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quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Farol

 

   
      Ele me achou... E eu fugia por uma estrada comprida, levantando as saias de meu vestido que, vez ou outra, me faziam cair na terra úmida por causa da chuva da manhã, cobrindo meus joelhos com lama. Rapidamente me levantava e continuava correndo. Olhava para trás e ele continuava a me perseguir, quase me alcançando.

      O vento frio de outono cortava meu rosto e jogava meus longos cabelos cacheados para trás, esvoaçantes balançavam em harmonia e tapavam meu rosto quando eu virava para trás para espiar a distância que eu estava dele... Corria, como se minha salvação dependesse da velocidade dos meus pés e da força de minhas pernas. Já estava escurecendo e minha angústia aumentava a cada passo em falso que dava e tropeçava em alguma pedra solta pela estrada. Não tinha para onde me esconder. De um lado da estrada um abismo com o mar azul escuro aumentando a maré e batendo nas pedras espalhando espuma branca por toda a orla. Do outro lado uma floresta fechada, um labirinto arriscado e misterioso, digamos ser medonho pelos barulhos estranhos que ecoavam a noite toda, chegando até o pequeno vilarejo.

     Mathias, um vilarejo novo, habitado por pescadores e homens das florestas, como assim eram chamados pelos viajantes comerciantes que apareciam por lá. Havia apenas uma rua principal e as casas, todas simples e rústicas, feitas de pedras e forradas com troncos cortados de árvores, unidos harmoniosamente um ao lado do outro, com acabamento de uma cola artesanal que impedia as goteiras e ao mesmo tempo, proporcionava um frescor no interior das casas. A única moradia mais bem-feita e ornamentada era do chefe-guardião, que tudo via, tudo sabia e era obedecido por todos. Era o deus de todos. Tinha o poder de ler os pensamentos, descobrir ovelhas desgarradas, apontar para algum malfeitor, julgá-lo e condená-lo em questão de segundos. O respeito que todos tinham por ele era, na verdade, o medo de descobrirem alguma teimosia ou algum descuido no trato com os animais. Estes eram sagrados. Era um homem alto, com mais de dois metros de altura, forte, cara amarrada, grotesco, de poucas palavras e muitas ações. A ordem no vilarejo era invejada por muitas cidades maiores ao redor, mas quando se tratava de Nêumo, o chefe-guardião, preferiam ficar longe de sua vidência.
   
     O homem me perseguia, eu gritava, mas a voz embargava. Comecei a ficar ofegante e meus passos diminuíram. O homem me alcançou, puxou-me pelos cabelos fazendo com que meu corpo encurvasse para trás. Olhou bem nos meus olhos e sorriu com sarcasmo. Eu cuspia em seu rosto e apertava seus olhos com os polegares e mesmo assim e ele me beijava a boca. Nojo! Limpei meus lábios com o braço, esfregando várias vezes, tentando tirar o gosto de álcool com hálito quente daquela boca carnuda e asquerosa.

      Ele me puxava pelos cabelos arrastando-me pela estrada até chegar num atalho que seguia direto para o farol, que ficava à beira do mar. Este estava bem agitado.

      Naquela época, mais precisamente em 1832, as jovens eram sacrificadas quando não queriam se casar com os homens que as escolhiam. Se revoltavam, se rebelavam, mas de nada adiantava. Acabavam mortas, ou enforcadas, ou lançadas num penhasco que tinha o mar como chão. 

      Era para esse lugar que o homem forte, bonito, mas nojento, vestindo roupas mal cheirosas, cabelos pretos e longos, barbudo e um nariz comprido e pontiagudo que parecia o bico de um papagaio, me levava.

      Me segurava pela cintura com um dos braços, me apoiando em seu corpo fazendo como o que meu pendesse e anulasse qualquer possibilidade dele receber um golpe meu, proporcionando-me liberdade. Eu gritava, mas minha voz continuava embargada; então ele repetia várias vezes, mas sem precisar gritar, para eu ficar quieta. Eu me debatia, tentando me livrar de seus braços, mas a força do homem era infinitamente maior que a minha.

      Ainda me segurando pela cintura subimos a escada em forma de caracol e chegamos ao topo do farol. Grandes janelas nos mostravam o céu com algumas estrelas e alguns raios de sol do outro lado. O mar batia nas pedras e fazia um barulho que penetrava em minha mente, como se me esperasse para o derradeiro mergulho em suas águas geladas e profundas. Sussurrava e lançava gotas até chegarem à janela que me aguardava ansiosa por minha queda. Um vento gelado uivava competindo com o barulho das ondas, entrava pelas janelas e esvoaçava nossos cabelos, quase que entrelaçando-os, num balé de quase fim de ato.

      O homem me levou até uma janela que ficava do lado mais fundo do mar, segurou meu rosto e me mostrou a linda paisagem. Cochichou alguma coisa no meu ouvido, mas que não conseguia
entender, com sua enorme mão me segurando o queixo, virou bruscamente meu  rosto de frente para o seu e mais uma vez me beijou fortemente. Mordi seu lábio inferior que sangrou, então ele se afastou e me deu um tapa no rosto, ainda me segurando firme pela cintura, com seus longos braços entrelaçados. Eu me debatia, mas estava praticamente imóvel e exausta. Ele começou a me xingar, mas eu não conseguia entender nada do que ele dizia. Sabia que estava xingando pela expressão de ódio em seus olhos. Mais uma vez ele segurando  meu rosto, mostrou-me a paisagem que seria a última visão que eu teria. Eu tentava gritar e não conseguia.

      Num movimento rápido, ele me ergueu  e apoiou-me no parapeito da janela. Olhei para baixo e senti vertigem. Gritava, mas era inútil. Mais uma vez ele cochichou algo no meu ouvido e me empurrou para o abismo.

      Neste momento, gritei tão alto que minha voz ecoou. Segundo a segundo eu via aquele homem se distanciando de meus olhos enquanto eu caía. Um frio tomou conta de meu corpo, meus cabelos longos taparam meu rosto antes mesmo de meu corpo tocar o mar agitado. Parecia que a queda não teria fim. Sentia falta de ar, como se minhas narinas estivessem fechadas e meu grito abafado tivesse cortado minha garganta impedindo a saída do ar. Fui caindo e desfalecendo. O barulho do mar era cada vez mais forte, mas já não me importava com a morte. Queria a morte de uma vez por todas. Praticamente já sentia as gotas do mar respingando meu corpo. Abri os braços e me entreguei! Por uma última olhada, de relance vi, na outra janela do farol, Nêumo, com seu olhar frio e calculista. Entendi tudo.

     A Lei cumpriu seu destino. Mais uma desobediente a ser esquecida no vilarejo Mathias. Quanto à força de um homem, um olhar instigante e tudo se acaba. O fim foi consentido e determinado.

     Caia no mar agitado e não fazia questão de sobreviver, nem se houvesse um milagre.




     Clara Lúcia

     

sábado, 16 de dezembro de 2017

Em Qual Segundo O Amor Se Perdeu?


 Alô, por favor, tem algum quarto pequeno e simples vago aí? Sim, pode ser, em meia hora eu chego e acerto tudo. Obrigado! — Arnaldo, após fechar a mala, lavou o rosto e ficou se olhando no espelho.
Enquanto detalhava sua fisionomia refletida, procurou uma explicação para que tudo tenha terminado tão rápido. Ontem mesmo havia se casado, tudo lindo e perfeito!
Anitta, linda toda de branco e com um sorriso terno e cativante, que foi um dos motivos que ele tinha se encantado. Meiga, calma e charmosa, chegava a irritá-lo quando precisava de uma urgência ou de uma rapidez que pra ela seria incapaz de executar. Os opostos se atraem e com eles não foi diferente.
Arnaldo apoiou as mãos na pia, abaixou a cabeça e chorou. Foi a primeira vez que lamentou não ter dado certo a união que prometia ser eterna. O amor também acaba...
Anitta ficaria no apartamento, ele seguiria seu rumo sem certeza nenhuma. Apenas partiria.
Olhou novamente seu reflexo e, voltando os pensamentos ao passado, tentou se lembrar em qual instante o amor havia se perdido. Não conseguia se lembrar. Talvez o desgaste, a falta de diálogo ou de tempo para os dois. Lembrou-se da época de namoro quando os dois tinham tempo um para o outro. Finais de semana, feriados, ou mesmo à noite, durante a semana, sempre davam um jeito de estarem juntos.
A rotina acabou com o casamento exatamente um ano depois.
Não tinham mais vida social, os amigos se afastaram, ou melhor, eles se afastaram dos amigos, o encanto havia se transformado em presença invisível, tudo muito automático e tedioso.
Não se lembrava de ter conversado com Anitta sobre o assunto. Ela também não gostava de discutir relação e nem implicar com nada. Apenas vivia sua vida tranquila e talvez a responsabilidade de dirigir uma casa tenha sobrecarregado sua rotina. Estava sempre cansada, mesmo não reclamando, era clara a insatisfação em ter que fazer coisas corriqueiras. Arnaldo ajudava, mas reconhecia que deixava a desejar na ajuda doméstica. Talvez ele esperasse por um puxão de orelhas, ou então uma ordem para fazer isso ou aquilo, mas partindo de Anitta, a tranquilidade em pessoa, seria impossível. Não percebeu que os dias passaram e que Anitta foi perdendo o interesse pela vida de casada.
Lembrou dos conselhos de sua avó, de que quem governa o lar é sempre a mulher. Ela quem determina como será a vida a dois, o momento de cada coisa e, para ele ficar atento, pois se ela se desinteressasse, dificilmente voltaria atrás. Uma luz brilhou refletida no espelho e Arnaldo chegou à conclusão de que nem todas as mulheres são como sua avó mencionou. Talvez Anitta fosse diferente, e ele ficou esperando ela governar uma casa que nem ela mesma queria governar. Talvez ela esperasse uma atitude voluntária de sua parte em participar dos afazeres.
Por fim, pela falta de interesse dela, ele saía com amigos e até se interessava por outras mulheres, mas a presença da mulher era grande demais para se aventurar em outras camas. Para ele era normal ser assim, mas hoje, depois de fechar a mala, percebeu que foi ele quem se afastou do casamento. Ela sempre esteve ali ao seu lado, e ele preferiu se calar e esperar por uma atitude dela.
Um arrepio percorreu sua coluna só em pensar em Anitta nos braços de outro homem... Será?
O que diria sua avó? Seus conselhos seriam bem-vindos nessa hora, mas preferiu resolver tudo sozinho.
Arnaldo colocou os sapatos, pegou a mala e o casaco que estava sobre a cama, respirou fundo e seguiu para a sala.
Anitta estava sentada no sofá, pernas cruzadas, braços abertos e apoiados no encosto do sofá, e olhou profundamente o marido. Também respirou fundo e chorou. Arnaldo, vendo aquela cena não se conteve e se ajoelhou aos seus pés, como se implorasse uma segunda chance a ela, em nome do amor. Não disse nada, apenas ficou esperando uma palavra dela. E a história de esperar uma atitude de Anitta se repetiu. Com dificuldade disse a ela que a amava, que não queria sair dali com mágoa e se houvesse uma única chance de recomeçar, ele aceitaria as condições que ela quisesse.
Anitta levou as mãos ao rosto e chorou. Depois limpou as lágrimas, colocou suas mãos sobre as mãos dele e disse que também o amava, mas estava cansada e queria ficar sozinha um pouco. Não havia se adaptado ao casamento e estava incomodada com o descaso dele todos os dias. Na verdade ela não percebeu que esse era o jeito dele.
Arnaldo, num impulso, levantou-se, segurou as mãos de Anitta, e fez com que ela também se levantasse. Imediatamente ela o abraçou, forte...
Se beijaram e logo se entregaram um ao outro. O sexo era o ponto forte daquela relação. Arnaldo não soube precisar quando o sexo deixou de fazer parte da rotina. Para ele era sempre o cansaço dela, e para ela era o descaso dele durante o dia que a deixava sem vontade nenhuma de ter relação com ele. Como sempre um não soube decifrar o que o outro queria. Queriam que desse certo, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa para evitar o fim do casamento.
Se declararam, apaixonados... A noite toda se amaram...
Arnaldo, tranquilo em sua cama, levantou-se de manhã, abraçou Anitta acordando-a. Ela, porém, se afastou dele e disse que o que havia acontecido foi apenas uma despedida. Ela não havia mudado de ideia da separação.
Arnaldo foi ao chão! Não conseguia entender o raciocínio dela em consentir uma noite maravilhosa e depois afirmar que estava tudo acabado.
Ele sentou-se na cama sobre os calcanhares e riu...
Isso deixou Anitta muito irritada. Ela levantou-se, se enrolou no lençol e foi ao banheiro. Antes de fechar a porta disse a ele que não sairia de lá até que ele pegasse suas coisas e fosse embora.
Arnaldo, colocou as mãos na cabeça, respirou fundo, vestiu-se, pegou a mala e saiu, batendo a porta atrás de si.
Antes de entrar no elevador, começou a chorar, depois a rir, depois ficou sério.
Anitta chorou compulsivamente no banheiro e ficou lá, sentada no chão, a manhã toda.
Teve rompantes de arrependimento, mas sabia que se continuasse com Arnaldo, tudo voltaria a ser como antes. Não reconheceu que também falhou ao não se abrir com ele sobre a sobrecarga doméstica que sentia todos os dias. Para ela, era obrigação dele saber o que fazer.
Ela era mais independente que ele, se virava sozinha há anos. Arnaldo não, sempre foi orientado a fazer isso ou aquilo.
Anitta esperava uma atitude digna dele, pelo menos em insistir em continuar o casamento e teve a decepção quando ele concordou, sem discutir, em sair de casa. Para ela ele já esperava e até queria se separar, pela frieza com que ultimamente a tratava. E ele, sem entender nada, preferiu não piorar a situação e seguir seu rumo.
Coisas de casal.

Clara Lúcia

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Dia dos Moços


Dia desses encontrei Rominho, de nome Romildo, caboclo forte, robusto, moreno e careca. Ah, me lembro muito bem o medo que esse menino tinha de ficar careca! Imagina? A homarada da família tudo careca e ele num ia ficar? Capaz!

Éramos amigos do tempo em que morávamos na roça. Nunca mais tinha visto ele, e, do nada, encontrei o caboclo perambulando pela rua, ora essa! Foi ele quem me conheceu, me gritou e veio com o mesmo sorriso fácil de sempre, pronto pra um abraço apertado. Diz ele que continuo o mesmo. Olha, não sei se isso é elogio ou não, mas contando o que já havíamos aprontado na infância e juventude, qualquer palavra dele é um elogio pra mim.

Conversa vai, conversa vem... E saiu da boca dele a Raquel. Ei, ai... E quem não se lembrava da Raquel?

Era Rominho, eu mais Tiago. O trio do sertão que galopava ligeiro e que tinha a pele queimada do sol, como se fôssemos mulatos. Chegava a brilhar o suor nos braços roliços. Hoje vendo esses jovens se acabando em academias, não têm a barriga dura igual a gente tinha naquele tempo. Dava pra contar os gominhos, mesmo não fazendo tanto sucesso quanto hoje. Nem eu nem Rominho preservamos os gominhos. Cheguei à conclusão quando o vi, que a vida é ingrata, mesmo sabendo que nós é quem somos ingratos com a vida. Custava ter preservado pelo menos os gominhos? As meninas até gostavam, mas quem fazia sucesso era Tiago. Como muda a vida! Rominho tá casado e já é até avô! Só falta falar que também usa dentaduras, aí seria derrota demais da conta!

Raquel, morena roliça, de pele brilhosa, coxa forte e bunda arrebitada. Jesus, o que era aquilo? Tinha idade pra ser nossa mãe, mas ainda bem que não era. E a danada gostava da coisa, de tudo de uma vez...

Quando ela chegava no pasto só soltava um assovio e nós três, em sincronia, olhávamos pra ela e saíamos correndo. Parecia até a mãe chamando, numa sangria desatada! E mesmo assim a gente nem corria quando a mãe chamava! Quem chegasse primeiro ganhava um beijo. Os outros não! Tinham que ficar esperando a vez, mas podiam ver tudo, serviço completo! Depois chamava o outro e depois o outro. Quem não estava na labuta ficava esperando, já em ponto de bala! Adivinha quem sempre ganhava o beijo? Rominho! Muleque comprido, canela fina e corria igual um cavalo. Ninguém ganhava dele! 

Qualquer lugar era lugar, no meio do pasto, na beira do rio, no meio das bananeiras, não importava, Raquel chegava com o lugar já escolhido e nós íamos seguindo em fila indiana, como filhotes de patinha a acompanhar a mãe rígida. Essa era a alegria dos moços da roça!

A gente esperava por esse dia, que às vezes demorava, às vezes eram dois ou três dias seguidos. O bom de ser nós três juntos é que quem ficava olhando, também ficava vigiando se avistava o Benito, o namorado de Raquel. Aquele sim era um armário perigoso. Nem preciso dizer nada dele. Apenas vivíamos a adrenalina do medo seguido de tesão. Mas vem cá, que vida chata de quem não tem aventuras, não é? Que histórias contaria pros filhos e pros netos? Rominho ria enquanto se lembrava de Raquel e do nosso medo do namorado dela, o Benito. 

Será que ela casou com ele? Só sabíamos que ela havia se mudado pra cidade e nunca mais pousou aquela bunda redonda na roça... 

Rominho se formou doutor advogado, família feliz, quase rico, escritório particular, carrão do ano... Eu continuo na mesma, não na roça, mas na cidade, no meu primeiro emprego, numa autoescola. Dando aulas. Quase trinta anos no mesmo lugar. Caramba, como o tempo passou e eu nem percebi! Poderia ter me formado também, ter tido uma casa boa, carro bom, mulher bem cuidada, filhos formados... Mas não, a única aventura de que me lembro era me aliviar com Raquel. 

Tiago, nem eu nem Rominho tínhamos contato mais. O que fez de Tiago?

Na época ele era o come-quieto, sabe? Aquele que surpreendia, que chegava pelas beiradas e fazia um estrago nos corações das moças. Também, loiro de olhos azuis! E era bonito, porque tem loiro de olhos azuis que é feio igual um diabo! 

E Raquel, que fim levou Raquel? E Benito, o noivo dela? 

Saudade daquele tempo, daquela roça com as pastagens verdinhas, os cavalos que a gente galopava sem arreio, na pele mesmo, da cachoeira gelada que fazia a gente encolher tudo, do pé de jatobá, ô fruta difícil de comer, mas a gente comia com gosto, porque era só apanhar e pronto. Do fogão a lenha, da horta verdinha, e do bananal, que maravilha! De manhãzinha, quando a gente acordava, ia na varanda, com a caneca de café, só pra ver o nascer do sol. Visão mais linda nunca vi igual! O céu azul escuro ia clareando, aos poucos o amarelo ia empurrando o azul pra cima, um clarão atingia nossos olhos e lá estava ele, todo imponente, majestoso, grande, quente! E a vida começava, dia após dia... 

Parece que foi ontem! Obrigada, meu amigo Rominho, por me trazer tantas lembranças boas!


Clara Lúcia

quarta-feira, 15 de março de 2017

Marinalva Das Dores



      Fazia um calor infernal na pequena casa sem forração, e o mormaço do fogão com as quatro bocas acesas provocavam suores que escorriam pelo rosto de Marinalva. Vez em quando enxugava as gotas com a manga da blusa, mas mesmo assim não parava de pingar suor em seu colo murcho. Depois de quatro filhos era impossível manter um corpo apresentável, e ainda mais com uma frágil saúde que obrigava Marinalva a se arrastar pelos cantos tentando deixar a casa em ordem.

      Aflita, olhava o relógio várias vezes. Não queria atrasar o almoço de Pedro José, o marido, sisudo, tímido, quase não falava e dificilmente sorria. Brincava com as crianças quando estava disposto, o que acontecia raramente. Não tinham diálogo íntimo. Marinalva não tinha disposição para nada a não ser cuidar da casa, dos filhos e reclamar de dores pelo corpo. Era dor que não acabava mais... Dia e noite dolorida... Virava na cama e, dormindo, reclamava. Pedro José nem dava mais ouvidos a ela. Cansou. Cumpria suas obrigações e nada mais. Marinalva ganhou, no último aniversário de casamento, um vestido florido, lindo, um par de sandálias com cristais, um botão de rosa, um perfume adocicado e duzentos reais, que era para ela comprar o que quisesse. Dedicada à família, preferiu comprar coisas para a casa. Isso irritou Pedro José, mas mesmo assim não reclamou. Já havia se acostumado com ela. Quando estava um pouco melhor, Marinalva até procurava por ele debaixo dos lençóis. Ele respondia aos seus carinhos, depois virava para o lado e dormia. Ela dormia tranquila quando tinham intimidade, acordava disposta, sorridente e ele tinha a certeza dela caprichar no almoço.

      Marinalva olhou o relógio e já havia passado dez minutos sem que Pedro José chegasse. Estranhou porque ele nunca se atrasava. Foi até a janela, respirou a brisa fresca, fechou os olhos e ouviu, ao longe, um casal de maritacas no topo de uma árvore, e no fim da rua crianças brincavam na maior gritaria. Se lembrou que seu marido sempre brincava um pouco com esses meninos antes de entrar em sua casa. Ela olhou para um lado, para o outro e nada de Pedro José.

      Serviu seus filhos, todos pequenos, e olhava sem parar as horas que passavam rápido demais. E nada de Pedro José. Não almoçou. Perdeu a fome e começou a ficar preocupada. Nem um recado nem nada!

      À tarde, no costumeiro horário de voltar para casa, Pedro José chegou, olhos vermelhos, cheirando a álcool e cigarro, cabeça baixa e sem falar nada. Marinalva segurou-o pelo braço e insistentemente perguntou o que estava acontecendo. Ele virou a ela e simplesmente disse que estava indo embora de casa. Não tinha explicação, só isso, ia se separar dela. O choque foi tão grande que ela caiu sentada no chão. Ele olhou para aquela cena que para ele era patética, foi para o quarto, arrumou algumas poucas coisas numa sacola velha, deu um beijo em cada filho e saiu pela porta sem olhar para trás. Depois voltou e disse a ela que não a deixaria sem dinheiro para cuidar dos meninos.

      Marinalva não conseguia reagir. Permaneceu sentada por um bom tempo... "Aposto que encontrou outra mulher, só pode, aquele fiii du'a égua!", cochichava, com cuidado para os filhos não ouvirem. Despencou num choro incontrolável... Os meninos, sem entender nada, mas acostumados a ver a mãe choramingar, sentaram ao lado dela e ali permaneceram. Marinalva, que geralmente não tinha forças para se levantar, se arrastou até a cama, apoiou-se na madeira e ficou em pé. Ainda chorando, se arrastou até a janela e soltou um grito.

      A vizinha Zuza, que varria a calçada, correu para acudi-la. Preocupada, entrou na casa dela para saber os detalhes de tanto choro e sofrimento. Marinalva, entre soluços e lamentações, contou o acontecido. Zuza, inconformada, começou a xingar Pedro José de todos os nomes possíveis, rogando-lhe praga e mais praga. Também deu sua opinião dizendo certeza ter sido alguma quenga que virou a cabeça dele. Marinalva ouvia e chorava aos soluços.

      Zuza se prontificou a ajudá-la no que fosse preciso, afinal tinha quatro filhos pequenos para cuidar e agora estava sozinha e tal. Já era noite, Zuza arrumou o que comer para os meninos, arrumou um prato para Marinalva e outro para si, e comeram em silêncio. Depois se despediu dela e foi tomar conta de sua casa.

      Zuza passou pelo seu portão e não entrou na sua casa. Foi para a casa da outra vizinha. Renata, que era um pouco mais velha e que não tinha filhos. Era só ela e o marido, outro com fama de mulherengo da vila. Pediu para entrar para conversarem e imediatamente contou tudo o que aconteceu com Marinalva. E emendou dizendo que foi bem feito, mulher que não se cuida, que vive reclamando, choramingando pelos cantos, que não penteava nem os cabelos, imagina que um homem iria aguentar uma vida dessa? Repetia várias vezes até espumar o canto da boca. Renata concordava e aumentava mais um conto, lembrando de algum causo em que viram o marido de Marinalva entrando em uma casa na rua de baixo de onde morava, onde sabiam que morava uma mulher que não era bem vista pelo bairro. "Aposto que ele foi morar lá!". Repetia. As horas passavam e Renata convidou Zuza a ir embora, pois já estava tarde e o marido dela já devia estar preocupado com sua ausência. "Que nada, aquele lá só sabe dormir quando chega de tarde!".

      Marinalva, com todos os problemas enfrentados e tendo que conviver com a fibromialgia, teve ajuda de parentes e alguns amigos para seguir em frente. Cada um ajudava um pouco e nada lhe faltava em casa. Pedro José visitava os filhos de vez em quando e sempre levava um pouco de dinheiro e mais algumas coisas para a casa. Nunca disse onde estava vivendo e nem com quem. Desconversava, e se Marinalva insistisse, dava um jeito de ir embora na mesma hora.

      E assim Marinalva foi vivendo, com a mesma feição de coitada, cabeça meio baixa, triste e insatisfeita, como Deus quisesse, ela repetia a quem perguntasse como estava.

      Zuza e Renata eram as vizinhas que mais ajudavam com a limpeza da casa e algum outro trabalho pesado que ela precisasse, mas a língua corria solta quando viravam as costas.

      Coisas da vida.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Quando Os Olhos Falam


      Já passava das das vinte horas quando Lívia começou a se despedir de todos à mesa para ir embora. Imediatamente Lucas a puxou pelo braço e pediu que ficasse mais um pouco. Eram amigos há alguns anos e sempre se encontravam, com mais três amigos também, para uma rodada de cerveja e petiscos. Aos poucos cada um foi se retirando permanecendo apenas os dois e Diana. Diana era amiga de Lívia e quase não participava da reunião deles. Especialmente neste dia havia bebido muito e certamente precisaria de ajuda para voltar para casa. A incumbência ficou por conta de Lívia, que se sentia responsável por Diana ser mais nova e frágil quando bebia álcool. Nada exagerado, porém Lívia se sentia culpada por induzir a amiga a beber de vez em quando.

      Lívia, com as bochechas rosadas e os cabelos um pouco grudados na cabeça devido ao calor de verão, deu um beijo no rosto de Lucas para se despedir, como sempre fazia. Lucas não era de beber demasiado. Era o responsável da turma e sempre levava todos para suas casas. Nesse dia não levaria ninguém, como havia combinado antes de se sentar à mesa. Tinha um compromisso mais à noite e não mudaria sua rota desde então. Lívia, ainda encostada no rosto no de Lucas, demorou um pouco para concluir o beijo. Na verdade quem demorou foi Lucas. Se afastaram e se olharam... Olhar profundo como jamais haviam se olhado antes. Não era aquele olhar carinhoso ou cuidadoso, era diferente... Lívia suspirou, continuou firme pesquisando o fundo dos olhos de Lucas. Mexia os olhos descontroladamente, observando as sobrancelhas, o nariz, a testa, os lábios... Cada detalhe daquele rosto tão conhecido. No instinto, ela entreabriu a boca, como se esperasse um beijo, e Lucas, hipnotizado, retribuiu o olhar e segurou o rosto de Lívia, abaixo da orelha e acariciou a bochecha com o polegar. Estavam muito próximos um do outro... Ele fixou seu olhar nos lábios dela e se aproximou. Lívia fechou os olhos e se entregou, mas antes de tocar seus lábios nos de Lucas abaixou a cabeça, segurou nas mãos dele, pediu desculpas e se afastou. Olhou para Diana, que estava com os olhos arregalados, queixo caído e não sabendo o que fazer. Lívia sorriu, pegou na mão da amiga chamando-a para irem embora. Moravam há poucas quadras do bar em que estavam, portanto iriam à pé. O sol aos poucos anunciava o início da noite, proporcionando uma cena belíssima estampada num alaranjado escuro com pitadas de vermelho e marrom a sua volta. Lívia suspirou, caminhou olhando para o chão e sem falar uma palavra. Lucas ficou observando as duas se afastarem, apoiando os cotovelos na mesa.

      Lívia nunca havia percebido, mas Lucas, quando tinha a oportunidade de estar no mesmo ambiente que ela, não desgrudava em nenhum momento. Quando chegava e não havia cadeira vazia perto dela, fazia com os demais se afastassem até se acomodar ao seu lado. Lívia se divertia dizendo que ele era seu protetor, que quando estava com ele estava com Deus. e ele olhava para Lívia com aquele olhar profundo e enigmático, mesmo tentando mostrar a ela o que cabia dentro daqueles olhos além da doce amizade de anos.

       Lívia, no caminho para casa e sem prestar atenção no que Diana estava lhe falando, suspirava e sentia o coração pulsar rápido. Medo e vergonha era o sentimento que tomava conta dela, uma paixão momentânea por um amigo querido. Jamais imaginou se relacionar com Lucas de um modo que não fosse somente amizade.

      Lívia, percebendo que os olhares de Lucas ultimamente não eram mais inocentes como antes, suspirou e mordeu o lábio inferior. Não sabia o que pensar e nem o que dizer a ele num próximo encontro. Abaixou a cabeça, cochichou sem deixar Diana ouvir, como se quisesse falar para si mesma, que tudo isso era besteira, que estavam sob o efeito do álcool e que tudo continuaria como antes. Respirou aliviada, chegou na sua casa, se despediu de Diana e entrou feliz. Diana seguiu mais uma quadra, onde morava com seus pais.

      Cantarolando e se distraindo com suas coisas, Lucas não saía da mente de Lívia. De repente se via pensando nele, suspirando, boca seca e coração acelerado. Depois se levantava, disfarçava a petulância por ter tido pensamentos quase pervertidos e continuava sua rotina de distrações.

      Os dias se passaram, Lívia estava tranquila quando aos suspiros por Lucas, até se encontrarem ocasionalmente na rua de sua casa. O acaso era o que ela pensava, mas Lucas foi procurá-la. De longe viu o amigo caminhando com as mãos nos bolsos, vez ou outra ajeitando a franja lisa que tapava parte de seus olhos e estampando um largo sorriso ao avistá-la. Lívia, desconcertada, tentou não ter uma síncope com o coração querendo saltar para fora do peito. Sorriu acanhada e caminhou olhando mais para o chão, por vergonha de olhar novamente aqueles olhos cor-de-mel que soltaram faíscas na última vez em que foram olhados. A uma quadra de distância, Lucas parou, cruzou os braços e ficou esperando Lívia se aproximar. Ela, percebendo o longo caminho a percorrer até ele, suspirou, sentiu a boca seca e continuou. Não conseguia disfarçar o largo sorriso e as bochechas já coradas, por causa da timidez. Chegou à frente de Lucas, olhou de novo o fundo daqueles olhos, entreabriu a boca, como se esperasse mais um vez um beijo. Lucas, continuando do ponto onde parou dias atrás, no último encontro, pegou o rosto de Lívia, tocando em seu pescoço e acariciou a bochecha com o polegar. Fixou os olhos nos lábios dela e beijou-a ternamente. Lívia se entregou sem  remorso... Se abraçaram e ficaram parados no tempo, de olhos fechados, sentindo o coração pulsar...

      — Minha ceguinha... Até que enfim percebeu, né? — ele sussurrou no ouvido de Lívia...


❤❤❤


Um Feliz Natal a todos, um Ano Novo repleto de esperanças e realizações. Fiquem com Deus e até!

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Cristaleira



      Depois de passar o fim de semana na casa de uma irmã mais velha, em outra cidade, Nair voltou para sua casa, cansada, louca para deitar em sua cama e dormir um pouco. Depois dessa viagem, ela constatou que não tinha mais idade para tanta aventura, mesmo a cidade ficando a 3 horas de distância. Não tinha mais paciência em ficar sentada dentro de ônibus por tantas horas, com gente conversando o tempo todo, crianças gritando, chorando, comendo, enfim, Nair sabia que estava velha.

      Era a primeira vez que ela viajava sozinha depois de ficar viúva. Passados exatos dois anos, sua única filha a incentivou a respirar novos ares, a conversar com a irmã que não via há anos, a passear e distrair a cabeça com outra rotina que não fosse a sua. Por tanta insistência ela aceitou, mesmo a contragosto, só para agradar a filha. Nair era assim mesmo, não sabia falar não, mas não significava estar satisfeita com a situação. Não gostava de confusão, nem de discussão e nem de desagradar as pessoas. Era uma senhora tranquila que sofria por não se impor, acabando por fazer o que não queria. Nair sofria e chorava, escondida em seu canto, sua casa, seu quarto, sua cama e seu travesseiro que agora fazia as vezes de seu amado Odair. Que falta ele fazia em sua vida!

      Ainda não havia superado a perda dele, mesmo tendo o apoio de pessoas queridas que sempre estavam por perto para distraí-la, confortá-la e ajudar no que fosse preciso. Era a recompensa por ter sido uma mulher cuidadora. Às vezes se sentia constrangida, pois nunca soube o que seria ser cuidada. Tipo de mulher que nasceu para cuidar, e o fazia muito bem.

      Chegando em casa, Nair levou um susto! Sua louça e sua prataria não estavam no lugar de sempre, em sua cristaleira antiga e reformada. Ficou estática olhando e esperando alguma explicação da filha Roberta.

       Mãe, amanhã chega a prataria novinha e a louça moderna para enfeitar essa cristaleira. Tudo estava tão velho que eu resolvi doar para umas pessoas carentes. A senhora vai ver como vai ficar lindo!  disse, com entusiasmo, para a mãe.

      Nair só deu um sorriso acanhado, entortando a boca para um lado, abaixou a cabeça e foi para seu quarto. Desabou na cama e chorou... — "Mas que petulância da Roberta que nem sabe nada da vida e vem pegar minhas coisas e dar pra quem eu nem conheço! Não basta ela ter suas coisas e agora vem intrometer nas minhas?" — Pensava, soluçando baixinho para que Roberta não a ouvisse.

      Se levantou, foi até o maleiro do guarda-roupas e tirou uma caixa onde guardava fotos antigas. Despejou em cima da cama e achou uma de seu casamento, época que tinha o costume de colocar os presentes sobre a cama. Lá estavam sua prataria e suas louças. Chorou e apertou a foto em seu peito, fechando os olhos e se lembrando daquele momento único.

      Nair lembrou de cada detalhe, de cada peça ganhada, todas inteiras e brilhantes. A prataria ganhou de uma das madrinhas que era mais bem de vida. Nunca foi usada, por dó e por medo de estragar. Não era uma prata de boa qualidade, mas brilhava como um espelho. A louça antiga, conjunto para seis pessoas, continha pratos rasos, pratos fundos, xícaras de chá e xícaras de café, além de uma sopeira que parecia ser trabalhada à mão de tão perfeita. Era branca com desenhos delicados de rosas cor-de-rosa e um filete dourado nas bordas. Pelo tempo e pelo uso haviam alguns trincados e uns lascados nas bordas. Nair ganhou da avó e eram o seu xodó, que agora habitavam outros lares. Seriam lares ou seriam apenas casas com pessoas desorganizadas e mal-cuidadosas? Talvez já estivessem até quebradas pelo mau uso. Nair chorou de soluçar só em imaginar a cena de um prato espatifado no chão.

      Nunca perdoaria a filha por essa atitude. Mas depois de pensar muito resolveu não tocar no assunto e continuaria vivendo até seus últimos dias com esse nó na garganta.  "Que os dias sejam breves e curtos"  pensava Nair. Por pirraça, ela resolveu doar também a cristaleira para uma parente distante, que sabia ser caprichosa em sua casa e que deixava tudo bem arrumado e conservado.

      Resolvido o problema, Nair foi decaindo aos poucos, dia a dia, e sempre quando estava sozinha em seu quarto suas orações eram direcionadas ao amado Odair, para que viesse lhe tirar dessa vida e levá-la para junto dele. Não queria mais viver, não queria mais passar pela sala e ver aquele vazio onde ficava a cristaleira com sua prataria e suas louças. Como doía lembrar que Roberta lhe arrancou um sentimento! Que ousadia da filha mexer em seus objetos e decidir o que fazer! Por que não esperou que morresse? Poderia até jogar tudo fora de uma vez, mas esperasse pelo menos ser enterrada. Nair tinha pensamentos depressivos e a cada dia que passava andava com a cabeça mais baixa, passos lentos, sem se cuidar e sem se alimentar como deveria. Perdeu o encanto da vida...

      Nair, com sua paciência e bondade, nunca mais saiu de casa a passeio. Queria esperar a morte perto do pouco que lhe restava, que agora estava trancado em seu guarda-roupas, escondido. Poucas lembranças que ornavam alguns objetos carregados de valor sentimental. Valor da vida, de décadas vividas, de choros, risos, sofrimentos, alegrias, de dores, de cores, de cinza e de branco, como aquele vestido todo rendado, acinturado, com um véu de tule que lhe cobria toda a parte de trás e se arrastava pelo chão, recolhendo todo farelo e grãos de sujeira que estavam no caminho ao altar, onde viveu o momento mais feliz de sua vida. O dia decisivo para uma união duradoura, de amor, de respeito, de companheirismo, e que agora o "até que a morte os separe" se fez valer.

     

      Texto publicado em 29 de julho de 2014 - Editado

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Cafundó Não Existe Mais

Um texto belíssimo da querida amiga Eliana Teixeira.
Cafundó não existe mais, a não ser em minha lembrança.
Cafundó era um lugarzinho na ribanceira de um córrego que passava no fundo do quintal da nossa casa, hoje só escombros escondidos atrás da casa nova.
Em um dos Natais da minha infância, ganhei de presente um livro contando a história da aparição de Nossa Srª de Fátima para os três pastorinhos. 
Fiquei profundamente impressionada com o milagre, com a sorte dos eleitos e, com toda a fé que meu coraçãozinho pôde amealhar, desci a ribanceira musguenta do córrego, ao pé de um bambuzal, e cavei uma gruta, coisa de dois palmos de altura, um de fundura, e esculpi em barro o que parecia ser, para mim, a imagem de N. Srª de Fátima.
E todas as tardes eu ia para esse meu lugar secreto, meu Cafundó, nunca compartilhado com ninguém. Segredo meu e da Virgem. Às vezes ouvia ao longe minha mãe me chamando. Mas éramos tantos filhos que eu sabia que, se eu ficasse caladinha, ela logo se esqueceria de mim.
E o que eu fazia no meu Cafundó? Um único e precioso pedido: Que N. Srª de Fátima aparecesse para mim também.
Muito tempo se passou. Eu mesma tratava de justificar os porquês de sua não aparição: desrespeitei minha mãe, falei palavrão, bati na minha irmã...os pecadilhos de toda criança ao se confessar.
Mas uma noite, ah, que noite, eu sonhei! Sonhei que um lindo botão de rosa vermelho caía vagarosamente do espaço, girando, a coisa mais linda que jamais tinha visto.
Aí, de repente, apareceu o rosto de N. Senhora De Fátima sorrindo prá mim. Era o mesmo rosto da imagem que tínhamos dela em casa. Ela sorriu, não disse nada, e se foi.
Cafundó não existe mais. Parte do quintal tornou-se uma avenida, o córrego foi canalizado e eu não creio que N. Srª vá aparecer para mim novamente. Eu não tenho merecimento. Continuo crendo nela com toda a fé que consigo ter, mas tenho sérias dúvidas sobre a existência de Deus.
Então, se algum dia eu me tornar alguém importante, _ chance remotíssima, com a agravante que eu não faria o menor esforço para sê-lo _ não será possível colocar uma placa de bronze em Cafundó, para contar parte da história de quem fui.
E, se esta narrativa não for lida por ninguém, talvez, no momento da minha morte, eu teatralmente diga :- Cafundó, Rosebud de minha infância... E ninguém compreenderá; Somente a Virgem e eu.

Muitos lerão sim, Eliana, e ficará na memória pra sempre quando ouvirem esse nome: Cafundó.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A Cabeluda



      Na pequena cidade do interior de Minas, Helena caminhava sob o sol escaldante do meio-dia. As bochechas rosadas e a franja grudada na testa pelo suor causavam desconforto à adolescente faminta. Pelo caminho, nenhuma sombra para aliviar o calor, o mau humor era visível em seu rosto, e esperar carros passar para poder atravessar a rua era irritante, sem falar na mochila pesada que ficava dependurada nas costas. Todos os dias era isso, ir e voltar do colégio. Vida de estudante.

      Assim que dobrou a última esquina um zum zum zum em frente a sua casa fez com que Helena esquecesse o calor. Sua tia, que era sua vizinha, espalhafatosa gritava no meio da rua para quem quisesse ouvir. Sem entender nada, Helena só ouvia "aquela cabeluda... a cabeluda... vou acabar com aquela cabeluda...". Apressou os passos e ao entrar em sua casa se deparou com sua mãe atrás do portão, à espreita, ouvindo a cunhada aos berros. Já havia acontecido algumas vezes dessa cunhada causar estardalhaço na rua chamando a atenção de todo mundo.

      Helena, com os olhos arregalados e também acostumada com a situação, perguntou quem era a cabeluda. Sua mãe, com o dedo indicador em riste sobre a boca, puxou-a pelo braço e disse para não perguntar nada. Aflita, Helena obedeceu e entrou pela cozinha, onde um aroma de carne de panela a fez esquecer da tia maluca que gritava na rua.

      Depois de um tempo a mãe de Helena desistiu de ouvir o espetáculo e também se recolheu aos seus afazeres. Helena já rapava o prato e tinha um último pedaço de carne espetado no garfo, pronto a ser devorado, perguntou calmamente o que havia acontecido e finalmente quem era a cabeluda.

      No intervalo entre chegar em casa e devorar um pratão de comida, várias histórias se formaram em sua mente curiosa. Cabeluda seria, em sua imaginação, uma mulher com cabelos longos, despontados, escuros e que arrastavam ao chão e que não deixavam aparecer seu rosto. Talvez um fantasma que perambulava durante o dia, ou talvez uma assassina querendo acabar com a vida da tia, ou então um ser de outro planeta que era coberto por pelos.

      Sua mãe, com jeito e procurando as palavras que Helena poderia entender, disse que a tal cabeluda era uma mulher da vida que ficava dando em cima de seu tio, casado com a tia que gostava de um barraco para se fazer de vítima e chamar a atenção de todos.

      Helena, ainda sem ter uma nítida definição da cabeluda, pensou numa mulher que carregava correntes ou até algemas nas mãos, que capturava homens casados para domina-los e tirá-los de sua família. Ainda mastigando o último pedaço de carne, perguntou como era a cabeluda. Sua mãe disse que não sabia ao certo, pois havia visto a moça somente de costas e sabia apenas que tinha os cabelos longos, ondulados, brilhantes e negros. Quis saber o nome dela, mas essa informação sua mãe não tinha. Perguntou sobre seu tio e o que ele dizia disso tudo. A mãe apenas respondeu que ele não pronunciava palavra nenhuma. Que ficava mudo-calado e também muito abatido com essa situação. Inconformada, Helena continuou pensando em como a cabeluda foi encafifar justamente com seu tio, um homem feio que usava sempre uma calça dois números maiores que seu corpo, uma camisa que ficava com os dois últimos botões abertos devido ao tamanho exagerado da barriga e que quando ria podia ver a falha dos dentes de trás do lado esquerdo. Perguntou para sua mãe como sua tia conheceu essa moça. Olhando de lado, sua mãe preferiu terminar o assunto para evitar prováveis fofocas saindo de sua porta. "Deixa que eles resolvam o assunto, filha, vamos cuidar de nossa vida.", respondeu. "Ah, mas eu bem vi a senhora fuxicando atrás do portão, né?", disse rindo e já colocando o prato dentro da pia. Sua mãe riu e saiu de perto de Helena. Na verdade ela foi até o quarto rir mais sossegada, escondida da filha que, não demoraria, entenderia essas coisas de mulher atrás de homem casado.

      E assim Helena continuou a fantasiar sobre a tal cabeluda, e sua mãe, sempre desconversando sobre o assunto, esperava o momento certo da filha saber coisas de gente adulta. "Tudo tem seu tempo", pensava, suspirando e ajeitando as roupas passadas que estavam esperando ser colocadas no cabide. Roupas do marido, claro.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Maria do Socorro


      Passava da meia-noite quando Maria do Socorro foi tomar seu banho, tranquila. Queria lavar os cabelos, mas o cansaço era tanto que não teve paciência  para caprichar como deveria. Um punhado de shampoo, enxague, uma batida com o bico do condicionador na palma da mão para aproveitar até a última gota, uma massagem nas pontas, enxague e já estava bom. Entre um bocejo e uma esfregada da toalha pelo corpo, ela mais parecia um zumbi à procura de um lugar para deitar o corpo e dormir. Os cabelos ficariam molhados e já estariam condenados a se ajeitarem num coque na manhã seguinte. Mas antes de fechar os olhos uma última olhada nos dois filhos que dormiam no quarto ao lado. A paz tão procurada durante o dia se fazia presente neste exato momento quando olhava os filhos dormirem.

      Mateus, de três anos, e Adriana, a mocinha babá e companheira de Maria do Socorro. Uma preciosidade, um orgulho, um encanto gerado num momento de muito amor. O amor se foi, mas os frutos se fortificaram e enchiam o coração de Maria de orgulho.

      Deitou-se, fechou os olhos e logo o despertador gritava em seus ouvidos. Era essa a sensação que tinha, mesmo já tendo passado cinco horas de sono. Noite curta demais para caber tanto cansaço. Era um cansaço do corpo que tinha que suportar diariamente. Levantou-se e foi logo colocando as mãos nos cabelos cacheados, ajeitando-os antes do susto de se ver refletida no espelho. As olheiras estavam profundas, as bochechas cada vez mais caídas, parecendo um bulldog, rugas na testa quando franzida, pés de galinha que mais pareciam pés de peru, ou de perua, como gostava de falar, rindo de sua aparência. Olhando cada detalhe no rosto e tentando achar mais alguma prova de que o frescor da juventude estava cada vez mais longe, sorriu. Lavou o rosto, escovou os dentes demoradamente e começou a ajeitar os cachos rebeldes num coque no alto da cabeça. Puxou uns fios sobre cada orelha, enrolou-os no dedo tentando fazer um cacho fino e sorriu novamente. Lembrou-se de seu pai que sempre apertava seu coque que, desde a adolescência tinha o costume usá-lo, chamando-o de troço. Maria ficava brava e saía pisando forte enquanto seu pai gargalhava. Não gostava de ter seu cabelo comparado ao estrume de vaca. Chegava a cheirá-los para saber se estavam com fedor. Sorriu, passou um creme hidratante, pó para tapar pequenas imperfeições, lápis nos olhos e batom nude.

      A roupa já estava estirada numa poltrona vermelha, velha, e com o tecido desfiado no encosto, que era disfarçado com uma toalha de crochê, antiga, feita por sua avó. Não combinava, mas era melhor do que sair carregando a espuma que grudava em sua roupa quando se sentava nela. Vestiu-se e foi para a cozinha preparar o café. Apenas um café preto seria o necessário para aguentar até o meio da manhã, onde tinha tempo para se alimentar com calma um pequeno lanche oferecido pela empresa onde trabalhava. Entre uma golada e outra de café, ferveu o feite, fatiou o bolo de fubá e cobriu tudo com um pano de prato branquíssimo, pelas longas horas que ficava de molho em água sanitária, sem ornamento nenhum.

      Olhou no relógio e os ponteiros não colaboravam. Tinha que se apressar ou perderia a condução. Foi até o quarto das crianças, deu um beijo em cada uma e acordou a filha dizendo que já estava indo. Assim que o Sol reinasse absoluto no céu, Camila, a filha companheira se levantaria, aprontaria o irmão e o levaria até a creche. A mochila já estava pronta desde a noite anterior e seu uniforme estava passado e pendurado num cabide e apoiado no puxador do roupeiro. Depois seguiria para seu colégio, que ficava a algumas quadras de sua casa. Maria agradecia por ter escolas perto de sua casa. Se dizia com sorte, apesar da situação em que viviam.

      Assim que colocava os pés para fora de casa, Maria do Socorro fazia o nome do pai, abaixava a cabeça e conversava com Deus para que nada de ruim acontecesse com seus filhos. A lembrança de Bartô, seu marido, era inevitável e com isso não segurava as lágrimas que desciam rasgando seu rosto fazendo um caminho como se fosse uma estrada de chão, devido ao pó compacto. Um caminho duro e seco, assim como se tornou sua vida. Sentia falta do marido, de seus carinhos e principalmente de sua proteção. Deixou a família antes da hora, muito antes de Maria repetir incansáveis vezes o quanto o amava. Se lembrou da última frase que Bartô disse a ela, segundos antes da bala entrar pela janela e acertar em cheio seus miolos: "Tô com vontade de comer picanha, minha preta..." e caiu sobre a cama encharcando os lençóis de sangue ensanguentado. O cheiro quente e forte do sangue contrastava com a brisa que entrava pela mesma janela onde abrigou a bala assassina. A princípio Maria ficou paralisada...

      Até hoje Maria imagina Bartô entrando pela porta, sem fazer barulho, assustando-a e logo em seguida envolvendo-a nos seus braços.

      Maria do Socorro voltaria para casa só à noite, onde a rotina já estava programada: primeiro o filho, com abraços, beijos, carinhos, brincadeiras, conversas, e depois um tempo especial reservado para Camila, com ouvidos atentos a tudo que ela falaria. Uma rápida arrumação na casa, faria o jantar que também seria o almoço dos filhos, um bolo ou um pão caseiro, sovado pelos seus braços fortes e musculosos.

      E assim continuaria a vida, trabalhando, cuidando, amando os filhos e vivendo seu luto, que duraria por muitos anos, ela sabia muito bem disso.

      Texto publicado em 2014 - Editado


terça-feira, 23 de agosto de 2016

O Reflexo


      — Nossa, como tô horrível! Olha esse roxo aqui! — disse em voz baixa — Preciso parar com isso... Nunca gostei e cada dia piora mais...

      Paloma, logo em seguida, entrou debaixo do chuveiro e chorou. Sua pele branca denunciava um aperto mais forte, uma mordida inesperada, um tapa estalado na bunda... Nunca gostou de violência. Na verdade acreditava ser trauma, mas acabava cedendo aos caprichos de Eli. Amava-o tanto que se entregava aos seus apelos. Sexo selvagem. Ainda debaixo do chuveiro e com a água se misturando ao choro silencioso, pensava que já havia passado da hora de colocar um ponto final na relação conturbada. Já sofria por antecipação e não suportava mais se olhar no espelho e ver manchas roxas pelo corpo. Não entendia como não sentia dores durante a relação, pois sempre foi muito sensível ao toque, meiga e comportada, com vários planos em mente, incluindo um roteiro matrimonial de acordo com os bons costumes. Pecou em não se manter virgem, mas sabia que não conseguiria se unir a um homem que nunca tivesse tocado seu corpo.


      Disfarçou as partes escuras com maquiagem, caprichou em esconder as olheiras, vestiu o uniforme e seguiu para o trabalho. Vendedora de loja de departamentos, trabalho duro, ficava em pé o tempo todo. Uma das regras do estabelecimento era ser apresentável e manter o bom humor. Ela tirava de letra e faturava um gordo salário, motivo pelo qual optou por morar sozinha.


      Felizmente ninguém reparou em nada de estranho com Paloma. Muitas vezes temia que alguém pensasse que era agredida, e caso isso acontecesse, não saberia onde colocaria seus argumentos. Local onde há vários funcionários seria difícil evitar comentários maldosos. Sempre que possível se retirava para se olhar no espelho, retocando aqui e ali, disfarçando o arroxeado na pele.


      Retornando para casa, Eli a aguardava no saguão do prédio. Um abraço carinhoso, um beijo nos lábios, um cheiro e subiram. Paloma não estava preparada para romper, mas o trauma se fazia cada vez mais presente. Seria doloroso, mas era a atitude mais sensata a ser tomada.


      Eli deixou o apartamento nervoso, saiu cantando pneu e sumiu. Nunca mais tiveram contato.


      Paloma já não sofria tanto e aos poucos voltou com sua vida normal, trabalho, passeios com amigos e um curso de artesanato para preencher o pouco tempo ocioso. Optou pela argila. Modelar vasos de vários tamanhos, formas e cores, lambuzar as mãos e ver nascer um objeto que ornaria algum ambiente. Inicialmente presentearia os amigos, depois, quem sabe, arriscaria vendê-los. 


      Entre os alunos do curso um lhe chamava a atenção. Rodrigo. Um pouco mais baixo que ela, risonho, uma covinha no queixo, olhos amendoados e porte atlético. "Aposto que pratica artes marciais, só pode!", pensava. "Lindinho demais", concluía.


      O mesmo espanto que teve quando pensou em terminar com Eli, agora pensava em começar a se relacionar com Rodrigo. Ficou feliz em não sofrer por Eli. Nunca mais precisou esconder marcas roxas e nem olheiras, devido às noites intensas com Eli.


      Não demorou para marcarem encontro. Primeiro beijo, abraço aconchegante, carinhos intermináveis e tudo estava certo para Paloma, Rodrigo era o carinho em pessoa, tudo o que ela sempre quis.


      Primeira noite de amor... Simplesmente fechou os olhos e seguiu seus instintos. Se entregou aos seus carinhos e gostava do básico do básico; sentia conforto em seus braços, sem novidades, sem rapidez, tudo meigo e pausado. Vez ou outra pensava em Eli e em seu jeito intenso de amar. Depois olhava nos olhos amendoados de Rodrigo e sorria. Estava nos braços do homem mais carinhoso do mundo. Mas... Não conseguiu sentir prazer. Pela primeira vez fingiu. Porém ficou feliz; tudo seria uma questão de tempo, de se acostumar com o novo, cultivar o carinho e pegar para si toda a ternura que Rodrigo lhe entregava de bandeja.


      Alguns meses de namoro e já eram incontáveis as fingidas de prazer. Paloma não se sentia tão feliz e satisfeita como no começo, mesmo tendo imenso carinho e amor por Rodrigo, com todo aquele corpo perfeito e torneado, a boca macia e carinhosa, o toque aveludado de suas mãos, os suspiros longos em seu pescoço que provocavam arrepios intensos, tudo isso não era mais suficiente para estar sempre disposta ao sexo. Começava a inventar dores de cabeça e cansaço. Sentia tédio. Falta de inovar, de mudar, de inventar, falta de uma dor provocada, um tapa de leve na bunda, uma mordida no lábio inferior ou então no bico do seio, uma violenciazinha inocente, um puxão de cabeço... Por fim não tinha mais paciência com tanta calmaria sexual.


      Paloma se assustou com seus pensamentos que estavam guardados no passado. Suspirou, fechou os olhos e imaginou Eli caminhando em sua direção, tirando a camisa e abrindo o zíper da calça. O volume intenso fazia ela se arrepiar... Chegava bem a sua frente e puxava seu cabeço pela nuca. Consequentemente fechava os olhos e abria a boca esperando o beijo intenso, molhado e quente. Deitava sobre ela sem se importar com o peso de seu corpo que era bem maior que o dela, mordia o pescoço e arrastava os lábios, arranhando com os dentes, até chegar à boca...


      Paloma abriu os olhos e deu um tapa em seu rosto. Se assustou por estar completamente úmida. Eli... Só ele conhecia seu corpo e suas vontades.


      Na última noite com Rodrigo, por impulso, deu-lhe um tapa no rosto. Ele se assustou, segurou seu punho e encarou-a com estranheza. 


      — O que é isso, amor, tá maluca? Odeio violência, você sabe disso, não sabe? — delicadamente repreendeu Paloma.


      Ela, aproveitando a oportunidade, pôs fim à relação. Respirou aliviada, sem sofrimento. 


      O tempo passou, Paloma tinha Eli em seus pensamentos praticamente todos os dias, noites com insônia e falta do corpo dele sobre o seu. Mas não tinha coragem de ligar, perguntar como estava, ou então ouvir a voz dele e desligar. Será que seu número ainda fazia parte de seus contatos? Se não, poderia desligar sem problemas. Paloma nunca foi tímida, mas estava receosa em procurar Eli. Não sabia como ele reagiria.. 


      — Alô?


      — Oi...


      — Paloma! 


      — Quando você me chama pelo nome boa coisa não é... Tudo bem?


      — Olha, estou um pouco ocupado, depois a gente se fala, pode ser?


      — Claro!


      O chão se abriu sob os pés de Paloma. Um longo suspiro e uma lágrima já descia pelo seu rosto. Sentiu vergonha e arrependimento. Não deveria ter ligado. Sabia onde ele trabalhava, deveria ter provocado um encontro por acaso por lá, na rua. Agora era tarde e já estava feito. Procurar por homem, pelo ex, nunca foi boa ideia para ninguém.


      Voltou a sua rotina, sem procurar pensar em homem nenhum.


      — Alô, amor...


      — Eli... amor...


      — Estou aqui em baixo, abre a porta pra mim que quero subir, agora!


      Trêmula, Paloma andou de um lado a outro, procurando algo decente para vestir, se olhou no espelho ajeitando os cabelos, enfim, tudo seria inútil naquele momento, pois ficaria nua, fecharia os olhos e se entregaria a Eli, como sempre fez.


      E esse foi o dia batizado por ela por "O dia roxo", onde assumiu seu prazer em sentir dor, em provocar também, em não se importar com marcas pelo corpo, nem precisar se desculpar caso alguém a questionasse, enfim, o recomeço mais colorido de sua vida.



segunda-feira, 25 de julho de 2016

O Triste Fim de Donana


      Uma última colherada de sopa na boca de Seu Romero, uma limpada no canto da boca com um guardanapo de papel e pronto, o moribundo já estava alimentado e pronto para dormir o sono dos justos.

      Donana ficava resmungando o tempo todo, dizendo frases feitas, como se quisesse gravá-las na memória para repeti-las no dia seguinte, vírgula por vírgula. Outras vezes parecia conversar com alguém invisível, perguntando e respondendo logo em seguida, outras parecia Deus a lhe ouvir, atencioso, e era nesse momento que as lamentações se aguçavam. Parecia questioná-Lo por tanto sofrimento e um fim de vida tão sofrido, tendo que carregar nas costas o marido puteiro. Mesmo assim cuidava de Seu Romero com um carinho embutido.

      Depois de cobri-lo, apagar as luzes e deixar a porta entreaberta, Donana se dirigia à cozinha para seus últimos afazeres. Ainda resmungando, balançava a cabeça de um lado para o outro, como se lembrasse de fatos não muito distantes e que a fizeram sofrer demasiado. Apoiava as mãos na pia, abaixava a cabeça e simulava um choro. Não saíam lágrimas, mas a ladainha constante e o zunido balbuciado, denunciavam que ainda havia amor e que ela sabia que sua missão, até os últimos dias, seria de cuidar do marido.

      Seu Romero mal se equilibrava em pé. Donana colocava ele apoiado no andador e ficava por perto ajudando-o a caminhar pela varanda, para pegar o ar da manhã e o sol bem fraquinho, tomando cuidado para não queimar-lhe a careca reluzente.

      Ele olhava-a com piedade e gratidão, mas não pronunciava sequer um "obrigado". Tinha vergonha de estar como estava e do trabalho que estava dando a Donana. Era a mulher escolhida, a rainha de seu lar, a mãe de seus filhos, a avó mais carinhosa do mundo e dotada de um coração imenso, incapaz de calcular quantas pessoas cabiam dentro dele. Era agradecido, mas preferia o silêncio a se sentir humilhado reconhecendo a preciosidade que o acompanhou durante uma vida inteira.

      Sabia que seu fim estava próximo, e o máximo que lhe permitia fazer era ficar em silêncio. Donana lhe perguntava coisas, se estava com fome, com frio, cansado, com sede ou se queria assistir à TV. Ele respondia meneando a cabeça e mais nada. Não conseguia mais encarar Donana. Era mulher demais para ele que se sentia tão inútil nesse fim da vida.

      Donana reclamava muito, lamentava, mas no fundo se sentia orgulhosa por ter que cuidar do marido até os últimos momentos. Era puteiro, cafajeste e não escondia de ninguém suas puladas de cerca. Se vangloriava de ser um conquistador nato, um colecionador de corpos estranhos, um Don Juan perdido nesse mundo de meu Deus.

      Mais um dia de cuidados, menos um dia para Seu Romero. Mais um dia de lamentações e menos um dia para lembrar das travessuras vividas fora do casamento. Donana dormia em paz, Seu Romero custava a pegar no sono e chorava em silêncio. Seu fim estava próximo, poderia ser hoje ou semana que vem. As carnes de seu corpo já anunciavam falta de mobilidade e falência. Desejava morrer dormindo. Só não se esquecia de beber bastante água antes de fechar os olhos. Para ele deveria ser muito triste morrer de sede. Morrer de fome não teria problemas, mas morrer de sede seria o inferno.

      O dia clareou, Donana no fogão preparando o café da manhã, mas antes disso uma olhada em seu marido, que dormia feito uma criança, com respiração profunda e olhos entreabertos mexendo as pupilas de um lado e de outro. Corpo deitado de lado, encurvado e com a mão debaixo do travesseiro. Como um anjo esperando sua hora de partir.

      Donana respirou fundo e seguiu a lida, até quando Deus quisesse.

sábado, 18 de junho de 2016

Letra de Livro


      Anos 70...      

      O cachorro latia insistentemente fazendo com que Dona Aurora se irritasse e o mandasse ir deitar. Figo chorava, abanava o rabo fazendo com que seu corpo envergasse lateralmente. Dona Aurora olhou pelo vitrô da cozinha e entendeu o motivo: Véio chegando com um embrulho nas mãos. Não era um embrulho, mas uma maleta verde que ela não tinha ideia do que seria.

      Véio, como era carinhosamente chamado por todos, devido a precocidade de seus cabelos brancos, desde os dezesseis anos, assoviava subindo o degrau que separava a calçada do portão de ferro, enferrujado pelo tempo, que garantia a segurança e privacidade de sua casa. Ao abri-lo, um ranger incomodava quem estava por perto. Garantia que afugentava os homens de pouco caráter, pensava ele todas as vezes em que entrava ou saía de casa. Já estavam acostumados com o ranger, mas os vizinhos ainda ficavam incomodados. Quem passava em frente a sua casa não entendia o mistério do portão denunciador, pois o restante do muro era baixo, sendo de fácil acesso a quem tivesse destreza suficiente para pulá-lo. Mas, além do portão, havia Figo, seu leal companheiro, aos doze anos com cara e jovialidade de um adolescente. Seu pelo, quando exposto ao sol, ficava esverdeado, bonito, brilhoso, por isso o nome Figo. Figo da fruta, que faz o doce mais suculento já feito por Dona Aurora. Ficava tão verde que dava dó de comer sem lamentar estragar a perfeição da bolinha em foma de pião. Mas essa é uma outra história. Lembram do pião de madeira que os meninos enrolavam uma corda e lançavam ao chão?

      Dona Aurora, enxugando as mãos no avental surrado, ficou na porta esperando Seu Véio todo pimpão chegando com sua maleta misteriosa. 

      Todo orgulhoso destravou o fecho, abriu calmamente, riu e perguntou para sua mulher se sabia o que era aquilo. 

      — "Não, quéisso, Véio?" — perguntou curiosa.

      — "Isso é uma máquina que faz letra de livro, muié, espia só!" — sorriu, abrindo os braços mostrando a maravilha de aparelho que acabara de comprar.

      Dona Aurora não entendeu nada, apenas olhou na cara dele e voltou à lida da casa. 

      Seu Véio sentou-se, ficou admirando a bichinha, depois levantou-se e pegou um pedaço de papel, desses de enrolar pão. Tentou enfiar pelo rolo da máquina, mas não fazia ideia de como ela ficaria retinha lá dentro. Olhava de um lado, do outro, descobriu as rodelas laterais que faziam girar o rolo e deduziu que se introduzisse o papel de um lado, logicamente saía do outro lado. E fez! Ficou todo torto, mas conseguiu. Só não atinou que havia um "prendedor" para a folha ficar esticadinha, bastava puxá-lo para a frente, ajeitar o papel e depois soltá-lo. Com sacrifício, enfiou a folha sem afastar o "prendedor", com muita dificuldade, mas acabou conseguindo. Sorriu e se achou o maioral dos maiorais, pelo menos entre seus amigos era considerado o mais inteligente e culto. 

      Lembrou-se das instruções da moça da loja, em apertar as teclas com força, para que carimbassem no papel. A primeira seria A, em homenagem à Aurora, sua deusa para todos os momentos, tanto alegres quanto tristes. Não tinha muita paciência com ele, mas pelo menos não ficava criticando ou chamando sua atenção. 

      Depois veio a letra U. Depois R e assim por diante, até escrever Aurora em letra de livro, como havia prometido a moça da loja.

      — Corre aqui, veia, vem ver!

      Dona Aurora chegou por trás de Véio e leu seu nome, todo retinho, bonitinho e com letra de livro.

      — Gente, coméisso, Véio, cê endoidou, foi?

      Seu Véio ficou o resto da tarde fuçando na máquina de datilografia. Vez ou outra cantarolava uma moda de viola que saía do radinho de pilha que tinha lugar cativo sobre a geladeira. Dava uma sacudida nos ombros e depois voltava a acariciar sua preciosidade. Correu para pegar a Bíblia e copiar alguma frase. A folha não estava mais em branco e nem retinha na máquina, mas as letras de livro estavam todas em carreirinha, ornadas uma do lado da outra, algumas sem espaço entre elas e outras totalmente ilegíveis, como se Seu Véio fizesse um teste com as letras não utilizadas naquele momento. Depois os números, em ordem crescente e depois decrescente. E finalmente descobriu como escrever em letras grandes, maiúsculas e fáceis de enxergar. Soltou um grito de satisfação, levantou-se, puxou Dona Aurora pelo braço, segurou sua cintura e começou a rodopiar com ela, aproveitando a carona do forró que tocava solto na rádio.

      Dona Aurosa ria que dava gosto. Era feliz com seu veio assim, de graça, sem fazer esforço. Primeiro namorado e único homem de sua vida, Para sempre, obedecendo o sacramento matrimonial que há quarenta anos uniu esse homem descabeçado, avoado, curioso e doce. Simplesmente o amor de sua vida.

                                                                                                                                                           Fim

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Dona Assunta


Ao primeiro raio de sol que entrava pelo vão entre a janela e a parede, o aroma de café já se fazia presente na casa de Dona Assunta.

Mulher trabalhadora, forte, porém esquelética. Braços finos e dedos longos, pernas que pareciam dois cambitos, rosto que definia o contorno da cabeira, olhos fundos e sorriso contido. Na juventude era meiga e doce, mas a vida tornou-a seca e de coração duro, mas a meiguice às vezes desabrochava nos gestos suaves quando Dona Assunta tomava conta da cozinha.

Tinha os cabelos esbranquiçados, ralos e compridos até um pouco abaixo dos ombros. Quando falava, a parte inferior da boca murchava e a superior tentava equilibrar a dentadura antiga, com os dentes bem gastos e a gengiva rosada. Ela ria e os dentes se pronunciavam para fora, quase que completamente. Quando estava em casa os cabelos eram sempre ajeitados num coque baixo, preso por grampos longos que ficavam aparentes como se fosse palitos negros que contrastavam com o branco acinzentado dos cabelos. Tanto Dona Assunta quanto Seo Lão eram esguios, retos, parecendo cabides ambulantes. Seo Lão usava um chapéu de palha encardido de vermelho e só o tirava quando entrava dentro de algum comodo.

Dois cômodos construídos no fundo de um grande terreno, junto com mais algumas casas tão simples quanto. Apenas de tijolo, rebocada com barro amassado manualmente e encaixado grosseiramente para impermeabilizar o frio ou o calor, ou evitar a entrada de algum bicho pequeno em algum buraco esquecido na parede. As madeiras de sustentação já não davam a segurança para mais alguns bons anos que virão, devido aos cupins que andavam tranquilamente sem se importarem com um provável veneno lançado para exterminá-los para sempre. Andavam e se escondiam nos buraquinhos minúsculos. No chão, que não ornamentava nenhum tipo de piso resistente, a cor amarronzada predominava, mas o chão batido e liso não tornava o ambiente empoeirado. Era bem cuidado e até permitido caminhar sem os chinelos gastos no calcanhar e no dedão. Simples, azul claro nas solas e tiras e branco onde acomodava o pé. Além dos chinelos, apenas um par de botinas com meia sola descolando, engraxadas num negro reluzente. O contorno dos pés era visível e somente eram usadas quando ia fazer alguma visita ou então aos domingos, para ir à missa.

As janelas de madeira eram trancadas com uma tramela e nas portas, o colorido da chita florida em azul, vermelho e amarelo, quebravam a cor da terra predominante no ambiente e separavam os cômodos. Apenas quarto e cozinha.

No quarto, debaixo da janela, a cama em madeira envelhecida, colchão de molas com um vão em cada lado, pelo seu uso ininterrupto. Tudo se emoldurava com o casal, como se os objetos tivessem vida e obedecessem ao corpo de cada um, sem teimosia em querer espetar e correr o risco de furar a pele frágil e craquelada. Um roupeiro sem as portas e mais uma poltrona velha e esburacada compunham a mobília do quarto. Numa das paredes uma única foto, emoldurada de madeira, que também se decompunha pelos cupins, carimbava o casal, sereno e sem os traços enrugados definidos.

Na cozinha um fogão à lenha bem rústico e pequeno, encerado em vermelhão e muito tem lustrado, que fora feito pelo esposo, que era magro e ossudo como Dona Assunta. Eram tão magros que davam a impressão de não terem carnes pelo corpo, apenas os ossos e a pele enrugada. Passavam dos setenta e aparentavam noventa anos. Trabalhadores da roça, tiveram ajuda de uma sobrinha de uma vizinha de terreno, para se aposentarem com um salário mínimo. Sentiam-se privilegiados com a pequena fortuna mensal e agradeciam ao acordar e ao deitarem-se, a Deus, por ainda estarem vivos e com saúde.

Não tinham muitos móveis, somente uma mesa pequena e cinco cadeiras, onde uma delas ficava de enfeite, por não ter uma das pernas. Deixava-a encostada na parede e a mesa a escondê-la, para evitar algum acidente de algum desavisado "cair de maduro" no chão, como dizia rindo Dona Assunta. Meia dúzia de caixotes de madeira empilhados fingiam ser o armário. Duas panelas, quatro pratos e alguns talheres. Na parte de cima um jogo de pratos rasos e fundos, com um filete dourado eram intocáveis. Dona Assunta ganhara de uma ex patroa, na época em que trabalhava na roça. Era sua preciosidade, seu enfeite nobre, sem uso. O orgulho de poder mostrar que tinha algo de valor. Na verdade não sabia o valor, mas sabia que um dia em sua vida ganhara um presente lindo e o levaria intacto até seu último dia de vida. Na parte de baixo, um jarro de plástico cor-de-laranja e vários copos também de plástico, cada um de uma cor. Alguns acusavam mordidas nas bordas, lembrança de seus filhos, quando ainda eram pequenos, também guardados junto com as boas recordações.

Depois de tomar o café forte em uma caneca de alumínio pintada em esmalte branco, Seo Lão ficava um bom tempo, ainda sob os primeiros raios do sol, sentado num toco que servia de banqueta, estrategicamente colocado na sombra da pequena varanda defronte à casa. Colocava a caneca no parapeito da janela, pegava uma palha seca, o canivete que tinha o cinturão como moradia e descascava calmamente o fumo de rolo. Depois ajeitava os fiapos, passava a língua em um dos lados da palha e calmamente fechava o pito. Ia até o fogão, abaixava a cabeça com o pito na boca encostando-o na brasa fumegante, chupando até sair as primeiras baforadas. Chupava longamente, engolia a fumaça e depois soltava pelas narinas. Era um momento de profundo prazer para Seo Lão. Melhor que pitar um cigarro de palha era tomar uma pinga diariamente ao final da tarde, e às sextas feiras, três ou quatro para fechar a semana. Depois voltava para casa, lavava os pés e se deitava ao lado de Dona Assunta para repousar a carcaça cansada.
Dona Assunta gostava de ir à feira bem no finalzinho da manhã para pegar algum legume abandonado na sarjeta, nada que uma água limpa e uma boa esfregada com as mãos, não os transformassem numa sopa suculenta. Apesar da aposentadora, Dona Assunta gostava de guardar um pouco, dentro de casa mesmo, muito bem escondido, para um eventual contratempo. Desde que nasceram aprenderam a sobreviver com o pouco, com o mínimo e até com o nada. A abundância e o desperdício não faziam parte da vida deles. Vez ou outra compravam pão fresco na padaria, mas preferiam o pão "dormido", por ser mais barato. Colocava-o em uma panela, alguns minutos na quentura do fogão e pronto, o pão ficava com cara de novo e muito saboroso.

Não tinham assunto um com o outro, não se olhavam, não riam, não iam juntos aos lugares, mas pelo olhar de soslaio era visível perceber o carinho, o cuidado e o amor entre eles.

Tiveram dois filhos, que faleceram há vinte anos, afogados num lago onde foram pescar com outros dois rapazes. A dor não passou, a tristeza nunca mais saiu de seus olhos, o choro secou e a vida tornou-se infinitamente insuportável. Mesmo assim agradeciam pelos poucos prazerem que lhes restavam. Houve um tempo em que não comiam e nem dormiam, queriam morrer de desgosto e tristeza, mas Deus não permitiu, como eles descreviam para quem não sabe de sua história. Então se Deus não tirou eles da vida, agradeciam por cada sol nascido e por cada lua que iluminava a varanda da pequena casa. Estava bom como viviam e viveriam até o último dia sem reclamar de nada. "Deus sabe das coisas", repetiam quando a tristeza aparecia. O olhar longínquo de Seo Lão na verdade ainda procurava uma explicação para tamanha dor que o tempo não curou. Dona Assunta se entretinha com o fogão vermelho reluzente, seu xodó, com sopas, arroz, feijão e vez ou outra, uma linguiça fininha tilintava na panela.

Os parentes estavam todos longe, na roça, que perderam contato fazia tempo. Os vizinhos eram gente boa, mas não se misturavam com ninguém. Todos muito pobres e sofridos, mas não tanto como Seo Lão e Dona Assunta. Os filhos deles sempre estavam por perto para acudi-los em alguma necessidade.

Não comentavam um com o outro, mas nos agradecimentos a Deus pediam para morrer primeiro, ou então um em seguida do outro, para não terem que ficar sozinhos no mundo. E o dinheiro guardado com cuidado, num esconderijo inimaginável, que quem o encontrasse fizesse por merecer. Esse era o único pedido deles. O mesmo pedido feito separadamente, sem um saber do outro.

E assim viviam, Seo Lão com a alegria de uma caneca de café e um pito de palha e uma pinguinha, um fogão brilhante e vermelho, da cor do fogo, que esquentava o coração e a alma de Dona Assunta.

Até quando Deus quiser.

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