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domingo, 12 de dezembro de 2021

Podemos parar por aqui!

 


Li na internet, numa página de depoimentos, relatos de crianças que foram abusadas por quem deveria cuidar e proteger.

Isso é recente, as crianças são jovens nos dias de hoje e carregam muita culpa por terem passado por essa situação.

Isso ainda acontece, infelizmente.

E ainda acontecem comentários criticando "mas porque falar só agora e não quando aconteceu?"

Será que uma criança ou uma adolescente tem maturidade suficiente para concluir que um adulto, que deveria proteger, faria ela pensar que é assim mesmo e que seria segredo e teria que ser guardado a sete chaves? Ainda por cima ser ameaçada?

Mães completamente despreparadas e também cheias de traumas, lutando pra sobreviver e dependente de um provedor, como lidar com uma situação dessa?

Acho que não cabe julgar.

E o homem criado como durão, machão, pegador, que vive repetindo que mulher nervosa precisa de um ***u... E filhos desses homens ouvindo essa repetição e, claro, tomando como exemplo de bravura por ser homem...

Se formos perguntar pra todas a mulheres, e homens também, claro, se sofreram abuso e até estu**** na infância e adolescência, a maioria irá confirmar.

Estamos em plena Revolução Digital e o acesso a tudo está pra todos. E os relatos sofridos de mães, pais, filhos também estão à disposição pra quem quiser ler.

Não cabe julgar ninguém, pois existe uma história por trás de cada um.

Cabe cuidar das crianças desde o nascimento, e acompanhar sua evolução até quando for possível, cabe cuidar dos meninos e educá-los no respeito a si e aos outros.

Cabe espalhar pela internet que abuso não é normal e não deve ser aceitável, que pode denunciar, gritar e enfrentar quem quer que seja pra preservar sua integridade.

É um conjunto de atitudes que devemos ter, principalmente acolher, de um jeito ou de outro, quem está vulnerável ainda. E acredite, são muitos vulneráveis ainda.

É triste ler os depoimentos e pior ainda ler os comentários de mulheres criticando mulheres, por elas terem permitido, independente da idade, julgam por não terem contado pras mães... Elas contaram, e foram julgadas como mentirosas pelas próprias mães...

Há uma inversão de valores onde quem é vítima é o culpado e o outro, aproveitador, abusador, malandro ou seja lá o que for, é o esperto, o inocente, nem é citado numa conversa dessa. É triste.

Meus queridos que estão lendo e se identificando, saibam que a culpa não é de vocês. Quem prejudica, abusa, toca, agride é sempre o culpado, sempre.

A consequência na vida adulta é se tornar uma pessoa insegura, medrosa, de não saber lidar ou viver um relacionamento amoroso, não sentir prazer, sem falar que os pensamentos daqueles momentos sempre estarão por perto. Além de atrair pra si pessoas abusivas ou em relacionamento amoroso ou amigos, trabalho, de um jeito ou de outro, essa atração continuará até que seja tratada. Um verdadeiro desastre na vida.

Somente muito amor e compaixão pra amenizar esse tipo de trauma, que muitas vezes são ocultados, por vergonha, medo, insegurança...


Clara Lúcia


Quer saber como vive e sente uma pessoa que está num relacionamento abusivo? Será que você está num relacionamento assim e nem sabe?

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quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Farol

 

   
      Ele me achou... E eu fugia por uma estrada comprida, levantando as saias de meu vestido que, vez ou outra, me faziam cair na terra úmida por causa da chuva da manhã, cobrindo meus joelhos com lama. Rapidamente me levantava e continuava correndo. Olhava para trás e ele continuava a me perseguir, quase me alcançando.

      O vento frio de outono cortava meu rosto e jogava meus longos cabelos cacheados para trás, esvoaçantes balançavam em harmonia e tapavam meu rosto quando eu virava para trás para espiar a distância que eu estava dele... Corria, como se minha salvação dependesse da velocidade dos meus pés e da força de minhas pernas. Já estava escurecendo e minha angústia aumentava a cada passo em falso que dava e tropeçava em alguma pedra solta pela estrada. Não tinha para onde me esconder. De um lado da estrada um abismo com o mar azul escuro aumentando a maré e batendo nas pedras espalhando espuma branca por toda a orla. Do outro lado uma floresta fechada, um labirinto arriscado e misterioso, digamos ser medonho pelos barulhos estranhos que ecoavam a noite toda, chegando até o pequeno vilarejo.

     Mathias, um vilarejo novo, habitado por pescadores e homens das florestas, como assim eram chamados pelos viajantes comerciantes que apareciam por lá. Havia apenas uma rua principal e as casas, todas simples e rústicas, feitas de pedras e forradas com troncos cortados de árvores, unidos harmoniosamente um ao lado do outro, com acabamento de uma cola artesanal que impedia as goteiras e ao mesmo tempo, proporcionava um frescor no interior das casas. A única moradia mais bem-feita e ornamentada era do chefe-guardião, que tudo via, tudo sabia e era obedecido por todos. Era o deus de todos. Tinha o poder de ler os pensamentos, descobrir ovelhas desgarradas, apontar para algum malfeitor, julgá-lo e condená-lo em questão de segundos. O respeito que todos tinham por ele era, na verdade, o medo de descobrirem alguma teimosia ou algum descuido no trato com os animais. Estes eram sagrados. Era um homem alto, com mais de dois metros de altura, forte, cara amarrada, grotesco, de poucas palavras e muitas ações. A ordem no vilarejo era invejada por muitas cidades maiores ao redor, mas quando se tratava de Nêumo, o chefe-guardião, preferiam ficar longe de sua vidência.
   
     O homem me perseguia, eu gritava, mas a voz embargava. Comecei a ficar ofegante e meus passos diminuíram. O homem me alcançou, puxou-me pelos cabelos fazendo com que meu corpo encurvasse para trás. Olhou bem nos meus olhos e sorriu com sarcasmo. Eu cuspia em seu rosto e apertava seus olhos com os polegares e mesmo assim e ele me beijava a boca. Nojo! Limpei meus lábios com o braço, esfregando várias vezes, tentando tirar o gosto de álcool com hálito quente daquela boca carnuda e asquerosa.

      Ele me puxava pelos cabelos arrastando-me pela estrada até chegar num atalho que seguia direto para o farol, que ficava à beira do mar. Este estava bem agitado.

      Naquela época, mais precisamente em 1832, as jovens eram sacrificadas quando não queriam se casar com os homens que as escolhiam. Se revoltavam, se rebelavam, mas de nada adiantava. Acabavam mortas, ou enforcadas, ou lançadas num penhasco que tinha o mar como chão. 

      Era para esse lugar que o homem forte, bonito, mas nojento, vestindo roupas mal cheirosas, cabelos pretos e longos, barbudo e um nariz comprido e pontiagudo que parecia o bico de um papagaio, me levava.

      Me segurava pela cintura com um dos braços, me apoiando em seu corpo fazendo como o que meu pendesse e anulasse qualquer possibilidade dele receber um golpe meu, proporcionando-me liberdade. Eu gritava, mas minha voz continuava embargada; então ele repetia várias vezes, mas sem precisar gritar, para eu ficar quieta. Eu me debatia, tentando me livrar de seus braços, mas a força do homem era infinitamente maior que a minha.

      Ainda me segurando pela cintura subimos a escada em forma de caracol e chegamos ao topo do farol. Grandes janelas nos mostravam o céu com algumas estrelas e alguns raios de sol do outro lado. O mar batia nas pedras e fazia um barulho que penetrava em minha mente, como se me esperasse para o derradeiro mergulho em suas águas geladas e profundas. Sussurrava e lançava gotas até chegarem à janela que me aguardava ansiosa por minha queda. Um vento gelado uivava competindo com o barulho das ondas, entrava pelas janelas e esvoaçava nossos cabelos, quase que entrelaçando-os, num balé de quase fim de ato.

      O homem me levou até uma janela que ficava do lado mais fundo do mar, segurou meu rosto e me mostrou a linda paisagem. Cochichou alguma coisa no meu ouvido, mas que não conseguia
entender, com sua enorme mão me segurando o queixo, virou bruscamente meu  rosto de frente para o seu e mais uma vez me beijou fortemente. Mordi seu lábio inferior que sangrou, então ele se afastou e me deu um tapa no rosto, ainda me segurando firme pela cintura, com seus longos braços entrelaçados. Eu me debatia, mas estava praticamente imóvel e exausta. Ele começou a me xingar, mas eu não conseguia entender nada do que ele dizia. Sabia que estava xingando pela expressão de ódio em seus olhos. Mais uma vez ele segurando  meu rosto, mostrou-me a paisagem que seria a última visão que eu teria. Eu tentava gritar e não conseguia.

      Num movimento rápido, ele me ergueu  e apoiou-me no parapeito da janela. Olhei para baixo e senti vertigem. Gritava, mas era inútil. Mais uma vez ele cochichou algo no meu ouvido e me empurrou para o abismo.

      Neste momento, gritei tão alto que minha voz ecoou. Segundo a segundo eu via aquele homem se distanciando de meus olhos enquanto eu caía. Um frio tomou conta de meu corpo, meus cabelos longos taparam meu rosto antes mesmo de meu corpo tocar o mar agitado. Parecia que a queda não teria fim. Sentia falta de ar, como se minhas narinas estivessem fechadas e meu grito abafado tivesse cortado minha garganta impedindo a saída do ar. Fui caindo e desfalecendo. O barulho do mar era cada vez mais forte, mas já não me importava com a morte. Queria a morte de uma vez por todas. Praticamente já sentia as gotas do mar respingando meu corpo. Abri os braços e me entreguei! Por uma última olhada, de relance vi, na outra janela do farol, Nêumo, com seu olhar frio e calculista. Entendi tudo.

     A Lei cumpriu seu destino. Mais uma desobediente a ser esquecida no vilarejo Mathias. Quanto à força de um homem, um olhar instigante e tudo se acaba. O fim foi consentido e determinado.

     Caia no mar agitado e não fazia questão de sobreviver, nem se houvesse um milagre.




     Clara Lúcia

     

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Picuinhas De Casal


Alguns e-mails que recebo sobre relacionamentos abusivos, nem sempre são abusivos. Às vezes as pessoas são complicadas, difíceis e não conseguem enxergar o outro como uma outra pessoa, um outro universo, um outro ser independente e pensante.
A maior dificuldade é essa mesma, de se colocar no lugar do outro, entender o que se passa com o outro, saber o que pensa, o que gosta, como age, como quer viver, como quer compartilhar. Em vez disso instala-se uma enxurrada de acusações e cobranças, muitas vezes infundadas.
O que eu percebo é a falta de comunicação, como sempre.
A mulher gosta de falar, gesticular, discutir (nem todas), e o homem foge de discutir alguma coisa (nem todos). Ou seja, há quem goste de discutir e há quem não goste de discutir nada, independente quem seja.
Conviver com outro ser humano é muito complicado.
Aí pode aparecer alguém e dizer: "Ah, mas você nem é casada, como pode dar palpite e saber se é assim ou assado?".
Eu fui casada, sei como é difícil, e a questão nem é sobre casamento, mas sobre o ser humano e sua individualidade.
Quantas vezes você chegou pra a pessoa que vive com você e perguntou se ela estava bem, se queria que fizesse de uma outra maneira, se estava confortável assim, se gostaria de alguma ajuda, enfim?
E quantas vezes você reclamou pra a pessoa, essa mesma que vive com você, que não aguenta mais, que só você faz as coisas, que não há colaboração de nada, ou então que só sabe reclamar e não tem a dignidade em ajudar ou tomar a iniciativa de nada?
Fatos corriqueiros em todo casamento.
O que falta é o diálogo E a aceitação do outro como sendo diferente de você.
Há os costumes que carregamos de casa, do seio da família, de pai, mãe, avós, irmãos e afins. E esses costumes estão entranhados em nós e definimos eles como se fossem a verdade absoluta a ser seguida. Essa atitude é inconsciente. E não é errado seguir regras e costumes que aprendemos dos pais. Errado é pensar e querer que nossos costumes se prevaleçam sobre os costumes da pessoa que vive com a gente.
Talvez o motivo de hoje em dia haver tanta separação, sem ao menos tentar superar os problemas é esse, não ter a tolerância em seguir os costumes impostos pelo(a) parceiro. Hoje a maioria é independente financeiramente, o que faz pensar que não é necessário passar por situações de incômodo com a outra pessoa, se se pode viver sozinho ou então ir procurando, procurando, até encontrar alguém que se encaixe em nossa vida como queremos que ela seja.
Isso também não é errado, isso é liberdade, é livre arbítrio.
O erro é não tentar entrar em um acordo, aceitar o outro como ele é, sem querer moldá-lo ao seu jeito, e também se encaixar na vida do outro, aprendendo a viver de uma maneira diferente da sua, mas que seja tão boa quanto.
Quando há o conflito, o que se imaginou na preparação para o casamento, acaba pouco tempo depois. Por falta de diálogo, a vida se torna um inferno! E conversas não existirão, nem acordos, nem respeito, nem vida individual.
Vocês acreditam mesmo que quando há o casamento os dois se tornam uma só pessoa? E a individualidade fica aonde? Talvez fique com um soberano reinando e o outro apenas se calando e aceitando tudo que lhe é imposto. Aí sim, apenas um vive, o outro se conforma com o que tem e passa a viver uma vida que não é sua.
Um exemplo bem clássico, mas que existe: a mulher, em vez de falar claramente o que lhe incomoda, prefere comentar sobre a relação com as amigas, a mãe, a tia... E como mulher é um ser pensante e que tem várias terminações nervosas no cérebro, embaralha tudo e chega a sua própria conclusão de que está certa e que o homem que ela escolheu não deveria agir de tal maneira. Isso sem que ele saiba o que se passa na cabeça linda dela. E ela começa a investigar, fuxicar, cheirar, perseguir, e transformar a vida dele, e dela também, claro, num inferno.
Com isso, o que o homem faz? Vai se afastando, aquele carinho que sentia quando namoravam vai se acabando, não há o entusiasmo de antes, não entende porque ela mudou tanto da noite pro dia, não quer conversar sobre o assunto pra não piorar... E os dias vão passando.
E a mulher, pressentindo o homem distante, sem aquele interesse que antes sentia por ela, fica mais encabulada e o acusa de ter mudado tanto do dia pra noite.
E a vida continua aquele inferno, cada um pro seu lado, sem conversa, sem carinho, sem sexo, apenas fazendo as vezes do casamento perfeito e esperando só uma oportunidade pra jogar tudo pro alto e se separarem.
Outra situação: o homem percebe que a mulher está se dando bem, está evoluindo no trabalho, anda bem arrumada, tem amigos, tem vida própria, e começa a perseguição, o ciúme infundado. Confisca celular, quer senha disso, daquilo, proíbe de usar certas roupas, afinal agora ela é casada e tem que se dar o respeito, não quer saber de amigas por perto, enfim...
Então nessa situação, a mulher, em vez de conversar, prefere contar com a ajuda da amiga, aquela que tudo entende e que sabe como ninguém dar conselhos. Ela volta diferente pra casa, cada vez mais. O homem continua com cenas de ciúme, não elogia mais, não colabora com a casa nem com nada, vive de mau humor... Então ele prefere sair e beber com os amigos, desabafar, esquecer um pouco, ou seja, ele se proporciona sair e espairecer com os amigos, mas a mulher dele, por ser casada, tem que se dar o respeito e ficar confiscada em casa.
E a vida vai se tornando um inferno.
Não há o diálogo, não há a paciência e a admiração acaba. O homem não consegue entender nada, e a mulher, que pensa muito, não consegue perceber que o homem é diferente dela. Não existe ela querer impor sua rotina, seu raciocínio. O homem não percebe que a mulher tem hormônios com vida própria e isso é involuntário a sua vontade.
Um gesto busca uma consequência, e outra, e outra. Tudo por falta de diálogo e entendimento.
Falta de conhecer e respeitar a individualidade do outro.
Falta de aceitar que cada um é cada um e que a casa, agora deles, é deles, e não de um só que vai impor regras.
Talvez a vida íntima do outro seja até mais interessante que a sua. Talvez o que você poderia aprender com o outro, seja de grande valia pra sua vida. Talvez o modo complicado ou então a facilidade com que o outro encara as dificuldades seja a resposta pra superar qualquer pendenga do casal. Gentilezas não significam submissão. Gentilezas são gentilezas mesmo. E feitas com vontade, certamente serão retribuídas.
Aceitação.
Respeito.
Admiração.
Companheirismo.
Amor.
Um não vive sem o outro.
Simples.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Em Qual Segundo O Amor Se Perdeu?


— Alô, por favor, tem algum quarto pequeno e simples vago aí? Sim, pode ser, em meia hora eu chego e acerto tudo. Obrigado! — Arnaldo, após fechar a mala, lavou o rosto e ficou se olhando no espelho.
Enquanto detalhava sua fisionomia refletida, procurou uma explicação para que tudo tenha terminado tão rápido. Ontem mesmo havia se casado, tudo lindo e perfeito!
Anitta, linda toda de branco e com um sorriso terno e cativante, que foi um dos motivos que ele tinha se encantado. Meiga, calma e charmosa, chegava a irritá-lo quando precisava de uma urgência ou de uma rapidez que pra ela seria incapaz de executar. Os opostos se atraem e com eles não foi diferente.
Arnaldo apoiou as mãos na pia, abaixou a cabeça e chorou. Foi a primeira vez que lamentou não ter dado certo a união que prometia ser eterna. O amor também acaba...
Anitta ficaria no apartamento, ele seguiria seu rumo sem certeza nenhuma. Apenas partiria.
Olhou novamente seu reflexo e, voltando os pensamentos ao passado, tentou se lembrar em qual instante o amor havia se perdido. Não conseguia se lembrar. Talvez o desgaste, a falta de diálogo ou de tempo para os dois. Lembrou-se da época de namoro quando os dois tinham tempo um para o outro. Finais de semana, feriados, ou mesmo à noite, durante a semana, sempre davam um jeito de estarem juntos.
A rotina acabou com o casamento exatamente um ano depois.
Não tinham mais vida social, os amigos se afastaram, ou melhor, eles se afastaram dos amigos, o encanto havia se transformado em presença invisível, tudo muito automático e tedioso.
Não se lembrava de ter conversado com Anitta sobre o assunto. Ela também não gostava de discutir relação e nem implicar com nada. Apenas vivia sua vida tranquila e talvez a responsabilidade de dirigir uma casa tenha sobrecarregado sua rotina. Estava sempre cansada, mesmo não reclamando, era clara a insatisfação em ter que fazer coisas corriqueiras. Arnaldo ajudava, mas reconhecia que deixava a desejar na ajuda doméstica. Talvez ele esperasse por um puxão de orelhas, ou então uma ordem para fazer isso ou aquilo, mas partindo de Anitta, a tranquilidade em pessoa, seria impossível. Não percebeu que os dias passaram e que Anitta foi perdendo o interesse pela vida de casada.
Lembrou dos conselhos de sua avó, de que quem governa o lar é sempre a mulher. Ela quem determina como será a vida a dois, o momento de cada coisa e, para ele ficar atento, pois se ela se desinteressasse, dificilmente voltaria atrás. Uma luz brilhou refletida no espelho e Arnaldo chegou à conclusão de que nem todas as mulheres são como sua avó mencionou. Talvez Anitta fosse diferente, e ele ficou esperando ela governar uma casa que nem ela mesma queria governar. Talvez ela esperasse uma atitude voluntária de sua parte em participar dos afazeres.
Por fim, pela falta de interesse dela, ele saía com amigos e até se interessava por outras mulheres, mas a presença da mulher era grande demais para se aventurar em outras camas. Para ele era normal ser assim, mas hoje, depois de fechar a mala, percebeu que foi ele quem se afastou do casamento. Ela sempre esteve ali ao seu lado, e ele preferiu se calar e esperar por uma atitude dela.
Um arrepio percorreu sua coluna só em pensar em Anitta nos braços de outro homem... Será?
O que diria sua avó? Seus conselhos seriam bem-vindos nessa hora, mas preferiu resolver tudo sozinho.
Arnaldo colocou os sapatos, pegou a mala e o casaco que estava sobre a cama, respirou fundo e seguiu para a sala.
Anitta estava sentada no sofá, pernas cruzadas, braços abertos e apoiados no encosto do sofá, e olhou profundamente o marido. Também respirou fundo e chorou. Arnaldo, vendo aquela cena não se conteve e se ajoelhou aos seus pés, como se implorasse uma segunda chance a ela, em nome do amor. Não disse nada, apenas ficou esperando uma palavra dela. E a história de esperar uma atitude de Anitta se repetiu. Com dificuldade disse a ela que a amava, que não queria sair dali com mágoa e se houvesse uma única chance de recomeçar, ele aceitaria as condições que ela quisesse.
Anitta levou as mãos ao rosto e chorou. Depois limpou as lágrimas, colocou suas mãos sobre as mãos dele e disse que também o amava, mas estava cansada e queria ficar sozinha um pouco. Não havia se adaptado ao casamento e estava incomodada com o descaso dele todos os dias. Na verdade ela não percebeu que esse era o jeito dele.
Arnaldo, num impulso, levantou-se, segurou as mãos de Anitta, e fez com que ela também se levantasse. Imediatamente ela o abraçou, forte...
Se beijaram e logo se entregaram um ao outro. O sexo era o ponto forte daquela relação. Arnaldo não soube precisar quando o sexo deixou de fazer parte da rotina. Para ele era sempre o cansaço dela, e para ela era o descaso dele durante o dia que a deixava sem vontade nenhuma de ter relação com ele. Como sempre um não soube decifrar o que o outro queria. Queriam que desse certo, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa para evitar o fim do casamento.
Se declararam, apaixonados... A noite toda se amaram...
Arnaldo, tranquilo em sua cama, levantou-se de manhã, abraçou Anitta acordando-a. Ela, porém, se afastou dele e disse que o que havia acontecido foi apenas uma despedida. Ela não havia mudado de ideia da separação.
Arnaldo foi ao chão! Não conseguia entender o raciocínio dela em consentir uma noite maravilhosa e depois afirmar que estava tudo acabado.
Ele sentou-se na cama sobre os calcanhares e riu...
Isso deixou Anitta muito irritada. Ela levantou-se, se enrolou no lençol e foi ao banheiro. Antes de fechar a porta disse a ele que não sairia de lá até que ele pegasse suas coisas e fosse embora.
Arnaldo, colocou as mãos na cabeça, respirou fundo, vestiu-se, pegou a mala e saiu, batendo a porta atrás de si.
Antes de entrar no elevador, começou a chorar, depois a rir, depois ficou sério.
Anitta chorou compulsivamente no banheiro e ficou lá, sentada no chão, a manhã toda.
Teve rompantes de arrependimento, mas sabia que se continuasse com Arnaldo, tudo voltaria a ser como antes. Não reconheceu que também falhou ao não se abrir com ele sobre a sobrecarga doméstica que sentia todos os dias. Para ela, era obrigação dele saber o que fazer.
Ela era mais independente que ele, se virava sozinha há anos. Arnaldo não, sempre foi orientado a fazer isso ou aquilo.
Anitta esperava uma atitude digna dele, pelo menos em insistir em continuar o casamento e teve a decepção quando ele concordou, sem discutir, em sair de casa. Para ela ele já esperava e até queria se separar, pela frieza com que ultimamente a tratava. E ele, sem entender nada, preferiu não piorar a situação e seguir seu rumo.
Coisas de casal.

Clara Lúcia

quarta-feira, 15 de março de 2017

Marinalva Das Dores



      Fazia um calor infernal na pequena casa sem forração, e o mormaço do fogão com as quatro bocas acesas provocavam suores que escorriam pelo rosto de Marinalva. Vez em quando enxugava as gotas com a manga da blusa, mas mesmo assim não parava de pingar suor em seu colo murcho. Depois de quatro filhos era impossível manter um corpo apresentável, e ainda mais com uma frágil saúde que obrigava Marinalva a se arrastar pelos cantos tentando deixar a casa em ordem.

      Aflita, olhava o relógio várias vezes. Não queria atrasar o almoço de Pedro José, o marido, sisudo, tímido, quase não falava e dificilmente sorria. Brincava com as crianças quando estava disposto, o que acontecia raramente. Não tinham diálogo íntimo. Marinalva não tinha disposição para nada a não ser cuidar da casa, dos filhos e reclamar de dores pelo corpo. Era dor que não acabava mais... Dia e noite dolorida... Virava na cama e, dormindo, reclamava. Pedro José nem dava mais ouvidos a ela. Cansou. Cumpria suas obrigações e nada mais. Marinalva ganhou, no último aniversário de casamento, um vestido florido, lindo, um par de sandálias com cristais, um botão de rosa, um perfume adocicado e duzentos reais, que era para ela comprar o que quisesse. Dedicada à família, preferiu comprar coisas para a casa. Isso irritou Pedro José, mas mesmo assim não reclamou. Já havia se acostumado com ela. Quando estava um pouco melhor, Marinalva até procurava por ele debaixo dos lençóis. Ele respondia aos seus carinhos, depois virava para o lado e dormia. Ela dormia tranquila quando tinham intimidade, acordava disposta, sorridente e ele tinha a certeza dela caprichar no almoço.

      Marinalva olhou o relógio e já havia passado dez minutos sem que Pedro José chegasse. Estranhou porque ele nunca se atrasava. Foi até a janela, respirou a brisa fresca, fechou os olhos e ouviu, ao longe, um casal de maritacas no topo de uma árvore, e no fim da rua crianças brincavam na maior gritaria. Se lembrou que seu marido sempre brincava um pouco com esses meninos antes de entrar em sua casa. Ela olhou para um lado, para o outro e nada de Pedro José.

      Serviu seus filhos, todos pequenos, e olhava sem parar as horas que passavam rápido demais. E nada de Pedro José. Não almoçou. Perdeu a fome e começou a ficar preocupada. Nem um recado nem nada!

      À tarde, no costumeiro horário de voltar para casa, Pedro José chegou, olhos vermelhos, cheirando a álcool e cigarro, cabeça baixa e sem falar nada. Marinalva segurou-o pelo braço e insistentemente perguntou o que estava acontecendo. Ele virou a ela e simplesmente disse que estava indo embora de casa. Não tinha explicação, só isso, ia se separar dela. O choque foi tão grande que ela caiu sentada no chão. Ele olhou para aquela cena que para ele era patética, foi para o quarto, arrumou algumas poucas coisas numa sacola velha, deu um beijo em cada filho e saiu pela porta sem olhar para trás. Depois voltou e disse a ela que não a deixaria sem dinheiro para cuidar dos meninos.

      Marinalva não conseguia reagir. Permaneceu sentada por um bom tempo... "Aposto que encontrou outra mulher, só pode, aquele fiii du'a égua!", cochichava, com cuidado para os filhos não ouvirem. Despencou num choro incontrolável... Os meninos, sem entender nada, mas acostumados a ver a mãe choramingar, sentaram ao lado dela e ali permaneceram. Marinalva, que geralmente não tinha forças para se levantar, se arrastou até a cama, apoiou-se na madeira e ficou em pé. Ainda chorando, se arrastou até a janela e soltou um grito.

      A vizinha Zuza, que varria a calçada, correu para acudi-la. Preocupada, entrou na casa dela para saber os detalhes de tanto choro e sofrimento. Marinalva, entre soluços e lamentações, contou o acontecido. Zuza, inconformada, começou a xingar Pedro José de todos os nomes possíveis, rogando-lhe praga e mais praga. Também deu sua opinião dizendo certeza ter sido alguma quenga que virou a cabeça dele. Marinalva ouvia e chorava aos soluços.

      Zuza se prontificou a ajudá-la no que fosse preciso, afinal tinha quatro filhos pequenos para cuidar e agora estava sozinha e tal. Já era noite, Zuza arrumou o que comer para os meninos, arrumou um prato para Marinalva e outro para si, e comeram em silêncio. Depois se despediu dela e foi tomar conta de sua casa.

      Zuza passou pelo seu portão e não entrou na sua casa. Foi para a casa da outra vizinha. Renata, que era um pouco mais velha e que não tinha filhos. Era só ela e o marido, outro com fama de mulherengo da vila. Pediu para entrar para conversarem e imediatamente contou tudo o que aconteceu com Marinalva. E emendou dizendo que foi bem feito, mulher que não se cuida, que vive reclamando, choramingando pelos cantos, que não penteava nem os cabelos, imagina que um homem iria aguentar uma vida dessa? Repetia várias vezes até espumar o canto da boca. Renata concordava e aumentava mais um conto, lembrando de algum causo em que viram o marido de Marinalva entrando em uma casa na rua de baixo de onde morava, onde sabiam que morava uma mulher que não era bem vista pelo bairro. "Aposto que ele foi morar lá!". Repetia. As horas passavam e Renata convidou Zuza a ir embora, pois já estava tarde e o marido dela já devia estar preocupado com sua ausência. "Que nada, aquele lá só sabe dormir quando chega de tarde!".

      Marinalva, com todos os problemas enfrentados e tendo que conviver com a fibromialgia, teve ajuda de parentes e alguns amigos para seguir em frente. Cada um ajudava um pouco e nada lhe faltava em casa. Pedro José visitava os filhos de vez em quando e sempre levava um pouco de dinheiro e mais algumas coisas para a casa. Nunca disse onde estava vivendo e nem com quem. Desconversava, e se Marinalva insistisse, dava um jeito de ir embora na mesma hora.

      E assim Marinalva foi vivendo, com a mesma feição de coitada, cabeça meio baixa, triste e insatisfeita, como Deus quisesse, ela repetia a quem perguntasse como estava.

      Zuza e Renata eram as vizinhas que mais ajudavam com a limpeza da casa e algum outro trabalho pesado que ela precisasse, mas a língua corria solta quando viravam as costas.

      Coisas da vida.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Bicho Mulher



Participo de um grupo fechado em uma rede social, só de mulheres. É um grupo grande, imenso! Conseguem imaginar controlar centenas de mulheres? Não tem como, mas ninguém sai de lá a não ser quando é convidada a sair, ou seja, quando é deletada. Tem regras e tudo o mais, mas pergunta se todas têm a paciência de ler regras? E ao contrário deste, existe um outro grupo ao qual não participo, o das deletadas desse primeiro grupo. Eita!

Falando deste grupo, engraçado como é mulher... A intenção do grupo é de união, diversão, troca de informações, atenção, carinho etc. Mas o que menos tem é a união, quer dizer, tem também, mas tem o outro lado, que é a agressão gratuita, os xingamentos, deboches... Ô, bicho pra ser desunido, viu?

Algumas parecem que estão lá só pra fiscalizar as postagens para ir na página pessoal da pessoa e descobrir coisas, enviar solicitações para a família, namorado, marido... Pra desmascarar... Coisas que eu não consigo entender. O que ganha uma mulher ao ir na página pessoal de outra só pra falar abobrinhas? E são muitas que têm esse tipo de comportamento. E mimimi, tretas, conflitos, divergências... Politicamente correto, ou incorreto. Infinitamente sobre qualquer assunto.

Claro que existem as mulheres com bom senso, que sempre têm uma palavra de carinho pra ofertar...

Mulher é esse turbilhão de hormônios em conflito o tempo todo, incompreendida, odiada e amada ao extremo, necessária e apimentada... Mulher chora até desidratar, larga o marido, o namorado e se arrepende... Volta e joga na cara dele pra sempre aquele dia em que ele fez o que não deveria ter feito... Engole o choro e vive em função da família... Vive só e é discriminada... Trabalha muito, ou não trabalha nada... Tem filhos e vê seu corpo modificado em questão de meses... Não tem filhos e é eternamente cobrada por não tê-los... Se cuida, se acomoda, se vinga, ama intensamente, despreza com primor, ajuda, atrapalha, tem medo de tudo e tem coragem de tudo, menos deixar de amar mesmo quem não mereça esse amor, espera retorno e nem sempre dá o retorno esperado, cuida, bagunça, vai atrás e fica atrás... Morre de cansaço e morre de preguiça... Abre mão de se olhar no espelho e coloca um espelho na frente de quem ela ama... É filha, é mãe, é tia, é madrinha, é amiga, é avó, bisavó, é morta... Em vida. É viva numa casa morta, e permanece nela só pra ver como vai ser... E é. E foi. E será sempre.

Besteira querer nos entender se nem mesmo nós mesmas nos entendemos! Apenas nos ame e nos respeite, assim como merecemos. Cada mulher deve saber como quer ser amada, como deve ser respeitada, e isso é o que importa. Sem migalhas.

Só não pode aceitar agressões de nenhuma espécie. Isso nunca mais!

Que o Dia da Mulher seja também pra refletir como estamos vivendo e como gostaríamos de viver. Será que estamos acomodadas sonhando com um dia melhor e que, talvez, o outro mude pra nos agradar? Vale a pena?

Seja mulher do seu jeito, sem rótulos ou dicas de profissionais. Não se compare a nenhuma outra, afinal Deus nos fez únicas no mundo! E especiais! E tudo o que quisermos ser!

Que Deus nos abençoe!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Perfume Adocicado


      Contados exatos dois meses, Ariela finalmente alcançou a coragem em entrar no quarto que era de sua mãe, Dona Hortência, que nos últimos meses, por falta de opção, viveu seus últimos dias no asilo São Tomé de Deus. Eram somente mãe e filha morando numa cidade pacata. Todos os parentes estavam muito longe, na cidade grande. Ariela, por ser concursada em Pedagogia, escolheu a tranquilidade de ter ar puro e silêncio para viver com sua mãe. Mas nem tudo saiu como o esperado. Dona Hortência não podia mais viver sem acompanhamento constante, obrigando assim Ariela a deixá-la sob os cuidados de pessoas estranhas no único asilo daquela cidade.

      Ariela visitava a mãe todos os fins de semana, e vez ou outra levava-a para sua casa, para rever seus pertences e matar a saudade de uma comida caseira e especial. Eram como irmãs e Ariela sofria por ter que deixar Dona Hortência com estranhos. A mãe dizia que era feliz no novo lar e que a filha não precisava se preocupar com nada. Às tardes jogava bingo e tomava chá com amigos. Riam e dançavam, depois se recolhiam aos quartos coletivos. Era tudo limpo, mas na verdade Dona Hortência não era mulher de ficar reclamando. Sentia solidão, muita solidão todos os dias. Não queria ter seus objetos por perto por medo de ser roubada. Não confiava nas pessoas tanto assim.

      Naquele quarto vazio Ariela sentiu o cheiro de mofo, de roupa guardada há anos, de pó nos móveis que a fez espirrar seguidamente. Por fim amarrou um lenço tapando as narinas para, enfim, retirar as roupas e doar a quem precisasse. Isso era uma ordem de Dona Hortência para quando ela morresse.

      Ariela não sentiu vontade de chorar, mesmo quando apertava algum vestido de sua mãe em seu peito. Ela pensou que sofreria mais, mas estava tranquila e até conformada com a ausência da mãe. Tinha saudades, e teria para sempre, mas não doía tanto quanto imaginava. Por momentos pensou ser fria como uma pedra de gelo, mas talvez pela vida solitária em que sua mãe passou os últimos momentos, sabia que agora Dona Hortência poderia estar num bom lugar, junto com os seus já falecidos.

      Certamente doaria tudo para o asilo de sua mãe, era assim que o chamava.. Ariela pegou roupas, sapatos, perfumes, talcos, maquiagens, esmaltes, bijuterias, tudo que sua mãe usava. Antes, claro, teve o cuidado de deixar tudo limpo e perfumado. Chegando lá, a primeira cena que viu foi uma senhorinha encostada no portão. Cumprimentou-a e perguntou se ela estava esperando alguém. Ela respondeu que sim, que seu filho logo chegaria. Ela usava batom cor-de-rosa e um perfume adocicado e enjoativo. Ariela sorriu, fechou os olhos e foi como se sentisse sua mãe por perto, devido ao perfume doce. Parecia ser o mesmo que estava na mala, o mesmo que sua mãe usava. "O perfume acabou de encontrar sua dona...", pensou Ariela. Ela entrou carregando com dificuldade a mala cheia com os pertences de sua mãe.

      As voluntárias que lá estavam receberam Ariela com alegria e, num abraço apertado, agradeceu pela gentileza em levar os objetos de Dona Hortência para lá.

      Ariela parou no corredor e, pela janela, ficou olhando o jardim. Não era dia de visitas e os idosos estavam sentados, cada um em um canto, olhando para o nada e sem se comunicarem uns com os outros. Ariela estranhou não encontrar aquela alegria descrita por sua mãe, dos jogos, brincadeiras, risadas e tudo o mais. Resolveu caminhar por eles e conversar um pouco com cada um.

      Um senhor que estava na cadeira de rodas, ficava o tempo todo com a boca aberta e vez ou outra, limpava a baba que escorria. Tinha os olhos lacrimejantes que pareciam olhar para o horizonte avistando a morte. Apenas esperava por ela. Não muito adiante, um outro senhor se entretinha com um livro. Ariela percebeu que ele passava as páginas rapidamente, impossível de terem sido lidas. Nesse instante uma enfermeira chegou até ela para acompanhá-la no passeio. Sem que Ariela perguntasse nada, Fabiana, a enfermeira, começou a contar sobre cada um. O senhor do livro não sabia ler, mas sempre foi tão encantado por livros que não se importava com esse detalhe; gostava de folhear as páginas e depois repetia todo o processo. Ariela pensou que poderia, de vez quando, voltar para ler para ele. Perguntou sobre o senhor da cadeira de rodas. Fabiana disse que ele tinha Alzheimer e que se lembrava apenas de sua infância, cada vez mais remota. Ninguém o visitava há anos... Depositavam o valor da mensalidade e pronto. Ariela perguntou sobre a mulher no portão. Fabiana disse que o filho morava há três quadras dali e que dificilmente ele vinha visitar a mãe. Mesmo assim ela ficava esperando por ele todos os dias e quando começava a escurecer, ela entrava, jantava e se recolhia para dormir. Balbuciava algumas palavras lamentando o filho não ter vindo naquele dia e logo dormia. No outro dia tudo se repetia.

      Ariela sentou ao lado de uma senhora que calmamente crochetava, sem saber definir o que seria. Era uma capa para bule de café, dizia ela, sorrindo para Ariela. Mostrou os detalhes e disse que todos os dias fazia a metade de um, que depois eram vendidas no bazar que faziam no asilo. Ficava feliz em poder ajudar de alguma maneira. Dona Antonieta, o nome dela, não tinha família e resolveu esperar pela hora da morte junto a pessoas. "Que triste morrer e ninguém saber", dizia ela, que imaginava seu corpo apodrecer até acabar o último resquício de carne e só depois algum vizinho sentir sua falta. Ariela pegou suas mãos e as beijou. Dona Antonieta acariciou seu rosto e disse que se sua filha estivesse viva seria assim, como ela.

      "Truco!", Ariela voltou-se para ver quem gritava quebrando aquele silêncio. Era Gumercindo e Antunes, que jogavam baralho o dia todo. Eram os únicos que se enturmavam nos dias comuns. Eram amigos de longa data e se reencontraram no asilo. Haviam feito o Tiro de Guerra na juventude e guardavam lembranças preciosas. Para Fabiana, esse reencontro foi a melhor coisa que havia acontecido no asilo nos últimos anos. Eram eles que animavam a turma nas festas. Mas o que animava mesmo os idosos eram os familiares que apareciam em dias de visita. Todos os dias poderiam ter visitas, mas se compreendia que a família precisaria trabalhar para sobreviver.

      Ariela perguntou para Fabiana se ela teria coragem de internar sua mãe num asilo. Ela apertou os lábios, abaixou os olhos e disse que se precisasse, sim, internaria. Mas sabia que dizia isso por não ter mais a mãe por perto, que havia falecido quando ela era bem pequena. Aquele amor de mãe ela não sabia como era. Talvez por isso respondeu tão rápido a pergunta.

      Ariela passou a tarde toda com os idosos e se sentiu muito bem. Poucos se lembravam de Dona Hortência.

      À noite, quando colocou a cabeça no travesseiro, orou, chorou e pediu perdão à mãe. Arrependeu por não ter criado uma outra alternativa para manter Dona Hortência por perto até seu último dia. Mentalmente começou a calcular quanto seria contratar uma cuidadora. Não, não seria possível com o salário de Pedagoga. Chorou durante algumas horas e depois adormeceu.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Quem Se Importa?


Bom dia!
Voltando depois de quase um mês...

Um lado bom da internet é o avanço imediato das notícias. E um dos assuntos do momento é a agressão, o abuso, maus tratos, enfim, formas de agredir uma outra pessoa.

Isso inclui o estupro, que é crime.

Muitas pessoas, anônimas ou não, estão, finalmente, admitindo ter sofrido abuso em algum tempo da vida. Não deixo de ficar perplexa por chegar à conclusão que uma atitude dessa se tornar comum e muitas se calarem diante do fato ocorrido.

Não se trata nem me machismo, mas de uma hierarquia que não deveria existir. O não é não sem discutir. O corpo é individual e não cabe ao outro se apoderar como bem entende. Que seja um abraço, um beijo, um aperto aqui, uma passada de mão, o não é não!

O que tenho visto também são muitos que confessam o abuso e mesmo assim são acusados de culpados. Isso é um absurdo! Não importa se homem ou mulher e pior, criança, a vítima nunca é a culpada.

Li em algum lugar, um famoso dizendo que foi estuprado quando era adolescente. Horrível! Não dá pra imaginar tamanhã crueldade, mas ao invés desse famoso ter apoio, sofreu chacotas e deboches. Como se com ele fosse comum tal atitude. O ser humano é esquisito mesmo. Luta pelo feminismo e tal e quando precisa mostrar compaixão pelo próximo simplesmente agride, retrocedendo todos aqueles ideais que tanto gostam. No caso o famoso é homossexual, o que não muda nada, e os comentários foram perversos, horríveis! Diziam que ele havia gostado, que depois desse dia ele passou a ser gay, que agora ele estava querendo aparecer na mídia e toda essa babaquice de quem se esconde atrás do avatar pra despejar merda. Julgam e condenam com a maior naturalidade... Aliás, gente agressiva e mau educada é o que mais tem na internet. Mas na internet podemos filtrar e na vida, nem sempre.

A agressão moral e a ameaça são terríveis! Marcam a ferro e o trauma se instala.

Não podemos mudar essa mentalidade de um dia pra outro. Seria necessário leis severas, mas também sabemos que isso leva tempo.

No momento cabem aos pais educar seus filhos a respeitar o próximo, não só o próximo de sua convivência, mas o próximo independente de quem seja. Aquele ditado "guardem suas cabras que meu bode está solto", deveria ser abolido da mente de todos.

Pais, mães, eduquem seus machinhos a respeitar as moças (idem o contrário) a não tocar no que não lhes pertence, e a saber que o não é não! Eduquem seus filhos a não terem medo de pedir ajuda, deem abertura para um papo sem cobranças, permitam que seus filhos se abram com vocês e, principalmente, ensine a eles que o corpo é sagrado e ninguém tem o direito de tocá-lo sem permissão, que há certas coisas que não se deve fazer, enfim, ter a paciência de educar seus filhos. O que não se aprende em casa, a rua ensina da pior forma possível.

Não levem esse texto como lição de moral, sim? Longe de mim querer passar lição de moral, mas sei que aprendemos no dia a dia e sempre falta algo a acrescentar na vida daqueles que amamos tanto. Filhos estão em formação e os pais são os principais exemplos que eles têm.

Recordando como era há cinquenta anos, graças a Deus evoluímos, e quem sabe daqui cinquenta anos esse assunto já estará resolvido em sua totalidade? Tudo tem um começo...

Uma ótima semana a todos!

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Quando Chega a Maturidade?

Imagem pertence ao blog Simples e Clara
1 ano

Saudades de quando apenas me preocupava em chegar rápido em casa, ligar a TV e assistir Speed Racer.

Parece que foi ontem, mas estou em contagem regressiva. Não tenho um dia a mais, e sim um dia a menos de vida. Cinquenta e um já, dia 06 de outubro.

Não tem como não se questionar sobre a vida, as coisas, as pessoas, a saúde, o meio em que vive, as dores, as lembranças, as alegrias...

No pacote todo só tenho a agradecer. Apesar de todas as dores, sofrimentos e perdas, estou viva e muito bem, obrigada! Quando olhamos para trás e enxergamos superações, batalhas acabadas, pesos descarregados, sonhos realizados, ou não, o melhor que podemos fazer é agradecer pela dádiva de ter saúde e poder fazer agora, com filhos adultos e muito bem também, o que se tem vontade.

É certo que muitos vão nos achar egoístas, metidos, arrogantes, assim como achavam como éramos jovens, mas a diferença é que isso é tudo uma bobagem... O que tem de mais em sermos egoístas, metidos e arrogantes? Se realmente nos consideramos ser assim, os únicos atingidos somos nós mesmos.

Hoje me dou o luxo de escolher e, principalmente, usar o não como ponto final. Como é poderoso o não na vida da gente!

E o melhor de tudo, usar o sim como a consciência tranquila, sem medo da entrega, do momento desejado, seja ele qual for.

Esta imagem pertence ao blog Simples e Clara
22 anos

Na juventude somos imortais, mas na maturidade somos saudosistas, cuidadosos e medrosos. Sim, costumamos ter medo do desconhecido. Quem nesse mundo não tem uma pontinha de receio da morte? Acho mais medonho o momento dela, e não depois que acontece. Como será a passagem dessa pra melhor? O que sentimos? Dói? O que há do outro lado?

Agora, não é ruim fazer cinquenta. Também não é bom. Eu sendo uma pessoa hiperativa, o corpo nunca acompanha meu raciocínio. Acompanha, mas poderia ser melhor. Acho que faço coisas além do que imaginava fazer quando tinha vinte e dois, como nessa foto acima. Esse foi o dia de minha formatura. Educação Física, que tanto amava. Mas não exerci. Por culpa minha que fui permitindo me podarem as asas pra não voar pra onde sempre quis. Acontece.

Hoje sei, como disse acima, o poder supremo de usar o não. Aos vinte e dois, antes dos vinte e dois, e depois dos vinte dois, eu não sabia que podia o usar o não. É tão mais fácil se calar e fazer o outro sorrir, não é? O que é a vida da gente perante a do outro que tanto amamos? Enfim, depois dos quarenta tive essa resposta. Sim, a minha vida é tão importante quanto a do outro que amamos. Não posso me privar de nada e nem me calar quando algo me perturba ou me faz sofrer, pois isso é prejudicial a mim. Por consequência não serei feliz o suficiente para transmitir essa felicidade a quem está ao meu lado.

O tempo passa, a maturidade vem... Quando chega a maturidade?

Posso voltar a sonhar em lecionar Educação Física? Sim, claro, mas hoje existem outros sonhos, outros planos, outras conquistas, outros valores, outros desejos... Sim, podemos fazer o que quisermos, sempre, a qualquer hora, desde que não interfira na vida do outro. Podemos sim mudar de ideia e começar tudo de novo.

Acho que a maturidade é isso. Viver a vida com leveza, bom humor, rir de si, ter alegrias, satisfações, e saber enfrentar problemas com a mesma garra dos vinte e dois, agora com sabedoria. Sabedoria não só dos livros, mas da vida, repeitar o outro em sua essência. Saber deixar partir e querer que fique por livre e espontânea vontade.

Eu gostaria de voltar aos meus vinte e dois anos, mas com a imaturidade dos vinte e dois. Imagina uma jovem com cabeça saudosista e sabendo de muita coisa que só os maduros sabem? Insuportável! Cada idade tem seu encanto e esse é o segredo da vida, cada fase a seu tempo, cada tempo sua história, cada história um aprendizado...

É isso.

Parabéns pra mim!
Imagem pertence ao blog Simples e Clara
50 anos
Muito obrigada a você leitor, comentarista ou não, que sempre está por aqui! É sempre bem-vindo!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A Cabeluda



      Na pequena cidade do interior de Minas, Helena caminhava sob o sol escaldante do meio-dia. As bochechas rosadas e a franja grudada na testa pelo suor causavam desconforto à adolescente faminta. Pelo caminho, nenhuma sombra para aliviar o calor, o mau humor era visível em seu rosto, e esperar carros passar para poder atravessar a rua era irritante, sem falar na mochila pesada que ficava dependurada nas costas. Todos os dias era isso, ir e voltar do colégio. Vida de estudante.

      Assim que dobrou a última esquina um zum zum zum em frente a sua casa fez com que Helena esquecesse o calor. Sua tia, que era sua vizinha, espalhafatosa gritava no meio da rua para quem quisesse ouvir. Sem entender nada, Helena só ouvia "aquela cabeluda... a cabeluda... vou acabar com aquela cabeluda...". Apressou os passos e ao entrar em sua casa se deparou com sua mãe atrás do portão, à espreita, ouvindo a cunhada aos berros. Já havia acontecido algumas vezes dessa cunhada causar estardalhaço na rua chamando a atenção de todo mundo.

      Helena, com os olhos arregalados e também acostumada com a situação, perguntou quem era a cabeluda. Sua mãe, com o dedo indicador em riste sobre a boca, puxou-a pelo braço e disse para não perguntar nada. Aflita, Helena obedeceu e entrou pela cozinha, onde um aroma de carne de panela a fez esquecer da tia maluca que gritava na rua.

      Depois de um tempo a mãe de Helena desistiu de ouvir o espetáculo e também se recolheu aos seus afazeres. Helena já rapava o prato e tinha um último pedaço de carne espetado no garfo, pronto a ser devorado, perguntou calmamente o que havia acontecido e finalmente quem era a cabeluda.

      No intervalo entre chegar em casa e devorar um pratão de comida, várias histórias se formaram em sua mente curiosa. Cabeluda seria, em sua imaginação, uma mulher com cabelos longos, despontados, escuros e que arrastavam ao chão e que não deixavam aparecer seu rosto. Talvez um fantasma que perambulava durante o dia, ou talvez uma assassina querendo acabar com a vida da tia, ou então um ser de outro planeta que era coberto por pelos.

      Sua mãe, com jeito e procurando as palavras que Helena poderia entender, disse que a tal cabeluda era uma mulher da vida que ficava dando em cima de seu tio, casado com a tia que gostava de um barraco para se fazer de vítima e chamar a atenção de todos.

      Helena, ainda sem ter uma nítida definição da cabeluda, pensou numa mulher que carregava correntes ou até algemas nas mãos, que capturava homens casados para domina-los e tirá-los de sua família. Ainda mastigando o último pedaço de carne, perguntou como era a cabeluda. Sua mãe disse que não sabia ao certo, pois havia visto a moça somente de costas e sabia apenas que tinha os cabelos longos, ondulados, brilhantes e negros. Quis saber o nome dela, mas essa informação sua mãe não tinha. Perguntou sobre seu tio e o que ele dizia disso tudo. A mãe apenas respondeu que ele não pronunciava palavra nenhuma. Que ficava mudo-calado e também muito abatido com essa situação. Inconformada, Helena continuou pensando em como a cabeluda foi encafifar justamente com seu tio, um homem feio que usava sempre uma calça dois números maiores que seu corpo, uma camisa que ficava com os dois últimos botões abertos devido ao tamanho exagerado da barriga e que quando ria podia ver a falha dos dentes de trás do lado esquerdo. Perguntou para sua mãe como sua tia conheceu essa moça. Olhando de lado, sua mãe preferiu terminar o assunto para evitar prováveis fofocas saindo de sua porta. "Deixa que eles resolvam o assunto, filha, vamos cuidar de nossa vida.", respondeu. "Ah, mas eu bem vi a senhora fuxicando atrás do portão, né?", disse rindo e já colocando o prato dentro da pia. Sua mãe riu e saiu de perto de Helena. Na verdade ela foi até o quarto rir mais sossegada, escondida da filha que, não demoraria, entenderia essas coisas de mulher atrás de homem casado.

      E assim Helena continuou a fantasiar sobre a tal cabeluda, e sua mãe, sempre desconversando sobre o assunto, esperava o momento certo da filha saber coisas de gente adulta. "Tudo tem seu tempo", pensava, suspirando e ajeitando as roupas passadas que estavam esperando ser colocadas no cabide. Roupas do marido, claro.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Maria do Socorro


      Passava da meia-noite quando Maria do Socorro foi tomar seu banho, tranquila. Queria lavar os cabelos, mas o cansaço era tanto que não teve paciência  para caprichar como deveria. Um punhado de shampoo, enxague, uma batida com o bico do condicionador na palma da mão para aproveitar até a última gota, uma massagem nas pontas, enxague e já estava bom. Entre um bocejo e uma esfregada da toalha pelo corpo, ela mais parecia um zumbi à procura de um lugar para deitar o corpo e dormir. Os cabelos ficariam molhados e já estariam condenados a se ajeitarem num coque na manhã seguinte. Mas antes de fechar os olhos uma última olhada nos dois filhos que dormiam no quarto ao lado. A paz tão procurada durante o dia se fazia presente neste exato momento quando olhava os filhos dormirem.

      Mateus, de três anos, e Adriana, a mocinha babá e companheira de Maria do Socorro. Uma preciosidade, um orgulho, um encanto gerado num momento de muito amor. O amor se foi, mas os frutos se fortificaram e enchiam o coração de Maria de orgulho.

      Deitou-se, fechou os olhos e logo o despertador gritava em seus ouvidos. Era essa a sensação que tinha, mesmo já tendo passado cinco horas de sono. Noite curta demais para caber tanto cansaço. Era um cansaço do corpo que tinha que suportar diariamente. Levantou-se e foi logo colocando as mãos nos cabelos cacheados, ajeitando-os antes do susto de se ver refletida no espelho. As olheiras estavam profundas, as bochechas cada vez mais caídas, parecendo um bulldog, rugas na testa quando franzida, pés de galinha que mais pareciam pés de peru, ou de perua, como gostava de falar, rindo de sua aparência. Olhando cada detalhe no rosto e tentando achar mais alguma prova de que o frescor da juventude estava cada vez mais longe, sorriu. Lavou o rosto, escovou os dentes demoradamente e começou a ajeitar os cachos rebeldes num coque no alto da cabeça. Puxou uns fios sobre cada orelha, enrolou-os no dedo tentando fazer um cacho fino e sorriu novamente. Lembrou-se de seu pai que sempre apertava seu coque que, desde a adolescência tinha o costume usá-lo, chamando-o de troço. Maria ficava brava e saía pisando forte enquanto seu pai gargalhava. Não gostava de ter seu cabelo comparado ao estrume de vaca. Chegava a cheirá-los para saber se estavam com fedor. Sorriu, passou um creme hidratante, pó para tapar pequenas imperfeições, lápis nos olhos e batom nude.

      A roupa já estava estirada numa poltrona vermelha, velha, e com o tecido desfiado no encosto, que era disfarçado com uma toalha de crochê, antiga, feita por sua avó. Não combinava, mas era melhor do que sair carregando a espuma que grudava em sua roupa quando se sentava nela. Vestiu-se e foi para a cozinha preparar o café. Apenas um café preto seria o necessário para aguentar até o meio da manhã, onde tinha tempo para se alimentar com calma um pequeno lanche oferecido pela empresa onde trabalhava. Entre uma golada e outra de café, ferveu o feite, fatiou o bolo de fubá e cobriu tudo com um pano de prato branquíssimo, pelas longas horas que ficava de molho em água sanitária, sem ornamento nenhum.

      Olhou no relógio e os ponteiros não colaboravam. Tinha que se apressar ou perderia a condução. Foi até o quarto das crianças, deu um beijo em cada uma e acordou a filha dizendo que já estava indo. Assim que o Sol reinasse absoluto no céu, Camila, a filha companheira se levantaria, aprontaria o irmão e o levaria até a creche. A mochila já estava pronta desde a noite anterior e seu uniforme estava passado e pendurado num cabide e apoiado no puxador do roupeiro. Depois seguiria para seu colégio, que ficava a algumas quadras de sua casa. Maria agradecia por ter escolas perto de sua casa. Se dizia com sorte, apesar da situação em que viviam.

      Assim que colocava os pés para fora de casa, Maria do Socorro fazia o nome do pai, abaixava a cabeça e conversava com Deus para que nada de ruim acontecesse com seus filhos. A lembrança de Bartô, seu marido, era inevitável e com isso não segurava as lágrimas que desciam rasgando seu rosto fazendo um caminho como se fosse uma estrada de chão, devido ao pó compacto. Um caminho duro e seco, assim como se tornou sua vida. Sentia falta do marido, de seus carinhos e principalmente de sua proteção. Deixou a família antes da hora, muito antes de Maria repetir incansáveis vezes o quanto o amava. Se lembrou da última frase que Bartô disse a ela, segundos antes da bala entrar pela janela e acertar em cheio seus miolos: "Tô com vontade de comer picanha, minha preta..." e caiu sobre a cama encharcando os lençóis de sangue ensanguentado. O cheiro quente e forte do sangue contrastava com a brisa que entrava pela mesma janela onde abrigou a bala assassina. A princípio Maria ficou paralisada...

      Até hoje Maria imagina Bartô entrando pela porta, sem fazer barulho, assustando-a e logo em seguida envolvendo-a nos seus braços.

      Maria do Socorro voltaria para casa só à noite, onde a rotina já estava programada: primeiro o filho, com abraços, beijos, carinhos, brincadeiras, conversas, e depois um tempo especial reservado para Camila, com ouvidos atentos a tudo que ela falaria. Uma rápida arrumação na casa, faria o jantar que também seria o almoço dos filhos, um bolo ou um pão caseiro, sovado pelos seus braços fortes e musculosos.

      E assim continuaria a vida, trabalhando, cuidando, amando os filhos e vivendo seu luto, que duraria por muitos anos, ela sabia muito bem disso.

      Texto publicado em 2014 - Editado


segunda-feira, 25 de julho de 2016

O Triste Fim de Donana


      Uma última colherada de sopa na boca de Seu Romero, uma limpada no canto da boca com um guardanapo de papel e pronto, o moribundo já estava alimentado e pronto para dormir o sono dos justos.

      Donana ficava resmungando o tempo todo, dizendo frases feitas, como se quisesse gravá-las na memória para repeti-las no dia seguinte, vírgula por vírgula. Outras vezes parecia conversar com alguém invisível, perguntando e respondendo logo em seguida, outras parecia Deus a lhe ouvir, atencioso, e era nesse momento que as lamentações se aguçavam. Parecia questioná-Lo por tanto sofrimento e um fim de vida tão sofrido, tendo que carregar nas costas o marido puteiro. Mesmo assim cuidava de Seu Romero com um carinho embutido.

      Depois de cobri-lo, apagar as luzes e deixar a porta entreaberta, Donana se dirigia à cozinha para seus últimos afazeres. Ainda resmungando, balançava a cabeça de um lado para o outro, como se lembrasse de fatos não muito distantes e que a fizeram sofrer demasiado. Apoiava as mãos na pia, abaixava a cabeça e simulava um choro. Não saíam lágrimas, mas a ladainha constante e o zunido balbuciado, denunciavam que ainda havia amor e que ela sabia que sua missão, até os últimos dias, seria de cuidar do marido.

      Seu Romero mal se equilibrava em pé. Donana colocava ele apoiado no andador e ficava por perto ajudando-o a caminhar pela varanda, para pegar o ar da manhã e o sol bem fraquinho, tomando cuidado para não queimar-lhe a careca reluzente.

      Ele olhava-a com piedade e gratidão, mas não pronunciava sequer um "obrigado". Tinha vergonha de estar como estava e do trabalho que estava dando a Donana. Era a mulher escolhida, a rainha de seu lar, a mãe de seus filhos, a avó mais carinhosa do mundo e dotada de um coração imenso, incapaz de calcular quantas pessoas cabiam dentro dele. Era agradecido, mas preferia o silêncio a se sentir humilhado reconhecendo a preciosidade que o acompanhou durante uma vida inteira.

      Sabia que seu fim estava próximo, e o máximo que lhe permitia fazer era ficar em silêncio. Donana lhe perguntava coisas, se estava com fome, com frio, cansado, com sede ou se queria assistir à TV. Ele respondia meneando a cabeça e mais nada. Não conseguia mais encarar Donana. Era mulher demais para ele que se sentia tão inútil nesse fim da vida.

      Donana reclamava muito, lamentava, mas no fundo se sentia orgulhosa por ter que cuidar do marido até os últimos momentos. Era puteiro, cafajeste e não escondia de ninguém suas puladas de cerca. Se vangloriava de ser um conquistador nato, um colecionador de corpos estranhos, um Don Juan perdido nesse mundo de meu Deus.

      Mais um dia de cuidados, menos um dia para Seu Romero. Mais um dia de lamentações e menos um dia para lembrar das travessuras vividas fora do casamento. Donana dormia em paz, Seu Romero custava a pegar no sono e chorava em silêncio. Seu fim estava próximo, poderia ser hoje ou semana que vem. As carnes de seu corpo já anunciavam falta de mobilidade e falência. Desejava morrer dormindo. Só não se esquecia de beber bastante água antes de fechar os olhos. Para ele deveria ser muito triste morrer de sede. Morrer de fome não teria problemas, mas morrer de sede seria o inferno.

      O dia clareou, Donana no fogão preparando o café da manhã, mas antes disso uma olhada em seu marido, que dormia feito uma criança, com respiração profunda e olhos entreabertos mexendo as pupilas de um lado e de outro. Corpo deitado de lado, encurvado e com a mão debaixo do travesseiro. Como um anjo esperando sua hora de partir.

      Donana respirou fundo e seguiu a lida, até quando Deus quisesse.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A Vulnerabilidade De Quem Ama


Ainda recebo e-mails de mulheres que sofrem por amor, que mantém uma relação doentia, que não sabem como agir, que aguentam maus tratos em nome do amor, e outras até com pedido de socorro, pois se sentem tão inúteis que não conseguem pensar num modo de sair de um relacionamento doentio. E o pior, há ainda quem acredite que o(a) parceiro(a) mudará, caso ele(a) ajude com um tratamento médico.

Triste constatação. Este texto Amor Psicopata ainda é o mais lido e todos os dias é acessado.

Depois da notícia de Bianca Toledo (não colocarei link aqui) sobre seu relacionamento com um psicopata, talvez muitas outras mulheres a tomem como exemplo e se sintam fortalecidas a colocar um ponto final num relacionamento doentio.

O amor tem esse deslize de nos fazer vulneráveis a aceitar o que se torna doentio e até fatal.

O sonho, a construção de um castelo imaginário com um príncipe dentro dele ainda é muito poderoso pra algumas mulheres. 

Quem não ficaria feliz e completamente apaixonada por conhecer um homem cativante, sedutor e que transmita toda a segurança que se quer? Ainda não sei qual é a essa segurança e proteção que muitas buscam, mas cada uma tem suas fraquezas.

O medo de perder, desapegar, deixar ir, livrar-se do que lhe faz mal ainda é um grande empecilho. E não são só homens não, existem mulheres psicopatas também. Invertem a situação e convencem com tanta categoria que dificilmente são desmascarados no primeiro instante.

A grande característica de quem tem esse desvio de caráter é a total falta de sentimentos e a grande capacidade de manipulação. Terrível!

Mas há também o obsessor, o possuidor, o dono da situação, aquele que guarda sua presa a sete chaves. E a mulher permanece no cativeiro, com o sonho que um dia tudo mude e que o príncipe que virou sapo volte a ser príncipe. Sonham com o amor eterno, cuidador, protetor e a hipótese de abandonar tudo isso seria como a morte solitária, onde nunca mais o coração aceleraria por uma outra pessoa e os olhos não mais brilhariam. Aquele amor que começaria do nada e não terminaria nunca mais. 

Não é culpa de quem ama não perceber que o outro é possessivo, obsessivo, psicopata. Quem agride é que está fora da normalidade. Não é trouxa quem acredita, confia, abre mão de algumas coisas em nome da união; trouxa é quem não valoriza o companheirismo. Não é o mais esperto quem tem a capacidade de manipulação. O mais esperto é aquele que sabe que existem pessoas tão espertas quanto ele e que um dia a máscara cai. Portanto, se há algo errado, se houve mudanças, se há sofrimento, cárcere, agressão moral ou física, ah, isso não é amor.

Não são só os sonhadores que caem na lábia dos doentios. Os que amam podem ser presas fáceis. Qualquer pessoa pode se tornar vulnerável nas mãos de um psicopata. A diferença é a hora de dizer não e romper essa corrente de manipulação.

Não tenha medo de mudanças, não tenha receio de ficar só, não creia que nunca mais será amado, não aceite menos do que mereça... O que você merece?

O ser humano é carregado de emoções e o amor vem e vai várias vezes durante a vida. E talvez o amor eterno seja aquele não vivido, não correspondido, carimbado do "se", eternamente "e se...".

E, graças a Deus, a maioria ama e é amado!


segunda-feira, 11 de abril de 2016

Meu Primeiro Amor


Lá nos meus dez anos, quase onze, quando ainda amava brincar de bonecas, ouvia dos mais velhos que um dia a brincadeira iria acabar. Pra minha pequena cabeça infantil seria impossível acabar algo que eu amava tanto.

Me lembro que um dia uma amiga me convidou para irmos a um show de patins. Fui. Naquele tempo, década de setenta, a moda era usar calça boca de sino e botas. Ah, e tinha a horrenda blusa cacharrel, gente, que horror aquilo! A que eu usava era preta com florzinhas coloridas, miúdas, cheia de florzinhas. Então, toda paramentada, fui ao show com a família da amiga. Sentamos longe até, foi num clube esportivo, centro de jogos de basquete. Ah, como fiquei encantada com tudo aquilo! Os bailarinos patinadores deslizavam como se estivessem voando! E por fim somente um casal se apresentou. A moça, magra como um palito de fósforo, deslizada e rodopiava ao redor do moço...

O moço, me lembro da cara dele até hoje. Lindo! Bem, só me lembro disso, que ele era lindo e que eu não conseguia tirar os olhos dele. Meu pequeno coração virgem palpitava e eu suspirava de queixo caído. Foi inevitável resistir a ele. Quem seria ele? Não importava, seria meu príncipe dos sonhos dali por diante. Não pensava em beijos ou abraços, só tinha a imagem dele deslizando sobre o gelo. Nada dele vir até mim e me olhar nos olhos e todo o romance desabrochar pra me fazer feliz para sempre.

Não gostava de contos de fadas, achava sempre muito chato o final com o príncipe vindo e tudo ficaria maravilhoso. Não entendia Romeu e Julieta pela morte dos dois, já que se amavam, por que morrer? A branca de neve eu achava sonsa, e eu queria muito o vestido e os sapatos da Cinderela. Mas nunca me importei com príncipes. Ficava imaginando em minha infantil mente outros finais, outros homens e não príncipes e outros vilões que seriam desmascarados, logo no começo da história, pelas princesas. Me dava uma raiva quando as bruxas ficavam lindas e faziam as mocinhas de bobas! Enfim, desde sempre questionadora e inconformada com o fim proposto pelo autor. "E se acontecesse isso? Ou aquilo?", ficava imaginando. E o pior de tudo, ficava pensando nesse tal "felizes para sempre". O que seria felizes para sempre? O que aconteceria depois, meu Deus do céu? Será que brigavam, que tiveram filhos, que se separaram, que a moça engordou, se o príncipe era rico e não precisava de trabalhar? Ou seja, queria saber o que aconteceria depois do fim.

Claro que a paixonite pelo lindo dos patins acabou rápido, mas depois desse dia deixei as bonecas de lado. Num certo dia, talvez uma semana depois, uma surpresa deu o ar da graça: minha primeira menstruação.

Fiquei assustada, mesmo já sabendo que a qualquer hora ela chegaria. Desconfortável demais! Quem foi daquela época se lembra muito bem como eram os absorventes. Não tinham aquela aderência às calcinhas... Tínhamos de colocar uma calcinha própria pra prendê-los, um horror!

Quando as mulheres de minha família ficaram sabendo fizeram a maior festa. Uma novidade que fiquei perdida. Por que a festa por causa de uma menstruação? "Você agora é uma mocinha, vamos arrumar um namorado pra ela!", exclamavam. Mas o que tem a ver menstruação com namorado? Perguntei isso a todas e nenhuma me respondeu até hoje!

É claro que me lembrei do moço dos patins, lindo, e quem sabe ele seria meu namorado? Tão novinha e já iludida...

O tempo passou e com a menstruação vieram as cólicas. Gente, como eu sofri com cólicas! Chegava a rolar no chão e até a desmaiar! Colocava bolsa quente no ventre, tomava banho pelando, chá de canela, remédios caseiros (naquele tempo não era comum ir logo ao ginecologista) e tudo o que ensinavam pra parar as dores. E nada adiantava. Posso dizer que não senti dores do parto, mas dores de cólicas, ah isso eu sofri muito.

Ainda demorou um tempo pra eu deixar de ser BV (boca virgem), e um pouco mais até o primeiro namorado... Ingênua, como a maioria daquela época, sonhadora, romântica e, claro, questionadora. Ô, raça!

Mas isso é uma outra história.

Uma ótima semana a todos!

segunda-feira, 28 de março de 2016

Minha Doce Fatinha


      Primeira noite de outono, uma ventarola fresca e um buteco movimentado, esse era o cenário perfeito para Vítor desviar do caminho de casa. Queria tudo, menos entrar em casa e encontrar tudo como sempre foi. Mulher, filhos, cheiro de comida invadindo o espaço, rádio ligado no último volume e sua mulher cantarolando num estridente agudo de entupir qualquer tímpano a menos de cem metros. Maria Gorete era a típica dona de casa que nasceu para casar e cuidar dos filhos. Fazia bicos como faxineira nas casas de alguns parentes, mas gostava mesmo era de ficar em casa deixando tudo brilhando e cheiroso. Mas, depois de mais de vinte anos, o amor da vida de Vítor apareceu assim, do nada, com o mesmo sorriso avassalador e os olhos pequenos e castanhos de tirar o prumo de qualquer cidadão decente.

      "O tempo passou muito rápido e a danada continua linda e sedutora...", pensava cabisbaixo e sem vontade para disfarçar sua paixão platônica. Por acaso entrara em uma padaria e, de costas, lá estava Fatinha de cintura fina e coxas grossas, sendo atendida no balcão. Não sabia explicar como tivera coordenação para colocar um pé após o outro e caminhar até ela. O perfume continuava marcante, mas apesar de tudo aquilo que Fatinha tinha, ainda deixava rastro por onde andava. Como era linda e meiga a escolhida para ocupar o podium de seu coração! Tocou seu ombro e, com um sorriso acanhado, esperou pela triunfal virada de pescoço até encontrar seus olhos. "Meu Deus, vou ter um treco aqui", pensava, tremendo dos pés à cabeça ao cumprimentá-la.

      — Vítor, quanto tempo, rapaz, sumido! Como vai? O que faz por aqui? — Fatinha encheu ele de perguntas, segurando sua mão demoradamente.

      — Eu moro aqui neste bairro, logo ali na rua de baixo. E você, o que faz perdida por aqui? Queria ser encontrada por mim? — ao dizer tal ousadia, corou e sorriu acanhado.

      — Vim num cliente aqui do lado e aproveitei pra comprar um lanchinho. — apressadamente guardou a niqueira na bolsa e já se preparou para sair da padaria. — Tchau! Muito bom te encontrar! E aí, está casado, filhos, netos? — perguntava, enquanto caminhava para a saída da padaria.

      — Tudo isso daí, sem netos ainda. — foi o que conseguiu responder sem falar grego e Fatinha não entender nada.

      Vítor apoiou-se no balcão, respirou fundo e uma lágrima escorreu pelo rosto. Era fato que ninguém, ou melhor, ela não sabia de seu amor. Muito tímido para confissões amorosas aos dezoito anos. Trabalharam juntos em um escritório de contabilidade e Vítor fazia questão de adoçar o dia de Fatinha levando balas, chocolates, doces e tudo o que a fizesse sorrir para ele. Não conseguia começar a lida sem antes ouvir o "obrigada, menino" de sua amada. Já havia planejado tudo, arrumaria um emprego melhor, pediria ela em casamento, lua de mel na praia e felizes para sempre. Só não contava que antes da realização do sonho um certo Junior, não se lembrava do primeiro nome e nem fazia questão de saber, cruzar seu caminho e roubar sua amada. Tudo muito rápido, como um príncipe montado em seu cavalo branco que arrancava a donzela de seus braços colocando-a na garupa e sumisse para sempre.

      — Também, loiro de olhos azuis, é muita sacanagem pra mim. — pensava meneando a cabeça ainda inconformado pela brutal perda amorosa.

      Fatinha não se casou com Junior, pois o escolhido foi outro que Vítor preferiu nem se informar.

      O tempo passou e ele se casou com a primeira boa moça que encontrou pela frente. Amava e respeitava Maria, mais respeitava do que amava. Não havia do que reclamar e a vida que tinha era tudo o que sempre planejara. Mas a escolhida era outra mulher, Fatinha, a morena dos seus sonhos, a meiga e doce Fatinha de cintura fina e coxas grossas, que se equilibrava num salto alto e que encaixava perfeitamente o corpo num vestido justo com um rasgado até o meio da coxa. Provocava sem perceber. Só por caminhar já provocava. Era sabido que os homens babavam por aquele andar com jogo de quadris para lá e para cá. Sempre sorridente e atenciosa, não havia sequer alma masculina que não a desejasse. Mas era com Vítor que ela deveria ter se casado e não com outro qualquer. Imagina se esse outro qualquer a fizesse chorar sequer um dia? Com Vítor não aconteceria nada disso. Seria sua rainha e ele seu subordinado. A rotina de adoçar-lhe a vida seria constante. Seria respeitador com ela, pois faria questão de colocá-la numa redoma de cristal só para admirá-la cada vez mais. Sonhava com aqueles lábios e no frescor da juventude ficava horas ensaiando um beijo perfeito, fazendo sua mão de cobaia. E abria os lábios, fechava, mordia a carne da mão que ficava entre o dedão e o indicador, sussurrando palavras ousadas e declarando doçuras eternas.

      Ninguém sabia de seus sentimentos, só Deus, que não se sabe porquê, não atendeu seu pedido. Só queria Fatinha e ninguém mais. Ainda doía esse amor, ainda o coração palpitava e o tremor invadia suas pernas, ainda sua boca ficava seca e seus olhos vidrados no rosto da amada. Ainda sabia disfarçar seu olhar quando descia aos seios e rapidamente ao ventre. Ainda amava Fatinha mais do que a própria vida...

      Sentado na mesa do bar e acompanhado por desconhecidos, confessou sua paixão por uma rainha inatingível: Coçava a cabeça bagunçando os cabelos e dando tapas, como modo de extravasar a tortura de tê-la mais uma vez tão perto e continuar tão distante. A verdade era que ficava paralisado diante de Fatinha. Seu sorriso era como um punhal a cortar-lhe os ligamentos nervosos e tirar-lhe toda a coragem de macho que deseja sua presa. "Por que, meu Deus, o Senhor colocou ela na minha frente de novo? É pra humilhar, né? Provocar e me fazer o mais frouxo dos homens, é isso, Deus?". Indagava inconformado.

      — Mas caso de que cê não garrou ela de vez, hoje mesmo? Quem sabe ela gostava? Tinha que segurar no pescoço dela e tascar um beijo na boca, uai! — esbravejou um.

      — Cê nem perguntou onde ela mora pra mandar presente pra ela, meu amigo? — tentava consolar outro, que mal enxergava o copo em que estava a sua frente.

      Depois de beber bastante, Vítor chorou como uma criança, jogou algumas notas na mesa e saiu. Voltou para casa, se trancou no quarto, fechou os olhos e dormiu. Maria nem quis incomodá-lo. Apenas jogou um cobertor por cima, beijou-lhe a testa e sorriu.

      No outro dia tudo recomeçaria, voltaria ao trabalho, passaria na padaria para ver se teria a sorte de se encontrar com Fatinha mais uma vez e quem sabe se declarar a ela.

      Talvez esse encontro se tornaria uma rotina, talvez nunca mais a veria, mas Vítor sabia que esse amor morreria com ele.

                                                                                                                                                             Fim



   

segunda-feira, 7 de março de 2016

O Dia da Mulher É O Dia Que Ela Quiser


Poderia ter colocado aqui uma foto com uma rosa, ou então uma imagem cor de rosa, mas nem todas gostam de flores ou usam cor de rosa.

Também poderia colocar um salto quinze e um batom vermelho, mas há quem prefira um par de tênis e lábios naturais.

Mulheres que lutam ou que não lutam, independente de como vivem, todos os dias é o dia da mulher, como lemos por aí.

E é verdade!

Cada uma a seu jeito, com sua história, sua família ou somente seus amigos, todas merecem escolher um dia somente para si. Às vezes, além de sermos esquecidas, também nos esquecemos de que precisamos de cuidados e que nem sempre podemos contar com o externo para nos preencher. Sem generalizar, mas temos aquele instinto cuidador, acolhedor, protetor de querer tornar a vida do outro mais tranquila e acabamos nos deixando para depois, bem depois.

E um belo dia acordamos em contagem regressiva, com medo de não dar tempo de realizar um sonho, conhecer uma cidade nova, estudar, trabalhar por conta, enfim, o tempo não para.

É importante se olhar no espelho e se sentir bela, mesmo não sendo o padrão de beleza imposto em todos os lugares. Não é egoísmo pensar em si e querer o melhor, isso é autoestima. E não é machismo também não!

"Mulher se arruma para outra mulher". Também acho, mas nem sempre. Quantas vezes você ligou para a amiga para perguntar com qual roupa ela iria na festa? Melhor é se sentir bem com a roupa que lhe cai bem.

Melhor é se impor, fazer escolhas, saber dizer não, ousar se colocar à frente de decisões, se autossustentar, comer sem culpa, rir de si mesma, se perdoar, ter a certeza de que o que os outros pensam a seu respeito é problema deles e não seu,

Se cuidar, viver com leveza, harmonia, honestidade e, claro, uma pitadinha de pimenta que não faz mal a ninguém.

Não aceite menos do que você merece. O que você merece?

Seja única, exclusiva, como está escrito que é.

Seja feliz! É isso que importa!

domingo, 29 de novembro de 2015

AMOR OU PAVOR?



      Joana chegou à casa de sua mãe logo após o meio dia e encontrou Lucimara chorando, deitada em sua cama. Ficou preocupada, pois nunca havia presenciado um choro da irmã num lugar tão óbvio. Sabia que quando tinha seus sofrimentos, era na hora do banho, debaixo do chuveiro, que desabafava. Sabia disso pois o nariz e os olhos ficavam avermelhados.. Sentou-se na beira da cama, pegou em sua mão e começou a conversar, sem perguntar nada; apenas conversar. Essa atitude fez com que Lucimara desabafasse com a irmã. Joana era muito mais que irmã; era uma amiga, uma mãe para todas as horas. Havia se casado há pouco mais de um ano, o que fez com que Lucimara sofresse pela falta de sua companheira amada..

      Lucimara não combinava com os pais; viviam discutindo por causa das brigas entre os dois. Tinham o hábito de agredirem-se o tempo todo com palavras ofensivas e grosseiras. Era meiga, calma, terna e a atitude dos pais deixava-a infeliz. Ainda bem que tinha um apoio carinhoso de sua irmã mais velha, Joana, que cuidava dela como se fosse uma filha.

      Aos poucos, Lucimara conseguiu se abrir comentando que os pais haviam comprado uma casa, num bairro bem distante daquele em que moravam, e que para ela seria inviável continuar estudando numa cidade próxima, indo e vindo todos os dias, no período noturno. Não teria como voltar para casa se fosse morar num lugar muito longe. E o pior, ela foi a última a saber da mudança. Joana não sabia que os pais não haviam contado para a irmã, pois já era sabido por todos sobre a compra da casa; por isso não comentou nada até aquele dia. Praticamente teria que arrumar as coisas de um dia para outro. Isso deixou-a chateada. Pensava até em morar sozinha, em algum quarto de pensão ou dividir um cômodo com outra amiga, quem sabe? Lucimara tinha um bom trabalho, ganhava razoavelmente bem e teria como se sustentar. Os planos já estavam em andamento e sutilmente comentou sobre eles com Joana.

      Na mesma hora Joana interrompeu-a tranquilizando-a, pois ela poderia arrumar as malas e se mudar para a sua casa. Lucimara relutou, pois não queria incomodar a irmã recém casada. Sabia que o período de adaptação de uma vida a dois não era fácil, e ter uma terceira pessoa, uma intrusa, por perto, atrapalharia o costume que ainda não havia se concretizado.

      Mas, com a insistência de Joana, Lucimara aceitou o convite com a condição de ajudar nas despesas. Feito o acordo, arrumou as malas e mudou-se naquela mesma semana. Os pais pouco se importaram pela atitude da filha mais nova, sempre deixara-a livre para escolher o que lhe fosse melhor. Essa atitude era vista como descaso e indiferença por Lucimara, que muitas vezes se sentia rejeitada e pensava até não ser uma filha legítima. Vez ou outra procurava traços que fizessem com que acreditasse ter o mesmo sangue de seus pais. Na infância chorava escondida, se sentia rejeitada e feia, mas conseguiu superar boa parte desse sentimento. Os pais mudaram-se também, duas semanas depois.

      Lucimara era uma moça linda, que chamava a atenção de todos, mas não por sua beleza, mas por seu modo de agir e suas atitudes firmes e corretas. Seus pais sempre ouviam elogios sobre ela, e alguns até parabenizavam pela boa educação dada à caçula. Joana amava a irmã, mas não escondia de ninguém que tinha uma pontinha de inveja, pois nunca ouvira nenhum elogio a seu respeito, como ouvira tantas vezes sobre a irmã. Gostava de tê-la por perto, mas às vezes gostaria de trancá-la num cômodo e jogar as chaves fora. Enquanto isso, Lucimara ansiava pela inteligência de Joana, que sempre teve facilidade com os números, com a matemática e com os cálculos. Nunca conversaram sobre esse assunto, nunca se elogiaram em nada, apenas uma cuidava da outra e a outra se sentia segura ao seu lado.

      A vida em família caminhava tranquilamente, já que Lucimara ficava pouco em casa, pois trabalhava o dia todo e estudava à noite. Mas nas festas que o casal promovia, era Lucimara quem chamava a atenção de todos, deixando Joana muito intrigada. Seu esposo, Waldir, ficava de olho na cunhada, apesar de sempre respeitá-la.. Numa dessas festas, ouviu um comentário dele com um amigo, que a grama do vizinho era sempre melhor do que a grama de sua própria casa, e olhou para a cunhada e os dois caíram na risada. Isso deixou Joana inconformada! Será que havia colocado uma cobra traiçoeira dentro de casa? Depois desse episódio, começou a olhar Lucimara com outros olhos. Olhos de revolta, de inveja, de ódio, de arrependimento.

      Joana ficava pelos cantos ouvindo conversas e vasculhando as gavetas da irmã, cheirava a roupa do marido e mexia em seu celular para ver se encontrava alguma pista de uma possível traição. Já tinha um discurso pronto para quando chegasse o dia da descoberta. Não havia mais sossego e nem conversa amigável entre as duas. Lucimara não entendia a atitude da irmã, sugerindo até que procurasse ajuda médica. Joana soltou um grito quando ouviu tal insinuação: onde já se viu, querer afastá-la de sua própria casa, para desfrutar de um prazer em sua cama? Isso a incomodava muito e fazia com que imaginasse cenas dos dois nos quatro cantos da casa, escondidos, aos beijos e abraços. Imaginava pega-los no flagrante e cometer uma loucura caso isso acontecesse. Quantas e quantas vezes chegou pé ante pé no quarto da irmã só para verificar se estava mesmo dormindo sozinha, ou se seu marido não teria se infiltrado para tê-la nos braços, escondido dela.

      A situação estava cada dia mais insuportável, porém o final do ano se aproximava e Lucimara poderia seguir seu rumo, ou naquela cidade, ou em outra, caso conseguisse um bom emprego na área de sua formação.

      Chegado o dia da formatura, Lucimara estava exuberante e Joana num misto de amargura e alívio de se ver livre da irmã o quanto antes, de preferência no dia seguinte. Não lhe desejava o mal, mas queria-a longe de sua casa. Os pais não compareceram à formatura,  pois sendo em outra cidade e por serem idosos, ficariam cansados. Lucimara achou melhor assim, pois estava muito feliz por conseguir concluir uma etapa tão importante e não queria presenciar brigas na frente de todos, num dia em que era para ser comemorado.

      No outro dia, Lucimara feliz agradeceu à irmã e ao cunhado pela hospedagem durante o ano, e disse que na próxima semana se mudaria para um pequeno apartamento que iria dividir com uma amiga do mesmo curso.

      Joana não pensou duas vezes, abraçou a irmã, mas não com aquele amor cuidador, mas com um alívio de que seu casamento estaria a salvo daquela mulher linda que todos admiravam, mas que ofuscavam-na; e estando longe, seu reinado continuaria como era há um ano. Poderia respirar aliviada e já planejava se afastar da irmã. Já estava encaminhada e não necessitaria mais de apoio ou de atenção. Quem sabe até mudaria de cidade e seria feliz bem longe dos olhos de seu Waldir.

      E assim foi feito: Lucimara mudou-se e Joana voltou a ser a esposa dedicada e amada de Waldir. Mas a dúvida de uma provável traição continuou a perturbar-lhe. Nenhuma pista, nenhuma prova, nenhum cheiro ou marca de batom, nem nada! Resolveu deixar para lá. Já estava longe mesmo e Waldir continuava o mesmo de sempre, carinhoso, atencioso e com desejos pela esposa. Mas, se Joana encontrasse uma poeirinha sequer de traição, não mediria esforços para causar um estrago na vida de todos. Começaria pela irmã traidora que, além de perturbar-lhe a paz no lar, ainda roubara-lhe um pouco de Waldir. Brigaria até com os pais, por não ter corrigido a irmã mais nova enquanto era tempo. Deixara-a ao vento, que por sua própria conta levava-a onde bem entendesse e quisesse. Para Joana, Waldir era homem, e homem não resiste. Cabe à mulher conter-se e se portar com bons modos, como manda o figurino.

      A vida como ela é...

      Texto publicado em 18/06/2012 ´Editado