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domingo, 12 de dezembro de 2021

Podemos parar por aqui!

 


Li na internet, numa página de depoimentos, relatos de crianças que foram abusadas por quem deveria cuidar e proteger.

Isso é recente, as crianças são jovens nos dias de hoje e carregam muita culpa por terem passado por essa situação.

Isso ainda acontece, infelizmente.

E ainda acontecem comentários criticando "mas porque falar só agora e não quando aconteceu?"

Será que uma criança ou uma adolescente tem maturidade suficiente para concluir que um adulto, que deveria proteger, faria ela pensar que é assim mesmo e que seria segredo e teria que ser guardado a sete chaves? Ainda por cima ser ameaçada?

Mães completamente despreparadas e também cheias de traumas, lutando pra sobreviver e dependente de um provedor, como lidar com uma situação dessa?

Acho que não cabe julgar.

E o homem criado como durão, machão, pegador, que vive repetindo que mulher nervosa precisa de um ***u... E filhos desses homens ouvindo essa repetição e, claro, tomando como exemplo de bravura por ser homem...

Se formos perguntar pra todas a mulheres, e homens também, claro, se sofreram abuso e até estu**** na infância e adolescência, a maioria irá confirmar.

Estamos em plena Revolução Digital e o acesso a tudo está pra todos. E os relatos sofridos de mães, pais, filhos também estão à disposição pra quem quiser ler.

Não cabe julgar ninguém, pois existe uma história por trás de cada um.

Cabe cuidar das crianças desde o nascimento, e acompanhar sua evolução até quando for possível, cabe cuidar dos meninos e educá-los no respeito a si e aos outros.

Cabe espalhar pela internet que abuso não é normal e não deve ser aceitável, que pode denunciar, gritar e enfrentar quem quer que seja pra preservar sua integridade.

É um conjunto de atitudes que devemos ter, principalmente acolher, de um jeito ou de outro, quem está vulnerável ainda. E acredite, são muitos vulneráveis ainda.

É triste ler os depoimentos e pior ainda ler os comentários de mulheres criticando mulheres, por elas terem permitido, independente da idade, julgam por não terem contado pras mães... Elas contaram, e foram julgadas como mentirosas pelas próprias mães...

Há uma inversão de valores onde quem é vítima é o culpado e o outro, aproveitador, abusador, malandro ou seja lá o que for, é o esperto, o inocente, nem é citado numa conversa dessa. É triste.

Meus queridos que estão lendo e se identificando, saibam que a culpa não é de vocês. Quem prejudica, abusa, toca, agride é sempre o culpado, sempre.

A consequência na vida adulta é se tornar uma pessoa insegura, medrosa, de não saber lidar ou viver um relacionamento amoroso, não sentir prazer, sem falar que os pensamentos daqueles momentos sempre estarão por perto. Além de atrair pra si pessoas abusivas ou em relacionamento amoroso ou amigos, trabalho, de um jeito ou de outro, essa atração continuará até que seja tratada. Um verdadeiro desastre na vida.

Somente muito amor e compaixão pra amenizar esse tipo de trauma, que muitas vezes são ocultados, por vergonha, medo, insegurança...


Clara Lúcia


Quer saber como vive e sente uma pessoa que está num relacionamento abusivo? Será que você está num relacionamento assim e nem sabe?

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quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Farol

 

   
      Ele me achou... E eu fugia por uma estrada comprida, levantando as saias de meu vestido que, vez ou outra, me faziam cair na terra úmida por causa da chuva da manhã, cobrindo meus joelhos com lama. Rapidamente me levantava e continuava correndo. Olhava para trás e ele continuava a me perseguir, quase me alcançando.

      O vento frio de outono cortava meu rosto e jogava meus longos cabelos cacheados para trás, esvoaçantes balançavam em harmonia e tapavam meu rosto quando eu virava para trás para espiar a distância que eu estava dele... Corria, como se minha salvação dependesse da velocidade dos meus pés e da força de minhas pernas. Já estava escurecendo e minha angústia aumentava a cada passo em falso que dava e tropeçava em alguma pedra solta pela estrada. Não tinha para onde me esconder. De um lado da estrada um abismo com o mar azul escuro aumentando a maré e batendo nas pedras espalhando espuma branca por toda a orla. Do outro lado uma floresta fechada, um labirinto arriscado e misterioso, digamos ser medonho pelos barulhos estranhos que ecoavam a noite toda, chegando até o pequeno vilarejo.

     Mathias, um vilarejo novo, habitado por pescadores e homens das florestas, como assim eram chamados pelos viajantes comerciantes que apareciam por lá. Havia apenas uma rua principal e as casas, todas simples e rústicas, feitas de pedras e forradas com troncos cortados de árvores, unidos harmoniosamente um ao lado do outro, com acabamento de uma cola artesanal que impedia as goteiras e ao mesmo tempo, proporcionava um frescor no interior das casas. A única moradia mais bem-feita e ornamentada era do chefe-guardião, que tudo via, tudo sabia e era obedecido por todos. Era o deus de todos. Tinha o poder de ler os pensamentos, descobrir ovelhas desgarradas, apontar para algum malfeitor, julgá-lo e condená-lo em questão de segundos. O respeito que todos tinham por ele era, na verdade, o medo de descobrirem alguma teimosia ou algum descuido no trato com os animais. Estes eram sagrados. Era um homem alto, com mais de dois metros de altura, forte, cara amarrada, grotesco, de poucas palavras e muitas ações. A ordem no vilarejo era invejada por muitas cidades maiores ao redor, mas quando se tratava de Nêumo, o chefe-guardião, preferiam ficar longe de sua vidência.
   
     O homem me perseguia, eu gritava, mas a voz embargava. Comecei a ficar ofegante e meus passos diminuíram. O homem me alcançou, puxou-me pelos cabelos fazendo com que meu corpo encurvasse para trás. Olhou bem nos meus olhos e sorriu com sarcasmo. Eu cuspia em seu rosto e apertava seus olhos com os polegares e mesmo assim e ele me beijava a boca. Nojo! Limpei meus lábios com o braço, esfregando várias vezes, tentando tirar o gosto de álcool com hálito quente daquela boca carnuda e asquerosa.

      Ele me puxava pelos cabelos arrastando-me pela estrada até chegar num atalho que seguia direto para o farol, que ficava à beira do mar. Este estava bem agitado.

      Naquela época, mais precisamente em 1832, as jovens eram sacrificadas quando não queriam se casar com os homens que as escolhiam. Se revoltavam, se rebelavam, mas de nada adiantava. Acabavam mortas, ou enforcadas, ou lançadas num penhasco que tinha o mar como chão. 

      Era para esse lugar que o homem forte, bonito, mas nojento, vestindo roupas mal cheirosas, cabelos pretos e longos, barbudo e um nariz comprido e pontiagudo que parecia o bico de um papagaio, me levava.

      Me segurava pela cintura com um dos braços, me apoiando em seu corpo fazendo como o que meu pendesse e anulasse qualquer possibilidade dele receber um golpe meu, proporcionando-me liberdade. Eu gritava, mas minha voz continuava embargada; então ele repetia várias vezes, mas sem precisar gritar, para eu ficar quieta. Eu me debatia, tentando me livrar de seus braços, mas a força do homem era infinitamente maior que a minha.

      Ainda me segurando pela cintura subimos a escada em forma de caracol e chegamos ao topo do farol. Grandes janelas nos mostravam o céu com algumas estrelas e alguns raios de sol do outro lado. O mar batia nas pedras e fazia um barulho que penetrava em minha mente, como se me esperasse para o derradeiro mergulho em suas águas geladas e profundas. Sussurrava e lançava gotas até chegarem à janela que me aguardava ansiosa por minha queda. Um vento gelado uivava competindo com o barulho das ondas, entrava pelas janelas e esvoaçava nossos cabelos, quase que entrelaçando-os, num balé de quase fim de ato.

      O homem me levou até uma janela que ficava do lado mais fundo do mar, segurou meu rosto e me mostrou a linda paisagem. Cochichou alguma coisa no meu ouvido, mas que não conseguia
entender, com sua enorme mão me segurando o queixo, virou bruscamente meu  rosto de frente para o seu e mais uma vez me beijou fortemente. Mordi seu lábio inferior que sangrou, então ele se afastou e me deu um tapa no rosto, ainda me segurando firme pela cintura, com seus longos braços entrelaçados. Eu me debatia, mas estava praticamente imóvel e exausta. Ele começou a me xingar, mas eu não conseguia entender nada do que ele dizia. Sabia que estava xingando pela expressão de ódio em seus olhos. Mais uma vez ele segurando  meu rosto, mostrou-me a paisagem que seria a última visão que eu teria. Eu tentava gritar e não conseguia.

      Num movimento rápido, ele me ergueu  e apoiou-me no parapeito da janela. Olhei para baixo e senti vertigem. Gritava, mas era inútil. Mais uma vez ele cochichou algo no meu ouvido e me empurrou para o abismo.

      Neste momento, gritei tão alto que minha voz ecoou. Segundo a segundo eu via aquele homem se distanciando de meus olhos enquanto eu caía. Um frio tomou conta de meu corpo, meus cabelos longos taparam meu rosto antes mesmo de meu corpo tocar o mar agitado. Parecia que a queda não teria fim. Sentia falta de ar, como se minhas narinas estivessem fechadas e meu grito abafado tivesse cortado minha garganta impedindo a saída do ar. Fui caindo e desfalecendo. O barulho do mar era cada vez mais forte, mas já não me importava com a morte. Queria a morte de uma vez por todas. Praticamente já sentia as gotas do mar respingando meu corpo. Abri os braços e me entreguei! Por uma última olhada, de relance vi, na outra janela do farol, Nêumo, com seu olhar frio e calculista. Entendi tudo.

     A Lei cumpriu seu destino. Mais uma desobediente a ser esquecida no vilarejo Mathias. Quanto à força de um homem, um olhar instigante e tudo se acaba. O fim foi consentido e determinado.

     Caia no mar agitado e não fazia questão de sobreviver, nem se houvesse um milagre.




     Clara Lúcia

     

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Picuinhas De Casal


Alguns e-mails que recebo sobre relacionamentos abusivos, nem sempre são abusivos. Às vezes as pessoas são complicadas, difíceis e não conseguem enxergar o outro como uma outra pessoa, um outro universo, um outro ser independente e pensante.
A maior dificuldade é essa mesma, de se colocar no lugar do outro, entender o que se passa com o outro, saber o que pensa, o que gosta, como age, como quer viver, como quer compartilhar. Em vez disso instala-se uma enxurrada de acusações e cobranças, muitas vezes infundadas.
O que eu percebo é a falta de comunicação, como sempre.
A mulher gosta de falar, gesticular, discutir (nem todas), e o homem foge de discutir alguma coisa (nem todos). Ou seja, há quem goste de discutir e há quem não goste de discutir nada, independente quem seja.
Conviver com outro ser humano é muito complicado.
Aí pode aparecer alguém e dizer: "Ah, mas você nem é casada, como pode dar palpite e saber se é assim ou assado?".
Eu fui casada, sei como é difícil, e a questão nem é sobre casamento, mas sobre o ser humano e sua individualidade.
Quantas vezes você chegou pra a pessoa que vive com você e perguntou se ela estava bem, se queria que fizesse de uma outra maneira, se estava confortável assim, se gostaria de alguma ajuda, enfim?
E quantas vezes você reclamou pra a pessoa, essa mesma que vive com você, que não aguenta mais, que só você faz as coisas, que não há colaboração de nada, ou então que só sabe reclamar e não tem a dignidade em ajudar ou tomar a iniciativa de nada?
Fatos corriqueiros em todo casamento.
O que falta é o diálogo E a aceitação do outro como sendo diferente de você.
Há os costumes que carregamos de casa, do seio da família, de pai, mãe, avós, irmãos e afins. E esses costumes estão entranhados em nós e definimos eles como se fossem a verdade absoluta a ser seguida. Essa atitude é inconsciente. E não é errado seguir regras e costumes que aprendemos dos pais. Errado é pensar e querer que nossos costumes se prevaleçam sobre os costumes da pessoa que vive com a gente.
Talvez o motivo de hoje em dia haver tanta separação, sem ao menos tentar superar os problemas é esse, não ter a tolerância em seguir os costumes impostos pelo(a) parceiro. Hoje a maioria é independente financeiramente, o que faz pensar que não é necessário passar por situações de incômodo com a outra pessoa, se se pode viver sozinho ou então ir procurando, procurando, até encontrar alguém que se encaixe em nossa vida como queremos que ela seja.
Isso também não é errado, isso é liberdade, é livre arbítrio.
O erro é não tentar entrar em um acordo, aceitar o outro como ele é, sem querer moldá-lo ao seu jeito, e também se encaixar na vida do outro, aprendendo a viver de uma maneira diferente da sua, mas que seja tão boa quanto.
Quando há o conflito, o que se imaginou na preparação para o casamento, acaba pouco tempo depois. Por falta de diálogo, a vida se torna um inferno! E conversas não existirão, nem acordos, nem respeito, nem vida individual.
Vocês acreditam mesmo que quando há o casamento os dois se tornam uma só pessoa? E a individualidade fica aonde? Talvez fique com um soberano reinando e o outro apenas se calando e aceitando tudo que lhe é imposto. Aí sim, apenas um vive, o outro se conforma com o que tem e passa a viver uma vida que não é sua.
Um exemplo bem clássico, mas que existe: a mulher, em vez de falar claramente o que lhe incomoda, prefere comentar sobre a relação com as amigas, a mãe, a tia... E como mulher é um ser pensante e que tem várias terminações nervosas no cérebro, embaralha tudo e chega a sua própria conclusão de que está certa e que o homem que ela escolheu não deveria agir de tal maneira. Isso sem que ele saiba o que se passa na cabeça linda dela. E ela começa a investigar, fuxicar, cheirar, perseguir, e transformar a vida dele, e dela também, claro, num inferno.
Com isso, o que o homem faz? Vai se afastando, aquele carinho que sentia quando namoravam vai se acabando, não há o entusiasmo de antes, não entende porque ela mudou tanto da noite pro dia, não quer conversar sobre o assunto pra não piorar... E os dias vão passando.
E a mulher, pressentindo o homem distante, sem aquele interesse que antes sentia por ela, fica mais encabulada e o acusa de ter mudado tanto do dia pra noite.
E a vida continua aquele inferno, cada um pro seu lado, sem conversa, sem carinho, sem sexo, apenas fazendo as vezes do casamento perfeito e esperando só uma oportunidade pra jogar tudo pro alto e se separarem.
Outra situação: o homem percebe que a mulher está se dando bem, está evoluindo no trabalho, anda bem arrumada, tem amigos, tem vida própria, e começa a perseguição, o ciúme infundado. Confisca celular, quer senha disso, daquilo, proíbe de usar certas roupas, afinal agora ela é casada e tem que se dar o respeito, não quer saber de amigas por perto, enfim...
Então nessa situação, a mulher, em vez de conversar, prefere contar com a ajuda da amiga, aquela que tudo entende e que sabe como ninguém dar conselhos. Ela volta diferente pra casa, cada vez mais. O homem continua com cenas de ciúme, não elogia mais, não colabora com a casa nem com nada, vive de mau humor... Então ele prefere sair e beber com os amigos, desabafar, esquecer um pouco, ou seja, ele se proporciona sair e espairecer com os amigos, mas a mulher dele, por ser casada, tem que se dar o respeito e ficar confiscada em casa.
E a vida vai se tornando um inferno.
Não há o diálogo, não há a paciência e a admiração acaba. O homem não consegue entender nada, e a mulher, que pensa muito, não consegue perceber que o homem é diferente dela. Não existe ela querer impor sua rotina, seu raciocínio. O homem não percebe que a mulher tem hormônios com vida própria e isso é involuntário a sua vontade.
Um gesto busca uma consequência, e outra, e outra. Tudo por falta de diálogo e entendimento.
Falta de conhecer e respeitar a individualidade do outro.
Falta de aceitar que cada um é cada um e que a casa, agora deles, é deles, e não de um só que vai impor regras.
Talvez a vida íntima do outro seja até mais interessante que a sua. Talvez o que você poderia aprender com o outro, seja de grande valia pra sua vida. Talvez o modo complicado ou então a facilidade com que o outro encara as dificuldades seja a resposta pra superar qualquer pendenga do casal. Gentilezas não significam submissão. Gentilezas são gentilezas mesmo. E feitas com vontade, certamente serão retribuídas.
Aceitação.
Respeito.
Admiração.
Companheirismo.
Amor.
Um não vive sem o outro.
Simples.

domingo, 6 de agosto de 2017

O Dia Em Que Eu Te Desconheci


"Eu passei por uma situação difícil, sabe? Agora nem tanto, mas ainda não entendo. Já estou em outra, ela também já está... Quer dizer, ainda não cabe na minha cabeça uma vida inteira ao lado de uma pessoa e, do nada, tudo muda!
Não sei qual foi o dia em que tudo terminou... Não sei se foi aos poucos... Estávamos bem, fazendo planos... Tínhamos planos de cuidar dos netos, viajar... Eu, como conheço muitos lugares no Brasil, disse que levaria ela pra conhecer os lugares que mais gostei. São lugares lindos, mágicos... E esse era meu plano. Depois de nossos filhos casarem, e vierem os netos, cuidaríamos deles também. E viajaríamos pelo Brasil, como eu fiz quando jovem... Queria mostrar tudo a ela.
Um dia, engraçado que não consigo me lembrar o que aconteceu antes desse dia... Então, um dia eu cheguei em casa, ela estava calada, disse que queria conversar e tal... Eu pensei que fosse coisa comum, do dia a dia... Daí ela veio com a conversa de separar... Eu parei e fiquei olhando pra ela, sabe? "Por que?" Eu perguntei. Ela falou tanta coisa que só consigo me lembrar de que ela estava cansada dessa vida, de mim, de tudo. Nunca fui de discutir. Fiquei ouvindo e sem acreditar, até pensando que seria passageiro. Nunca tivemos uma conversa sobre isso.
E já no outro dia minhas malas já estavam prontas. Foi o pior dia de minha vida! 
Sabe quando você vê seus planos indo pro ralo? Seu chão sumir? Era eu naquele dia.
Pedi um tempo até eu arrumar um lugar pra ficar. Nisso demorou uma semana.
Peguei minhas malas e fui embora. Ela nem sequer olhou na minha cara! Nessa uma semana fiquei pensando se eu tinha feito algo errado. Não, tenho certeza de que não fiz nada errado, ou nada que pudesse magoá-la. Ainda fiquei na esperança de ser alguma crise de TPM ou sei lá o quê. 
Me hospedei numa pensão no centro da cidade, simples, familiar...
Avisei meus filhos onde eu estava, eles vieram me ver e me abraçaram... Também não entenderam nada. São jovens, natural não entender essas coisas de gente madura.
Ficaram algumas coisas minhas na casa. Aliás, eu deixei tudo pra ela e pros meus filhos... Fui lá buscar e vi que ela havia trocado a fechadura. Entendo, agora a casa é dela, não é?
Esses dias minha filha disse que queria conversar comigo. Fui até lá e ela veio a mim e ficamos no carro. Ela disse que a mãe estava namorando e que o homem esteve lá na noite anterior tomando cerveja com ela. Minha filha estava indignada! Me doeu o coração, sabe? Mas faz parte da vida. Expliquei que agora a mãe é livre, que eu também sou livre e podemos namorar quem quisermos. Eu também já estou namorando, e está bom assim, namorando. 
Olha, depois de dois anos separado ainda não entendo como uma vida a dois pode ser desfeita assim, tão facilmente. De que adiante planejar, querer, programar, pra depois acabar tudo, desmoronar tudo?
Que vida é essa? 
Minha namorada quer que eu vá morar com ela, mas não vou! Não agora... Talvez um dia, quem sabe?
O que sobrou? Só o dinheiro da pensão, que tenho que ser correto, que não posso atrasar nem um dia, que quando sobe o salário ela já aciona o advogado pra aumentar a pensão... Isso que sobrou.
Como pode viver mais de vinte anos com uma pessoa e depois não poder nem conversar? Nem amizade ficou...
Ah, mas tá bom, espero que ela se ajeite com quem ela quiser. Eu também estou bem, e está tudo bem assim."

Esse foi o desabafo de um amigo...

Clara Lúcia

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Dia dos Moços


Dia desses encontrei Rominho, de nome Romildo, caboclo forte, robusto, moreno e careca. Ah, me lembro muito bem o medo que esse menino tinha de ficar careca! Imagina? A homarada da família tudo careca e ele num ia ficar? Capaz!

Éramos amigos do tempo em que morávamos na roça. Nunca mais tinha visto ele, e, do nada, encontrei o caboclo perambulando pela rua, ora essa! Foi ele quem me conheceu, me gritou e veio com o mesmo sorriso fácil de sempre, pronto pra um abraço apertado. Diz ele que continuo o mesmo. Olha, não sei se isso é elogio ou não, mas contando o que já havíamos aprontado na infância e juventude, qualquer palavra dele é um elogio pra mim.

Conversa vai, conversa vem... E saiu da boca dele a Raquel. Ei, ai... E quem não se lembrava da Raquel?

Era Rominho, eu mais Tiago. O trio do sertão que galopava ligeiro e que tinha a pele queimada do sol, como se fôssemos mulatos. Chegava a brilhar o suor nos braços roliços. Hoje vendo esses jovens se acabando em academias, não têm a barriga dura igual a gente tinha naquele tempo. Dava pra contar os gominhos, mesmo não fazendo tanto sucesso quanto hoje. Nem eu nem Rominho preservamos os gominhos. Cheguei à conclusão quando o vi, que a vida é ingrata, mesmo sabendo que nós é quem somos ingratos com a vida. Custava ter preservado pelo menos os gominhos? As meninas até gostavam, mas quem fazia sucesso era Tiago. Como muda a vida! Rominho tá casado e já é até avô! Só falta falar que também usa dentaduras, aí seria derrota demais da conta!

Raquel, morena roliça, de pele brilhosa, coxa forte e bunda arrebitada. Jesus, o que era aquilo? Tinha idade pra ser nossa mãe, mas ainda bem que não era. E a danada gostava da coisa, de tudo de uma vez...

Quando ela chegava no pasto só soltava um assovio e nós três, em sincronia, olhávamos pra ela e saíamos correndo. Parecia até a mãe chamando, numa sangria desatada! E mesmo assim a gente nem corria quando a mãe chamava! Quem chegasse primeiro ganhava um beijo. Os outros não! Tinham que ficar esperando a vez, mas podiam ver tudo, serviço completo! Depois chamava o outro e depois o outro. Quem não estava na labuta ficava esperando, já em ponto de bala! Adivinha quem sempre ganhava o beijo? Rominho! Muleque comprido, canela fina e corria igual um cavalo. Ninguém ganhava dele! 

Qualquer lugar era lugar, no meio do pasto, na beira do rio, no meio das bananeiras, não importava, Raquel chegava com o lugar já escolhido e nós íamos seguindo em fila indiana, como filhotes de patinha a acompanhar a mãe rígida. Essa era a alegria dos moços da roça!

A gente esperava por esse dia, que às vezes demorava, às vezes eram dois ou três dias seguidos. O bom de ser nós três juntos é que quem ficava olhando, também ficava vigiando se avistava o Benito, o namorado de Raquel. Aquele sim era um armário perigoso. Nem preciso dizer nada dele. Apenas vivíamos a adrenalina do medo seguido de tesão. Mas vem cá, que vida chata de quem não tem aventuras, não é? Que histórias contaria pros filhos e pros netos? Rominho ria enquanto se lembrava de Raquel e do nosso medo do namorado dela, o Benito. 

Será que ela casou com ele? Só sabíamos que ela havia se mudado pra cidade e nunca mais pousou aquela bunda redonda na roça... 

Rominho se formou doutor advogado, família feliz, quase rico, escritório particular, carrão do ano... Eu continuo na mesma, não na roça, mas na cidade, no meu primeiro emprego, numa autoescola. Dando aulas. Quase trinta anos no mesmo lugar. Caramba, como o tempo passou e eu nem percebi! Poderia ter me formado também, ter tido uma casa boa, carro bom, mulher bem cuidada, filhos formados... Mas não, a única aventura de que me lembro era me aliviar com Raquel. 

Tiago, nem eu nem Rominho tínhamos contato mais. O que fez de Tiago?

Na época ele era o come-quieto, sabe? Aquele que surpreendia, que chegava pelas beiradas e fazia um estrago nos corações das moças. Também, loiro de olhos azuis! E era bonito, porque tem loiro de olhos azuis que é feio igual um diabo! 

E Raquel, que fim levou Raquel? E Benito, o noivo dela? 

Saudade daquele tempo, daquela roça com as pastagens verdinhas, os cavalos que a gente galopava sem arreio, na pele mesmo, da cachoeira gelada que fazia a gente encolher tudo, do pé de jatobá, ô fruta difícil de comer, mas a gente comia com gosto, porque era só apanhar e pronto. Do fogão a lenha, da horta verdinha, e do bananal, que maravilha! De manhãzinha, quando a gente acordava, ia na varanda, com a caneca de café, só pra ver o nascer do sol. Visão mais linda nunca vi igual! O céu azul escuro ia clareando, aos poucos o amarelo ia empurrando o azul pra cima, um clarão atingia nossos olhos e lá estava ele, todo imponente, majestoso, grande, quente! E a vida começava, dia após dia... 

Parece que foi ontem! Obrigada, meu amigo Rominho, por me trazer tantas lembranças boas!


Clara Lúcia

quarta-feira, 15 de março de 2017

Marinalva Das Dores



      Fazia um calor infernal na pequena casa sem forração, e o mormaço do fogão com as quatro bocas acesas provocavam suores que escorriam pelo rosto de Marinalva. Vez em quando enxugava as gotas com a manga da blusa, mas mesmo assim não parava de pingar suor em seu colo murcho. Depois de quatro filhos era impossível manter um corpo apresentável, e ainda mais com uma frágil saúde que obrigava Marinalva a se arrastar pelos cantos tentando deixar a casa em ordem.

      Aflita, olhava o relógio várias vezes. Não queria atrasar o almoço de Pedro José, o marido, sisudo, tímido, quase não falava e dificilmente sorria. Brincava com as crianças quando estava disposto, o que acontecia raramente. Não tinham diálogo íntimo. Marinalva não tinha disposição para nada a não ser cuidar da casa, dos filhos e reclamar de dores pelo corpo. Era dor que não acabava mais... Dia e noite dolorida... Virava na cama e, dormindo, reclamava. Pedro José nem dava mais ouvidos a ela. Cansou. Cumpria suas obrigações e nada mais. Marinalva ganhou, no último aniversário de casamento, um vestido florido, lindo, um par de sandálias com cristais, um botão de rosa, um perfume adocicado e duzentos reais, que era para ela comprar o que quisesse. Dedicada à família, preferiu comprar coisas para a casa. Isso irritou Pedro José, mas mesmo assim não reclamou. Já havia se acostumado com ela. Quando estava um pouco melhor, Marinalva até procurava por ele debaixo dos lençóis. Ele respondia aos seus carinhos, depois virava para o lado e dormia. Ela dormia tranquila quando tinham intimidade, acordava disposta, sorridente e ele tinha a certeza dela caprichar no almoço.

      Marinalva olhou o relógio e já havia passado dez minutos sem que Pedro José chegasse. Estranhou porque ele nunca se atrasava. Foi até a janela, respirou a brisa fresca, fechou os olhos e ouviu, ao longe, um casal de maritacas no topo de uma árvore, e no fim da rua crianças brincavam na maior gritaria. Se lembrou que seu marido sempre brincava um pouco com esses meninos antes de entrar em sua casa. Ela olhou para um lado, para o outro e nada de Pedro José.

      Serviu seus filhos, todos pequenos, e olhava sem parar as horas que passavam rápido demais. E nada de Pedro José. Não almoçou. Perdeu a fome e começou a ficar preocupada. Nem um recado nem nada!

      À tarde, no costumeiro horário de voltar para casa, Pedro José chegou, olhos vermelhos, cheirando a álcool e cigarro, cabeça baixa e sem falar nada. Marinalva segurou-o pelo braço e insistentemente perguntou o que estava acontecendo. Ele virou a ela e simplesmente disse que estava indo embora de casa. Não tinha explicação, só isso, ia se separar dela. O choque foi tão grande que ela caiu sentada no chão. Ele olhou para aquela cena que para ele era patética, foi para o quarto, arrumou algumas poucas coisas numa sacola velha, deu um beijo em cada filho e saiu pela porta sem olhar para trás. Depois voltou e disse a ela que não a deixaria sem dinheiro para cuidar dos meninos.

      Marinalva não conseguia reagir. Permaneceu sentada por um bom tempo... "Aposto que encontrou outra mulher, só pode, aquele fiii du'a égua!", cochichava, com cuidado para os filhos não ouvirem. Despencou num choro incontrolável... Os meninos, sem entender nada, mas acostumados a ver a mãe choramingar, sentaram ao lado dela e ali permaneceram. Marinalva, que geralmente não tinha forças para se levantar, se arrastou até a cama, apoiou-se na madeira e ficou em pé. Ainda chorando, se arrastou até a janela e soltou um grito.

      A vizinha Zuza, que varria a calçada, correu para acudi-la. Preocupada, entrou na casa dela para saber os detalhes de tanto choro e sofrimento. Marinalva, entre soluços e lamentações, contou o acontecido. Zuza, inconformada, começou a xingar Pedro José de todos os nomes possíveis, rogando-lhe praga e mais praga. Também deu sua opinião dizendo certeza ter sido alguma quenga que virou a cabeça dele. Marinalva ouvia e chorava aos soluços.

      Zuza se prontificou a ajudá-la no que fosse preciso, afinal tinha quatro filhos pequenos para cuidar e agora estava sozinha e tal. Já era noite, Zuza arrumou o que comer para os meninos, arrumou um prato para Marinalva e outro para si, e comeram em silêncio. Depois se despediu dela e foi tomar conta de sua casa.

      Zuza passou pelo seu portão e não entrou na sua casa. Foi para a casa da outra vizinha. Renata, que era um pouco mais velha e que não tinha filhos. Era só ela e o marido, outro com fama de mulherengo da vila. Pediu para entrar para conversarem e imediatamente contou tudo o que aconteceu com Marinalva. E emendou dizendo que foi bem feito, mulher que não se cuida, que vive reclamando, choramingando pelos cantos, que não penteava nem os cabelos, imagina que um homem iria aguentar uma vida dessa? Repetia várias vezes até espumar o canto da boca. Renata concordava e aumentava mais um conto, lembrando de algum causo em que viram o marido de Marinalva entrando em uma casa na rua de baixo de onde morava, onde sabiam que morava uma mulher que não era bem vista pelo bairro. "Aposto que ele foi morar lá!". Repetia. As horas passavam e Renata convidou Zuza a ir embora, pois já estava tarde e o marido dela já devia estar preocupado com sua ausência. "Que nada, aquele lá só sabe dormir quando chega de tarde!".

      Marinalva, com todos os problemas enfrentados e tendo que conviver com a fibromialgia, teve ajuda de parentes e alguns amigos para seguir em frente. Cada um ajudava um pouco e nada lhe faltava em casa. Pedro José visitava os filhos de vez em quando e sempre levava um pouco de dinheiro e mais algumas coisas para a casa. Nunca disse onde estava vivendo e nem com quem. Desconversava, e se Marinalva insistisse, dava um jeito de ir embora na mesma hora.

      E assim Marinalva foi vivendo, com a mesma feição de coitada, cabeça meio baixa, triste e insatisfeita, como Deus quisesse, ela repetia a quem perguntasse como estava.

      Zuza e Renata eram as vizinhas que mais ajudavam com a limpeza da casa e algum outro trabalho pesado que ela precisasse, mas a língua corria solta quando viravam as costas.

      Coisas da vida.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Trilogia 50 Tons... - Comentado por um Homem



Por Ricardo Jordão Magalhães

"A não ser que você tenha tirado umas férias em Marte, não tenha nenhuma amiga mulher na sua vida, ou faça parte do Clube do Bolinha, você provavelmente já ouviu falar do livro 50 Tons de Cinza.
50 Tons de Cinza é o conto de fadas do Século 21. O livro conta a história de Christian Grey,
um jovem bilionário, brilhante, maravilhoso, ultra lindo, intimidador,... Super bem sucedido, um líder nato dos seus funcionários que ainda ajuda os pobres, piloto do próprio avião, fiel, super atencioso com as mulheres, um cara super bom de cama que se apaixona por uma menina de 22 anos totalmente tapada, virgem e que nem é o supra sumo da beleza feminina.
Eu prefiro acreditar que o livro vai salvar o casamento de muita gente que precisa ler o livro do jeito que foi escrito para aprender alguma coisa.
Quem sabe?
Agora, por que o livro é um sucesso?
50 Tons de Cinza foi escrito por uma mulher, inglesa, esposa, mãe de dois filhos.
85% das leitoras que se dizem apaixonadas pelo Christian Grey são mulheres, casadas e mães.
O que isso diz a você?
Para mim só tem uma resposta, existem milhões de mulheres em todo o mundo sendo super mal-tratadas, mal-entendidas e mal-amadas por milhões de homens modernos e toscos tipo Fred Flintstones 2.0.
O sucesso do livro 50 Tons de Cinza deve ser visto como mais um alerta para os homens.
Meses atrás eu fiz uma palestra em um evento fechado para 6 mil homens. O evento, bolado pelas mulheres da comunidade, reuniu seus maridos, filhos, cunhados, pais, sogros etc.
As mulheres da comunidade levantaram os temas que os homens deveriam se aperfeiçoar e convidaram palestrantes para falar a respeito. Eu fui até lá para falar sobre empreendedorismo, e o psicólogo que subiu ao palco depois de mim foi até lá para ensinar os homens como tratar uma mulher. O cara falou sobre como conversar com uma mulher, como fazer carinho em uma mulher, como beijar uma mulher, como tocar uma mulher, como inspirar uma mulher etc etc etc.
Na hora eu achei meio bizarro aquele monte de marmanjo metido a besta não saber nem como beijar uma mulher, mas a grande verdade é: os relacionamentos entre as pessoas hoje estão uma tristeza. Tudo joga contra para detonar as coisas. É preciso muita boa vontade de ambos os lados para fazer a coisa dar certo.
Como homem que sou, eu entendo um pouco da minha raça e imagino que a galera até sabe o que precisa fazer pelas mulheres, o que eles se perguntam é, “E vale a pena fazer todo o esforço para conquistar a mulher?”.
Bom, cabe a cada um descobrir essa resposta por si mesmo, mas uma coisa eu digo, se você não tratar bem o seu cliente, o concorrente vai encontrar uma maneira de tratá-lo bem.
Já que os homens não vão ler o livro, eu vou facilitar a vida de vocês e listar por aqui as razões porque as mulheres amam o Christian Grey:
1. Porque o Grey elogia a mulherada o tempo todo. Toda mulher quer se sentir sexy e maravilhosa. Os homens de hoje elogiam tão pouco as mulheres que ao fazê-lo, a mulherada já acha que o cara fez algo de errado. Então, coloca na cabeça a meta de crescer em 500% o número de elogios que você faz para a mulher que você ama. Diga à ela que você admira a atenção e dedicação que ela coloca na educação dos filhos mesmo ela tendo que dividir o seu dia entre trabalhar fora e cuidar da casa. A maioria das mulheres vivem preocupadas com a falta de feedback que recebem dos homens. Tire esse peso das costas da mulher, dê feedback! Para elas nós somos um mistério porque falamos muito pouco. A mulher precisa e quer saber a sua opinião sobre as coisas. Todo mundo precisa ouvir elogios, capricha nessa parte!
2. Porque o Grey faz a coisa acontecer. O FDP do Christian Grey além de pilotar um avião ainda sabe como consertar um ar condicionado. Mulher gosta de cara que resolve as coisas, tipo “Pode deixar que eu vou resolver isso em 2 horas” e “Pode deixar que hoje eu dou banho nos filhos, e coloco a turma para dormir”. O cara que só sabe encontrar a seção de batata frita em um supermercado e sintonizar o canal de esportes na televisão, tá danado. O homem precisa assumir a gerência de manutenção da casa e da família e fazer a coisa acontecer. Sim, todo mundo tem no mínimo dois empregos, aquele que traz o dinheiro para casa e aquele que traz o amor para dentro do seu lar.
3. Porque o Grey cria momentos de romance. Antes do sexo a mulher precisa de amor, antes do amor a mulher precisa de romance. Todo relacionamento esfria com o tempo, mas ninguém deseja para si um relacionamento frio onde as coisas são entediantes e sem paixão. Para mudar isso, o cara precisa dar 100% de atenção quando estiver presente. Ouvir mesmo, elogiar mesmo, dar a entender que qualquer pequeno gesto da mulher é a coisa mais maravilhosa do mundo. Uma das coisas mais irritantes do livro é a quantidade de vezes que o cara elogia a menina porque ela morde os lábios quando ela está envergonhada ou qualquer coisa do tipo. No primeiro livro isso acontece 46 vezes. Mas é isso, todas as pequenas coisas contam.
4. Porque o Grey se importa com a mulher. A verdade é que a grande maioria dos Fred Flintstones que tem por ai procuram uma mulher para substituir a mãe deles. O cara acha que a mulher tem que servi-lo e fazer tudo do jeito que a mamãe dele fazia quando era criança. BANDO DE BABACAS!!! O papel do cara é empurrar a mulher para frente. Incentivá-la a malhar, fazer o cabelo, comprar roupas novas, se alimentar direito, se preocupar com a sua saúde, e, claro, a satisfazer sexualmente e não apenas a si mesmo. E MAIS, o cara tem que fazer tudo isso sem que a mulher DIGA QUE ELE TEM QUE FAZER. Sim, é isso mesmo, o homem tem que ler a mente das mulheres. Fácil, né?
5. Porque o Grey tem seus problemas. Apesar das inúmeras virtudes, características e clichês de príncipe encantado, o cara não é perfeito - longe disso. Ele sofreu trocentos abusos quando era criança que afetaram drasticamente a maneira que ele se relaciona com as pessoas - nada muito diferente de qualquer homem que eu conheço. A heroína da história, por sua vez, apaixonada pelo cara que sempre faz a coisa acontecer, a elogia sempre, cria momentos de romance a todo momento e se importa com ela como mulher, acaba se vendo na responsabilidade de consertar o cara. Toda mulher que se preza acha que vai consertar os homens. É por isso que a mulherada se mete em relacionamentos furados, elas acham que podem mudar o homem. Kkk. Não rola. O ponto aqui é que ninguém precisa ser perfeito, mas todo mundo precisa se importar um pouco mais, ou muito mais, com aqueles que estão próximos da gente para que possamos pedir o mesmo em retorno.
Os relacionamentos no Século 21 estão quebrando ou se quebrando e cabe a VOCÊ consertar isso.
A sociedade que queremos deixar para os nossos filhos e netos DEPENDE da qualidade dos relacionamentos que estamos construindo hoje. Se estivermos de bem com quem está próximo de nós, vamos conseguir tratar com amor as pessoas que encontramos nas ruas, nas empresas, nos clientes, em todo lugar." 



Então, eu não li os livros, mas assisti ao 50 Tons... Não concluí o filme todo de primeira, depois, noutro dia, assisti tudo até o final. Livro é diferente de filme, e creio que o livro deve ser bem mais detalhados, não é?
Quem sabe eu mude de ideia e vá assistir 50 Tons Mais Escuros? Aí farei um texto com meu parecer. Só sei que a mulherada fica em pavorosa com esse tal de Sr.Grey... E por que não ficaria?

Texto publicado em 14 de junho de 2013.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Geraldo Pelotão

Placa fixada ao lado da Casa do Artesanato, na Praça Barão, em Franca/SP

Uma figura peculiar de minha cidade, anos 80, que de certa maneira amedrontava alguns e causava curiosidade em outros. Mas é sabido que ele era muito querido em Franca, interior de São Paulo.

Geraldo Pelotão!

O que me lembro era da molecada provocando ele, chamando-o "Ô, Pelotão!", deixando-o muito irritado, pois passavam correndo por ele. Acho que Pelotão ficava tonto com os gritos e arruaças dos pequenos.  Daí pegava pedras que encontrava pela frente, colocava-as no bolso da calça e saía atrás dos meninos, que corriam ao seu redor, zunindo como uma espada sem plano de voo. Os garotos riam, e Pelotão desnorteado ameaçava jogar pedras neles. Não me lembro de alguma pedra ser lançada, pois eu também tinha medo e logo saía de perto.

Uns diziam que o dia que Pelotão não era provocado ele nem dormia direito à noite. Lendas urbanas, que fizeram parte de minha adolescência e que muitos francanos que lerem o texto vão se lembrar com carinho desse cidadão carrancudo, mas de bom coração.


"Quem não se lembra de um homem que frequentou a Praça Barão de Franca durante décadas e, se era chamado pelo apelido, rebatia com reação violenta xingando e jogando pedras? Geraldo Gomes, mais conhecido como Geraldo Pelotão. Faleceu com 85 anos no dia 7 de maio de 2000, mas seu comportamento único fez dele um dos tipos populares mais lembrados pelos francanos. Agora, sua figura ressurge na tela do artista plástico Ismael Donizete Oliveira e ganha o maior prêmio do Salão de Abril de Belas Artes. 
De acordo com os familiares, Geraldo Pelotão teve meningite quando criança e permaneceu com a mesma idade mental da época da doença. Ele morou em Franca com uma irmã e, após o falecimento dela, recebeu os cuidados de uma vizinha."
Link retirado DAQUI

Na pacata Praça Barão daquela época, era sagrado o encontro diário com vários amigos para tomar um café no famoso Café Globo que até hoje reina por aqui. O engraxate na porta que a tudo observava, certamente se emocionaria por saber ter presenciado uma lenda tão carismática como foi Geraldo Pelotão.

Muito poderia se falar dele, mas para os que tiverem paciência e gostarem de um pouco de nostalgia, tem o vídeo abaixo, com mais de uma hora (podemos acelerar com o mouse), para matar saudades e voltar àquela época quando ninguém passava pelo centro da cidade sem ouvir os berros e os xingamentos de Geraldo Pelotão, que tentava correr, mas só dava conta de acelerar os passos tentando atarracar em algum moleque desaforado!

Confessa! Você foi um dos moleques que provocou Geraldo Pelotão, sim, francano?



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Quem Se Importa?


Bom dia!
Voltando depois de quase um mês...

Um lado bom da internet é o avanço imediato das notícias. E um dos assuntos do momento é a agressão, o abuso, maus tratos, enfim, formas de agredir uma outra pessoa.

Isso inclui o estupro, que é crime.

Muitas pessoas, anônimas ou não, estão, finalmente, admitindo ter sofrido abuso em algum tempo da vida. Não deixo de ficar perplexa por chegar à conclusão que uma atitude dessa se tornar comum e muitas se calarem diante do fato ocorrido.

Não se trata nem me machismo, mas de uma hierarquia que não deveria existir. O não é não sem discutir. O corpo é individual e não cabe ao outro se apoderar como bem entende. Que seja um abraço, um beijo, um aperto aqui, uma passada de mão, o não é não!

O que tenho visto também são muitos que confessam o abuso e mesmo assim são acusados de culpados. Isso é um absurdo! Não importa se homem ou mulher e pior, criança, a vítima nunca é a culpada.

Li em algum lugar, um famoso dizendo que foi estuprado quando era adolescente. Horrível! Não dá pra imaginar tamanhã crueldade, mas ao invés desse famoso ter apoio, sofreu chacotas e deboches. Como se com ele fosse comum tal atitude. O ser humano é esquisito mesmo. Luta pelo feminismo e tal e quando precisa mostrar compaixão pelo próximo simplesmente agride, retrocedendo todos aqueles ideais que tanto gostam. No caso o famoso é homossexual, o que não muda nada, e os comentários foram perversos, horríveis! Diziam que ele havia gostado, que depois desse dia ele passou a ser gay, que agora ele estava querendo aparecer na mídia e toda essa babaquice de quem se esconde atrás do avatar pra despejar merda. Julgam e condenam com a maior naturalidade... Aliás, gente agressiva e mau educada é o que mais tem na internet. Mas na internet podemos filtrar e na vida, nem sempre.

A agressão moral e a ameaça são terríveis! Marcam a ferro e o trauma se instala.

Não podemos mudar essa mentalidade de um dia pra outro. Seria necessário leis severas, mas também sabemos que isso leva tempo.

No momento cabem aos pais educar seus filhos a respeitar o próximo, não só o próximo de sua convivência, mas o próximo independente de quem seja. Aquele ditado "guardem suas cabras que meu bode está solto", deveria ser abolido da mente de todos.

Pais, mães, eduquem seus machinhos a respeitar as moças (idem o contrário) a não tocar no que não lhes pertence, e a saber que o não é não! Eduquem seus filhos a não terem medo de pedir ajuda, deem abertura para um papo sem cobranças, permitam que seus filhos se abram com vocês e, principalmente, ensine a eles que o corpo é sagrado e ninguém tem o direito de tocá-lo sem permissão, que há certas coisas que não se deve fazer, enfim, ter a paciência de educar seus filhos. O que não se aprende em casa, a rua ensina da pior forma possível.

Não levem esse texto como lição de moral, sim? Longe de mim querer passar lição de moral, mas sei que aprendemos no dia a dia e sempre falta algo a acrescentar na vida daqueles que amamos tanto. Filhos estão em formação e os pais são os principais exemplos que eles têm.

Recordando como era há cinquenta anos, graças a Deus evoluímos, e quem sabe daqui cinquenta anos esse assunto já estará resolvido em sua totalidade? Tudo tem um começo...

Uma ótima semana a todos!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A Cabeluda



      Na pequena cidade do interior de Minas, Helena caminhava sob o sol escaldante do meio-dia. As bochechas rosadas e a franja grudada na testa pelo suor causavam desconforto à adolescente faminta. Pelo caminho, nenhuma sombra para aliviar o calor, o mau humor era visível em seu rosto, e esperar carros passar para poder atravessar a rua era irritante, sem falar na mochila pesada que ficava dependurada nas costas. Todos os dias era isso, ir e voltar do colégio. Vida de estudante.

      Assim que dobrou a última esquina um zum zum zum em frente a sua casa fez com que Helena esquecesse o calor. Sua tia, que era sua vizinha, espalhafatosa gritava no meio da rua para quem quisesse ouvir. Sem entender nada, Helena só ouvia "aquela cabeluda... a cabeluda... vou acabar com aquela cabeluda...". Apressou os passos e ao entrar em sua casa se deparou com sua mãe atrás do portão, à espreita, ouvindo a cunhada aos berros. Já havia acontecido algumas vezes dessa cunhada causar estardalhaço na rua chamando a atenção de todo mundo.

      Helena, com os olhos arregalados e também acostumada com a situação, perguntou quem era a cabeluda. Sua mãe, com o dedo indicador em riste sobre a boca, puxou-a pelo braço e disse para não perguntar nada. Aflita, Helena obedeceu e entrou pela cozinha, onde um aroma de carne de panela a fez esquecer da tia maluca que gritava na rua.

      Depois de um tempo a mãe de Helena desistiu de ouvir o espetáculo e também se recolheu aos seus afazeres. Helena já rapava o prato e tinha um último pedaço de carne espetado no garfo, pronto a ser devorado, perguntou calmamente o que havia acontecido e finalmente quem era a cabeluda.

      No intervalo entre chegar em casa e devorar um pratão de comida, várias histórias se formaram em sua mente curiosa. Cabeluda seria, em sua imaginação, uma mulher com cabelos longos, despontados, escuros e que arrastavam ao chão e que não deixavam aparecer seu rosto. Talvez um fantasma que perambulava durante o dia, ou talvez uma assassina querendo acabar com a vida da tia, ou então um ser de outro planeta que era coberto por pelos.

      Sua mãe, com jeito e procurando as palavras que Helena poderia entender, disse que a tal cabeluda era uma mulher da vida que ficava dando em cima de seu tio, casado com a tia que gostava de um barraco para se fazer de vítima e chamar a atenção de todos.

      Helena, ainda sem ter uma nítida definição da cabeluda, pensou numa mulher que carregava correntes ou até algemas nas mãos, que capturava homens casados para domina-los e tirá-los de sua família. Ainda mastigando o último pedaço de carne, perguntou como era a cabeluda. Sua mãe disse que não sabia ao certo, pois havia visto a moça somente de costas e sabia apenas que tinha os cabelos longos, ondulados, brilhantes e negros. Quis saber o nome dela, mas essa informação sua mãe não tinha. Perguntou sobre seu tio e o que ele dizia disso tudo. A mãe apenas respondeu que ele não pronunciava palavra nenhuma. Que ficava mudo-calado e também muito abatido com essa situação. Inconformada, Helena continuou pensando em como a cabeluda foi encafifar justamente com seu tio, um homem feio que usava sempre uma calça dois números maiores que seu corpo, uma camisa que ficava com os dois últimos botões abertos devido ao tamanho exagerado da barriga e que quando ria podia ver a falha dos dentes de trás do lado esquerdo. Perguntou para sua mãe como sua tia conheceu essa moça. Olhando de lado, sua mãe preferiu terminar o assunto para evitar prováveis fofocas saindo de sua porta. "Deixa que eles resolvam o assunto, filha, vamos cuidar de nossa vida.", respondeu. "Ah, mas eu bem vi a senhora fuxicando atrás do portão, né?", disse rindo e já colocando o prato dentro da pia. Sua mãe riu e saiu de perto de Helena. Na verdade ela foi até o quarto rir mais sossegada, escondida da filha que, não demoraria, entenderia essas coisas de mulher atrás de homem casado.

      E assim Helena continuou a fantasiar sobre a tal cabeluda, e sua mãe, sempre desconversando sobre o assunto, esperava o momento certo da filha saber coisas de gente adulta. "Tudo tem seu tempo", pensava, suspirando e ajeitando as roupas passadas que estavam esperando ser colocadas no cabide. Roupas do marido, claro.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O Triste Fim de Donana


      Uma última colherada de sopa na boca de Seu Romero, uma limpada no canto da boca com um guardanapo de papel e pronto, o moribundo já estava alimentado e pronto para dormir o sono dos justos.

      Donana ficava resmungando o tempo todo, dizendo frases feitas, como se quisesse gravá-las na memória para repeti-las no dia seguinte, vírgula por vírgula. Outras vezes parecia conversar com alguém invisível, perguntando e respondendo logo em seguida, outras parecia Deus a lhe ouvir, atencioso, e era nesse momento que as lamentações se aguçavam. Parecia questioná-Lo por tanto sofrimento e um fim de vida tão sofrido, tendo que carregar nas costas o marido puteiro. Mesmo assim cuidava de Seu Romero com um carinho embutido.

      Depois de cobri-lo, apagar as luzes e deixar a porta entreaberta, Donana se dirigia à cozinha para seus últimos afazeres. Ainda resmungando, balançava a cabeça de um lado para o outro, como se lembrasse de fatos não muito distantes e que a fizeram sofrer demasiado. Apoiava as mãos na pia, abaixava a cabeça e simulava um choro. Não saíam lágrimas, mas a ladainha constante e o zunido balbuciado, denunciavam que ainda havia amor e que ela sabia que sua missão, até os últimos dias, seria de cuidar do marido.

      Seu Romero mal se equilibrava em pé. Donana colocava ele apoiado no andador e ficava por perto ajudando-o a caminhar pela varanda, para pegar o ar da manhã e o sol bem fraquinho, tomando cuidado para não queimar-lhe a careca reluzente.

      Ele olhava-a com piedade e gratidão, mas não pronunciava sequer um "obrigado". Tinha vergonha de estar como estava e do trabalho que estava dando a Donana. Era a mulher escolhida, a rainha de seu lar, a mãe de seus filhos, a avó mais carinhosa do mundo e dotada de um coração imenso, incapaz de calcular quantas pessoas cabiam dentro dele. Era agradecido, mas preferia o silêncio a se sentir humilhado reconhecendo a preciosidade que o acompanhou durante uma vida inteira.

      Sabia que seu fim estava próximo, e o máximo que lhe permitia fazer era ficar em silêncio. Donana lhe perguntava coisas, se estava com fome, com frio, cansado, com sede ou se queria assistir à TV. Ele respondia meneando a cabeça e mais nada. Não conseguia mais encarar Donana. Era mulher demais para ele que se sentia tão inútil nesse fim da vida.

      Donana reclamava muito, lamentava, mas no fundo se sentia orgulhosa por ter que cuidar do marido até os últimos momentos. Era puteiro, cafajeste e não escondia de ninguém suas puladas de cerca. Se vangloriava de ser um conquistador nato, um colecionador de corpos estranhos, um Don Juan perdido nesse mundo de meu Deus.

      Mais um dia de cuidados, menos um dia para Seu Romero. Mais um dia de lamentações e menos um dia para lembrar das travessuras vividas fora do casamento. Donana dormia em paz, Seu Romero custava a pegar no sono e chorava em silêncio. Seu fim estava próximo, poderia ser hoje ou semana que vem. As carnes de seu corpo já anunciavam falta de mobilidade e falência. Desejava morrer dormindo. Só não se esquecia de beber bastante água antes de fechar os olhos. Para ele deveria ser muito triste morrer de sede. Morrer de fome não teria problemas, mas morrer de sede seria o inferno.

      O dia clareou, Donana no fogão preparando o café da manhã, mas antes disso uma olhada em seu marido, que dormia feito uma criança, com respiração profunda e olhos entreabertos mexendo as pupilas de um lado e de outro. Corpo deitado de lado, encurvado e com a mão debaixo do travesseiro. Como um anjo esperando sua hora de partir.

      Donana respirou fundo e seguiu a lida, até quando Deus quisesse.

domingo, 14 de junho de 2015

O Castigo


      Um céu lindo, azul claro e sem nuvens ornava a fresca tarde de outono. Sibele, cansada e cambaleando tentando se equilibrar num salto oito em calçadas esburacadas e traiçoeiras, pensava em sua casa, em seu cachorro que faria a maior festa com sua chegada e em seu marido Fernando.

      Ao dobrar a última esquina, avistou-o no maior bate papo com a vizinha, na entrada do prédio. Parou e ficou só olhando de longe até aonde iria a petulância dos dois, em plena rua, para todos testemunharem. Os dois riam, a moça mexia nos cabelos, ele disfarçava e olhava-a dos pés à cabeça, mas sem se encostarem. Depois de alguns minutos, se despediram e cada um seguiu seu rumo.

      Bufando e vermelha de ódio, Sibele firmou os passos, engoliu seco e se preparou para uma provável briga pelo flagrante descarado e quase obsceno debaixo de suas fuças.

      Entrou. Fernando estava sentado no sofá, com o controle remoto a tatear os canais. Parou num canal de esportes, com comentaristas que ele gostava. "Futebol, sempre futebol", pensou Sibele que fechou a porta e ficou encostada nela, esperando uma explicação convincente de Fernando.

      - Oi, amor, como foi seu dia? Vem cá, senta aqui! - Disse ele, com voz doce, mas sem tirar os olhos da TV.

      - Bem. - Respondeu, seca.

      Imediatamente Fernando tirou a concentração da TV e olhou a esposa que estava com uma carranca daquelas que ele bem conhecia.

      - Que foi amor? - Ingenuo, perguntou.

      - Nada.

      Fernando respirou fundo, coçou a cabeça, levantou-se e foi até Sibele, que ainda estava encostada na porta.

      - Me deixa, Fer.

      Ele levantou as mãos com a ameaça e voltou de ré ao sofá.

      - Não tem nada pra me contar não? - Ralhou, baixinho, apertando os lábios sem quase abrir a boca para pronunciar a frase.

      - Hmmmmm.... O quê, por exemplo?

      - Claro, você nunca sabe de nada, não fez nada, não vai falar nada, né? Pensa que  eu sou cega, que o mundo é cego?

      - Ixi....

      Emburrada e pisando alto, Sibele foi ao quarto, bateu a porta e ali permaneceu. Fernando continuou assistindo a TV e sem entender nada.

      Alguns minutos depois, Sibele reaparece com um travesseiro e cobertor e jogou-os no sofá.

      - Hoje você dorme aí, até aprender a me respeitar e parar de me fazer de idiota. Pensa que eu não vi sua safadeza com a novinha do quarenta e oito? Não tem vergonha na cara não? Não tá satisfeito comigo é fácil resolver, só não me faça de trouxa! - apontando o dedo na cara de Fernando - Olha bem, escuta aqui, você não encosta a mão em mim por uma semana, entendeu? Uma semana! E entrou no quarto novamente.

      Fernando só ficou olhando, de boca aberta e sem entender. Sibele era um poço de ciúmes e bastava uma simples olhada para os lados para ser motivo para brigar. Mas amava-a com esse seu jeito tosco e estúpido. Vai entender as razões do amor, não é? Gostava desse ciúme exagerado e sem sentido. Sabia que quando passasse a raiva, o perdão seria maravilhoso e aí seria a hora dele fazer tudo o que queria e amá-la muito mais. "Minha doce jaguatirica", pensava ele.

      Sibele, ainda revoltadíssima com a cena de uma possível traição, desabou num choro. Lamentou o casamento, xingou os homens e instigou Deus por ter criado-os tão sem-vergonha e cara de pau. "Para quê homem tem que ficar olhando outras mulheres se tem uma inteirinha a sua disposição?" Brigou mais um pouco com Deus, esmurrou várias vezes o travesseiro, jogou todas as roupas de Fernando que estavam no armário, no chão e depois dormiu, em seu canto direito da cama, enrolada no cobertor, apenas com o nariz e os olhos de fora.

      Fernando pegou o telefone, pediu uma pizza e um refrigerante, e depois de forrar o estômago, se jogou no sofá e dormiu relaxado, com a TV ligada. Gostava disso de vez em quando, de dormir sem ninguém lhe empurrando e roubando o cobertor. De ficar ouvindo a TV a noite toda, mesmo dormindo, de poder pensar em quem quisesse e quem sabe, satisfazer algum desejo que só o fazia escondido no banheiro. "Mas que menina mais linda aquela", pensava - "Qualquer dia desses eu perco o juízo... E a vida." - e riu de si mesmo.

      Fim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Um Pedreiro Mexeu Comigo


Antes, um recado pras feministas: não leiam! Se lerem, não me critiquem! Mas podem comentar o que quiserem. São sempre bem-vindas! Todos, bem-vindos!

Estava eu voltando da academia quando um pedreiro que trabalhava, solitário, em uma obra...

- Ô, coisa linda... - disse ele a mim.

Tive a certeza de que foi pra mim, pois somente eu estava passando na rua, e olhei até nas janelas pra ver se tinha alguma moçoila. Então a cantada foi pra mim mesma!

Quase tropecei, esperei me afastar pra só depois sorrir. Depois de anos, finalmente uma cantada! hehehehe

Constrangedor? Sim, mas gostei. Fazia tempo, anos, que não recebia um elogio assim na rua. Digo elogio porque ele falou em voz baixa, não havia ninguém, além de mim, por perto e que ficou só nisso.

Quando se é jovem, é comum receber "elogios". Hoje em dia é perigoso, não é bem visto como naqueles idos 198... e é considerado até uma agressão. Mas como foi no meu caso, nada de agressão.

Vejam bem, quase cinquentinha, saindo há pouco de uma depressão e pânico, sem olhar direito pro espelho, me sentindo a pessoa mais estranha do mundo e completamente antissocial, receber um elogio? Ahhh, voltei à juventude!

Mulher é assim mesmo, gosta de ouvir pra ter certeza, de carinhos, de romance... Mesmo que seja chato pros homens, ficar repetindo, façam, por favor! Essa é uma característica nossa, feminina, então o que custa falar coisas bonitas pra nós? Não estou dizendo cantadas de estranhos, mas quem está próximo, que convive conosco, ou que por acaso reencontrou, que aconteceu algo, falem, meninos! Não custa nada e o retorno é prazeroso!

Um pouco de romance sempre faz bem, mesmo sendo um caso esporádico. E nem precisa ser romance, se é que me entendem...

Há quanto tempo você, homem, não elogia sua mulher, namorada, amor platônico, amiga, ficante, enfim, há quanto tempo? Surpreenda! E veja o resultado.

Um ótimo fim de semana a todos!




quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Depois, quem sabe...


      Mesmo calçando sapatos de salto alto, Monique correu para seu o prédio onde ficava seu apartamento, numa sangria desatada. Trêmula, não conseguiu chamar o elevador, então arrancou os sapatos e subiu pelas escadas. Fôlego de maratonista que nem ela sabia possuir e com as chaves na mão, abriu a porta e correu para a janela que dava para a rua de onde chegara. Uma garoa deixava o tempo cinzento e frio, e com sua respiração deixava a janela embaçada. Trocava de lugar a cada embaço, mas não queria perder de vista o homem idolatrado por anos, que nem imaginava que ela possuía e guardava a sete chaves esse sentimento. Amor platônico e eterno, repetia ela, em pensamento.

      Ele ainda era visível, de longe, caminhando tranquilamente, de cabeça baixa e mãos nos bolsos. A brisa úmida fazia com que seus cabelos brilhassem. Ele brilhava por onde passava, pensava Monique, apaixonada. Uma lágrima rolou, depois outra e logo o choro compulsivo e descontrolado tomava conta da situação.

      Monique se jogou no sofá, abraçou a almofada azul céu de cetim e desabou num choro dolorido. Não se conformava com a situação de não tê-lo por perto, por toda a vida, ou talvez por algum tempo. Como seria se não tivesse terminado tudo há exatos oito anos? Amava-o tanto que preferiu abrir mão de seus sentimentos do que tornar a vida do amado um caos, pelo ciúme excessivo que sentia. Queria seu bem e não sua tortura. Se afastou de forma brusca, sem dar chances para uma explicação. Não tinha explicação. Ela decidiu pelos dois e não havia o que discutir.

      Nesse tempo todo muitos homens já haviam passado pela sua vida, mas nenhum chegava aos pés de Danilo. E coincidência ou não, todos eram muitos parecidos fisicamente com ele. Estatura mediana, magro, cabelos negros e anelados, poucos pelos pelo corpo e uma pele branca, rosada quando permanecia alguns minutos ao sol. Mãos com unhas bem cuidadas, pés idem, e nunca, jamais, deixava de usar perfume amadeirado. Dormia e amanhecia perfumado. Parecia TOC, mas não se sentia bem quando uma pequena gota de suor se atrevia a atravessar sua nuca. Ficava inquieto até se banhar e se perfumar novamente. Adorável, sedutor, tranquilo... E sem atitudes. Não era homem de iniciativas, apenas concordava, pois não gostava de discussões infundadas e todas as discussões que tinham eram infundadas. Por esse motivo Monique tomava as atitudes que lhe convinha. Sempre.

      Hoje cruzara com ele na rua, se cumprimentaram e ela correu para seu apartamento. E chorou as lembranças não vividas, os beijos não dados, os carinhos não trocados, o amor que não se acabara com o tempo... Estaria ele casado? Não queria saber. Melhor assim, cada um no seu canto. Aparentemente estava bem e feliz e isso era o que importava. Saber ou deduzir que o amor de sua vida estava bem e livre de seu ciúme perturbador.

      Continuaria vivendo e procurando alguém que preenchesse o vazio provocado por ela mesma, mas foi uma decisão sem volta. Melhor assim. E continuou chorando, encharcando a almofada que agora abrigava suas lágrimas, fazendo rodelas de azul céu escuro, sem estrelas para contar o tamanho da dor da solidão daquele momento. Melhor assim, repetia...

      Assim que viu Monique, Danilo tremeu, perdeu os passos, mas continuou firme em sua direção, cumprimentou-a, abaixou a cabeça e seguiu. Olhou para trás e não mais viu Monique. Chorou, quieto, sem temer que alguém presenciasse e quem sabe lhe perguntasse de qual mal sofria. Mal de amor eterno, mal de abandono, mal de desprezo pela mulher amada, responderia sem medo.

      Reconhecia que era covarde e que não tivera a coragem de procurá-la, respeitando sua vontade e também querendo vê-la feliz e em paz. Amava-a tanto que não se atreveria nunca a perturbar sua felicidade e sua vida. Viveria até os últimos minutos com lembranças tortas e mal-resolvidas. E assim quis, assim foi feito. Repetia, incansavelmente pelas ruas úmidas. Vez ou outra arrumava os cabelos, enxugava a testa com o dorso da mão e continuava cultivando as lágrimas que caíam, uma a uma, discretamente.

      Queria ter a coragem de dizer que a ainda amava-a e sempre a amaria, eternamente. Mas foi melhor assim, apenas um oi e a vida seguiria seu destino. Cada um na sua vida, com seus outros amados, com suas alegrias, com sua paz. Assim ela quis, e assim foi feito.

      Fim.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Marlon Guido


Meu nome é Marlon Guido, sou filho de dona Marta e até hoje me lembro de coisas e fatos que se deram em minha vida, ocorridos quando eu ainda era bebê. Um deles, me lembro nitidamente, ainda ia fazer dois anos de idade, minha mãe confraternizava com amigos, sentados numa mesa às margens do Rio Paraíba do Sul, em São João da Barra, quando ela me pegou no colo e em fração de segundos me atirou lá dentro do rio. Caí próximo ao dique e logo a fadiga de estar bebendo água e tê-la entrando no meu nariz já tinha tomado conta de mim. 
Minha mãe foi mãe solteira, me teve aos 18 anos e, expurgada de casa, foi para o Rio de Janeiro comigo nos braços, e só voltou a ter contato com a família quase dois anos depois. Até um ano e meio de idade eu não tinha nome. Passeando comigo no carrinho, na rua, as pessoas brincavam com o filhinho de Marta e perguntavam: "qual o nome dele"? "Sorvete. Ele ainda não tem nome", dizia minha mãe. Pois bem, o tempo passou, minha mãe prosperava dia após dia, como vendedora, galgava postos cada vez mais altos nas empresas à nível nacional, como o grupo Garavelo na época, Golden Cross, foi gerente de banco e aparentemente era muito requisitada. Também, foi "Garota Alternativa", "Garota Objetiva", garota isso, garota aquilo, era um monte de concursos de beleza que hoje correspondem a esses novos que lançaram aí. Mamãe era de fato uma mulher muito bonita, eu a amava e passava horas olhando-a como se o tempo parasse. 
No decorrer de toda sua vida, todas as suas atitudes comigo foram no sentido de me fazer virar homem o quanto mais rápido possível. Era como se ela quisesse que eu fosse precoce em tudo, até na natação, como já relatei. Seu desejo era, que meu nível de entendimento, visão de mundo e defesas, fossem aguçados ainda que totalmente fora da minha capacidade. 
Depois de termos a vida que pedimos a Deus, de obtermos tudo aquilo que sempre queríamos, numa fração de pouquíssimo tempo minha mãe já havia se tornado totalmente dependente do álcool A rapidez com que aquela mulher obteve a ascensão foi a mesma do fracasso. Das reuniões nos restaurantes chiques no Rio de Janeiro pros pedaços de pedra embaixo da ponte da Lapa, acompanhada de outros alcoólatras e que muitos deles moravam ali mesmo. Foram quase quinze anos, onde ela parecia ter como objetivo o suicídio lento, regado pela bebida e pelo cigarro. 
Algumas manias ela nunca perdeu, como a de viajar por exemplo, só que agora nós não andávamos mais nos leitos dos ônibus e nem nos carros, mas nos caminhões de carona, onde eu passava noites em claro vigiando-a, a fim de coibir aquele momento em que o motorista mudaria a marcha e levemente se aproveitaria pra tentar alisar sua perna. Era quando eu sempre simulava uma tosse pra que ele percebesse que eu estava acordado e vendo, a fim de quebrar o clima e ele interromper a empreitada. 
Eu tinha um ciúme da minha mãe que não gosto nem de me lembrar. Eu tinha um cuidado com ela que minha disposição de levar dias acordado e sem me alimentar direito era abastecida pelo simples fato de saber que alguma coisa poderia lhe acontecer no momento em que eu dormisse, ou que me enfraquecesse por falta de comida. Minha saliva era suficiente e me manter longos minutos sem piscar era uma estratégia para espantar o sono. 
Ruas, becos, vielas, favelas, prédios abandonados, obras inacabadas, terrenos, rodoviárias e ate beiras de praias eram lugares comuns onde passávamos horas, dias e até meses. 
Muita coisa não dá pra ser explicada por aqui, mas o que eu quero trazer à tona, sem o mínimo constrangimento, é que eu amo minha mãe cada vez mais a cada dia, ainda que ela já não esteja mais aqui na terra há mais de dez anos. pois a cada momento em que me lembro dela, me lembro também de cada ato dela comigo durante o tempo em que passamos juntos. Parecia que ela já sabia que me deixaria cedo demais e talvez eu não estivesse ainda preparado pra enfrentar o mundo sem ela, sozinho. Mas sobrevivi, e tenho certeza que tudo que ela fez me ajudou, me preparou, me fortaleceu, até os atos mais loucos. Agradeceria a ela desde o dia em que me jogou naquele rio, onde alguns longos segundos depois, um cara que provavelmente estava sentado naquela mesa com ela, pulou e parece que posso sentir ate hoje suas mãos nas minhas costelinhas, me subindo de volta à superfície. Não sei quem ele é, mas tenho certeza que conta isso ate hoje, se estiver vivo. 
Agradeceria também a todas as noites nas rodoviárias, testemunhando aquelas cenas e fazendo feições de quem poderia fazer mal a qualquer um que se aproximasse dela, mesmo estando totalmente temeroso e indefeso, mas sabendo que havia um Deus que nos protegia e nos guardava, senão Ele sabia que pra mim não tinha sentido Ele não proteger nós dois, então que eu ficasse desprotegido, e não ela. 
Agradeceria também pelo nível de realidade que ela me ensinou a viver, por me ensinar a analisar as pessoas, as coisas, os ambientes, o "feeling" pra detectar os mínimos detalhes e fatos que se dão num curto espaço de tempo entre pessoas, sem que elas percebam que foram vistas e "lidas", me facilitando reações e me permitindo elaborar situações pra me safar do que quer que seja e progredir em qualquer necessidade. 
Eu ficaria aqui por horas, até dias, contando coisas que provavelmente você só verá em filmes, alguns até baseados em fatos reais, mas sem o teor e a veracidade do relato sendo contado pelo próprio autor da história real. Se valorize mais, vencer na vida é uma questão de visão, talvez você já seja um vencedor e não reconhece isso... ‪#‎Amor‬

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Este é Marlon Guido, de Campos de Goytacazes, RJ, amigo virtual querido, desses que a gente esbarra por aí e nem imagina que teve uma história dolorida. Rapaz sério de olhos brilhantes, olhos que falam e sentem, ternura que esbanja por onde passa, rapaz que sentiu as muitas dores na carne, na alma, e nunca se deixou abater. Vive como tem que viver, com Deus no coração sempre, valorizando o que é de valor e agregando o que lhe convém. Simples, como tem que ser. Um vencedor, produtor rural, que vive e faz a diferença por onde passa. Respira com vontade, com garra e nunca, jamais, desiste de seus sonhos e objetivos. Teve um anjo cuidador, sua mãe, mesmo, às vezes, com atitudes duras, e foi um anjo pra ela, cuidando-a com tanto cuidado como se tivesse a impressão que se quebraria caso alguém lhe encostasse um dedo. Ainda vamos ouvir falar muito dele. Guardem seu nome!

Obrigada, Marlon, por me permitir compartilhar sua vida.





terça-feira, 26 de agosto de 2014

De 0 a 100 em 10 minutos


Onde o 0 a 100 = defeitos do homem.


Que ódio... Isso não se faz... E agora?
Que coisa, custei a encontrar um cara bacana, que me entende, que é lindo... Um Deus Grego que não se encontra em nenhum lugar. Um anjo que caiu dos céus nos meus braços, o homem de minha vida...
E solteiro!
Mas o Universo tinha que conspirar e colocar uma areinha em cima de tudo isso, né?
Sabe aquela pessoa que a gente imagina mas sabe que não existe? Então, ela existe. E eu a conheci.
Tá certo que é um gato, um corpo maravilhoso, umas mãos suaves... Ai...
Tipo canalha, que tem tentáculos no lugar dos braços, que lhe encosta na parede e lhe vira do avesso, aquele perfume que entra na gente pra acabar com o nosso sustento... 
Aquela boca carnuda, maravilhosa, os dentes perfeitos... O beijo... O beijo... Ai...
Mas como todo canalha, chega sem perguntar, sem pedir licença, nos invade, nos deixa de quatro e...
Apronta o que quer com a gente e só?
Ah, não faça isso, rapaz! Isso dói...
Bastou eu me derreter toda pra virar pros lados e achar quem? Qualquer uma que passar a sua frente!
Sim, porque me disse coisas lindas, me levou à beira da loucura e só?
Não durou muito, não foi uma eternidade... Um mês... Mas tá bom né? Tempo suficiente pra gente conhecer.
Eu andei fuçando nos signos e realmente não combinam. O meu é ar e o dele é fogo. Quer dizer que eu sempre vou apagar o fogo dele? Ou será que sempre vou satisfazer o fogo dele? Não importa.
Já sei que ele já está com outra... Mas não quero saber com quem... Pra quê?
Se bem que eu duvido que ele encontre alguém como eu. Pode ser parecida, mas igual, jamais!
O beijo dele não é tão bom assim... Não é daqueles envolventes que a gente perde o fôlego, tanto é que ficaria horas beijando e respirando ao mesmo tempo.
E tem aquele calo na mão que me machuca o rosto quando me toca... Tinha que cuidar disso, a gente tem a pele delicada e não pode ficar marcada por causa de um calo. E as unhas parecem que não são cortadas e sim roídas, com toda aquela cutícula saltitando... Ah não gosto! E o pior de tudo isso? A unha do dedo mindinho maior que as outras. Afff!!! 
O abdome nem é tão definido assim... Tem umas dobrinhas que a gente fica até incomodada de ficar pegando...
E os pés dele? Gente, aquilo não são pés, são garras! Um horror! Bem que eu percebi que de vez em quando ele não tirava as meias pra transar... Affffff!!!
É mais baixo que eu. Então tive que diminuir meus saltos que tanto amo... Pra não constranger o coitado... Ficava até engraçado a gente andando de mãos dadas, ele 5 cm mais baixo e eu com salto quinze. Parecia que era meu filho me dando a mão. Affffffffff!!!
Ah, mas ele fala coisas tão lindas, tão envolventes... Mas não pronuncia o português correto... Chega a doer os ouvidos... De vez em quando ele solta um "menas"... Mas é tão envolvente que eu nem ligava. Não ligava, mas agora me lembro de tudo, tudo!
Mas tinha um perfume tão bom... Mas perfume doce... Onde já se viu homem usar perfume doce? Quer me matar de enjoo?
Agora ele está lá com aquelazinha... 
Não deve ter nenhum pingo de criatividade e deve repetir tudo pra ela, palavra por palavra, vírgula por vírgula e erro por erro.
Coitada, vai ter que aguentar tudo aquilo?
Ah vai... E vai adorar! 
Mas que seja só por 28 dias, porque comigo foram 30, então se ficar ou passar os 30 aí fico preocupada.
Não, que dure 2 semanas e já está de bom tamanho.
Será que ele se lembra de mim? Que me importa? Eu é que não vou ficar me lembrando dele.
Quer saber?
Que traste, que homem horrível, que não tem modos, que não tem pegada, que não sabe beijar, que usa um perfume horrendo, que não tem criatividade no sexo, que nem é tão bonito assim e que não sabe ter um papo decente.
Pronto, falei! Affffffffffffffffff!!!
Que ódio!



Texto publicado em  27 de maio de 2013 - Editado.



domingo, 17 de agosto de 2014

Até Que a Morte nos Separe


      - Mor, eu te juro que não vai ter nada demais... É só uma reuniãozinha com a turma, beber um pouco, me despedir deles e só!

      - Dré, isso não funciona! Despedida de homem sempre tem mulher no meio...

      - Tem nada! Na minha despedida não vai ter não! Eu gravo tudo e depois te mostro... Não se preocupe, te amo!

      - Tô com medo, Dré... Não deixa aqueles marmanjos te machucarem...

      - Beijo, te amo, futura esposa!

      - Beijo, marido!

      André chegou na casa do amigo Tadeu por volta das 23:00h, onde seria sua despedida de solteiro. Esperou pelos demais amigos e, para sua surpresa, não ficaram por ali. Seguiram para uma chácara, que ficava no final da cidade e que não era longe.

      Eram seus amigos de infância, por isso nem se importou com a surpresa. Queria se divertir com os malucos e beber além da conta, até cair e acordar só no outro dia.

      Chegando na chácara, mais alguns amigos dos amigos e, claro, algumas garotas "um tanto duvidosas". André se lembrou de sua noiva; mas já que ali estava, aceitou tudo sem problemas. Sabia de seus limites e tinha muito juízo.

      Era um local afastado, perto de um rio que cortava a pequena cidade. O céu estava estrelado e a Lua iluminava o matagal e refletia nas águas sua imponência noturna, dando a impressão de uma noite medonha, silenciosa e solitária. Era inverno e vez ou outra ouvia-se o uivo da ventania, que passava e voltava, como se vigiasse quem se atrevia a atrapalhar sua melodia.

      Entre bebedeiras, risadas descontroladas, amassos nas "moças" e cantorias gritadas, os amigos fizeram com que André dançasse sobre uma mesa, somente de cueca, depois colocaram uma moça e dançaram os dois num ritmo sensual. Mas André, ainda lúcido, evitava ao máximo se encostar na garota; olhava com ar de reprovação ao grande amigo de infância, e este ria como uma criança. Desviava o olhar da moça, evitava seu corpo, seu toque, mesmo quando ela insinuava a tocar-lhe onde não deveria, esquivava e continuava, afinal era sua despedida de solteiro. Como estavam todos bêbados nem percebiam que André se afastava da moça quando ela rebolava na sua frente, praticamente grudada nele.

      Depois fizeram com que bebesse um copo com várias misturas de bebidas. Virou de uma vez e quase desmaiou, de tão forte. Mesmo zonzo e falando mole disse que não beberia mais nada, e, apesar da reprovação de todos, sua vontade foi atendida, mas pagaria um castigo por isso.

      Levaram André até o quintal e o amarraram numa árvore, de forma que jamais se soltaria. Estava só de cueca, muito bêbado e o tempo gelado.

      Antes dos rapazes voltarem para casa, enfiaram-lhe goela abaixo, na marra, um copo com aquela mistura forte de várias bebidas. Nessa altura, André já nem enxergava mais e desmaiou.

      A bagunça continuou em todos os lugares da casa e as garotas, todas nuas servindo seus corpos, como assim desejassem cada homem. Se esqueceram de André.

      A madrugada foi gelada e todos acordaram quando já se passava do meio dia.

      - Gente!  O André! - alguém se lembrou da noite anterior.

      - O quê?

      - O André ficou só de cueca lá fora... No frio!

      - Deus do céu!

      - Ele tá dormindo ainda? André... André.... Andrééééééé... - Correram para ir até a árvore onde amarraram André.

      - Me ajuda aqui, gente, acorda ele!

      André estava morto. Hipotermia, segundo o laudo médico.

      A cidade era pequena e a notícia se espalhou rapidamente. Houve comoção geral e alguns se programaram para invadir as casas dos envolvidos para um linchamento. A polícia local foi solicitada para conter a fúria da população. André era querido por todos, boa pessoa, honesto e gentil.

      Sua noiva entrou em desespero, e, mesmo depois de quase 15 anos do ocorrido, nunca se recuperou do trauma. Nunca se casou e sua vida segue entre internações em clínicas devido à depressão e vida de andarilha por toda a cidade, praticamente maltrapilha.

      A família de André aguardou um desfecho da justiça, e quem sabe, uma condenação de todos aqueles que se diziam amigos. Seu pai faleceu pouco tempo depois, de infarto, e sua mãe não saiu mais de casa, a não ser para ir ao cemitério chorar no túmulo do filho.

      Os amigos mudaram de cidade e seguiram suas vidas normalmente, casados e com filhos.
   
      Seu túmulo se tornou referência na cidade, pois a população acreditava que, devido à tragédia, sua alma fazia milagres, principalmente para os noivos.

      Fim.

      Texto publicado em 19 de dezembro de 2011 - Editado