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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019
A Pequena May
- May, tomar banho, agora, vamos! - a mãe chamou a pequena que brincava em sua "floresta, que tinha velhos panos presos nos cabelos com pregadores de roupa. Era seu véu de rainha.
- Hammmm - interrompeu sua fantasia de rainha, virou-se para a mãe, arrancou os panos dos cabelos e correu em disparada para a casa.
No caminho foi conversando com sua rainha, dizendo que hoje era o dia de ir na loja comprar coisas pra usar no Natal. Ela conversava e respondia pra ela mesma... - Um a um ia listando as prováveis coisas a serem compradas. Uma delas seria um par de sapatos pretos brilhantes, como ela havia pedido pra mãe tempos atrás. Outro item que ela tinha certeza que teria seria um vestido. Não tinha preferência, qualquer um combinaria com seus sapatos.
May, nos seus cinco anos, já sabia escolher detalhadamente o que usar devido aos livros infantis que tinha e aos desenhos animados que assistia.
A floresta era um lugar mágico, com dragões e cobras, porém não eram bichos maus, eram seus amigos e estavam lá pra defendê-la da bruxa malvada que ficava escondida atrás do muro, ouvindo ela brincar e cantar.
Quando chegava fim de ano, era costume da família ir a uma grande loja comprar roupas, sapatos, utensílios para a casa e alguns presentes. Eram definidas como "as compras do ano".
Junto ao encanto de ter roupas novas e sapatos novos, May sabia que era época de comer coisas gostosas e de reunir na casa dos avós e ganharem vários presentes. Esses detalhes ela contava pra rainha da floresta:
- Hmmmm, vai ter refrigerante, bolo, macarrão da vovó, sorvete... E eu vou ganhar um montão de presentes! - confidenciava May.
Também era definida como "a reunião familiar do ano".
Enquanto tomava seu banho, May cantava músicas desconexas, inventadas por ela mesma, como se fossem histórias cantadas. Tinha uma imaginação sem fim.
A roupa já estava em sua cama e sua sandália, que já estava pequena para seus pés, estava posicionada alinhadamente do lado cama.
A mãe de May ajudava-a a se enxugar e a colocar o vestido. Depois penteava seus cabelos cacheados, segurava seu rosto, olhava-a com ternura e, com um sorriso, dizia a ela que era a rainha mais linda da floresta. May sorria e respondia "sim, eu sou".
O pai de May já estava há um bom tempo aguardando as "madames" se embonecarem para irem às compras, impaciente, como todo homem atarefado, mesmo estando em férias da empresa em que trabalhava.
Quando May apareceu na sala, sorriu para seu pai e, inclinando a cabeça para o lado, disse que já estava pronta. Seu pai, como fazia todos os anos, pegou-a no colo e elevou-a ao alto e voltou-a ao chão, fazendo com que seu vestido abrisse como um para-quedas e seus cachos balançassem no ar. Ela gargalhava feliz.
A grande loja ficava longe de casa, por esse motivo a família usava o transporte público. Estava lotado e sem lugares para sentarem-se. May não entendia muito o acúmulo de pessoas dentro do ônibus, apenas observava um e outro, agarrada na mão de seu, que também se equilibrava segurando no suporte algo do ônibus.
May deitou seu olhar numa senhora que estava sentada bem no seu rumo, com várias sacolas e um embrulho bem grande ajeitado entre as pernas. Era um presente.
- O que é isso? - perguntou à senhora.
- É um presente. - respondeu sorrindo para May.
- É pro seu filho? - insistiu a pequena.
- Não, é Papai Noel pro meu neto Tiago.
May encarou a senhora e ficou imaginando o Papai Noel dentro da caixa e logo pensou que ela não teria presente do Papai Noel porque ele estava preso dentro da caixa, e que a avó havia comprado ele somente pro seu neto Tiago.
Próxima parada desceriam. May encarou a senhora até descer do ônibus, inconformada.
Na loja, que estava lotada, May corria pra lá e pra cá, sempre sob os olhos atentos dos pais, que a repreendiam caso esbarrasse em algum objeto. Vez ou outra seu pai pegava sua mão pra que ela se aquietasse. Mesmo assim May continuava brincando, conversando, cantando e apontando uma coisa ou outra. Tudo era encantador, com luzes piscando, músicas natalinas, brilhos, bolas coloridas, e lá no fundo, quem estava lá? O Papai Noel.
May parou e ficou boquiaberta ao saber que o Papai Noel não estava dentro da caixa da senhora do ônibus. Imediatamente ela apontou para ele e gritou: - Papai Noel!
Seu pai repreendeu-a mais uma vez, e sua mãe, com toda paciência, pegou na pequena mão de May e levou-a até ele.
May, com os olhos brilhantes, perguntou:
- O que você está fazendo aqui?
Papai Noel, surpreso pela pergunta, respondeu:
- Estou aqui te esperando, menina!
May sorriu, aproximou-se dele e começou a contar a história do ônibus, mas o tempo era curto e haviam pessoas na fila, foi interrompida. Deu um abraço nele e saiu saltitando de alegria. May tinha certeza de que ele havia fugido da caixa.
Sua mãe sentou-a num puff para provar os sapatos. Não eram brilhantes como havia pedido. May cruzou os braços e não quis experimentar. Os sapatos brilhantes, em verniz, eram um pouco mais caros e o casal teria que abrir mão de alguma coisa para satisfazer os gostos da filha. Ficaram cochichando até chegarem num acordo. Comprariam um presente mais barato para May e assim poderiam comprar os sapatos em verniz. Realmente eram lindos!
As compras seriam entregues na casa deles, pois eram volumosas, muitas caixas e alguns itens eram pesados.
Saíram da loja e foram comer pastéis, como era costume. Pastéis de carne e garapa.
A família de May era bem simples, porém eram organizados nas despesas. A "compra do ano" era sagrada e o dinheiro era guardado mês a mês.
Fim de ano era o tempo de reunir a família e esbanjar um pouco na alimentação, comer pudim de leite, beber guaraná, vestir roupas novas e trocar presentes. Todos ganhavam, todos compartilhavam o que podiam, todos matavam as saudades e tinham o "dia do ano" mais feliz do mundo.
May, vestindo roupas novas, sapatos brilhantes, cachos esvoaçantes, e uma história pra contar cantando pra todo mundo, sobre o Papai Noel na caixa do Tiago.
Coisas da vida.
Clara Lúcia
-
Escrevo sobre a vida e os momentos específicos emocionais.
Assuntos relacionados sobre a mente humana e como conviver com o outro sem a necessidade de mudá-lo.
O conhecimento é primeiro processo de cura.
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sábado, 9 de novembro de 2019
Eu, minha criança
"A criança interior é responsável pela nossa conexão com o nosso processo criativo, com o nosso poder de atrair o que queremos através da vibração de alegria que emanamos. Em desequilíbrio não criamos, viramos reféns das frequências que vibram de forma inconsciente, que traz para a nossa realidade todos os processos de espelhamento."
Texto de Renata Pereira.
Texto de Renata Pereira.
"Vinde a mim as criancinhas, pois delas serão o Reino dos Céus"; Jesus.
Por que será que Jesus disse isso e ninguém entendeu, ou entendeu que somente as crianças que teriam condições de entrar no Reino dos Céus?
Para o Universo somos crianças em fase de aprendizado.
Infelizmente, e isso faz parte da evolução, ao longo da vida somos inundados com crenças e limitações infundadas. Mas isso também tem um propósito, essas crenças são para que possamos vivenciá-las e aprendermos a lidar com elas.
Todo tipo de processo não deve ser evitado e sim vivenciado, sem deixar que nos limite ao processo evolutivo.
Vamos nos lembrar da infância. A minha foi solitária, porém não sabia o que era ser solitária. Brincava sozinha e amava tudo! Criava meus próprios brinquedos: vaquinha de chuchu, boneca de espiga de milho, bolo de barro, cabana de folhagens, floresta imensa no meu quintal, enfim, eu era o brinquedo. E amava tudo isso. Toda criança tem esse processo criativo e que com o tempo se acaba. Ou então na infância mesmo, a criança é privada de brincar como deve ser, explorando sua imaginação.
Hoje é tecnologia, que também não é ruim, pois a criatividade pode ser desenvolvida na criação de infinitas ferramentas facilitadoras para o trabalho humano.
E mesmo assim ainda são privadas de exercer a criatividade. Talvez pela falta de incentivo, não sei, e também por ouvir muitos "ditados", isso é pecado, tem que... para que... para ser... isso não dá dinheiro... moça de família... pai de família... ou seja, costumes impostos sem nenhum fundamento. (eu acho que não tem nenhum fundamento qualquer tipo de tradição).
Quando Jesus diz que o Reino dos Céus são das crianças, creio eu, é o modo como elas convivem com todos.
Não guardam mágoa, amam incondicionalmente, não têm preconceito, nem racismo, não sabem o valor do dinheiro e nem o valor das coisas, mas prezam e procuram muito o valor do coleguinha. Não são vingativos, riem de tudo, brincam, se divertem, criam, choram...
Tudo isso é a base para a vida adulta fluir... Já nascemos sabendo e não usamos essa sabedoria na idade adulta.
O que é preciso para ser próspero e abundante?
Tudo o que criança faz! Na inocência, sabe-se viver como adulto e adulto se esquece de sua criança interior.
Um detalhe sobre como não cultivar a ansiedade na primeira fase da vida. O soltar...
O soltar significa não ficar ansioso e nem duvidar que algo chegará até você. Essa é uma Lei poderosa do Universo para realizarmos nossos desejos. Você deseja algo, imagina-se na situação de já ter esse algo, com gosto, cheiro, tato, cores e depois solta, na certeza de que tudo é real e que já tem o desejo realizado. O Universo trará a você exatamente a sua imaginação. O Universo não sabe o que é real ou imaginário, não sabe se é bom ou ruim, se pode ou não pode. É o foco, a fé.
Onde entra a criança nisso? Criança já sabe o dom que tem, brinca, imagina, conversa com o brinquedo e... Depois vai dormir. Solta... E no outro dia começa tudo de novo, imagina tudo de novo e a imagem holográfica (como o Universo lê) fica em sua mente. Dependendo do que a criança mais gosta de brincar, esse é o projeto de vida dela. E daí vem o adulto e priva-a de todo o dom despertado, porque não é bom, não dá dinheiro blá blá blá.
E cria-se um adulto infeliz, com vida conjugal infeliz, trabalho infeliz, sem prosperidade e sem sonho nenhum.
Outro fato interessante, sobre os bebês e crianças menores. Por que são tão adoráveis? Acho que se não fossem, não teriam satisfeitos seus desejos, já que não sabem se comunicar direito. Tudo em bebê e em criança pequena é fofinho, é lindinho e quando aprendem algo são aplaudidos, abraçados, amados! Tudo que todo mundo precisa para prosperar.
Amor. Somente amor. Amor é a base de tudo e criança sabe disso como ninguém.
Elas emanam vibração de amor para nos atrair. Depois começam as chantagens e os famosos testes de nossa paciência. Mas basta um sorriso e pronto, tudo por água abaixo.
Dia desses, fui num evento e eu brinquei de jogar bexiga com o filho de uma amiga, no meio do povo lá. Todo mundo esperando e ele e eu jogando bexiga. Eu amava jogar bexiga quando era criança. Brincava sozinha, claro...
Por que perdemos todo esse encanto?
Podemos fazer um teste.
Quando tiver algo a ser resolvido e não encontrar solução e não ter a mínima criatividade pra isso, pergunte a sua criança interior o que ela faria pra resolver. Acho que você vai se surpreender.
Lembro quando meus filhos eram pequenos e eles viam algo e perguntavam o que era. Talvez um brinquedo diferente... E eu respondia apenas "é um brinquedo". Simples assim e eles se contentavam com a minha resposta. Até hoje eu dou respostas assim quando perguntam, por exemplo. o que vou fazer para almoçar? Eu só respondo "comida". E eles riem.
Por onde anda sua criança interior?
Clara Lúcia
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018
Guaraná só no Natal
Sabor da infância, guaraná Maçã!
No meu tempo de criança, as coisas não eram fáceis pra nós. Vida simples, regrada, porém não faltava nada. E também não tínhamos sempre.
Roupas novas e guaraná eram as coisas que tínhamos só no Natal.
Não era como hoje, com farturas e comidas diferentes. Era tudo muito simples, caprichado e com algumas coisas com gosto de Natal.
Ah, o guaraná Maçã!
Macarronada, feijão gordo, frango assado e pudim não podiam faltar!
Mas o guaraná Maçã era esperado com água na boca...
Hmmmm, uma semana antes já estava em casa um engradado inteiro com guaraná docinho, com gosto levemente sabor maçã, que podíamos beber à vontade, mesmo sabendo que, como éramos crianças, apenas dois copos ou três cabiam na nossa barriga. Era muita comida boa e a regra era só beber depois de rapar o prato.
A gente rapava o prato na infância e na adolescência brigava com a balança...
Era justo!
E depois vinha o pudim de leite... Ah...
E vejo hoje a facilidade em ter essas gostosuras, que se tornaram corriqueiras em nossa mesa, porém, nem tanto.
Quem diria que com toda a facilidade em comprar comidas e bebidas, algumas guardamos justamente para ocasiões especiais. É o caso do guaraná, nem sempre esse docinho de maçã.
Isso mesmo, voltei à época de vacas magras, porém deliciosas, me permitindo usufruir de guloseiras somente em ocasiões especiais.
Hoje não é como nos tempos passados, onde os alimentos eram quase todos naturais, sem conservantes, nem açúcares em exagero, nem gorduras trans e nem agrotóxicos embutidos.
Não dá pra facilitar a entrada de venenos no nosso organismo, afinal temos que cuidar da carcaça temporária que nos foi emprestada. Não cuidou direito, adoeceu e morreu!
Ainda hoje encontro guaraná Maçã para comprar, e quem sabe ele fará parte de minha mesa de Natal?
Um Feliz Natal a todos, com paz, saúde e felicidades!
E um Ano Novo repleto de boas atitudes e muita gratidão!
Clara Lúcia
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terça-feira, 10 de julho de 2018
AS PANTUFAS DE NONNA
O tempo era meio esquisito no inverno, num dia um calor seco, no outro um frio cortante, daqueles de soltar fumaça pela boca. Ana Vitória nem podia sair de dentro de casa para brincar, devido a sua sensibilidade com o clima seco. Sofria no inverno a pequena. Mas invenções para brincadeiras é que não faltavam para entretê-la.
Ana Vitória, uma menina de cabelos encaracolados, olhos grandes e verdes, sardas no nariz e, no auge dos seus cinco anos, as janelas na boca eram inevitáveis. Os quatro dentes de leite da frente já não faziam mais parte de sua figura. Era uma criança doce, meiga, porém teimosa como uma mulinha em crescimento. Adorável quando queria alguma coisa, cativante para evitar broncas por alguma travessura, mas educada, que era o que mais importava.
Em sua casa, além dela e seus pais, sua bisavó vivia com eles em harmonia perfeita. Afinal que família não vive em harmonia quando se tem uma bisneta a querer brincar com a bisavó fazendo-a sentar no chão e cruzar as pernas? Ana fazia isso e depois gritava pela mãe para ajudar a nonna a se levantar. E ria da situação. Nonna se divertia demais! Fazia de propósito só para ouvir as gargalhadas da bisneta. E ficava mole quando sua neta, mãe de Ana Vitória, ia acudi-la para se levantar. Percy, mãe da pequena, tinha medo de nonna se machucar ou quebrar algum osso. "Que nada", dizia nonna, "aguento muita coisa ainda, fia".
E nesse tempo frio, Percy fez pantufas para nonna, toda colorida em crochê. Ela adorou! Qualquer ventinho mais frio que dava, lá estavam as pantufas a esquentar os pés da nonna.
Ana Vitória também ganhou pantufas, mas as dela eram de ursinho bem peludo. Tinham a sola antiderrapante e eram bem macias. Já as da nonna eram somente em crochê, sem sola antiderrapante nem nada. Mas eram quentinhas e confortáveis. Nonna calçava-as e ficava sentada no sofá cobrindo as pernas com uma manta leve.
Ana Vitória ficava observando as suas pantufas e comparando com as da nonna. Eram diferentes uma da outra, apesar de terem o mesmo nome, deduzia a pequena. Ana indagava a bisavó sobre a sola não ter aquelas bolinhas, as antiderrapantes, e nonna apenas dizia que as pantufas que tinham bolinhas eram somente para crianças felizes poderem correr, brincar e não cair. Ana abria uma sorriso, colocava seu pé do lado do pé de nonna e comparava o tamanho, depois dava um beijo na bochecha dela e voltava aos seus brinquedos.
Num dia frio nonna preferia não se aventurar no chão com a bisneta. Mas engana-se quem imaginava que Ana Vitória ficasse quieta perto da nonna! Fazia questão de trazer seus brinquedos para perto dela, arrumava tudo em volta dos pés da nonna formando um círculo, e ali cantarolava com as bonecas e fazia chá para servir à nonna.
Percy ficava observando a criatividade da filha com a bisavó e sentia paz. A diferença de idade era de oitenta anos, porém não fazia a menor diferença. Nonna, encurvada e com os cotovelos apoiados nos joelhos, entrava na brincadeira e fazia tudo que Ana Vitória pedia. E riam descontroladamente das caretas que nonna fazia quando tomava o chá.
Percy, que ficava observando da porta da sala, ria também e se lembrava de quando era criança e nonna fazia chá para os netos. Era o chá de cheiro, saboroso e perfumado. Sempre era acompanhado por pão caseiro, bolinho de chuva ou bolo de fubá. Os netos se fartavam com as delícias de nonna! Depois de moça é que Percy descobriu o segredo do chá, apenas água com açúcar. E pensava que além desses dois ingredientes, havia também muito amor envolvido, muito capricho e bom humor. Percy fechava os olhos e imaginava o aroma do chá de cheiro com o pão caseiro invadir a casa... E olhava para a filha que brincava com nonna e se emocionava pela falta de seu bisavô e de seus pais, todos falecidos. A família havia diminuído, mas a energia do amor enchia a casa de Ana Vitória!
Não sabia por mais quanto tempo nonna estaria entre eles, mas fazia questão de proporcionar o maior conforto possível para ela. E fazia questão de Ana Vitória participar de tudo e ter uma lembrança maravilhosa da infância ao lado de nona por toda a vida.
Clara Lúcia
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domingo, 29 de outubro de 2017
Depois De Tanto Tempo
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| Escola Cel.Francisco Martins - Franca/SP |
Este fim de semana, amigas e eu fomos a uma pizzaria.
Na saída, enquanto esperávamos por uma das amigas, passou por nós uma mulher, seus filhos e o marido. Tudo bem, sorrimos todas umas pras outras, ela parou a minha frente e disse que me conhecia.
Meus Deus, não me lembrei de jeito nenhum de onde e muito menos o nome dela.
Disse que estudamos juntas, nessa escola da foto acima.
Isso faz "somente" quarenta e quatro anos! E ela se lembrou de mim! Será que não mudei nada? Mudei sim, mas a fisionomia continua a mesma, é o que dizem...
Quando ela me disse isso, imediatamente me lembrei dela, que era a filha da professora do segundo ano primário, Dona Jupira, um doce de professora, claro que iria me lembrar dela, assim como me lembro de quase todas elas.
Depois de identificá-la que reparei nos seus traços e era ela mesma, Cléa, a aluna branquinha, pequenininha, que me ajudava nas redações corrigindo meus erros de português, na casa dela mesma, antes que a mãe corrigisse. Não sei se fazia essas correções somente com minhas redações, mas como poderia me esquecer disso?
Uma que me lembro claramente foi uma palavra que escrevi errado e nunca mais me esqueci de como se escreve: "ruim". Eu havia escrito "rui... era muito rui...", me lembro como se fosse hoje.
A letra dela era mais redondinha do que a minha, e não tenho certeza se a mãe dela, a doce Dona Jupira, não desconfiava da tramoia da filha.
Bem, se desconfiava ou não, nunca tive problemas com redações ou com a língua portuguesa, porque, naquela época, graças a Deus, tínhamos ditado e depois redações, várias redações, que nos permitia decorar a grafia correta de cada palavra.
Que alegria ao ficar sabendo da mãe de Cléa, a doce Dona Jupira, que ainda está viva e com noventa e um anos. Ela disse que a mãe tem falhas de memória, mas está bem de saúde.
Mandei um beijo e disse a Cléa que jamais me esqueci dela.
Professores, mesmo não tendo o devido reconhecimento, saiba que ele vem através dos alunos, que jamais esquecerão de vocês, passe o tempo que passar. Portanto, tenham amor à profissão, que é a base de todas as outras!
Não percam as esperanças de dias melhores, mesmo que a situação não esteja favorável, é uma profissão belíssima!
Que Deus abençoe a todos os professores e que os alunos se lembrem com carinho de vocês!
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domingo, 3 de setembro de 2017
Geração De Crianças Mimadas
Ultimamente a geração diminui cada vez mais. Antes, quando era contada de dez em dez anos, hoje, creio eu, é de cinco em cinco anos (se alguém souber, por gentileza, me informe).
Não se pode comparar gerações, pois cada uma tem suas delícias e suas derrotas, mas o que vemos hoje são crianças em redomas, que não podem ser contrariadas ou que não devem sofrer.
Um dia, faz tempo, um grupo de psicólogos disse que criança tinha que ter autonomia e decidir, desde cedo, o que queria. Me lembro muito bem disso, mas não sei quando foi. Até hoje fico pensando qual o aprendizado, qual a opção de uma criança que ainda não tem histórico nenhum, em escolher o melhor pra ela?
Hoje em dia está tudo muito fácil, o que não é errado, só que, claro, a maioria não aproveita essa facilidade.
Viajando na minha infância, tínhamos que buscar respostas, fabricar brinquedos, esperar a roupa ficar pronta, a comida era feita em casa, enfim, coisas de minha geração. Pra mim, que não sabia como seria se fosse diferente, não foi dificultoso. Era costume.
Na infância de meus pais, era bem difícil em tudo! Eram de família humilde, como a maioria era, e tudo era longe! Não havia condução coletiva, carro, só os ricos tinham. A comunicação à distância era através de carta, ou então pelo rádio, caso houvesse algum falecimento.
Aprenderam tudo na lida dura do dia a dia, e não sofreram nada com isso. Sobreviveram muito bem!
Meus avós moravam em fazendas, comiam o que plantavam, não tinham geladeira, o fogão era à lenha, tudo muito simples. Escola era muito difícil, pois era tudo muito longe. Minha avó apenas assinava o nome e, pra mim, era a pessoa mais doce e esperta que já conheci, justamente pela dificuldade de não saber ler nem escrever. Meu avô sabia. E também sempre foi um exemplo. Tiveram sete filhos e do mais velho ao mais novo, uma diferença enorme! O mais novo tinha bicicleta e depois carro. Desfilava pelas ruas como se fosse o famoso do pedaço. Tudo bem ser assim, mas engraçado como um objeto modifica uma pessoa.
Voltando a minha infância, me lembro que brincava sozinha, conversava sozinha e era muito curiosa, como toda criança é.
Mas as crianças de hoje, gente, o que mais eu ouço do pais "Nossa, mas meu filho é muito esperto, aprende tudo muito rápido". Sim, eles são assim mesmo pela quantidade de informações que recebem. E são tratados como tal, como gênios, donos da verdade e supremacia. Não podem ser contrariados e nem adianta impor condição nenhuma. Não estão nem aí pra regras. Não são todos, claro, mas uma grande quantidade deles sim.
Eu não me acostumo em ver criança dando birra em público ou então ofendendo pai e mãe, seja a hora que for. A hierarquia mudou de lugar, o respeito deu lugar aos caprichos, filhos mandando mãe calar a boca e debochando de alguma frase dita por ela. E nem digo que são ricos, que têm tudo, são simples também. E vejo pais reclamando desses mesmos filhos, dizendo que são sem educação, agressivos e que não respeitam nada. Por que será, né?
Dia desses ouvi uma filha adolescente mandando a mãe calar a boca porque ela ainda estava falando. Me deu arrepio, mas como não tenho nada a ver com a vida de ninguém, engoli e continuei quieta.
Pra quem é de uma geração em que uma olhada do pai bastava pra obedecer, hoje presenciando filhos mandando os pais calarem a boca, dói.
Geração que basta um clique pra ter tudo à mão, que basta teclar e já se comunica com quem quiser, que basta um celular e o mundo à volta se torna invisível.
Não sei como é viver numa geração diferente da minha, mas fui muito feliz quando era criança, mesmo não tendo condições pra ter o que eu queria. Escorregar na terra, esfolar os joelhos no asfalto, tentar subir em árvore e não conseguir, devido ao pavor de altura, arrancar a tampa do dedão no asfalto e voltar sangrando pra casa, ah, isso nunca teve preço! A gente cresce sabendo como é a dor, como é a derrota, como é o querer e não ter, mas que futuramente, com trabalho, pode se ter tudo o que quiser, isso me fortaleceu muito! E o sofrimento não dura pra sempre, a dor um dia vai embora, o sorriso às vezes fica incontrolável, as lágrimas continuam sendo salgadas, o suor é saudável, andar descalço fortalece o corpo, cair, machucar, sarar e continuar tudo no outro dia, isso só acrescentou em mim. E cair, pra mim, nunca foi problema. Sempre tive a opção de me levantar e continuar. Apenas continuar...
Cada geração com sua infância, seja como for, nem melhor, nem pior, apenas diferente.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Cafundó Não Existe Mais
Um texto belíssimo da querida amiga Eliana Teixeira.
Cafundó não existe mais, a não ser em minha lembrança.
Cafundó era um lugarzinho na ribanceira de um córrego que passava no fundo do quintal da nossa casa, hoje só escombros escondidos atrás da casa nova.
Em um dos Natais da minha infância, ganhei de presente um livro contando a história da aparição de Nossa Srª de Fátima para os três pastorinhos.
Fiquei profundamente impressionada com o milagre, com a sorte dos eleitos e, com toda a fé que meu coraçãozinho pôde amealhar, desci a ribanceira musguenta do córrego, ao pé de um bambuzal, e cavei uma gruta, coisa de dois palmos de altura, um de fundura, e esculpi em barro o que parecia ser, para mim, a imagem de N. Srª de Fátima.
E todas as tardes eu ia para esse meu lugar secreto, meu Cafundó, nunca compartilhado com ninguém. Segredo meu e da Virgem. Às vezes ouvia ao longe minha mãe me chamando. Mas éramos tantos filhos que eu sabia que, se eu ficasse caladinha, ela logo se esqueceria de mim.
E o que eu fazia no meu Cafundó? Um único e precioso pedido: Que N. Srª de Fátima aparecesse para mim também.
Muito tempo se passou. Eu mesma tratava de justificar os porquês de sua não aparição: desrespeitei minha mãe, falei palavrão, bati na minha irmã...os pecadilhos de toda criança ao se confessar.
Mas uma noite, ah, que noite, eu sonhei! Sonhei que um lindo botão de rosa vermelho caía vagarosamente do espaço, girando, a coisa mais linda que jamais tinha visto.
Aí, de repente, apareceu o rosto de N. Senhora De Fátima sorrindo prá mim. Era o mesmo rosto da imagem que tínhamos dela em casa. Ela sorriu, não disse nada, e se foi.
Cafundó não existe mais. Parte do quintal tornou-se uma avenida, o córrego foi canalizado e eu não creio que N. Srª vá aparecer para mim novamente. Eu não tenho merecimento. Continuo crendo nela com toda a fé que consigo ter, mas tenho sérias dúvidas sobre a existência de Deus.
Então, se algum dia eu me tornar alguém importante, _ chance remotíssima, com a agravante que eu não faria o menor esforço para sê-lo _ não será possível colocar uma placa de bronze em Cafundó, para contar parte da história de quem fui.
E, se esta narrativa não for lida por ninguém, talvez, no momento da minha morte, eu teatralmente diga :- Cafundó, Rosebud de minha infância... E ninguém compreenderá; Somente a Virgem e eu.
Em um dos Natais da minha infância, ganhei de presente um livro contando a história da aparição de Nossa Srª de Fátima para os três pastorinhos.
Fiquei profundamente impressionada com o milagre, com a sorte dos eleitos e, com toda a fé que meu coraçãozinho pôde amealhar, desci a ribanceira musguenta do córrego, ao pé de um bambuzal, e cavei uma gruta, coisa de dois palmos de altura, um de fundura, e esculpi em barro o que parecia ser, para mim, a imagem de N. Srª de Fátima.
E todas as tardes eu ia para esse meu lugar secreto, meu Cafundó, nunca compartilhado com ninguém. Segredo meu e da Virgem. Às vezes ouvia ao longe minha mãe me chamando. Mas éramos tantos filhos que eu sabia que, se eu ficasse caladinha, ela logo se esqueceria de mim.
E o que eu fazia no meu Cafundó? Um único e precioso pedido: Que N. Srª de Fátima aparecesse para mim também.
Muito tempo se passou. Eu mesma tratava de justificar os porquês de sua não aparição: desrespeitei minha mãe, falei palavrão, bati na minha irmã...os pecadilhos de toda criança ao se confessar.
Mas uma noite, ah, que noite, eu sonhei! Sonhei que um lindo botão de rosa vermelho caía vagarosamente do espaço, girando, a coisa mais linda que jamais tinha visto.
Aí, de repente, apareceu o rosto de N. Senhora De Fátima sorrindo prá mim. Era o mesmo rosto da imagem que tínhamos dela em casa. Ela sorriu, não disse nada, e se foi.
Cafundó não existe mais. Parte do quintal tornou-se uma avenida, o córrego foi canalizado e eu não creio que N. Srª vá aparecer para mim novamente. Eu não tenho merecimento. Continuo crendo nela com toda a fé que consigo ter, mas tenho sérias dúvidas sobre a existência de Deus.
Então, se algum dia eu me tornar alguém importante, _ chance remotíssima, com a agravante que eu não faria o menor esforço para sê-lo _ não será possível colocar uma placa de bronze em Cafundó, para contar parte da história de quem fui.
E, se esta narrativa não for lida por ninguém, talvez, no momento da minha morte, eu teatralmente diga :- Cafundó, Rosebud de minha infância... E ninguém compreenderá; Somente a Virgem e eu.
Muitos lerão sim, Eliana, e ficará na memória pra sempre quando ouvirem esse nome: Cafundó.
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segunda-feira, 11 de abril de 2016
Meu Primeiro Amor
Lá nos meus dez anos, quase onze, quando ainda amava brincar de bonecas, ouvia dos mais velhos que um dia a brincadeira iria acabar. Pra minha pequena cabeça infantil seria impossível acabar algo que eu amava tanto.
Me lembro que um dia uma amiga me convidou para irmos a um show de patins. Fui. Naquele tempo, década de setenta, a moda era usar calça boca de sino e botas. Ah, e tinha a horrenda blusa cacharrel, gente, que horror aquilo! A que eu usava era preta com florzinhas coloridas, miúdas, cheia de florzinhas. Então, toda paramentada, fui ao show com a família da amiga. Sentamos longe até, foi num clube esportivo, centro de jogos de basquete. Ah, como fiquei encantada com tudo aquilo! Os bailarinos patinadores deslizavam como se estivessem voando! E por fim somente um casal se apresentou. A moça, magra como um palito de fósforo, deslizada e rodopiava ao redor do moço...
O moço, me lembro da cara dele até hoje. Lindo! Bem, só me lembro disso, que ele era lindo e que eu não conseguia tirar os olhos dele. Meu pequeno coração virgem palpitava e eu suspirava de queixo caído. Foi inevitável resistir a ele. Quem seria ele? Não importava, seria meu príncipe dos sonhos dali por diante. Não pensava em beijos ou abraços, só tinha a imagem dele deslizando sobre o gelo. Nada dele vir até mim e me olhar nos olhos e todo o romance desabrochar pra me fazer feliz para sempre.
Não gostava de contos de fadas, achava sempre muito chato o final com o príncipe vindo e tudo ficaria maravilhoso. Não entendia Romeu e Julieta pela morte dos dois, já que se amavam, por que morrer? A branca de neve eu achava sonsa, e eu queria muito o vestido e os sapatos da Cinderela. Mas nunca me importei com príncipes. Ficava imaginando em minha infantil mente outros finais, outros homens e não príncipes e outros vilões que seriam desmascarados, logo no começo da história, pelas princesas. Me dava uma raiva quando as bruxas ficavam lindas e faziam as mocinhas de bobas! Enfim, desde sempre questionadora e inconformada com o fim proposto pelo autor. "E se acontecesse isso? Ou aquilo?", ficava imaginando. E o pior de tudo, ficava pensando nesse tal "felizes para sempre". O que seria felizes para sempre? O que aconteceria depois, meu Deus do céu? Será que brigavam, que tiveram filhos, que se separaram, que a moça engordou, se o príncipe era rico e não precisava de trabalhar? Ou seja, queria saber o que aconteceria depois do fim.
Claro que a paixonite pelo lindo dos patins acabou rápido, mas depois desse dia deixei as bonecas de lado. Num certo dia, talvez uma semana depois, uma surpresa deu o ar da graça: minha primeira menstruação.
Fiquei assustada, mesmo já sabendo que a qualquer hora ela chegaria. Desconfortável demais! Quem foi daquela época se lembra muito bem como eram os absorventes. Não tinham aquela aderência às calcinhas... Tínhamos de colocar uma calcinha própria pra prendê-los, um horror!
Quando as mulheres de minha família ficaram sabendo fizeram a maior festa. Uma novidade que fiquei perdida. Por que a festa por causa de uma menstruação? "Você agora é uma mocinha, vamos arrumar um namorado pra ela!", exclamavam. Mas o que tem a ver menstruação com namorado? Perguntei isso a todas e nenhuma me respondeu até hoje!
É claro que me lembrei do moço dos patins, lindo, e quem sabe ele seria meu namorado? Tão novinha e já iludida...
O tempo passou e com a menstruação vieram as cólicas. Gente, como eu sofri com cólicas! Chegava a rolar no chão e até a desmaiar! Colocava bolsa quente no ventre, tomava banho pelando, chá de canela, remédios caseiros (naquele tempo não era comum ir logo ao ginecologista) e tudo o que ensinavam pra parar as dores. E nada adiantava. Posso dizer que não senti dores do parto, mas dores de cólicas, ah isso eu sofri muito.
Ainda demorou um tempo pra eu deixar de ser BV (boca virgem), e um pouco mais até o primeiro namorado... Ingênua, como a maioria daquela época, sonhadora, romântica e, claro, questionadora. Ô, raça!
Mas isso é uma outra história.
Uma ótima semana a todos!
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domingo, 11 de outubro de 2015
Criança É Sempre Feliz
Lembrando de minha infância, com poucos brinquedos, muitos amigos vizinhos, pais rígidos, mas apesar tudo, muito feliz.
Criança é sempre feliz, sempre dá um jeito de sorrir de algo, mesmo que seja numa fração de segundos, sempre encontra uma outra criança pros olhares se cruzarem e logo a amizade vem fácil. Nem precisa ter brinquedo, elas são os brinquedos. Nem precisa ter dinheiro, o sorriso, a brincadeira, a alegria, tudo de graça.
Me lembro dos brinquedos que eu mesma produzia: bebês de chuchu, bonecas de espiga de milho, panelinhas de latinhas vazias, roupinhas de papel grudadas com sabonete, pois não podia brincar com cola, bola de meia velha, casinhas de caixa de sapato, e tantos outros. Me lembro que queria muito uma bicicleta, mas nunca a tive. Mas queria aprender a andar. E aprendi. Sozinha, na rua, com a "magrela" de uma amiguinha, sem rodinhas, caindo várias vezes e esfolando os joelhos que ainda sustentam cicatrizes. E o Merthiolate ardido, e as chineladas nas coxas, e os sapatos Buzolin, os únicos que me aguentavam o ano todo, por ter solado de borracha... E a lancheira cor de rosa, suco Ki Suco vermelho e pão com ovo, de merenda... Saudades... Bons tempos, outros tempos, felizes.
Criança sem malícia, sem maldade, sem agonia, sem rancor... Que bom se pudéssemos conservar esses sentimentos e sermos um pouco mais feliz...
Sorte de quem aprendeu, na fase adulta, ou seja, conservou a criança que existe dentro de si. A vida endurece nossos sentimentos e nos causa rancores, dores, lágrimas...
E no Dia das Crianças, que possamos esquecer um pouco as amarguras da vida e sorrir pra ela, com a mesma intensidade com que sorríamos quando éramos pequenos e felizes, assim, de graça.
E que Nossa Senhora Aparecida, minha mãe espiritual desde que me entendo por gente, mesmo antes de saber sobre igreja, santos, religião, já percebia e sabia que por ela seria protegida por toda a vida. Respeitos à mãe de Jesus, nosso grande salvador.
Amém!
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domingo, 19 de julho de 2015
Infância
Minha infância foi praticamente com os colegas na rua. Hoje em dia, dependendo do lugar, crianças não têm esse privilégio, mas eu tive. E escorregar na terra, pra desgosto de minha mãe, eu amava.
Não tínhamos parques ou pracinhas arrumadinhas por perto pra frequentarmos. Era na rua mesmo, onde havia pouco movimento de carros, cidade pequena, e em todas as casas havia uma ou mais crianças pra farra ser garantida.
Uma vez, na minha rua, derrubaram uma casa e ficou aquele barranco me olhando, me chamando pra ir alisá-lo.
Me lembro como se fosse hoje. Juntamos nós todos e fomos pra lá, escorregar. Podem imaginar a cor da roupa que ficou? Não me lembro se deu pra aproveitá-la depois de lavada, nem se foi lavada, só sei que nesse dia minha mãe me enfiou no tanque de lavar roupas e me ensaboou até a cabeça com sabão em barra. E eu quietinha, pra não apanhar. Naquele tempo levávamos uns tapas de vez em quando. Minha mãe pensando que era castigo e eu adorando o banho de tanque. Coisas de infância que a gente não se esquece.
Meus filhos também tiveram a liberdade de brincar com os vizinhos na rua também, mas bem menos que eu. A cidade cresceu e o movimento de carros aumentou. Sem falar no perigo de cair e machucar. Eu machuquei muito, principalmente os joelhos, que têm cicatriz até hoje, mas meus meninos não. Eles brincavam mais em casa, cada dia na casa de um, bem mais que na rua.
Quando eu era mais nova, não tinha muita paciência em ouvir meus pais se lembrarem da infância. Hoje sou eu que me lembro com saudades. O tempo é implacável e vingativo, e tudo se repete, de geração em geração. "Como nossos pais", como cantava Elis.
No meu tempo, apesar da liberdade, tínhamos hora pra tudo. E obedecíamos com rigor, claro. No dos meus filhos, tinha que ir chamá-los e até arrastá-los pra voltar pra casa. Se deixasse, ficavam o dia todo e até a noite na casa dos vizinhos. Hoje em dia tudo mudou. Muita tecnologia e tudo muito pronto pra só pegar e usar, ou então abrir o pacote e comer.
Ruim? Não, apenas outros tempos.
Hoje ouço meus pais falarem de suas infâncias, ouvi muito minha avó contar sobre a juventude... E, apesar do sofrimento, ouvi muitos relatos bons, emocionantes.
Ah, meus filhos não têm paciência de me ouvir falar de minha infância... Coisas da vida, cada um com sua geração.
Boa semana!
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Domênica
Pontualmente às sete horas, dona Clotilde carinhosamente acordou Domênica. Passou a mão em seu rosto fino e rosado, apertando-lhe o nariz levemente até que a pequena abrisse os olhos negros. Sorriu desejando-lhe bom dia e para que se levantasse, pois era domingo e iriam à missa.
Domênica espreguiçou na cama, como um gato manhoso, bocejou, piscou os olhos várias vezes e com os pés jogou as cobertas para o lado e se levantou.
Não gostava de ir à missa, mas como não tinha outra opção iria sem reclamar. O pai era muito rígido e não perguntava se queria ir ou não. Apenas intimava toda a família e pronto. Uma olhada do pai e o mundo caía. Uma franzida de testa e já sabia que tinha feito algo errado. A bronca era certeza de vir a qualquer momento. De certa forma já estava acostumada, mesmo sendo uma menina comportada e obediente.
Nos seus sete anos de inocência, Domênica tinha o hábito de acordar cedo todos os dias. Iam à missa aos domingos e depois almoçavam na casa dos avós, que amava. Sempre tinha aquelas gostosuras caseiras como goiabada cascão com queijo mineiro, doce de abóbora com coco, pão caseiro e mexerica. Era tão detalhista que não comia mexerica sem antes retirar todos os fiapos brancos. Demorava horas, mas a satisfação em se deliciar com uma grandona apanhada do pé era indescritível. Não tinha hora para terminar com as guloseimas, mas poderia começar somente após o almoço.
Colocava uma roupa melhor, sapatos novos e estava pronta. O pai já aguardava na calçada, ansioso pela demora de todos. Sempre com a cara amarrada, mau humorado e ranzinza, reclamava durante todo o trajeto até a igreja. Cinco quadras ouvindo reclamações e ofensas para sua mãe, que se calava e ouvia. Só um doce de pessoa como dona Clotilde para aturar um homem grotesco e fedorento como seu pai. Quase não se falavam e quando acontecia era para dar-lhe alguma bronca ou colocá-la de castigo. Mas, como toda criança sempre dá um jeito de ser feliz, Domênica evitava atormentar seu pai com sua presença ou simplesmente com o som de sua voz. Era tímida e isto ajudava-a a ficar quieta quando estava perto de seu pai.
A igreja estava lotada, com gente em pé pelos lados e até do lado de fora, com os panfletos em punho, já aguardando o início da missa. Roberto, pai de Domênica, segurando a mão de sua mãe e a de Domênica, entrou apressado e deu um jeito de arrumar um lugar, apertando todos, bem na frente, perto do altar. Não enxergava direito e por isso queria ficar bem perto do padre. Às vezes ele ficava em pé, cedendo seu lugar para a esposa e Domênica, outras vezes colocava a pequena em seu colo e ela ficava inquieta e nervosa, mas se comportava como uma mocinha, como ele cansava de repetir.
Domênica olhava cada detalhe da igreja, desde os santos, colocados em nichos por toda a lateral, todos eles com a cabeça baixa e olhar triste, o que deixava-a indignada e sem entender nada, e o teto que deixava-a de boca aberta por tanta beleza dos desenhos e das cores. Anjos nus, apenas cobertos com um tecido branco ou com as mãos, com asas enormes e cabelos encaracolados, homens truculentos e barbudos, moças singelas, magras e com a cabeça coberta com tecidos coloridos e um homem barbudo, com os braços abertos, iluminado. Jesus, ensinou-lhe sua mãe. Era Jesus que abria os braços para todos seus filhos.
Não se atrevia a fazer nenhuma pergunta, por medo da represália de seu pai, que sempre mandava-a ficar quieta e calada. Vez ou outra tinha que se levantar, fazer o nome do pai, ficar de joelhos, e depois se sentar novamente. Olhava para seu pai e via-o apenas mexendo os lábios e com o olhar fixo em algum ponto. Seguiu seu olhar e viu que o ponto fixo era um outro Jesus crucificado, que ficava atrás do altar, bem ao alto, com sangue a correr-lhe a face por causa da coroa espinhenta. Por impulso, perguntou se poderia ir até lá e imediatamente foi repreendida e ordenada a ficar calada. Continuou olhando aquele Jesus triste, com dores na cabeça, nas mãos e nos pés. Por que fizeram isso com Ele? Pensava, sem obter nenhuma resposta. Uma dor lhe invadiu o pequeno coração e se compadeceu. Olhou para o lado onde estava Jesus crucificado e uma outra imagem lhe chamou a atenção.
Uma mulher com um homem nos braços. "Quem é, mamãe?", cochichou no ouvido da mãe. Nesse momento seu pai estava na filha para receber a hóstia. "É Nossa Senhora, mãe de Jesus, segurando-o, depois que ele foi crucificado e morto, filha". Domênica voltou os olhos para o Jesus crucificado e não entendeu. Quantos Jesus existiam, afinal? Mas não perguntou nada à mãe, apenas deduziu que era uma historinha, como nos quadrinhos que via, que Ele estava no teto, depois crucificado e depois no colo de sua mãe. Suspirou e seu pai já lhe pegava no colo novamente. Depois se lembrou que tinha que ficar de joelhos, colocou a filha sentada e se pôs de joelhos, por dois minutos, com a cabeça baixa e mão na testa, apenas mexendo os lábios, em oração.
Domênica, apesar de ter o costume de ir à missa, nunca havia prestado tanta atenção aos detalhes da igreja. Logo a missa terminou e foram para a casa da avó. Mas antes passaram no pipoqueiro que ficava na pracinha em frente à igreja, de plantão, todos os dias em que havia missa. Domênica, então, se esqueceu temporariamente de Jesus e foi caminhando, junto com seus pais, até a casa de seus avós, segurando o saco de pipocas cor de rosa, docinhas e saborosas.
Fim.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Ainda Sobre a Solidão
Já falei sobre solidão, neste texto AQUI. Mas ainda há muito o que dizer. Se fosse para dizer tudo pessoalmente não conseguiria jamais. Sou das palavras e não das falas. Acho que por minha timidez, não sei...
Mas, voltando à infância, desde pequenininha, brincava sozinha na maioria das vezes. Gostava dos amiguinhos, quer dizer, amiguinhas, porque naquele tempo, lá no século passado, meu pai permitia só meninas para brincar comigo. Se entrava algum galudinho, ele já ficava de olho. E bastava uma olhada para eu entender e obedecer.
Brincava com as bonecas, que eu amava, com as louças de plástico, ou algum outro brinquedo que eu mesma inventava.
Era louca por uma bicicleta, mas não a tive. Mas aprendi a andar, sozinha! Já contei essa história que acabou num livro de coletânea de contos, mas vou resumir aqui. Peguei a bicicleta de uma amiga e comecei aos poucos, na beira da rua, bem rente à calçada, ainda apoiando os pés no chão. Caía muito, mas muito mesmo, e esfolava os joelhos que ficavam em carne viva. Depois formava aquela casca com pus e não podia nem dobrar os joelhos. Andava de novo, caía de novo, o machucado velho era retirado e um novo se formava. Enfim, tenho cicatriz nos joelhos até hoje. Ah, e tinha aquele Merthiolate, sabe aquele que ardia? Então, ainda sinto as dores por causa dele. Então, aprendi sozinha, na rua, sem ninguém por perto.
Depois foi quando aprendi a nadar, sozinha. Éramos sócios de um clube que ficava próximo de casa e como eu estudava de manhã (outra característica minha, de começar bem cedo o dia), ia ao clube à tarde. Era uma negrinha (apelido que minha avó me colocou), e ia segurando na beira da piscina, enfiando a cara na água, até que aprendi a boiar... Que alegria! E não tinha ninguém por perto para comemorar comigo!
Uma vez, fui ao tal clube. Minha mãe vivia me dizendo para tomar cuidado e blá, blá, blá... Tá bom! E fui direto na piscina "funda", como a chamávamos. E pulava bem no meio, uns três metros de profundidade. E subia devagar, boiando. Para mim não existia prazer maior que esse. E nesse dia, olhando para cima, onde havia um bar, lá estava minha mãe, em pé e com os braços na cintura. Pronto! Apanhei! Saí de fininho, cruzei os braços e fui até ela. "Menina, você não tem juízo não, criatura?". "Mãe, eu já sei nadar", disse, olhando com a cabeça meio baixa, com medo de apanhar. Ela olhou e riu. E eu ri de volta, saí correndo e pulei na piscina funda. Aí a alegria foi maior, pois tinha quem visse que eu aprendi a boiar, a nadar e a pular e voltar na piscina funda.
E muitas outras coisas que sempre fiz sozinha, sem depender de ninguém. Nunca fui de ter turma para sair nas baladas, nem dependia de ninguém para ir e vir a algum lugar. Topetuda mesmo, independente, mas sempre dependendo, entendem?
E desde sempre eu preciso da minha solidão, preciso pensar, raciocinar, inventar, formar diálogos na minha cabeça, resolver problemas, me imaginar amanhã, prever o futuro se isso ou aquilo for feito, orar, enfim, minha solidão sempre foi minha companheira. Não fico confortável quando há multidão, e fico completamente deslocada quando há uma turma grande em que eu conheça todos. Não sou de puxar assunto, mas sou de observar, imaginar, e quem sabe até ler os pensamentos da pessoa. Já fui chamada de arrogante por "não me misturar" com os demais. É muita informação para eu captar tudo ao mesmo tempo. Fico no meu canto, quieta, ou divagando ou prestando atenção em algo, uma coisa de cada vez.
Timidez deve ser assim mesmo. Sou tímida até conhecer a pessoa, depois sou normal, palhaça, chata, metida... blá, blá, blá... E gosto de um bom papo, de perguntar, conhecer... essas coisas.
Bom fim de semana a todos!
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sábado, 11 de outubro de 2014
Dia da Criança
A mais remota lembrança de minha infância acho que eu tinha uns quatro anos. Me lembro que brincava sozinha, pelos cantos da casa, com minha boneca. Aliás, a lembrança que tenho de minha boneca Susie era essa, quando ganhei-a de Natal. Queria muito, e deu certo!
Mas acho que um pouco antes da Susi eu brincava com panos, tecidos velhos, pregava-os na cabeça com pregador de roupa e subia e descia as escadas, como se fosse uma noiva. É essa a lembrança mais remota que tenho.
E brincando com a Susie eu queria trocar de roupinha, dar banho, mas não tinha nem roupinha e nem uma vasilha ou cumbuca, ou banheira que coubesse minha Susie. Já tinha uns seis anos, me lembrei agora, e pegava revistas velhas, papel velho, cortava tiras e pregava um sobre o outro com sabão em pedra molhado, pois não tinha cola pra colar. E colava esses retalhos de papel um pouco molhados, na boneca. Pegava escondida um pouco de farinha de trigo e misturava com água e estava pronto o leite. Me lembro que um dia cortei seus cachos. Na minha inocência eu pensava que cresceriam. A franja praticamente sumiu e atrás ficou parecendo um capacete, pois o cabelo não caia mais sobre as costas. Ficavam levantados. A Susie eu guardei comigo até ficar moça. Depois ela se desfez, quebrou toda. Lamentei muito, mas tive que jogar fora. A carinha era essa da foto, mas não tinha vestido lindo assim, vermelho. Não me lembro da roupa original dela... Minha Susie...
Agora, criatividade eu tinha quando brincava com terra. Amava terra! Com minhas panelinhas, pratinhos e toda louça de plástico, ficava no quintal e fazia bolinhos com terra. E pra confeitar pegava lodo e musgo que ficava grudado no muro e espalhava por cima. Depois, um graveto bem pequeno e fino era a vela e umas florzinhas enfincadas pra não ficar muito vazio. E pegava formigas, muitas formigas, matava-as e colocava em outra vasilha. Eram os petiscos. E haviam os tatuzinhos (coitadinhos), que eu não perdoava. Olha, acho que já contei essa história por aqui, e, por favor, não me julguem! Mas pegava escondida o álcool e fósforo e queimava os tatuzinhos, besouros, lesmas e o que aparecesse na frente. Mas não havia sensação mais medonha do que colocar fogo em taturanas, principalmente aquelas peludas. As verdes eram horrendas e demoravam mais para se queimar.e morrer. Que horror, gente! Imaginem o perigo do álcool mais fósforo nas minhas mãos tão pequenas? Bem, graças a Deus passou e nada de ruim aconteceu.
Uma de minhas travessuras preferidas era escorregar na terra. Terra, sempre a terra. Em frente de onde eu morava havia uma casa em construção. E tinha um barranco que pra mim era enorme, mas era pequeno, aos olhos de um adulto. E escorregava várias vezes naquela terra densa e avermelhada. Imaginem como ficava minha bundinha? Então, isso era o terror pra minha mãe. Simplesmente ela me puxava pelo braço e me jogava dentro do tanque de lavar roupas. Que alegria! Mas acho que até hoje ela nem imagina que eu amava tomar banho no tanque. E ficava imersa naquela água fria, por um bom tempo, de molho, pra desencardir. Me lembro como se fosse ontem...
Tive uma infância muito simples, mas muito rica. Criatividade era o que não me faltava. Apesar das travessuras sempre obedeci e respeitei meus pais. Naquela época bastava um olhar e a gente já entendia o recado. Obedecia por medo...
Quando era um pouco mais velha, vez ou outra eu fugia pra casa de minha tia que morava na mesma rua. O lugar era um paraíso! Um quinta imenso, árvores e mais árvores: bananeira, pé de jatobá, pé de jambo, goiaba, cana de açúcar e... Jabuticaba. Ah, que árvore enorme!
Minhas primas Regina, Rita, Lúcia, e Laurene e Elaine eram ainda pequenas, subiam em questão de segundos, e ficavam lá no topo chupando as mais docinhas, maiores e mais brilhantes. E eu, sem ter noção que tinha fobia à altura, empacava no primeiro "degrau" da árvore e nada me fazia ir para cima ou descer de vez. E minha prima Regina descia, grudava em mim, colocava um pé acima e pedia pra eu colocar também. Eu colocava, mas empacava de novo. Por fim ela desistia, apanhava um punhado e levava pra mim. E riam de meus gritos de pavor na esperança de alguém ir me resgatar e me tirar daquela altura estonteante. Minha tia Cida, lá da casa, ficava gritando perguntando o que estava acontecendo. Mas ela sabia o que era. E ria também.
Que tempo maravilhoso! Que infância rica e alegre. Criança é sempre alegre!
As casas onde morávamos já não existem mais. Nem o imenso quintal, nem as árvores... Mas a lembrança é eterna. Que bom!
A árvore era bem parecida com essa, com "degraus" que facilitavam a subida. Menos eu que não conseguia de jeito nenhum!
Dia das crianças e dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Minha mãe espiritual que me protege desde quando nasci, mesmo antes de me dar conta que ela é a mãe de Jesus e muito antes de ser católica de coração. Amém!
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domingo, 27 de julho de 2014
Maçã de Ouro
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| Me dá água na boca só de olhar... |
Quando ainda era pequena, aliás, a lembrança mais remota que tenho da infância é quando tinha quatro anos, sempre brincava sozinha, conversando muito com bonecas; coisa de criança mesmo. E como era pequena minha mãe sempre me levava consigo em todos os lugares.
Um dos lugares era a feira livre. Ah, para mim era um encanto! Aquele monte de gente, aquele cheiro de frutas, todos comprando - ainda não tinha noção do valor do dinheiro - todos com sacolas lotadas e eu com os olhinhos curiosos observando tudo, de mãos dadas com mamãe. Me encantava todo aquele movimento num só lugar. Feirante gritando, caixas sendo carregadas a toda hora, uma grande variedade de produtos, cheiros diversos, cores intensas... Uma rua livre de trânsito de carros, só com barracas e gente falando, gritando, andando. Não entendia nada e minha mãe só puxava minha mão para andar rápido, pois já sabia o que e onde comprar.
De tudo que tinha o que mais me chamava a atenção eram as maçãs. Deus do céu, que aroma inesquecível, que vermelho lindo, todas separadas com papéis roxos... Hmmmm, só de lembrar me dá água na boca. Acho que criança é como mulher grávida, tem que comer exatamente aquilo senão não vale.
E minha criação era rígida: não podia conversar, não podia rir, não podia chorar, não podia pedir. Mas eu pedia assim mesmo. Todas as vezes eu pedia maçã na feira. Me lembro como se fosse hoje... E minha mãe só me respondia brava: Não! E continuava andando segurando minha mão para ver se eu me esquecia do vermelho luminoso da maçã.
Ficava de longe imaginando o seu sabor, como seria aquele gosto vermelho por fora e amarelado por dentro... Será que era doce? Por que será que minha mãe não comprava? Comprava só banana e laranja.
Para mim, na época, maçã era preciosa, cara, que só os ricos que tinham carro podiam comprar. Vida regrada, mas sem faltar nada. Tínhamos o básico e eu muita vontade de comer o que não tinha. Normal, creio eu, naquela época em que poucos tinham regalias e facilidades.
O tempo passou. E nunca me esqueci daquela maçã vermelhinha da feira.
Quando comecei a trabalhar, aos 13 anos, uma das primeiras coisas que comprei foi... Maçã.
Gente, mas maçã, aquela preciosidade tão cara aos meus olhos, tão perfumada, e tão... Barata! Por que será que nunca compraram para mim? Porque não, oras! Se comprasse para mim teriam que comprar para a família toda. E aí ficaria caro. O dinheiro era contado para comprar o básico do básico. Hoje entendo perfeitamente aquela situação da família.
Na época não entendia, mas com o passar dos anos, e ainda me lembrando da maçã, uma pergunta não se calava em minha mente: como meu pai bebia praticamente todos os dias e minha mãe se arrumava em salão todas as semanas e nunca compraram sequer uma maçã para mim? Passou, tudo bem.
Hoje em minha casa ela é presença constante, dentre outras coisas, mas aquela maçã vermelhinha, perfumada e brilhante da minha infância, ficou só na lembrança... Nunca saberei o sabor.
Coisas da vida...
Texto publicado em 11 de julho de 2011 - Editado
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terça-feira, 22 de julho de 2014
Uma Linda Mulher - Parte 1
Linda, exuberante, de corpo e alma. Ana é o seu nome, assim como é, simplesmente Ana; não gosta do diminutivo Aninha.
Bem sucedida na vida, ótimo emprego, ótimo salário e dois casamentos fracassados.
O primeiro foi como um sonho, que pensava ter encontrado o príncipe encantado. E encontrou, mas não soube conduzir a relação e o casamento acabou.
Jurou nunca mais se casar, até que conheceu Tomás, o homem dos sonhos de muitas moçoilas casadoiras.
Tinham suas desavenças, Ana abriu mão de muitas coisas, mas mesmo assim acabou o casamento. Não tinha disposição para persistir e sempre acabava desistindo dos relacionamentos.
Tomás ainda a ama, mas Ana, uma mulher arredia, achou melhor mudar de cidade para não cair em tentação e voltar com Tomás. Tinha uma certa preguiça em recomeçar. Não lhe atraia o fato de ter que apagar um passado e recomeçar como se nada tivesse acontecido. Não era assim.
Para ela, Tomás era o homem perfeito e faria-a esquecer tudo, ou quem sabe dar um outro rumo em sua vida. Mas não deu. Por culpa dela mesma, não suportava viver feliz. Incomodava-a muito esse comodismo de felicidade.
Desde sempre já combinara que não queria ter filhos de jeito nenhum. Adorava crianças, mas por medo de sofrerem, não queria-as como filhos.
Chegou ao ponto de consultar um médico ginecologista para que lhe arrancasse o útero, para que esse assunto nem fosse mais motivo de discussão. É claro que o médico achou um absurdo e não cometeu esse crime. Saiu contrariada do consultório, mas aceitou e ficou aliviada de ter inúmeros métodos de engravidar. Usaria dois ou mais para não correr o risco.
Para Ana era muito sofrido pensar em um filho e vê-lo passar por todos os transtornos, todos os sofrimentos, como fora sua vida, sua infância.
Seus pais já eram falecidos, e por sobrevivência se afastou de toda a família. Como tinha um excelente emprego poderia muito bem ser transferida de cidade em cidade, e era o que tinha feito até então.
Uma fuga, um refúgio, um modo de apagar traumas, de arrancar da mente momentos de tortura... Sofrimentos.
Apesar da pouca idade quando criança, se lembrava perfeitamente da cena: o homem - o pai - vindo ao seu quarto e molestando aquele corpinho inocente... Amedrontada se cobria com o cobertor, seu único protetor, mas era lhe arrancado com tanta facilidade que se sentia nua quando o homem se aproximava.
Naquela época, claro, Ana não entendia o que significava. Era tão ameaçada de não contar nada para ninguém que a única coisa que pensava na hora do ato era em suas bonecas. Depois que o homem saía ela agarrava todas e ficava cantando baixinho, como se quisesse fazê-las dormir e se esquecer do que havia acontecido. E acaba adormecendo...
Quando ficou um pouco mais crescida e começou a entender a situação teve coragem e contou a sua mãe; silêncio...
- Não repita mais isso, menina, bata na boca e respeite seu pai! - esbravejou a mãe, vermelha de ódio e com vontade de dar-lhe uma surra.
Pronto, a partir daí nunca mais tocou no assunto. Mas a situação continuou como se nada tivesse acontecido.
Ana se sentia um trapo, um pano de chão, um móvel, um enfeite de casa. Se trancava no quarto e quase não tinha amigas. Não tinha expressões no rosto; se estava triste ou alegre era sempre a mesma expressão.
Ficou mocinha, mas não se interessava por meninos; queria mesmo era ficar em um canto, no seu quarto, lendo todos os livros possíveis. Eles sim eram seus verdadeiros amigos. Devorava todos possíveis, desde contos de fadas até ficção científica. Não importava qual gênero. Lia todos.
Um dia, sua mãe adoeceu e precisou de transfusão de sangue. Corre daqui, corre dali e encontraram um doador. Ana, como uma moça curiosa, foi conferir os exames da mãe.
Estranho... O sangue dela tipo B, do pai tipo O e o da mãe, tipo A. De onde saiu esse tipo B?
Não teve respostas Sua mãe faleceu e Ana foi morar com uma tia, para não ficar sozinha com o pai.
A família inteira sabia que Ana era uma filha bastarda, mas ninguém imaginava que Ana também sabia dessa história.
Quem é o pai de Ana? Para quem ela perguntaria? Com quem Ana se parece? Teria irmãos? Ana ficou apavorada quando começou a imaginar se relacionando com um provável irmão sem saber que seria. Uma irresponsabilidade durante a vida toda. Um roubo de um passado e uma conspiração contra seu presente e futuro. Um vazio invadiu-lhe a alma e cada vez mais se fechou em seu mundo imaginário.
Muitas respostas concluídas e mais outras perguntas sem respostas.
Logo, o pai faleceu e Ana seguiu seu caminho. Ficou aliviada de ter certeza de que não seria mais molestada. Mas apagar as lembranças dos pensamentos seria impossível. Roubaram-lhe o passado, mas as lembranças ficariam para sempre.
Como ótima pessoa, estudiosa, aplicada e linda conseguiu todo o sucesso que queria na área profissional.
E jurou que nunca, jamais, teria filhos.
Teve muitos namorados, conseguia até ser bem-humorada e ter uma ótima vida social. A felicidade estava sempre estampada em seu rosto, mas seu coração continuava um gelo, inabitado por quem quer que ousasse perfurá-lo e aquecê-l.
Mas por mais que mudasse de cidade o pesadelo perseguia-a, Mesmo com anos e anos de análise o pesadelo estava enraizado em sua mente, Mesmo com todo o sucesso profissional a dor ainda perfurava seu coração, Mesmo com todos os amigos sinceros, todos os homens apaixonados, o passado sempre era presente.
E assim viveu.
E assim vive, tentando não ficar se lembrando para tentar perdoar.
Perdoar para ser feliz.
Ser feliz para amar.
Amar para construir uma família.
Uma família para cuidar e amar.
Cuidar e amar uma família para ter certeza que a vida, apesar de tudo, vale a pena!
Continua...
Texto publicado em 04/11/2011 - Editado
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segunda-feira, 17 de março de 2014
Agora Vai
Andando distraída pela praça central da pequena cidade onde morava, Manuela não ouviu que alguém gritava seu nome. Depois de várias insistências ouviu o grito e num impulso se virou para ver de onde vinha aquela voz estranha. Apertou os olhos tentando enxergar o vulto. Sem sucesso pois sua miopia não permitia tanta insistência. Continuou sem rumo certo.
Os ventos de outono não permitiam que seus cabelos se aquietassem fazendo com que grudassem em sua boca besuntada de gloss transparente. Segurou-os num rabo improvisado com as mãos. Sentiu alguém tocar seu ombro. chamando-a pelo nome. Assustada dá um passo à frente e se surpreende. Marcelo...
Há quanto tempo não tinha notícias do amigo de colégio! E como estava diferente, mais encorpado, cabelos ajeitados, sorriso lindo... Muito diferente daquele pirralho que vivia lhe mandando cartinhas, jurando amor eterno e uma vida de princesa. As poucas palavras eram encantadoras e não tinha como não se envaidecer. Um menino que sabia fazer poesias com palavras simples e rimas óbvias. Nunca dera esperança para ele. Manuela sempre foi a mais alta da turma, magra como um fiapo de manga, cabelos lisos que presilha nenhuma segurava-os. E Marcelo era quase a metade de sua altura. Tinha que olhar para os céus para alcançar seus olhos cor de mel. E sorria, mesmo tímido, quando lhe oferecia uma flor roubada do canteiro do pátio do colégio.
Vendo o homem em que se transformou Manuela gelou. Ficou um bom tempo olhando seus olhos castanhos com cílios compridos que lhe davam a impressão de ter olhos de uma criança meiga crescida tardiamente. Ficou praticamente de queixo caído esperando que ele começasse uma conversa. E começou. "Oi, minha linda, se lembra de mim?" Perguntou, com aquele mesmo encanto de anos atrás. Gaguejando Manuela respondeu que sim, que quase não o reconhecera, mas que se lembrava dele. E completou dizendo que continuava o mesmo menino gentil de antes.
Marcelo se aproximou e lhe deu um beijo na bochecha. O cheiro do perfume cítrico tomou conta do ar que Manuela respirava e que, disfarçadamente, inalou num suspiro longo, quase que fechando os olhos e esperando um possível beijo daquele homem lindo e adorável. Se recompôs logo em seguida e viu um sorriso largo naquele rosto de pele lisa. "Gente, eu beijei ele! Foi meu primeiro selinho!", pensou e sorriu. Não se atreveu a lembrá-lo desse dia e nem confessaria que ficou apaixonada por aquele beijo roubado. Ficou com vergonha de estar na sua frente depois de tantos nãos ditos naqueles bons tempos de inocência. Disfarçadamente olhou em suas mãos e não viu nenhuma aliança comprometedora. Que bom, pensou. Continuou olhando em seus olhos e vez ou outra escorregava para a boca, o queixo quadrado, o pescoço e o peito. Que falta fazia os óculos de sol, pensou, se sentindo envergonhada por ter pensamentos tão masculinos. Corou.
Marcelo olhava-a fundo nos olhos, quase que lendo sua mente, e caminhava por todo seu rosto como se decorasse cada pontinho, cada marquinha, cada pintinha, deixando-a mais desconcertada do que o normal. Nunca fora tímida e agora se via nessa situação de puro acanhamento. Mal conseguia responder às perguntas do rapaz que, até pouco tempo, não passava de um pirralho.
Numa breve divagação se lembrou daquele dia em que ficara sozinha com ele na sala de aula e que num gesto rápido Marcelo lhe roubou um beijo, saindo logo em seguida, com medo de levar uma bronca ou de ouvir um grito agudo. Mas mesmo querendo não fazer barulho saiu derrubando cadeiras, tropeçando e caindo. Uma servente que passava pelo corredor entrou na sala e perguntou se tinha se machucado. Mais que depressa Marcelo se levantou e saiu correndo dali, fugindo de um provável castigo pela ousadia do roubo.
Quando Manuela voltou a si, Marcelo lhe perguntou se estava tudo bem, pois ficou com o olhar vidrado no rosto dele quase que sem respirar. Sentiu sua mão acariciando seu rosto e gelou mais uma vez. Estava fascinada com Marcelo e isso deixava-a constrangida. Combinaram de se encontrar outras vezes mas se esqueceram de marcar o dia, o local e de pegar telefone um do outro.
Como encontraria Marcelo novamente? Já estava sofrendo por perdê-lo antes mesmo de saber se aquele amor jurado na infância seria mesmo verdadeiro. Hesitou, olhou para trás vendo Marcelo se afastar, mas preferiu esperar pelo destino quem sabe uni-los mais uma vez e talvez um romance deslanchar. Deu dois passos e parou. Olhou de novo para Marcelo e viu que ele também havia parado e estava voltando ao seu encontro. Gelou. Pediu seu telefone, deu-lhe mais um beijo na bochecha e se foi. Este gesto foi mais que suficiente para desestruturar Manuela que ficou paralisada por um tempo, sem saber que rumo tomaria. Resolveu voltar para casa e ficar quieta se lembrando de uma infância que cresceu e se tornou bela e apaixonante. Será que Marcelo demoraria para ligar? Não demorou meia hora e o telefone tocou... Marcelo...
Fim.
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terça-feira, 21 de janeiro de 2014
O Amigo Imaginário de Melissa Jones
Primeira blogagem coletiva do ano! Blog Café entre amigos.
Vamos participar? Cliquem no link!
Tagarela! Era como Mary descrevia a pequena Melissa. Não sabia onde arrumava tanto assunto para conversar... Sozinha! Quando juntavam as amiguinhas da vizinhança não era tão faladeira como quando estava sozinha. Para Mary era normal, afinal de contas criança dá asas à imaginação e cria personagens imaginários. Se lembra que tinha um também, Pop, como o chamava. Não o via, mas o ouvia sempre que estava sozinha em seu quarto ou no vasto quintal da fazenda onde fora criada. De certo Melissa puxara esse seu lado sonhador e criativo.
Mesmo antes de se levantar, Melissa já começa um papo alucinante e dava gargalhadas como se seu amigo imaginário fizesse palhaçadas. Mary ria junto, no outro cômodo, e logo ia até o quarto da pequena ver o que se passava. A menina, toda descabelada, sentada na cama, com os olhos brilhantes respondia que era muito engraçado... Mary abraçava-a, pegava-o no colo e com um beijo na bochecha lhe desejava um bom dia. Era sua pequena, seu bebê, seu mimo, sua boneca de verdade, amada e abençoada.
Um dia Melissa acordou chorando. Mary não entendeu e foi logo ver o que se passava. A menina estava deitada no chão, olhando para debaixo da cama, inconformada.
- Cadê ele, mãe? - perguntava, aos soluços
- Ele quem, querida? -
- O Pop, mãe, cadê ele que não veio hoje? - perguntou, olhando mais uma vez debaixo da cama.
Mary arrepiou... Ficou paralisada... Não conseguia consolar Melissa e muito menos olhar debaixo da cama para ajudar a filha.
Respirou fundo, pegou Melissa no colo e abraçou-a forte. Acariciava seus cachos despenteados e chorou junto com a filha.
A infância lhe voltou à memória. Fechou os olhos e se lembrou que foi exatamente assim que Pop, seu Pop, desapareceu. Sem mais nem menos. Simplesmente não apareceu nunca mais.
Se sentou na cama e começou a conversar com a filha. Lhe fez muitas perguntas e não teve as respostas que queria ouvir. Melissa só sabia dizer que Pop foi embora e ficava perguntando porque ele tinha ido embora. Sem saber o que responder Mary consolava a filha dizendo que Pop teve que viajar e que um dia voltaria, talvez quando ela já estivesse grande, do tamanho dela. Melissa chorava ainda mais, inconformada, dizendo que não, que ele não tinha ido embora não. Mary abraçou a filha e ficou com ela no colo até que se acalmasse.
Ficava lhe perguntando quem seria Pop que antes era seu amigo e agora brincava com sua Melissa. Tinha a mesma idade da pequena quando ele a abandonou. Se lembrou também de sua avó que sempre contava histórias e dizia que crianças enxergam as almas até completarem sete anos. Mas que alma seria Pop? Por que perseguia sua família? Não perseguia... Emendava Mary, apenas brincava comigo e agora com minha Melissa.
Não tinha como saber, mas sentiu muito a falta de Pop quando este a deixou e nunca mais voltou. Sua mãe não acreditava e achava besteira, por isso Mary tanto sofreu com a falta do amigo imaginário. Mas por que Melissa conseguia vê-lo e ela não? Um dom sobrenatural da menina? Para quem perguntaria?
Apesar da imensa curiosidade isso agora não tinha importância... Boas recordações tinha do amigo invisível, que fazia-a gargalhar até fazer xixi na calcinha e sua mãe lhe dar bronca dizendo que já era mocinha e que não podia mais fazer isso. Melissa gargalhava como ela e também fazia xixi na calcinha de vez em quando. A diferença é que Mary não implicava com sua bebê. Era uma criança feliz, sadia, inteligente, esperta e que tinha os cachos mais lindos do mundo! Seu avô, agora falecido, vivia dizendo que ia cortar um cachinho e guardar de lembrança. Ela sorria e corria para se esconder. Como dar bronca numa pessoinha tão doce assim?
Mary chorou junto com Melissa... Lamentou não ter descoberto o segredo antes, enquanto Pop estava por perto. Poderia brincar junto, os três, e gargalhar até dar nó na barriga...
No dia seguinte seria o aniversário de Melissa Jones, uma alegria para tentar encobrir a tristeza de perder o amigo especial que era só dela. Quer dizer, só dela e de sua mãe. Esse segredo seria revelado mais tarde, quando Melissa ficasse maior e pudesse compreender os mistérios que muitos não entendiam. E terão um segredo para compartilhar por toda a vida, só delas, sem que ninguém se intrometesse ou desacreditasse. Sim, eram as amigas de Pop. A curiosidade aumentaria e Mary, com certeza, perguntaria como era Pop, pois só Melissa o vira.
Fim.
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quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Quando eu Crescer
Participando da Blogagem Coletiva do Blog M@myrene - 20ª Edição.
Muito a contragosto, dona Mafalda sempre arrastava Fabrícia para que lhe ajudasse com as tarefas de casa. A pequena não gostava nada. Na verdade, dona Mafalda não queria desgrudar os olhos da filha, que não parava quieta e aprontava muito. Então o jeito era arrastá-la para todos os lados e para não ficar emburrada a mãe lhe contava histórias.
Fabrícia ficava observando e fazia perguntas sobre o que a mãe contaria. Muitas vezes ela mesma criava personagens e terminava as histórias. Um momento que seria chato para uma garota que acabara de aprender a ler se tornava prazeroso com a criatividade da mãe.
Um dia, dona Mafalda estendendo roupas no varal, antes de começar a contar mais uma história, perguntou para a pequena o que ela gostaria de ser quando crescesse.
- Jogadora de futebol, mamãe - respondeu prontamente.
- Jogadora, filha, por que? - perguntou curiosa, dona Mafalda.
- Não gosto de bonecas e o papai não me deixa nunca brincar no campinho com os meninos. As meninas são muito chatas e só gostam de brincar de coisas que eu não gosto. Não tem graça ficar sentada no chão brincando. Não gostam nem de apostar corrida. Jogar bola é que é bom. - concluiu a pequena Fabrícia.
Espantada, dona Mafalda terminou rapidinho de estender as roupas e correu para dentro de casa. Não sabia que atitudes tomar quanto à filha, pois meninas são delicadas, mimosas e nunca soube, pelo menos naquela cidade, de meninas jogando futebol. Onde será que Fabrícia viu garotas nesse esporte?
Pegou uma vela e foi ao oratório pedir para Santo Antônio cuidar de sua menina, tão pequena, tão meiga e já querendo chutar o mundo por aí. Não suportava futebol. Seu marido só sabia assistir futebol na TV e agora mais essa, ter que aceitar a filha jogando futebol.
- Santo Antônio do céu, pelo amor de Nosso Senhor, arranca essa ideia da cabeça da menina, por favor, por tudo que é mais sagrado! Onde já se viu uma mocinha indefesa querer jogar futebol com os meninos, Santo Antônio, eu estou certa, não estou? Tenho que preservar minha filha, sua integridade e seu futuro. Então, meu santinho amado, desvie essas ideias tortas da cabecinha avoada dela, tá bom? No seu dia eu prometo doar cinquenta pãezinhos para serem distribuídos para os pobres. Sua bênção, amém!
Dona Mafalda não via a hora do marido chegar e contar a novidade. Teria que ser sem Fabrícia escutar, pois o tanto que o pai gostava de futebol era bem capaz de gostar da ideia e incentivar a pequena.
- Melhor me agarrar com Santo Antônio. Este sim, não me falta nunca!
Fim.
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Sabor de Arco-Íris
Martha Medeiros nos conta uma experiência fascinante nesta crônica.
Claro que não lida todo dia com esse monte de crianças.
Aí não seria fascinante mas atordoante!
Sabor de Arco-Íris
O assunto em pauta é literatura.
Semana do livro, Bienal do livro, lançamento de livros.
Aleluia!
Um dia a turma que não lê vai descobrir o que está perdendo.
Pois entre tantos eventos para incentivar a leitura, fui convidada a participar de uma que me deixou ligeiramente aflita: conversar com alunos de um maternal.
Eu já havia estado no colégio Anchieta conversando com a turma da minha filha mais velha, que tem 10 anos.
Agora o convite era para falar com a turma da minha filha mais nova, de 5, no Amiguinhos da Praça.
Fiquei imaginando como seria ficar cercada por um monte de baixinhos que mal sabem escrever o próprio nome.
Que perguntas fariam? Quantos segundos levaria para eles perderem o interesse nas minhas respostas?
Perigo: crianças!
Mas não amarelei. Chegando lá, sentei no chão, numa rodinha. Vários pares de olhinhos me examinavam. Não saí correndo. A tia perguntou se alguém queria fazer uma pergunta. Oba, vou ganhar tempo até um deles criar coragem, pensei. Todos levantaram o dedo. To-dos!
A partir daí foi uma festa. Passei meia hora na Terra do Nunca, bombardeada por um afeto e uma espontaneidade que me tornaram consciente de tudo o que a gente perde quando vira adulto.
Alguém perguntou se era verdade mesmo que o papel vinha da árvore. Se eu já tinha escrito um livro sobre dinossauros. Como é que eu fazia para dormir depois de ler uma história de terror.
Se era eu mesma que juntava as páginas para montar o livro. De onde vem a palavra certa. Por que meus livros não têm desenhos. Se dava para jogar futebol e ser escritor ao mesmo tempo. Qual o chiclete que eu mais gostava. Tu conhece a Disney? Meu pai é engenheiro. Meu pai não tem emprego. Minha mãe te adora. A minha faz macramê. Eu gosto de livro de amor e livro de monstro. Tenho 2 irmãos. Eu, 2 pais.
Ainda durante aquela tarde, ouvi minha filha dizer que pirulito tem sabor de arco-íris. E um menino, malandro, me perguntou o que eu queria ser quando crescesse. E eu lá quero crescer?
(Martha Medeiros em "Montanha Russa")
Recebi esse texto por email do amigo Roberto. Compartilho com vocês um pouco da ingenuidade e a inocência que perdemos tão rapidamente e nos esquecemos com o passar do tempo. Pena!
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Semana Interminável
Participando da Blogagem Coletiva - Momentos de Inspiração 13ª Edição. Da M@myrene.
Com um feriado no fim de semana, as crianças já ficavam alvoroçadas. Sabiam que iriam à praia. Na terça feira já perguntavam se faltava muito tempo para chegar o sábado. Rodolfo não tinha muita paciência com os filhos, mas Judith entrava na algazarra e se transformava em criança também.
Finais de semana na praia lembrava tanto sua infância que Judith fazia tudo exatamente igual a sua mãe, quando ela, sua irmã Jacira e seu irmão Juvêncio aguardavam ansiosos o passeio sagrado no dia das crianças. Entravam no carro e iam a viagem toda ajoelhadas no banco de trás, olhando a cidade sumir e os carros se aproximando, querendo ultrapassá-los. Apostavam se um ou outro carro seria mais rápido do que o que estavam.
Hoje, vendo seus filhos fazendo exatamente o que fazia quando criança, se emocionava e se perdia nas recordações.
Na sexta feira à noite já não dormiam mais. Acordariam de madrugada para poderem chegar ainda de manhã, com o sol nascendo, e vislumbrar o amarelo ouro sair de mansinho da imensidão azul, pingando um suor na água, provocando as ondas, até acordar de vez e brilhar imponente e quente. Para Judith não existia visão mais linda do Universo.
Mal desciam do carro e as crianças, vestidas com roupas de banho, corriam em direção à espuma branca, ainda gelada, soltando gritinhos de alegria. Depois, fazendo uma concha com as mãos, enchiam com a água salgada e jogavam para cima, para que as gotas molhassem seus rostos e ardessem seus olhos. Riam compulsivamente sem se cansarem. Voltavam para a areia, se enfileiravam e corriam novamente, apostando quem tocaria a água primeiro.
Ricardinho sempre ganhava por ser o mais ágil e o mais magro. Andrea era a última e sempre ficava emburrada, cruzando os braços e deitando o beiço até quase encostar no peito. Ana Luiza não conseguia correr muito porque morria de rir, então não sabia se ria ou se corria. Depois se jogava na areia, com os braços e pernas abertas, como uma estrela do mar e, olhando o sol, apertava os olhos e gritava. Era a liberdade de olhar o céu azul, sem nuvens, com algumas gaivotas sobrevoando a praia e o barulho mágico do mar que ia e vinha, incansavelmente.
E assim passavam o dia. Voltavam para casa já à noitinha, com os três pestinhas com as cabeças pendentes para o lado, dormindo sentados e bem amarrados no cinto de segurança.
O passeio seria o assunto da semana, ou então do mês, dependendo de quem tivesse paciência para ouvi-los contar a mesma história inúmeras vezes.
Fim.
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