletas no estômago. Quem nunca?
Tudo bem! A maturidade nos sacode e nos esfrega na cara que podemos ter e ser o que quisermos, mas nem tudo nos é favorável.
Uma palavra mal interpretada e tudo vai por água abaixo.
Será que eu nunca havia prestado atenção nesse detalhe, meu Deus do céu?
Não, naquele tempo havia apenas a jovialidade e fome de viver intensamente tudo que estava ao alcance. E o que não estava, usávamos escada pra alcançar. Simples.
E os pensamentos de uma união nessa fase borbulham e morrem na praia.
Não era pra ser porque nenhum dos dois queria. Não era forte suficiente pra sustentar o sentimento. Nem era sentimento, era juventude. O distante se torna incógnita na vida. E o "se" se fortalece até o reencontro.
Que bom!
Acho que todo mundo deveria resgatar aquela paixão da juventude e constatar que foi melhor assim, que ninguém queria nada, só paixão mesmo, por isso cada um seguiu seu caminho. E o melhor de tudo, está tudo bem como está.
Uma paixão morta. Lembranças boas, vida que segue.
Se assim foi escolhido, tudo bem!

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Quando Chega a Maturidade?

Imagem pertence ao blog Simples e Clara
1 ano

Saudades de quando apenas me preocupava em chegar rápido em casa, ligar a TV e assistir Speed Racer.

Parece que foi ontem, mas estou em contagem regressiva. Não tenho um dia a mais, e sim um dia a menos de vida. Cinquenta e um já, dia 06 de outubro.

Não tem como não se questionar sobre a vida, as coisas, as pessoas, a saúde, o meio em que vive, as dores, as lembranças, as alegrias...

No pacote todo só tenho a agradecer. Apesar de todas as dores, sofrimentos e perdas, estou viva e muito bem, obrigada! Quando olhamos para trás e enxergamos superações, batalhas acabadas, pesos descarregados, sonhos realizados, ou não, o melhor que podemos fazer é agradecer pela dádiva de ter saúde e poder fazer agora, com filhos adultos e muito bem também, o que se tem vontade.

É certo que muitos vão nos achar egoístas, metidos, arrogantes, assim como achavam como éramos jovens, mas a diferença é que isso é tudo uma bobagem... O que tem de mais em sermos egoístas, metidos e arrogantes? Se realmente nos consideramos ser assim, os únicos atingidos somos nós mesmos.

Hoje me dou o luxo de escolher e, principalmente, usar o não como ponto final. Como é poderoso o não na vida da gente!

E o melhor de tudo, usar o sim como a consciência tranquila, sem medo da entrega, do momento desejado, seja ele qual for.

Esta imagem pertence ao blog Simples e Clara
22 anos

Na juventude somos imortais, mas na maturidade somos saudosistas, cuidadosos e medrosos. Sim, costumamos ter medo do desconhecido. Quem nesse mundo não tem uma pontinha de receio da morte? Acho mais medonho o momento dela, e não depois que acontece. Como será a passagem dessa pra melhor? O que sentimos? Dói? O que há do outro lado?

Agora, não é ruim fazer cinquenta. Também não é bom. Eu sendo uma pessoa hiperativa, o corpo nunca acompanha meu raciocínio. Acompanha, mas poderia ser melhor. Acho que faço coisas além do que imaginava fazer quando tinha vinte e dois, como nessa foto acima. Esse foi o dia de minha formatura. Educação Física, que tanto amava. Mas não exerci. Por culpa minha que fui permitindo me podarem as asas pra não voar pra onde sempre quis. Acontece.

Hoje sei, como disse acima, o poder supremo de usar o não. Aos vinte e dois, antes dos vinte e dois, e depois dos vinte dois, eu não sabia que podia o usar o não. É tão mais fácil se calar e fazer o outro sorrir, não é? O que é a vida da gente perante a do outro que tanto amamos? Enfim, depois dos quarenta tive essa resposta. Sim, a minha vida é tão importante quanto a do outro que amamos. Não posso me privar de nada e nem me calar quando algo me perturba ou me faz sofrer, pois isso é prejudicial a mim. Por consequência não serei feliz o suficiente para transmitir essa felicidade a quem está ao meu lado.

O tempo passa, a maturidade vem... Quando chega a maturidade?

Posso voltar a sonhar em lecionar Educação Física? Sim, claro, mas hoje existem outros sonhos, outros planos, outras conquistas, outros valores, outros desejos... Sim, podemos fazer o que quisermos, sempre, a qualquer hora, desde que não interfira na vida do outro. Podemos sim mudar de ideia e começar tudo de novo.

Acho que a maturidade é isso. Viver a vida com leveza, bom humor, rir de si, ter alegrias, satisfações, e saber enfrentar problemas com a mesma garra dos vinte e dois, agora com sabedoria. Sabedoria não só dos livros, mas da vida, repeitar o outro em sua essência. Saber deixar partir e querer que fique por livre e espontânea vontade.

Eu gostaria de voltar aos meus vinte e dois anos, mas com a imaturidade dos vinte e dois. Imagina uma jovem com cabeça saudosista e sabendo de muita coisa que só os maduros sabem? Insuportável! Cada idade tem seu encanto e esse é o segredo da vida, cada fase a seu tempo, cada tempo sua história, cada história um aprendizado...

É isso.

Parabéns pra mim!
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50 anos
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sexta-feira, 8 de julho de 2016

A Vulnerabilidade De Quem Ama


Ainda recebo e-mails de mulheres que sofrem por amor, que mantém uma relação doentia, que não sabem como agir, que aguentam maus tratos em nome do amor, e outras até com pedido de socorro, pois se sentem tão inúteis que não conseguem pensar num modo de sair de um relacionamento doentio. E o pior, há ainda quem acredite que o(a) parceiro(a) mudará, caso ele(a) ajude com um tratamento médico.

Triste constatação. Este texto Amor Psicopata ainda é o mais lido e todos os dias é acessado.

Depois da notícia de Bianca Toledo (não colocarei link aqui) sobre seu relacionamento com um psicopata, talvez muitas outras mulheres a tomem como exemplo e se sintam fortalecidas a colocar um ponto final num relacionamento doentio.

O amor tem esse deslize de nos fazer vulneráveis a aceitar o que se torna doentio e até fatal.

O sonho, a construção de um castelo imaginário com um príncipe dentro dele ainda é muito poderoso pra algumas mulheres. 

Quem não ficaria feliz e completamente apaixonada por conhecer um homem cativante, sedutor e que transmita toda a segurança que se quer? Ainda não sei qual é a essa segurança e proteção que muitas buscam, mas cada uma tem suas fraquezas.

O medo de perder, desapegar, deixar ir, livrar-se do que lhe faz mal ainda é um grande empecilho. E não são só homens não, existem mulheres psicopatas também. Invertem a situação e convencem com tanta categoria que dificilmente são desmascarados no primeiro instante.

A grande característica de quem tem esse desvio de caráter é a total falta de sentimentos e a grande capacidade de manipulação. Terrível!

Mas há também o obsessor, o possuidor, o dono da situação, aquele que guarda sua presa a sete chaves. E a mulher permanece no cativeiro, com o sonho que um dia tudo mude e que o príncipe que virou sapo volte a ser príncipe. Sonham com o amor eterno, cuidador, protetor e a hipótese de abandonar tudo isso seria como a morte solitária, onde nunca mais o coração aceleraria por uma outra pessoa e os olhos não mais brilhariam. Aquele amor que começaria do nada e não terminaria nunca mais. 

Não é culpa de quem ama não perceber que o outro é possessivo, obsessivo, psicopata. Quem agride é que está fora da normalidade. Não é trouxa quem acredita, confia, abre mão de algumas coisas em nome da união; trouxa é quem não valoriza o companheirismo. Não é o mais esperto quem tem a capacidade de manipulação. O mais esperto é aquele que sabe que existem pessoas tão espertas quanto ele e que um dia a máscara cai. Portanto, se há algo errado, se houve mudanças, se há sofrimento, cárcere, agressão moral ou física, ah, isso não é amor.

Não são só os sonhadores que caem na lábia dos doentios. Os que amam podem ser presas fáceis. Qualquer pessoa pode se tornar vulnerável nas mãos de um psicopata. A diferença é a hora de dizer não e romper essa corrente de manipulação.

Não tenha medo de mudanças, não tenha receio de ficar só, não creia que nunca mais será amado, não aceite menos do que mereça... O que você merece?

O ser humano é carregado de emoções e o amor vem e vai várias vezes durante a vida. E talvez o amor eterno seja aquele não vivido, não correspondido, carimbado do "se", eternamente "e se...".

E, graças a Deus, a maioria ama e é amado!


quarta-feira, 23 de março de 2016

Um Novo Tempo


Nesses tempos difíceis que o Brasil se encontra, um respiro pra desejar uma Feliz Páscoa a todos, e que as bênçãos de Jesus habite cada coração, principalmente aqueles machucados ou inconformados.

Há uma disputa de opiniões, divisões políticas, guerras de palavras, achismos desnecessários, injustiças e a famosa cegueira momentânea.

Espero que tudo se resolva da melhor forma possível e, de preferência, o bem sobressaia o mal, o justo tenha humildade e que nenhum ser humano seja endeusado ou glorificado. Estamos no mesmo patamar, meu caro, nem mais, nem menos.

Mesmo que o final agrade só a uma parcela, não devemos nos esquecer que a vida é breve e o retorno vem a jato. O Universo não sabe se nossos atos são bons ou ruins, portanto nos é devolvido o que lançamos ao vento.

O julgamento quem nos fará será o Altíssimo, ninguém mais.

Não sabemos o que tem do outro lado, ou se há o outro lado da vida, e nosso livre arbítrio, às vezes, é traiçoeiro.

Quem crê, quem tem fé, quem se entrega a Deus, amém! E que Ele seja misericordioso aos que se acham imortais e indestrutíveis.

Está tudo muito triste e talvez o fim, aquele que tanto almejamos, demore anos, ou centenas deles, ou quem sabe nem virá, mas o importante é termos discernimento de não julgar e nem agredir quem não compactua com nossa opinião. Afinal somos únicos e é totalmente saudável divergir um do outro.

Respeito, paz e amor!

Uma Feliz Páscoa a todos!

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Depois de Ontem

Doce ilusão...


      Três anos se passaram... 

      Joana, magra como uma modelo internacional, mudou de emprego, de casa, o corte do cabelo, mas continuava a mesma romântica de sempre. Vez ou outra se envolvia com algum rapaz, mas o receio de sofrer tudo de novo, de ter que se enfrentar no espelho e encharcar o travesseiro de lamentos e lágrimas, fazia com que interrompesse antes mesmo do coração bater mais forte ou uma pontinha de saudade cutucar seu ombro. 

        "Três anos já e parece que foi ontem...", pensava...

     Não se recordava de detalhes do rosto do ex, aquele destruidor de castelos de sonhos... Achou estranho e foi procurar alguma pista em seus guardados para não sofrer de ansiedade. Uma caixa, que estava guardada bem no fundo do armário de roupas, escondia poemas, frases, gravações em áudio e uma foto. Uma única foto para recordar.

      Colocou a caixa sobre a cama e ficou um bom tempo pensando. Não sentia vontade de chorar e, de olhos fechados, foi se lembrando dos bons tempos, das alegrias, dos risos, dos abraços apertados, dos beijos quentes e do carinho e cuidado que ele proporcionou a ela no tempo em que estavam juntos.

      Nem uma lembrança ruim... Sentiu-se aliviada e talvez seria esse o dia de colocar tudo num túmulo e seguir em frente, abrir o coração e deixar que um novo amor floresça e permaneça pelo tempo que tiver que ser. Nem mais nem menos.

      Abriu a caixa e, papel por papel era recebido com um sorriso nos lábios. Bem no fundo enxergou a ponta da foto. A curiosidade não foi suficiente para pegá-la de imediato. Ainda folha por folha, frase por frase, uma caixinha em veludo preto a fez recordar que o romance interrompido havia sido bem mais intenso do que a dor do término. Abriu e pegou o anel em ouro branco com uma pedra de cristal enorme, um solitário. Lindo! Colocou-o no dedo anular e ficou por um tempo admirando seu brilho e imponência majestosa. Olhou as unhas e lembrou-se de arrumá-las ainda naquele dia. Colocou o anel na caixa e esta sobre a cômoda. Usaria ele ainda na semana. 

      Uma das folhas continha uma poesia, a primeira feita por ele. Cada palavra minuciosamente encaixada numa frase pequena, mas de grande efeito. Não sentiu raiva ao ler cada estrofe. Pensava que quando tivesse a coragem de abrir a caixa choraria ou sofreria. Sentiu ternura, carinho e boas recordações. 

      Cada bilhetinho, papel de chocolate, sabonete do hotel, tudo guardado. Um amor que era para sempre coube numa caixa. Pegou a foto.

      "Nossa, continua lindo e charmoso!", disse em voz baixa, como se tivesse receio de alguém ouvir e deduzir que teve uma recaída. Deitou na cama e apertou a foto em seu peito, fechou os olhos e uma lágrima rolou pela lateral do rosto alcançando o colchão. Respirou fundo e o choro veio, incontrolável. Talvez o último desse romance, a despedida final de um tempo que não voltaria mais. Uma última olhada na foto antes de rasgá-la. Depois de pensar por uns minutos achou melhor queimá-la e acabar com tudo de una vez, E foi o que fez. Joana, mais madura, pensou que toda aquela dor e sofrimento por causa de um relacionamento tenha sido desnecessário. Nem foi o relacionamento que a deixou arrasada, mas os sonhos interrompidos, os planos, filhos, casa decorada, vida a dois, tudo o que se planeja quando se tem a certeza de encontrar a alma gêmea, um companheiro que valha a pena compartilhar o resto de vida, ignorando que contos de fada são apenas contos de fada, que príncipes têm defeitos e que princesas são chatas demais para merecer só felicidade. Além do mais, uma vida sem conflito e diferenças se tornaria um tédio para os dois. Quem aguentaria uma rotina onde se sabe exatamente o que o outro pensa ou que atitude terá no próximo dia ou no próximo problema? "Ainda bem que acabou", pensou aliviada. "Tanta coisa pra eu fazer e ficar à mercê de um relacionamento que se tornaria a única opção pra mulher? Meu caro ex, que seja muito feliz, esteja aonde estiver, e que nunca se esqueça de mim e do que vivemos de bom.", concluiu, aliviada.

      Voltou ao quarto, colocou o anel no dedo novamente, suspirou e começou a procurar uma roupa que combinasse com ele. Um preto básico talvez, um scarpin de salto médio, brincos com a mesma pedra brilhante, cabelos soltos, perfume francês e só faltava escolher o local para desfilar um recomeço a partir daquele dia.

      Junto com a caixa do anel, que estava sobre a cômoda, um cartão de visitas. Rosemberg... Um telefonema e um jantar marcado. Rosemberg era professor universitário e conhecera Joana numa lanchonete que ficava próxima à Universidade. Ela trabalhava em um escritório de advocacia  que ficava ao lado, e vez ou outra tomava um café no meio da tarde. Rosemberg era charmoso, grisalho, estatura mediana e muito, muito perfumado. Esse foi o motivo de chamar sua atenção. Começaram a se olhar, depois um sorriso, um cumprimento e logo já estavam marcando o café no mesmo horário, no próximo dia. 

      Uma boa hora para recomeçar um romance ou então firmar uma amizade. Sem pressa, sem sonhos, sem castelos, sem romantismo... Apenas um dia de cada vez, como deveria ter sido sempre. Ou então na primeira oportunidade Joana se jogaria em seus braços e se perderia, como sempre fazia... O que importava? A vida é feita de momentos e nada dura para sempre. Se estiver bom, que seja muito bom enquanto durar. Se acabar, que acabe! E tudo continuará, como sempre continuou. Lágrimas virão, choros, lamentos, risadas, alegrias, emoções, afinal a vida é um turbilhão de sentimentos e assim que deve ser sempre.

                                                                                                                                                             Fim

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Morreu Abreu


      Comoção no bairro, anúncio na rádio, alvoroço dos parentes e amigos: morreu Abreu. Estava trabalhando normalmente em seu pequeno comércio de secos e molhados, quando de repente caiu morto. Infarto fulminante. Tão novo e forte, mas não suportou essa rasteira traiçoeira.

      Muito querido por todos, sempre bom samaritano no quesito ajudar o próximo, não importando qual o próximo, desde que não seja os próximos de dentro de sua casa. Isso mesmo, mulher e filhos sempre ficavam em último lugar na lista de distribuição do sustento.

      Maria Emília, a viúva, casou-se por imposição dos pais, pois um dia pegou-os atarracados e com a braguilha da calça de Abreu aberta. Foi o cúmulo da indecência! Cidade pequena, já viu, não é? Seu Arnaldo, seu pai, preferia a morte do que ver a filha mal-falada na cidade. Cair na boca do povo era um crime bárbaro em seu conceito de pai de família e religioso ao extremo. Só beijou sua esposa, Dona Filomena mãe de Maria Emília, depois de casados. E sexo, só no escuro, com todo o respeito.

      Parecia carma de família, pois o pai de Maria Emília era grosseiro, tosco, estúpido, assim como seu marido, agora morto, Abreu. Pareciam pai e filho por se parecerem tanto e nos mínimos detalhes.

      Bem, mas agora Abreu era morto e nem sequer uma lágrima escorrera do lindo rosto, prestes a enrugar, de Maria Emília. Vestiu-se de preto, como manda os costumes, e de cara limpa, sem maquiagem, foi velar o corpo do defunto seu marido. Para disfarçar sua indiferença, um pouco de sombra escura em baixo dos olhos, como uma panda com insônia, ornava o quadro triste do velório no clube municipal da cidade.

      À medida em que ia se aprontando, lembranças visitavam sua mente. Não se lembrava quando fora o último beijo na boca recebido do marido. Era besteira e coisa de namorado, dizia ele, seco. Sexo, menos de cinco minutos e tudo estava resolvido. Não sabia nada dele, de seus amigos, seus risos, suas satisfações, nada! E ele, muito menos se interessava por conversas caseiras da mulher. Se estivesse tudo pronto e limpo, não passava de obrigação.

      Seus filhos, dois, Abmael e Abjeison, ainda eram pequenos e nada entendiam. Respeitavam Abreu por medo e não por amor. Não iriam ao velório por decisão da mãe, que agora tinha pátrio poder nas decisões que quisesse, a hora que quisesse. Abreu morreu e era sabido que um gordo seguro de vida esperava para ser sacado. Precisou morrer para dar conforto à família. Maria Emília sabia que os parentes viriam como urubus, esperando uma boquinha livre nesse seguro. Mas, apesar de quieta, sabia se defender muito bem. Não queria conversa com ninguém e o que Abreu já havia ajudado a todos era o suficiente para não perturbá-la mais. Cortaria relações, pela raiz, para poder finalmente ter sossego e poder falar de seus sonhos, suas vontades, seus desejos... E se Deus permitisse, não ficaria viúva por muito tempo. Logo mudaria seu estado civil para casada, ou seja, muito bem casada. Com quem? Com quem ela escolhesse.

      Ainda se olhando no espelho e fazendo caras e bocas para a encenação cadavérica de viúva sofredora e solitária, resolveu passar um perfume doce. E muito doce para que não a abraçassem tanto. Queria ficar quieta num canto, sem conversar e sem entrar na hipocrisia de transformar Abreu num santo. A essa hora já o endeusavam pelos quatro cantos da cidade. Como voam as notícias!

      Um irmão de Abreu ficou encarregado de levar Maria Emília até o velório. No caminho, vendo todo aquele verde das árvores e o colorido das fachadas das lojas, ela planejava sua vida. Trocaria suas roupas sóbrias e seus sapatos de saltos baixos, por cores, ousadias e sensualidades.

      Queria voltar no tempo, naquele portão de sua casa, onde há cinco anos, pelo entusiasmo de Abreu que cobria-a de beijos e desejos, promessas e loucuras, e continuar aqueles sonhos, sem ser interrompida por seu pai. Queria abrir a braguilha da calça de seu próximo namorado e continuar ali mesmo, o prazer interrompido. Mas antes viajaria com seus filhos, para a praia, pegar conchinhas e tomar batida de maracujá. Fazer castelos de areia e depois desmanchar com os pés, correr até as ondas e voltar correndo, antes que alcançassem seus pés. Queria viver, rir, gargalhar, comer e se lambuzar um cachorro-quente vendido na barraquinha que ficava no centro da cidade. O aroma invadia-lhe as narinas todas as vezes que iam à missa. Seus filhos chegavam a babar, mas Abreu não permitia certas regalias, pois nem era comida de gente.

      Chegaram. Na porta, Maria Emília parou por um momento, olhou em todos, abaixou a cabeça e foi até o caixão. Passou as mãos no rosto pálido de Abreu, depois nas mãos que seguravam um terço, puxou uma cadeira e ali permaneceu, de cabeça baixa, até a hora do enterro. Sensação de missão cumprida, obediência e infelicidade. Olhou em sua mão esquerda e as duas alianças no dedo anular ofuscavam-lhe a vista. Seriam guardadas como única recordação de um casamento imposto. Cumpriu todo o protocolo de boa viúva de um santo homem.

      Descanse em paz, Abreu, porque agora é hora de viver, pensou Maria Emília.

      Fim.  

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

E Se Um Dia...


E se um dia, quando acordássemos, tudo estivesse diferente e coisas estranhas começassem a acontecer?

Você abriria a porta da rua e veria seus sonhos se realizando ali, na sua frente!

E mais outro sonho, e mais outro, mais outro... Tantos sonhos sonhados e agora realizados...

O que você faria?

Mas teria uma única condição: sair da zona de conforto, abandonar tudo e seguir os sonhos, todos eles juntos, de uma só vez.

Sonhos impossíveis lhe chamando e quase lhe puxando pelas mãos... Sonhos caros, milionários, sonhos saudáveis e até pervertidos. Sonhos de nunca mais ter que lidar com pessoas específicas, sonhos de estar sempre, eternamente, com outras pessoas específicas. Sonho da imortalidade, sonho da riqueza, luxúria, fama, sonho de inteligência, sonho da perfeição...

Você teria uma única chance de olhar para trás, se despedir, desapegar e ir ao encontro dos sonhos. E nem seria preciso lutar para conquistá-los. Estariam prontos.

O que fariam?

E se um desses sonhos fosse começar tudo de novo? Sabendo das consequências futuras e do final de cada história, fazer tudo de novo e ter um outro ponto final?

O que fariam?

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Bom fim de semana. Reflitam no domingo e votem conscientes. Talvez o futuro bom esteja começando agora. Quem sabe?




sexta-feira, 27 de junho de 2014

Insônia


Já fiquei dias e dias acordada, rolando na cama de olhos fechados, mas acordada. E via o relógio funcionar segundo a segundo até amanhecer. Um horror!

Ainda hoje guardo os resquícios de depressão e a insônia me faz lembrar de vez em quando que a noite é longa, muito longa.

Tenho meu ritual: um banho morno, cama confortável, música, e uma fresta de luz no quarto. Fecho os olhos e fico quieta, sem pensar em nada. Às vezes funciona, às vezes não.

Tem dias que não consigo não pensar em nada. Se me deito pensando em algo é quase certeza de que terei poucas horas de sono. Me rendo às músicas calmas, tranquilas, como gosto, e me esqueço do que aconteceu ou do que provavelmente acontecerá. Deito de lado, abraço meu travesseiro e relaxo... A partir deste momento não me levanto por nada durante a noite toda. Caso eu acorde e me levante, não durmo mais. Sem falar que odeio me levantar durante a noite.

Cheguei à conclusão de que preciso de cinco ou seis horas de sono para acordar bem. Nada mais que isso. E nem consigo dormir mais que isso.

Em noites de insonia meu corpo dói... De ficar rolando de um lado para o outro, de ficar abraçando o travesseiro, de ficar de bruços, de ficar pensando, pensando, pensando... E o pouco que durmo acordo com o corpo mais dolorido ainda.

Nossa mente acaba sendo um complô e nem sempre conseguimos dominá-la.

Quando tenho a sorte de dormir na primeira fechada de olhos e quando é dia de insônia acordo sempre por volta das três da madrugada. Na rádio que deixo ligada a noite toda ouço a Voz do Brasil. Alguém se lembra? Alguém em sã consciência já ouviu esse programa obrigatório na rádio? Então, eu já.

Há uns tempos eu tinha TV no quarto, mas não tenho mais. Só o rádio me basta e tem que ficar ligado a noite toda. Acho que é por isso que não consigo ficar sem música. O cérebro já se acostumou com ela.

Sem falar que silêncio absoluto e escuridão me travam. Me lembro de uma infeliz noite em que acabou a energia e eu acordei. Escuro total e silêncio... Já "ouviram" o silêncio? Medonho! Não consigo achar outra palavra, é medonho! Travei de uma maneira que não conseguia me mexer e mal respirava. Suei frio, olhos arregalados tentando achar um fiapo de luz em algum lugar, taquicardia, pavor... Pavor! Deve ter passado várias noites até ter coragem de, finalmente, me levantar e ir até o banheiro onde o vitrô com certeza me daria alguma visão de luz vinda da Lua ou das estrelas. Quando abri a porta do banheiro a luz voltou... Respirei aliviada, corri na cozinha e peguei vela, fósforo e uma xícara pequena para servir de apoio para a vela. Desde então esse é meu arsenal de sobrevivência noturna, caso a luz fuja de meu controle. Só abrir a gaveta do criado-mudo e pegar meu kit de luz. E tem também meu celular, aliás dois celulares e um ipod que ficam do meu lado. Só pressionar um botãozinho e a luz aparece. Então não será por falta de luz que vou ter aquele pavor novamente.

Parece brincadeira, palhaçada ou coisa de gente medrosa. Pode ser que sim, mas ainda não consegui dominar esse pavor. Quem sabe com o tempo eu consiga encarar a escuridão apagando e acendendo a luz e tendo a certeza de que tudo está devidamente no seu lugar e que ninguém estranho invadiu meu quarto para respirar perto de mim. Um horror!

Um dia de cada vez, com pensamentos bons, orações de agradecimento, kit de sobrevivência, música, fresta de luz, aliás duas frestas de luz para garantir uma visão perfeita de tudo que há no meu quarto e uma esperança de uma longa noite tranquila. Depois acordar, me olhar no espelho e agradecer mais uma vez pela tranquilidade da noite, pelos bons sonhos... Ah, sim, sem falar dos pesadelos que tenho... Mas vamos deixar isso para lá. Focar no bom, no tranquilo... Sempre! Até a noite seguinte, como agora que estou acabando de escrever e já vou me recolher.

Boa noite então, bom dia para quem vai ler de dia, bom fim de semana e bons pensamentos sempre!


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Linhas Tortas


      "Hoje vou te buscar", disse Henrique, num telefonema rápido para Luiza, "E não tenho horas para te devolver", brincou, fazendo com que Luiza desse um sorriso e o coração acelerasse.

      Na hora combinada ele estava lá, com o mesmo sorriso canalha de sempre, dizendo com os olhos que a noite prometia... Uma noite que sol nenhum iria interromper. Luiza gostava disso e concordava. Não precisavam dizer palavras... Olhares se encontravam e corpos se reconheciam, como uma segunda pele, arrepiando a cada toque... Bocas se achavam e se fartavam num terno beijo molhado, intenso depois de alguns segundos à medida em que as mãos exploravam um ao outro.

      Alguns minutos e já estavam despidos. Luiza deitava e Henrique por cima enchendo-a de beijos, de toques sutis, até se encaixarem e se perderem na noite... Sem horas para se devolverem ao mundo real...

      Mas o mundo real, teimoso e cruel, bateu à porta e os separou. Hora do príncipe montar em seu cavalo e da princesa voltar para a torre do castelo.

      Se perderam no caminho de volta e outras bocas encontraram. Outros arrepios, outros toques, outras vidas...

      Com remorso de tanta crueldade o mundo real conspirou e fez com que Henrique e Luiza se reencontrassem. Os olhos se reconheceram, a pele arrepiou, as bocas secaram esperando uma gota de vida uma da outra... Mas muito tempo havia se passado e nada mais sabiam um do outro. Os olhos contavam tudo mas a boca se calou... O coração batia acelerado e mesmo assim um não ouviu o outro. Luiza estava doente, por falta de amor, e Henrique estava com a outra que ele encontrara pelo caminho perdido...

      Se despediram e se foram, cada um para sua vida, levando aquele olhar e as lembranças da melhor noite que já tiveram... Passado...

      Luiza, por querer o bem, fugia de Henrique quando sentia sua presença em algum lugar, por medo de não resistir àquele olhar que tudo contava, mas que estava com outra pele ao lado. Fugia e seus pensamentos ficavam...

      Inconformado, o mundo real conspirou mais uma vez e fez os olhos se reencontrarem... Luiza, radiante, não mais sofria por falta de amor... Queria vida, queria continuar vivendo a partir daquele dia, daquela noite eterna... Henrique não estava pronto. Fazia que ia e não ia... Medo... O passado estava longe e mesmo assim parecia tão perto... Ontem mesmo se perdeu nos braços de Luiza. Será que os braços seriam os mesmos? E essa boca do meu lado, quem irá beijar a não ser a minha? Dúvidas...

      Luiza esperava, mas sabia que o passado não voltaria... Estava muito distante... Tantas águas rolaram, tantas noites infinitas já amanheceram e aquela noite eterna nem era tão eterna assim.

      Se não era para ser por que os olhos se reencontraram? E por que as bocas continuaram secas, sedentas uma pela outra? E por que o medo dos corpos se tocarem e não conseguirem mais se separar venceu a vontade de voltarem no tempo?

      Não era para ser...

      Luiza, não querendo mais saber de carruagem, caminhou sem olhar para trás, levando consigo por toda a vida, aquela eterna noite que ainda não amanheceu.

      Henrique... Não era para ser...

      Fim.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Amigo Imaginário de Melissa Jones


Primeira blogagem coletiva do ano! Blog Café entre amigos.
Vamos participar? Cliquem no link!

      Tagarela! Era como Mary descrevia a pequena Melissa. Não sabia onde arrumava tanto assunto para conversar... Sozinha! Quando juntavam as amiguinhas da vizinhança não era tão faladeira como quando estava sozinha. Para Mary era normal, afinal de contas criança dá asas à imaginação e cria personagens imaginários. Se lembra que tinha um também, Pop, como o chamava. Não o via, mas o ouvia sempre que estava sozinha em seu quarto ou no vasto quintal da fazenda onde fora criada. De certo Melissa puxara esse seu lado sonhador e criativo.

      Mesmo antes de se levantar, Melissa já começa um papo alucinante e dava gargalhadas como se seu amigo imaginário fizesse palhaçadas. Mary ria junto, no outro cômodo, e logo ia até o quarto da pequena ver o que se passava. A menina, toda descabelada, sentada na cama, com os olhos brilhantes respondia que era muito engraçado... Mary abraçava-a, pegava-o no colo e com um beijo na bochecha lhe desejava um bom dia. Era sua pequena, seu bebê, seu mimo, sua boneca de verdade, amada e abençoada.

      Um dia Melissa acordou chorando. Mary não entendeu e foi logo ver o que se passava. A menina estava deitada no chão, olhando para debaixo da cama, inconformada.

      - Cadê ele, mãe? - perguntava, aos soluços

      - Ele quem, querida? -

      - O Pop, mãe, cadê ele que não veio hoje? - perguntou, olhando mais uma vez debaixo da cama.

      Mary arrepiou... Ficou paralisada... Não conseguia consolar Melissa e muito menos olhar debaixo da cama para ajudar a filha.

      Respirou fundo, pegou Melissa no colo e abraçou-a forte. Acariciava seus cachos despenteados e chorou junto com a filha.

      A infância lhe voltou à memória. Fechou os olhos e se lembrou que foi exatamente assim que Pop, seu Pop, desapareceu. Sem mais nem menos. Simplesmente não apareceu nunca mais.

      Se sentou na cama e começou a conversar com a filha. Lhe fez muitas perguntas e não teve as respostas que queria ouvir. Melissa só sabia dizer que Pop foi embora e ficava perguntando porque ele tinha ido embora. Sem saber o que responder Mary consolava a filha dizendo que Pop teve que viajar e que um dia voltaria, talvez quando ela já estivesse grande, do tamanho dela. Melissa chorava ainda mais, inconformada, dizendo que não, que ele não tinha ido embora não. Mary abraçou a filha e ficou com ela no colo até que se acalmasse.

      Ficava lhe perguntando quem seria Pop que antes era seu amigo e agora brincava com sua Melissa. Tinha a mesma idade da pequena quando ele a abandonou. Se lembrou também de sua avó que sempre contava histórias e dizia que crianças enxergam as almas até completarem sete anos. Mas que alma seria Pop? Por que perseguia sua família? Não perseguia... Emendava Mary, apenas brincava comigo e agora com minha Melissa.

      Não tinha como saber, mas sentiu muito a falta de Pop quando este a deixou e nunca mais voltou. Sua mãe não acreditava e achava besteira, por isso Mary tanto sofreu com a falta do amigo imaginário. Mas por que Melissa conseguia vê-lo e ela não? Um dom sobrenatural da menina? Para quem perguntaria?

      Apesar da imensa curiosidade isso agora não tinha importância... Boas recordações tinha do amigo invisível, que fazia-a gargalhar até fazer xixi na calcinha e sua mãe lhe dar bronca dizendo que já era mocinha e que não podia mais fazer isso. Melissa gargalhava como ela e também fazia xixi na calcinha de vez em quando. A diferença é que Mary não implicava com sua bebê. Era uma criança feliz, sadia, inteligente, esperta e que tinha os cachos mais lindos do mundo! Seu avô, agora falecido, vivia dizendo que ia cortar um cachinho e guardar de lembrança. Ela sorria e corria para se esconder. Como dar bronca numa pessoinha tão doce assim?

      Mary chorou junto com Melissa... Lamentou não ter descoberto o segredo antes, enquanto Pop estava por perto. Poderia brincar junto, os três, e gargalhar até dar nó na barriga...

      No dia seguinte seria o aniversário de Melissa Jones, uma alegria para tentar encobrir a tristeza de perder o amigo especial que era só dela. Quer dizer, só dela e de sua mãe. Esse segredo seria revelado mais tarde, quando Melissa ficasse maior e pudesse compreender os mistérios que muitos não entendiam. E terão um segredo para compartilhar por toda a vida, só delas, sem que ninguém se intrometesse ou desacreditasse. Sim, eram as amigas de Pop. A curiosidade aumentaria e Mary, com certeza, perguntaria como era Pop, pois só Melissa o vira.

      Fim.

     

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Rabit


Participando da Blogagem Coletiva do Blog A Vitrine dos Sonhos - 1ª Edição - Era Uma Vez.
Quem vem junto? Gostam de contar histórias?

      Era uma vez, uma menina que vivia no Castelo Mindus, em Jordão, um pequeno vilarejo.  Rabit era uma menina tímida, filha de uma mucama que ajudava a princesa Sophia, filha da rainha Ester. O rei, Leopoldo, havia falecido há pouco e como não tinham filhos homens, Sophia era a responsável pela boa ordem no Vilarejo.

      Rabit vivia pelos cantos, espiando todos os passos de Sophia e ficava imitando-a nos trejeitos, andando nas pontas dos pés, como se estivesse de salto alto. Pegava uns trapos e amarrava-os na cintura, imitando vários saiotes, como os de Sophia. Com uns restos de pergaminho, recortou com todo o cuidado, colou pedrinhas e fez uma coroa, que colocava majestosamente em sua cabeça e desfilava pelos corredores vazios do Castelo Mindus. Não podia ser vista, pois temia represália de sua mãe.

      Rabit cresceu, ficou linda e aprendeu a ler e a escrever. Porém, não tinha recursos para ter roupas e sapatos maravilhosos e brilhantes como os de Sophia. Continuava observando a princesa, pelos cantos, e imitava-a, toda orgulhosa. Seus cabelos ruivos e cacheados caíam majestosos sobre os ombros, descendo como cascata até à cintura, como se fossem molas se abrindo e fechando. Ainda tinha a coroa feita com pedaços de pergaminho, que guardava com todo o cuidado num lugar secreto.

      Um dia, Sophia percebendo o olhar curioso de Rabit, chamou-a até seu quarto, abriu seu armário, tirou alguns vestidos e deu-os a ela. Depois pegou um par de sapatos de salto alto, todo cravejado de pedras brilhantes e também deu-o para Rabit. Ela não aceitou, claro, mas seus olhos brilharam tanto ou mais do que aquelas pedras. Inconformada pela desfeita, chamou a mãe da moça, sua mucama, e disse que aceitasse as roupas, como presente, para Rabit. A mãe sem jeito, sempre de cabeça baixa, também disse que não podia aceitar, pois eram roupas caras e sua Rabit não tinha o costume de usar tanto luxo. Sophia juntou tudo e colocou nos braços de Rabit e disse que era presente e não podia recusar, pois era a princesa do castelo.

      Rabit e sua mãe, encantadas, saíram do quarto de Sophia, mal fecharam a porta e correram para os aposentos da mucama. Rapidamente Rabit se despiu e experimentou um a um os vestidos e colocou os sapatos brilhantes.

      Como não tinha o costume de usar saltos andou com dificuldade, mas depois de muitos treinos conseguiu desfilar elegantemente nos corredores vazios do castelo. A coroa não mais lhe cabia, o que a deixou triste, mas as roupas lhe fizeram formosa, e os sapatos lhe levavam às alturas. Imponente, linda e bem-vestida. Estava pronta para frequentar os bailes do Castelo Mindus e arrumar um pretendente. Já estava na idade de formar sua própria família.

      E foi o que aconteceu, Rabit foi ao baile, muitos olhos curiosos querendo saber quem era a moça ruiva com cachos em forma de cascata e logo foi cortejada por um príncipe de um outro vilarejo. Se encantaram um pelo outro, se casaram e Rabit foi ser a princesa do Castelo de Duane, com seu príncipe encantado.

      O Castelo de Duane não era tão formoso como o de Sophia, nem tinha corredores desertos e nem centenas de quartos ou salão de festas. Rabit não teria o luxo de ter sua mucama e nem condições de encher os aposentos com lindos vestidos e sapatos brilhantes, mas Robert, seu príncipe, era um príncipe apaixonado e tratava-a como como uma rainha. E viveram felizes para sempre.

      Fim.