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terça-feira, 15 de março de 2022

O BAILE

 


Um pouco de romance...

Gentilmente Edu levantou-se, postou-se à frente de Vivi estendendo-lhe a mão, convidando-a a dançar. A música romântica era impossível de ser ignorada. Realmente difícil não ser contagiado pela melodia.
Vivi fechou os olhos e ficou alguns segundos sentindo a música, estendeu o braço apoiando sua mão na dele, abriu os olhos, sorriu, levantou-se, apoiou suas mãos nos ombros dele. Vivi sentiu sendo abraçada pela cintura e lentamente começaram a dançar no ritmo lento da música.
Ele olhava-a com amor, buscando cada centímetro do rosto dela, como se estivesse decorando pra nunca mais esquecer... Os olhos inquietos dele pareciam ler os pensamentos dela e ao mesmo tempo esboçava um leve sorriso por estar diante da mulher mais linda que seus olhos já puderam ver em toda a vida. Podemos dizer que o amor transbordava em cada centímetro deles.
Vivi sentia suas bochechas queimarem ao ser olhada de tão perto e tão profundamente. Edu tinha o corpo atlético, barbudo, nariz pontiagudo e com uma doçura e gentileza que só quem estivesse bem perto dele perceberia. 
Ela disfarçava olhando para os lábios dele, para o rosto, que era escondido pela barba, os cabelos, sobrancelhas e depois ousava encará-lo. Seus pensamentos se perdiam nos olhos dele...
Aos poucos ela foi se acostumando com a sensação de ser observada de tão perto, tão profundamente, ao ponto de esquecer-se que estava em um lugar público. Sentia seus pés tão leves como se estivessem tocando a areia fofa da praia, e o toque das mãos de Edu em suas costas lhe conduziam a uma viagem de entrega, com a respiração bem lenta, como se quisesse congelar aquele momento.
Aos poucos foram se aproximando cada vez mais, a ponto de quase se beijarem... Vivi fechou os olhos e praticamente ofereceu seus lábios. Edu, como um bom cavalheiro, apenas chegou mais perto, porém sem encostar seus lábios nos dela. Vivi abriu os olhos, sorriu e entendeu o gesto e apenas encostou sua cabeça no peito largo dele. A vida dela caberia todinha naquele peito forte...
A medida em que dançavam, mais ela se encaixava nele...
Edu, com cuidado, tocou os cabelos longos dela, bem no rumo de sua nuca, fazendo com que ela soltasse um suspiro profundo...
E assim permaneceram até o final da música, encantados. Continuaram abraçados enquanto os outros casais tomavam seus lugares nas mesas.
Já era tarde e Vivi concluiu que aquela seria a última música do baile.
Por fim se afastaram, conversaram algumas palavras, voltaram para a mesa e logo foram embora, juntos.

Às vezes nos esquecemos de sentir os momentos especiais, não importando o local, nem se estamos sendo observados. A vida nos proporciona momentos indescritíveis, maravilhosos, que podem durar apenas alguns minutos, praticamente o mesmo tempo de uma música, e nem percebemos.

Clara Lúcia



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

A ROSA DO LIVRO



Quando abriu o livro, um aroma adocicado com pitadas de poeira dançou no ar...
Lílian esboçou um sorriso, fechou os olhos tentando remeter os pensamentos até o nascimento daquela rosa amarela, que gentilmente acomodou-se dentro do livro por anos.
Lílian, com o livro aberto, sentou-se na poltrona que ficava perto da janela, onde mostrava um roseiral com brotos amarelos, despontando.
Era final de tarde e o céu em tons de vermelho alaranjado começava a retirar as sombras dando lugar ao anoitecer calmamente.
Lílian, sentada e com o livro apoiado sobre suas coxas, pegou a rosa seca e tentou tirar um pouco mais de perfume, porém parecia que o pouco que restava sumiu no ar ao abrir o livro.
Mais uma vez ela fechou os olhos e tentou encontrar os olhos dele...
Rapidamente fez as contas e já havia se passado mais de dez anos. Ainda conseguia sentir o tanto que aquele olhar penetrava em sua alma. Era como se lesse sua mente alcançando seus mais profundos desejos. Ela lembrou que ficava corada quando ele provocava isso nela.
Depois do olhar, um sorriso malicioso... E a aproximação para um beijo, somente um toque nos lábios, só pra provocar mesmo. Era o suficiente para Lílian sentir as pernas bambas e o estômago borbulhar. 
Nunca mais teve notícias dele.
Num impulso, pegou o celular e foi pesquisar na internet, em redes sociais, todos os lugares possíveis. Não encontrou nada. A morte lhe veio à cabeça. Será? Pensou ela.
Respirou fundo, disse a si mesma que era besteira pensar no mal, que ele poderia muito bem ter vida fora da internet, ou então usar um apelido, ou ter conta conjunta com alguém...
Mais uma vez mudou o pensamento, não queria quebrar o encanto daquele olhar que tanto a desestabilizava. 
Era o amor da vida dela, que não foi vivido, mas foi procurado em muitos outros olhares. Alguma coisa nos outros teria ele, e ela encontrava... 
Por vários momentos eles se topavam em algum lugar, e uma dessas topadas, ele a presenteou com essa rosa. Ou era em supermercado, em shopping, em alguma loja, na rua, e depois ficavam um bom tempo sem terem notícias um do outro. Até não ter mais notícia nenhuma.
Talvez fosse bom por isso, por não haver convivência por muito tempo. Não criou o hábito de reparar e criticar os defeitos. Talvez esse seria o encanto de amores da vida.
Lílian colocou a rosa dentro do livro, fechou e guardou ele na estante. Se é amor eterno, que seja guardado eternamente.
Lílian parou frente a janela e observou as roseiras, fechou os olhos e encontrou os olhos dele, penetrando em seu corpo, tirando seu fôlego, sua paz, a boca seca... Saudades.

Clara Lúcia



 

domingo, 26 de setembro de 2021

A MULHER DE CARLOS


 Foto de Sarah Chai no Pexels


— Amor, vai no banco e resolve a pendência desse contrato pra mim? Fale diretamente com Juarez, ele tá te esperando às 09h em ponto - ordenou Carlos para sua mulher.

Ela consentiu com a cabeça e continuou tomando seu café calmamente enquanto terminava de lavar a louça do café da manhã. Ainda tinha um tempo pra se arrumar e chegar até o banco.

No caminho da cozinha pro quarto, ela se lembrou que havia combinado de levar sua mãe até o centro da cidade para comprar roupas íntimas, que estava precisando. Como não era urgente, apenas passou uma mensagem pelo celular não esperando a resposta dela, agendando pro outro dia.

Tomou um banho rápido, reclamou com o espelho sobre a situação do seus cabelos, então fez um coque caprichado, maquiou-se discretamente, algumas gotas de perfume na nuca, vestido confortável e scarpins, pois iria num local onde as mulheres estariam vestidas pra matar. Não entendia como elas conseguiam se sustentar o dia inteiro no salto, e achava isso muito chique, por isso usava sempre seu scarpin azul marinho quando precisava ir ao banco resolver pendências pro seu marido.

Já dentro do carro lembrou-se que não havia colocado brincos. Imagina, coque e sem brincos, nunca! Voltou, colocou os brincos longos dourados em forma de cascata e sorriu pra sua imagem no espelho.

Agradeceu por achar uma vaga fácil pra estacionar, cumprimentou o porteiro e depois o segurança dentro do banco. Perguntou por Juarez enquanto corria os olhos por todo o espaço tentando adivinhar quem seria esse homem que nunca havia visto. O segurança apontou o homem de meia-idade, calvo e grisalho, que atendia numa mesa no fundo do salão.

Ela, andando como uma modelo na passarela, queixo levantado, chegou até a mesa de Juarez cumprimentando-o e aguardando ele estender a mão primeiro. E assim foi feito.

Ela não percebeu, mas algumas pessoas olhavam pra ela admirando o modo como deslizava ao caminhar, sem falar no charme que ela era. Realmente ela tinha uma pitada de sensualidade e discrição. Carlos não sentia ciúmes, era um bom marido, provia todas as despesas e tratava-a com respeito e admiração. Era um casal comum.

Resolvida a pendência, antes de chegar em casa passou no supermercado e fez as compras da semana. No trajeto passou na lavanderia, deixou algumas camisas e ternos de Carlos pra serem lavadas a seco, depois foi ao cartório registrar uns documentos que Carlos havia pedido na semana anterior, e do lado do cartório havia uma pastelaria, a preferida dela. Comprou pasteis, dois de carne e dois de queijo e voltou pra casa.

Carlos estava sentado em sua poltrona assistindo ao noticiário na TV, Ela passou por ele levantando a sacola onde estavam os pastéis, fazendo-o sentir o cheiro fresco. Ele voltou-se para ela, sorriu e jogou-lhe um beijo no ar. 

Ela ajeitou a mesa e os dois comeram os pastéis com suco de laranja. Carlos comentou com ela sobre o noticiário regional e mundial, ela ouvia atenta e vez ou outra perguntava algo pra que ele esclarecesse. 

Depois da refeição rápida, que na verdade era o almoço deles, Carlos se aprontou e foi para o escritório. Deu um selinho na mulher, dizendo que a amava. Ela acompanhou-o até a porta, esperando o aceno dele de dentro do carro, até partir.

Imediatamente ela tirou os sapatos, respirou aliviada e a partir de então começaria sua rotina de dona de casa. Mas antes, no notebook, ela atualizou a planilha de clientes de Carlos, que fazia todos os dias. E, claro, navegou por seus sites favoritos, olhou a agenda e respirou aliviada por não precisar mais sair naquele dia.

O celular tocou, era Carlos...

— Amor, eu esqueci minha agenda em cima da minha mesa no escritório. Você traz ela pra mim?

Ela se jogou no sofá com certa preguiça. Não entendia como ele podia esquecer uma agenda em cima da mesa, oras, ele não vivia sem a agenda!

Colocou os sapatos novamente e foi levar a agenda para Carlos.

Entrando no escritório do marido, percebeu os olhares dos funcionários. Todas as vezes esse episódio se repetia e a deixava incomodada. Na verdade eram olhares de admiração, por ser uma bela mulher, com andar sensual, simples, porém muito bem alinhada. Ela cumprimentou a todos timidamente, como de costume.

Carlos era advogado e tinha uma equipe competente que trabalhava pra ele. Ao ver sua mulher com sua agenda, levantou-se, agradeceu, dando-lhe um beijo mais demorado, um abraço carinhoso e mais uma vez disse que a amava. Ela retribuiu o carinho e voltou pra casa.

Chegando em casa, retirou os sapatos, jogou-se no sofá, conferiu as notícias no notebook e logo em seguida foi cuidar de seus afazeres rotineiros.

Essa é a mulher de Carlos.


Clara Lúcia


domingo, 15 de agosto de 2021

COLO

 


Há uns anos, fui a um endocrinologista "arrastada" por uma prima querida, e durante a anamnese me foi perguntado se eu gostava de colo. Fiquei alguns segundos pensando e depois desabei num choro. Não conseguia me lembrar de ter sido afagada num colo. É claro que fui, mas no momento era muita dor num momento estremo de depressão em que eu estava pra me lembrar de colo.

Fiquei perturbada por um bom tempo pensando na minha situação e até angustiada com aqueles que deveriam ter tido mais atenção e cuidado comigo. Mas tiveram, do jeito deles tiveram. 

Com o tempo percebi o quanto as pessoas que não conseguem se expressar sofrem muito mais do que aquelas que procuram por afeto e extravasam num choro sem fim. Imagino como deveria ter sido a infância de meus pais, a escassez, o trabalho duro, falta de infraestrutura, de alimento adequado, de remédios, de cultura e tudo o mais que temos facilidade hoje em dia. Não se davam nem o direito de reclamar ou chorar reclamando de algo.

Eles fizeram o que estava ao alcance deles. Não sei como foi o período do meu nascimento até os meus quatro ou cinco anos, idade mais remota que me lembro. Cresci saudável, nunca passei fome, nem frio, sempre tive onde morar, o que vestir, escola, lazer com amigas das casas vizinhas, enfim, uma infância muito boa.

O que acontece na nossa primeira infância é o que marcará nossa fase adulta, e se passamos por traumas e bloqueios pode ter sido proposital do plano Universal. 

Cobrar atitudes que não sabemos o contexto da época, é puro ego se manifestando. E está tudo bem que seja assim. Podemos, como adultos e com a informação ao nosso alcance, mudar o momento e colher os frutos mais adiante. É assim mesmo, o que passamos hoje é a colheita de ontem.

Em 1950, mais ou menos, a vida regrada era pra poucos. Meus pais eram simples, trabalhadores braçais, renda mínima pra sustentar família com dez pessoas ou mais, sem infância e sem escolaridade (o normal eram cursar até a 4ª série pra não ser classificado como analfabeto). Mesmo assim cada um deles possui uma especialidade que é difícil encontrar hoje em dia. É a tecnologia tomando conta e invadindo nossa mente de forma assustadora e magnífica, o que não existia nos tempos de meus pais.

Até pouco tempo atrás minha filha ainda sentava em meu colo. Já era adulta. Sentava, lamentava algumas palavras e a vida continuava.

O que eu percebi foi o óbvio, não importa se você teve colo, atenção, boa educação e fartura na mesa, os traumas e bloqueios sempre existirão pra serem entendidos e superados.

Você, meu querido leitor, já pensou sobre isso?


Clara Lúcia

sábado, 12 de junho de 2021

O Momento Certo é Agora!


 

— Boa noite, pessoal, bom fim de semana!

— Boa noite, Francisca, vai namorar hoje, né, com essa cara alegre e afoita, só pode! — concluiu Edgar, o engraçadinho da turma da empesa onde trabalhavam.

— Que nada! Nem me lembro mais o que é isso de namorar... Mas tá valendo.

Francisca saiu quase que apressada, no toc-toc do salto fino sobre o piso frio laminado. 

— Boa noite, seu José, bom fim de semana pro senhor! — concluiu sua semana de trabalho com o porteiro do prédio.

Francisca andava apressada, por nenhum motivo, desviando dos buracos na calçada que detonavam os saltos de seus sapatos. Já estava acostumada e reclamar não fazia mais parte de sua rotina. 

Parando numa esquina com o sinal fechado para pedestres, distraída com o comentário de Edgar e sorrindo disfarçadamente, ouviu um "oi". Olhou para o lado e, antes de responder, gelou.

— Nossa, oi, como vai? Há quanto tempo...

— Então, faz anos já... Tudo bem, Francisca?

— Tudo e você?

Silêncio absoluto, apenas os olhos de um trocando mensagens para os olhos do outro. Na verdade o tempo passado foi de quase trinta anos. E a sensação da presença entre eles era como se o tempo não tivesse passado, como se os olhos tivessem se visto a um dia atrás... 

Essa era a sensação de Mônica, que sua maturidade e bom senso pensava ser somente dela. Ela não tinha ideia do susto que o reencontro tenha deixado Pedro completamente fora do prumo, sem saber o que falar... Ele pensava apenas em respirar e olhar nos olhos de Francisca...

Passados alguns segundos, Francisca lembrou-se de cumprimentar Pedro com um beijo no rosto... Ah, o beijo no rosto pra seu descontrole... Tocar naquela barba totalmente branca... Segurou o suspiro pra não demonstrar a ansiedade. Rapidamente olhou para as mãos dele procurando algum vestígio de compromisso. Não encontrou. Sorriu mostrando os dentes e demonstrando satisfação ao vê-lo depois de tantos anos.

Pedro retribuiu o sorriso, olhou Francisca de cima a baixo e continuou sorrindo. Francisca ficou envergonhada e abaixou a cabeça, como se olhasse pra si mesmo conferindo seus trajes. 

— Você mora por aqui, Francisca?

— Não, eu trabalho logo ali na avenida, estou indo pra casa. E você, o que faz por aqui?

— Fui atender um cliente, na avenida também, e estou indo pra casa também. Não na sua, na minha. — Francisca percebeu que o bom humor ainda permanecia nele. Advogado, bem-humorado, amor de sua juventude, e pelo jeito, de sua vida toda.

— Ah, claro... — respondeu, sorrindo pra ele.

— Você tem algum compromisso agora?

— Não.

— Então vamos tomar um café ali na Rua do Comércio, uma cafeteria nova, de um cliente meu. — Ela percebeu que ele não a convidou, mas a intimou a ir.

— Vamos sim.

A atitude, agora com mais maturidade, o bom humor entre os dois continuava o mesmo. A cumplicidade de sempre, as conversas calibradas numa seriedade superficial quando na verdade cada um queria ouvir o que o outro teria a oferecer naquele curto espaço de tempo. O encantamento continuava o mesmo e em certo momento questionaram o motivo do afastamento quando eram jovens. Não sabiam o motivo, ou não se lembravam, ou não queriam admitir que não estavam a fim de compromisso na época da juventude.

Um primeiro beijo aconteceu. O mesmo gosto, a mesma sensação de unidade do casal. Talvez agora seria o momento certo pro relacionamento acontecer.

Para Francisca, o momento estava sendo agora, e a todo instante seria agora, amanhã seria agora e assim por todo o futuro.

Encontros e reencontros, sempre acontecem no momento presente. E assim está feito!


Clara Lúcia


segunda-feira, 7 de junho de 2021

Julie e John


 No começo foi difícil a adaptação, o primeiro ano de casamento é complicado, cada um com seus defeitos, manias e querendo que prevaleça o seu modo, arrependimento e vontade de cair fora. Ela também já me confessou essa vontade.

Agora, olhando a cama ocupada por Julie, que ainda dorme profundamente e de vez em quando solta um ronco mais forte, sinto que ter me casado com ela foi a melhor, ou uma das melhores atitudes que tive na vida!

Hoje completamos cinco anos de casados, defeitos totalmente encaixados um no outro, companheirismo alinhado e ela cada vez mais linda e suave... Nem tanto. 

Que delicadeza em forma de fêmea!

Incrível como ela me surpreende onde nem posso imaginar! 

Seja com algum comentário, ou alguma roupa que ela coloca, ou algum gesto, mas o mais incrível nesses cinco anos é assistir Julie acordar... Cara...

Ela solta um suspiro bem profundo, abre os olhos lentamente, pisca várias vezes, depois fecha eles, fica imóvel e de repente abre os dois duma vez, como se estivesse atrasada pra algum compromisso... Olha pro meu lado da cama pra conferir se estou dormindo e num ritmo orquestrado, alonga todo o corpo por alguns segundos...

Novamente procura meus olhos e sorri lindamente,,,

Como não amar?

TPM, tristeza, ansiedade, nada disso é obstáculo entre nós. Sei que também tenho meus momentos de vazio, e tá tudo bem, aliás eu confesso que sou bem chato às vezes.

Cinco anos de casamento, resort maravilhoso, chuvinha no verão, comida típica de praianos, e Julie, acordando e dormindo ao meu lado...

Então, aproveitando todo esse clima romântico, que daqui a pouco a fera (sim, essa parte a gente não conta) desperta e salve-me quem puder!

"John"



sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

2021 - O Ano

?

 O que esperar de 2021?

- Bons pensamentos para termos bons resultados;

- Bons projetos para que tenhamos uma excelente prosperidade;

- Boa alimentação, para que nossa saúde seja perfeita para vivermos até o último suspiro sem nenhuma sequela;

- Meditação todos os dias, para nos encontrar com Deus;

- Bons amigos que nos incentivem ou que, pelo menos, não nos desanime para o que temos planejado;

- Capacidade para aceitar o outro como ele é;

- Capacidade de perdoar, não importa o quê;

- Amar incondicionalmente, nos enxergar  no outro;

- Amar o trabalho do momento, para que possamos estar felizes e prosperar;

- Entregar além do solicitado;

- Ajudar ao próximo, sem julgar o que o próximo fará com nossa ajuda;

- Ajudar quem quer ser ajudado;

- Espalhar coisas boas, para essas coisas boas venham até nós;

- Estudar o que nos propusermos, para estarmos o menos manipulável possível;

- Pesquisar várias fontes de informações para tirarmos nossa própria conclusão;

- Ler bons livros para expandir nossa mente e estarmos mais preparados para os desafios da vida;

- Aceitar que as pessoas morrem e um dia esse momento chegará pra nós;

- Aceitar que não temos o controle sobre nada nessa vida, nem em nossos pensamentos;

- Aceitar que cada um tem seu momento e deve ser respeitado;

- Agradecer por tudo que está a nossa disposição para desfrute;

- Lembrar todos os dias que somos feitos à imagem e semelhança de Deus;

- Podemos acessar qualquer tipo de informação, basta querer e agir;

- Aceitar que tudo começa e termina em nós;

- Deus é bom e misericordioso e nos trata como um Pai amoroso;

- Ter a certeza que tudo começa e termina em nós, porque somos seres eletromagnéticos;

- Saber que existe reação a toda nossa ação;

- Saber que o grande propósito do ser humano e relacionar-se com o outros seres humanos;

- Saber que estamos aqui para sermos felizes, amar e sermos amados, ajudar e sermos ajudados.


Um excelente Ano Novo para todos!





quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Eu e minhas dores

 


Muito se tem falado dessa geração mimizenta, que não suporta nenhum tipo de contrariedade. Porém, nos tempos passados, não era tão diferente.

Meus avós sofreram muito, pois tudo que precisavam era sofrido. Tudo era dificultoso, longínquo, dolorido, escasso... E essa situação fez com que na mente deles e de seus descendentes ficasse registrado que a vida é dura, sofrida, escassa, que pra ter uma suposta estabilidade tinha que trabalhar muito duro e ter a garantia de um emprego fixo.

Hoje, essa geração é assim também, só que, em vez de achar que tudo tem que ser sofrido, prefere achar que tudo tem que ser fácil, sem o mínimo esforço e que seja feita sua vontade. Além de ser cheia de dores e vitimistas. Nenhuma das duas gerações estão certas ou erradas. Apenas fases vividas, épocas diferentes, que seguem tradições impostas.

 A internet facilitou muito a vida de todos, e, sendo muito bem usada, é um veículo fabuloso pra ser navegado.

Por falar nisso, vocês tem consciência de que estamos em plena Revolução Digital?

Voltando a esse tempo de gente dolorida...

Pra fazer parte da vida, muitos se juntam a grupos ou gangues, ou seja lá o que for. O pior é esperar desses agrupadores a salvação coletiva. Não terá. Nem do governo, nem da religião, nem do guru, nem do ator famoso que prega a salvação da Amazônia e não tem noção de que lá há interesses mundiais do que está abaixo da terra. Mas esse é um outro assunto.

Quando sentimos algum incômodo, algum tipo de dor ou sofrimento, não há como transferi-lo para outras pessoas. Somente nós passamos com o que acontece conosco. Pra você, isso não quer dizer nada? Ou será que chegou à conclusão de que somos nós por nós mesmos? Nós e nosso poder sobre nós e sobre tudo que há na Terra? Nós e nossa mente poderosa capaz de decidir como será nossa vida e nosso entorno?

Qual o motivo de pensarmos que não devemos sofrer anulando algum incômodo?

Se temos sentimentos, qual é a lógica de camuflarmos só para não nos chatearmos ou sofrermos? 

Alguém já disse que a dor nos faz crescer. Bem, de todo jeito cresceremos, com dor ou sem dor. Ninguém fica estacionado ou evoluído por sentir dor ou alegria. Crescer é uma lei da natureza.

Vejam bem, quando existe alguém (sempre existe e sempre existirá) que nos incomoda, que entra dentro de nosso ser e nos faz colocar pra fora o que temos de mais dolorido, certamente não foi esse alguém que nos colocou naquela situação. Fomos nós mesmos. O que tem na pessoa que ressoa em nós e que dói tanto? Será o espelhamento? Nos vemos na outra pessoa e isso nos machuca? Ou será que a outra pessoa faz exatamente o que gostaríamos de fazer ou tem a coragem de agir de uma certo modo e nós não temos essa coragem, portanto nos incomoda?

Até os seis anos é nossa fase de aprendizado, de captar absolutamente tudo que vai definir nossos próximos anos. E o que acontece, e que também faz parte da natureza humana, é absorvermos medo, angústia, crença (lá vem falar de crença de novo. Sim, se é crença, não tem outra denominação que a substitua), paradigmas, céu, inferno etc.

E assim nosso mundo gira em torno de nós mesmos. O que vivemos é o que acreditamos que exista. Se não temos acesso, não existe. É simples. E esse mundo é povoado pelas pessoas próximas que vivem conosco. Todos na mesma sintonia. E assim são criados e nomeados os grupos: os pobres, os ricos, os empresários, os atores, os advogados, os médicos enfim. E geralmente não se misturam. 

Por que falo sobre esse assunto? 

Em plena Revolução Digital nunca em todos os tempos tivemos tanto acesso à informações, à sabedoria, às notícias, os mundos, tudo!

E aquela bolha que nos limitava a viver somente o entorno, estourou. O acesso a tudo é para todos a qualquer momento, e o que você consegue acessar, acredite, você pode alcançar. Como? 

Imagine uma pessoa humilde que, em vez de ficar dentro da bolha, resolveu desbravar as mentes diferentes e seguir o mesmo caminho daqueles que vivem num outro mundo. E chegou ao outro mundo. Por que somente alguns chegam a lugares que fogem de seu padrão de vida e outros ficam estacionados?

Pelo medo.

Medo de não dar certo, medo de arriscar, medo de decepcionar pai e mãe, medo de pensar diferente, medo de fracassar, medo de ser julgado, medo da instabilidade, medo de passar fome, medo de se machucar, principalmente machucar as emoções, medo do castigo de Deus, medo de ficar doente, medo de ficar sozinho, medo de assalto, medo de sofrer, medo de prosperar, medo de ficar rico, pois rico "não presta", medo de aparecer, medo de ficar famoso, medo de ser criticado, medo de perder pessoas amadas, medo de morrer.

Se juntar todos os medos, chegamos ao medo de morrer. Medo do desconhecido que é a morte. Medo de ficar doente e morrer, medo de ficar sozinho e morrer e não ter ninguém por perto, medo da instabilidade e passar fome e morrer, medo do castigo de Deus e ir pro inferno quando morrer, medo de ser criticado e não suportar a dor e morrer, ou se matar, medo de ser assaltado e morrer, medo de fracassar, ser a chacota da família, não ter apoio de ninguém e nem como se sustentar, e morrer, medo de ficar rico e morrer assassinado, medo de se machucar e ter alguma complicação e morrer, medo de perder pai e mãe e não ter mais ninguém no mundo, e morrer, enfim.

O medo faz parte da vida, só não podemos ficar travados por causa dele. O amor é capaz de anular o medo. Qual o amor? O amor que Deus sente por nós! Nos sentirmos amados por Ele e nos entregarmos, assim como uma criança pula de um lugar alto para os braços de seu pai...

A morte é natural na vida humana.

Uma vez ouvi um amigo dizer que tinha medo de morrer e deixar a filha sozinha... Eu perguntei por qual motivo ele imaginava que a filha iria ficar de braços cruzados, definhando, até morrer? Ele se assustou e concordou comigo.

Eu já tive depressão e síndrome do pânico e sei muito bem qual é a etapa da dor e do medo. É insuportável! Mas depois de superado, percebi que tudo dependia de mim. Eu decidi alimentar minha dor, e queria alimentar mesmo, inconscientemente. Me torne vítima de meus pensamentos e de minhas atitudes. E confesso que há pouco tempo que realmente aceitei que tinha atitudes de vítima e não de protagonista. Quando entendemos o processo, é bem mais fácil retomar o poder a nós destinado por Deus.

Escrevi tudo isso pra falar pra você que esse medo que você tem, esse sofrimento que não acaba mais, e até essa alegria inabalável é a cura de várias outras pessoas, e através dessas outras pessoas, é sua cura também.

Quantas pessoas você teve notícia de que perdeu filho, pai, mãe, emprego, e a partir de então desenvolveu uma maneira de ajudar quem sofre pelo mesmo motivo? É esse o sentido de todos nós.

É esse o propósito. Se curar através da cura do outro. Ou seja, tudo está em você. Tudo começa e termina em você.

- Clara, por que tenho que ajudar os outros, se ninguém nunca me ajudou?

Porque estamos todos interligados e somente nos curamos através da cura do outro. Porque o outro que está bem próximo a nós é nosso espelho a refletir o que devemos enxergar e canalizar a energia em atitudes de ajuda ao próximo. Nós sabemos o caminho de entrada e saída. Nem todos sabem esse caminho.

VAMOS, RAPAZ, GAROTA, SAIA DA BOLHA E DESBRAVE O MUNDO!

Basta um clique pra conhecer milhares e milhões de situações nunca imaginadas, mas que existem! E você aí preocupado em não magoar o outro, se magoando e dizendo sim a todo momento. É sua autotraição. Certamente conviverá com pessoas traidoras... Você se trai... E atrai exatamente o que você é.

"Ah, mas eu nunca fiz mal a ninguém". MAS FAZ MAL A VOCÊ MESMA! Se trai, boicota suas vontades, faz o que os outros determinam pra você e se pune por não ter obedecido!

Meu Deus do céu!

Meus queridos, somos únicos e essenciais nessa vida, podemos dizer sim e não quando queremos dizer sim e não. Que importa o que dizem de nós? A crítica é única e exclusiva pra quem solta a crítica. E pegamos, sem ser nossa... E ficamos doentes, e com medo, e morremos. 

- Clara, porque tenho que dar um clique, se estou bem como estou?

Porque o mundo é maravilhoso, a natureza é exuberante, as pessoas são essenciais, e a vida é muito curta pra deixar tudo isso encoberto. Tudo é perfeito e está exatamente como deveria estar. E você merece toda a abundância e prosperidade que existe na Terra!

Conhecer a si mesmo é o grande segredo da humanidade.

"O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus".

Você é livre! Inclusive pra continuar do jeito que está!


Clara Lúcia


sábado, 1 de agosto de 2020

O Todo


Todas as manhãs, no meu trajeto para o trabalho, eu tenho uma visão deslumbrante do Sol nascendo entre montanhas.
E fico pensando na grandiosidade de tudo e da perfeição dos detalhes.
A natureza é maravilhosa, plena, imponente e independente, ela simplesmente é.
Assim como o ser humano e tudo que germina por aqui.
Não tem como imaginar que não exista algo por trás de tudo isso. Deus, com sua perfeição.
Como pode uma semente ser colocada sob a terra, receber os nutrientes, água, germinar e se tornar uma árvore, que dela nascerão os frutos, cada fruto com várias sementes e cada semente uma nova árvore?
Como pode homem e mulher germinar um embrião e dele nascer um ser humano?
Tudo perfeito!
Nossa mente limitada não é capaz de imaginar Deus. Como seria Deus para você?
Deus simplesmente é tudo que existe. Não é um humano, não é um grão e nem uma semente, mas é tudo que existe.
Não existe nada antes de Deus. Ele é. O Todo. E tudo é infinito. Como imaginar isso?
Somos humanos limitados na percepção do Todo, mas basta olhar em volta, para qualquer coisa, lá estará o Todo.
Humanos são feitos à imagem e semelhança de Deus, segundo a Bíblia.
Como vocês imaginam ser a imagem e semelhança do Todo?
Há várias explicações, e não existe escrito em lugar algum que ele tem a forma humana. Jesus sim, seu filho amado, veio em forma humana. Mas Deus não tem forma, porque Ele é tudo que existe.
Como você se comunica com Deus?
Em minha fase já adulta, em meio a turbilhões de problemas e questionamentos, voltei a frequentar a igreja católica, e isso foi bom para mim. Pela primeira vez li a Bíblia e em minha curiosidade li inteira num período de um ano. Claro que não entendi, pois os escritos não são lineares.
Cada um interpreta de uma maneira, e cada um define Deus como imagina. E está tudo bem que seja assim.
Frequentei fielmente a igreja católica por alguns anos, e, mais questionamentos me fizeram crer que Deus não está lá, pois é onipresente. Se é onipresente, como estar em todos os lugares?
Simples, porque Ele é o Todo. Foi difícil imaginar um Deus que me desenharam como um ser idoso julgador e castigador, para um ser que é o amor puro, somente amor. É essa a vibração do Todo.
Somos seres energéticos, com campos magnéticos, e essa energia toda é a frequência de Deus, do Todo. É assim que somos feitos à imagem e semelhança de Deus. A energia, o poder, a capacidade, o amor...
E o desamor? Desamor é a falta de amor.
Como Deus pode ter desamor? Não tem porque ele é a vibração do amor. É o amor que deveria estar presente em todos os cantos, e a falta dele tem a definição de ódio, raiva, rancor, vingança, castigo...
Quando entendemos que Deus é acessível a todos, que ele vibra em todos os cantos, em todas as coisas, em tudo que tem vida, e que tudo é amor, nada além de amor, e que existem vibrações altas e baixas, e que podemos acessar as vibrações de acordo com nossa mente, nossos pensamentos e sentimentos, certamente reconheceremos o poder do Todo.
Estamos todos interligados. O que tem em mim tem em você. O que acontece comigo ressoa em você. O que nos guia e nos determina são nossos sentimentos, pensamentos...
Já imaginaram a responsabilidade de cada um? O poder que cada um tem em emanar o sentimentos que irá interferir na frequência de todos?
Quando você está ruim, com tristezas, você chega num ambiente alegre com pessoas queridas. As pessoas queridas, vendo você sofrer, elas continuarão alegres ou se compadecerão de seu estado de tristeza? Qual o seu sentimento diante de uma pessoa amada que sofre por algum motivo e que tem a morte certa? Vai continuar feliz? E quando voltar para sua casa a tristeza vai junto, e vai interferir nas pessoas que moram com você... Tudo que sentimentos, nossas vibrações, independente se boas ou ruins, ressoa no outro.
E quando se tem o hábito de criticar, de querer que o outro faça algo ou seja do jeito que você se sentiria mais feliz? Por que o humano tem essa mania em pensar que sua opinião ou maneira de viver é boa para outra pessoa? O que tem em seu íntimo, seus costumes, seu modo de pensar, sua identidade, você abriria mão só porque uma outra pessoa se sentiria mais feliz? Qual vida vale mais, se todos são o Todo?
Por que a aceitação ao outro é tão difícil?
Mesmo sendo feitos à imagem e semelhança de Deus, somos completamente diferentes um do outro. Não existe um ser exatamente igual a você, por que então você tem o hábito de se autossabotar só para alegrar o outro? O outro é bem capaz de se alegrar por ele mesmo, pela identidade dele. E você, que tanto vai se ignorando, a vibração do amor que deveria ser comum em todos os lugares, vai cedendo ao desamor. Culpa do outro que te fez viver a vida dele? Claro que não! Culpa sua que aceitou.
Nossa permanência por aqui é muito curta se analisarmos o infinito e eterno. Somos essenciais nesse momento aqui na Terra. Não viemos por vir, viemos por um propósito e cada um tem o seu. Existe algo grandioso que não conseguimos imaginar, mas existe, você crendo ou não.
Amor, é o que governa o planeta. E ultimamente o que sentimos é a falta dele em muitos lugares, por causa da baixa vibração do ser humano, com pensamentos, sentimentos e atos que denigrem a maior força que existe; o amor. O Todo. A natureza chora com isso...
Para constar, eu não frequento mais a igreja católica. E está tudo bem assim.

Clara Lúcia

sábado, 9 de novembro de 2019

Eu, minha criança



"A criança interior é responsável pela nossa conexão com o nosso processo criativo, com o nosso poder de atrair o que queremos através da vibração de alegria que emanamos. Em desequilíbrio não criamos, viramos reféns das frequências que vibram de forma inconsciente, que traz para a nossa realidade todos os processos de espelhamento."
Texto de Renata Pereira.

"Vinde a mim as criancinhas, pois delas serão o Reino dos Céus";  Jesus.
Por que será que Jesus disse isso e ninguém entendeu, ou entendeu que somente as crianças que teriam condições de entrar no Reino dos Céus?
Para o Universo somos crianças em fase de aprendizado.
Infelizmente, e isso faz parte da evolução, ao longo da vida somos inundados com crenças e limitações infundadas. Mas isso também tem um propósito, essas crenças são para que possamos vivenciá-las e aprendermos a lidar com elas.
Todo tipo de processo não deve ser evitado e sim vivenciado, sem deixar que nos limite ao processo evolutivo.
Vamos nos lembrar da infância. A minha foi solitária, porém não sabia o que era ser solitária. Brincava sozinha e amava tudo! Criava meus próprios brinquedos: vaquinha de chuchu, boneca de espiga de milho, bolo de barro, cabana de folhagens, floresta imensa no meu quintal, enfim, eu era o brinquedo. E amava tudo isso. Toda criança tem esse processo criativo e que com o tempo se acaba. Ou então na infância mesmo, a criança é privada de brincar como deve ser, explorando sua imaginação.
Hoje é tecnologia, que também não é ruim, pois a criatividade pode ser desenvolvida na criação de infinitas ferramentas facilitadoras para o trabalho humano.
E mesmo assim ainda são privadas de exercer a criatividade. Talvez pela falta de incentivo,  não sei, e também por ouvir muitos "ditados", isso é pecado, tem que... para que... para ser... isso não dá dinheiro... moça de família... pai de família... ou seja, costumes impostos sem nenhum fundamento. (eu acho que não tem nenhum fundamento qualquer tipo de tradição).
Quando Jesus diz que o Reino dos Céus são das crianças, creio eu, é o modo como elas convivem com todos.
Não guardam mágoa, amam incondicionalmente, não têm preconceito, nem racismo, não sabem o valor do dinheiro e nem o valor das coisas, mas prezam e procuram muito o valor do coleguinha. Não são vingativos, riem de tudo, brincam, se divertem, criam, choram...
Tudo isso é a base para a vida adulta fluir... Já nascemos sabendo e não usamos essa sabedoria na idade adulta.
O que é preciso para ser próspero e abundante?
Tudo o que criança faz! Na inocência, sabe-se viver como adulto e adulto se esquece de sua criança interior.
Um detalhe sobre como não cultivar a ansiedade na primeira fase da vida. O soltar...
O soltar significa não ficar ansioso e nem duvidar que algo chegará até você. Essa é uma Lei poderosa do Universo para realizarmos nossos desejos. Você deseja algo, imagina-se na situação de já ter esse algo, com gosto, cheiro, tato, cores e depois solta, na certeza de que tudo é real e que já tem o desejo realizado. O Universo trará a você exatamente a sua imaginação. O Universo não sabe o que é real ou imaginário, não sabe se é bom ou ruim, se pode ou não pode. É o foco, a fé.
Onde entra a criança nisso? Criança já sabe o dom que tem, brinca, imagina, conversa com o brinquedo e... Depois vai dormir. Solta... E no outro dia começa tudo de novo, imagina tudo de novo e a imagem holográfica (como o Universo lê) fica em sua mente. Dependendo do que a criança mais gosta de brincar, esse é o projeto de vida dela. E daí vem o adulto e priva-a de todo o dom despertado, porque não é bom, não dá dinheiro blá blá blá.
E cria-se um adulto infeliz, com vida conjugal infeliz, trabalho infeliz, sem prosperidade e sem sonho nenhum.
Outro fato interessante, sobre os bebês e crianças menores. Por que são tão adoráveis? Acho que se não fossem, não teriam satisfeitos seus desejos, já que não sabem se comunicar direito. Tudo em bebê e em criança pequena é fofinho, é lindinho e quando aprendem algo são aplaudidos, abraçados, amados! Tudo que todo mundo precisa para prosperar.
Amor. Somente amor. Amor é a base de tudo e criança sabe disso como ninguém.
Elas emanam vibração de amor para nos atrair. Depois começam as chantagens e os famosos testes de nossa paciência. Mas basta um sorriso e pronto, tudo por água abaixo.
Dia desses, fui num evento e eu brinquei de jogar bexiga com o filho de uma amiga, no meio do povo lá. Todo mundo esperando e ele e eu jogando bexiga. Eu amava jogar bexiga quando era criança. Brincava sozinha, claro...
Por que perdemos todo esse encanto?
Podemos fazer um teste.
Quando tiver algo a ser resolvido e não encontrar solução e não ter a mínima criatividade pra isso, pergunte a sua criança interior o que ela faria pra resolver. Acho que você vai se surpreender.
Lembro quando meus filhos eram pequenos e eles viam algo e perguntavam o que era. Talvez um brinquedo diferente... E eu respondia apenas "é um brinquedo". Simples assim e eles se contentavam com a minha resposta. Até hoje eu dou respostas assim quando perguntam, por exemplo. o que vou fazer para almoçar? Eu só respondo "comida". E eles riem.
Por onde anda sua criança interior?

Clara Lúcia

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Um segundo...


"... Ele levantou-se e, sorrindo, percorreu toda a sala, abaixou-se na minha frente, segurou em minha nuca e me beijou o rosto. Gelei.
E caminhou até a saída levando minha respiração e meu coração acelerado. Por alguns segundos me perdi num estalo em minha bochecha, que, certamente, enrubesceu. Boca entreaberta, suspirei e abaixei a cabeça, tentando disfarçar como se nada tivesse acontecido. Porém ele me pegou completamente despreparada pra receber um olhar, um toque que seja, imagina um beijo!
Algumas pessoas me olharam, talvez curiosas com minha timidez, não sei, talvez por eu estar vermelha e com a boca entreaberta esperando ele voltar e preencher meus lábios com seu gosto quente e úmido... Será querer demais?
Trocamos poucas palavras, sorrisos, gargalhadas em grupo, e foi a mim que ele se dirigiu pra me tocar levemente e provocar uma erupção gigantesca que não poderia sair pelos poros por receio de demonstrar o que não teria nenhum sentido... Um delicioso exagero feminino.
Sensibilidade aflorada, cheia de fantasias, encontros noturnos, beijos quentes, olhares perturbadores, união... Afinal pra que serve a imaginação se não podemos nem sonhar acordadas um instante? Posso sim e gosto disso.
Gosto de situações inusitadas... Surpresas... Nem que sejam temporárias...
Hoje eu fui beijada, hoje eu senti minha vida pulsar, mudei de cor e perdi o jeito, hoje passará e será ontem...
O que se passa da cabeça de um homem provocante assim? Será que sabe que há um turbilhão de emoções dentro da mulher?
Só uma pegada no pescoço e um beijo...
Gosto de viver os momentos intensos, mesmo sendo segundos, mesmo não sabendo do que me espera... Nem eu espero nada.
Foi só um beijo, uma mão na minha nuca... 
Só..."

Clara Lúcia



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quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Farol

 

   
      Ele me achou... E eu fugia por uma estrada comprida, levantando as saias de meu vestido que, vez ou outra, me faziam cair na terra úmida por causa da chuva da manhã, cobrindo meus joelhos com lama. Rapidamente me levantava e continuava correndo. Olhava para trás e ele continuava a me perseguir, quase me alcançando.

      O vento frio de outono cortava meu rosto e jogava meus longos cabelos cacheados para trás, esvoaçantes balançavam em harmonia e tapavam meu rosto quando eu virava para trás para espiar a distância que eu estava dele... Corria, como se minha salvação dependesse da velocidade dos meus pés e da força de minhas pernas. Já estava escurecendo e minha angústia aumentava a cada passo em falso que dava e tropeçava em alguma pedra solta pela estrada. Não tinha para onde me esconder. De um lado da estrada um abismo com o mar azul escuro aumentando a maré e batendo nas pedras espalhando espuma branca por toda a orla. Do outro lado uma floresta fechada, um labirinto arriscado e misterioso, digamos ser medonho pelos barulhos estranhos que ecoavam a noite toda, chegando até o pequeno vilarejo.

     Mathias, um vilarejo novo, habitado por pescadores e homens das florestas, como assim eram chamados pelos viajantes comerciantes que apareciam por lá. Havia apenas uma rua principal e as casas, todas simples e rústicas, feitas de pedras e forradas com troncos cortados de árvores, unidos harmoniosamente um ao lado do outro, com acabamento de uma cola artesanal que impedia as goteiras e ao mesmo tempo, proporcionava um frescor no interior das casas. A única moradia mais bem-feita e ornamentada era do chefe-guardião, que tudo via, tudo sabia e era obedecido por todos. Era o deus de todos. Tinha o poder de ler os pensamentos, descobrir ovelhas desgarradas, apontar para algum malfeitor, julgá-lo e condená-lo em questão de segundos. O respeito que todos tinham por ele era, na verdade, o medo de descobrirem alguma teimosia ou algum descuido no trato com os animais. Estes eram sagrados. Era um homem alto, com mais de dois metros de altura, forte, cara amarrada, grotesco, de poucas palavras e muitas ações. A ordem no vilarejo era invejada por muitas cidades maiores ao redor, mas quando se tratava de Nêumo, o chefe-guardião, preferiam ficar longe de sua vidência.
   
     O homem me perseguia, eu gritava, mas a voz embargava. Comecei a ficar ofegante e meus passos diminuíram. O homem me alcançou, puxou-me pelos cabelos fazendo com que meu corpo encurvasse para trás. Olhou bem nos meus olhos e sorriu com sarcasmo. Eu cuspia em seu rosto e apertava seus olhos com os polegares e mesmo assim e ele me beijava a boca. Nojo! Limpei meus lábios com o braço, esfregando várias vezes, tentando tirar o gosto de álcool com hálito quente daquela boca carnuda e asquerosa.

      Ele me puxava pelos cabelos arrastando-me pela estrada até chegar num atalho que seguia direto para o farol, que ficava à beira do mar. Este estava bem agitado.

      Naquela época, mais precisamente em 1832, as jovens eram sacrificadas quando não queriam se casar com os homens que as escolhiam. Se revoltavam, se rebelavam, mas de nada adiantava. Acabavam mortas, ou enforcadas, ou lançadas num penhasco que tinha o mar como chão. 

      Era para esse lugar que o homem forte, bonito, mas nojento, vestindo roupas mal cheirosas, cabelos pretos e longos, barbudo e um nariz comprido e pontiagudo que parecia o bico de um papagaio, me levava.

      Me segurava pela cintura com um dos braços, me apoiando em seu corpo fazendo como o que meu pendesse e anulasse qualquer possibilidade dele receber um golpe meu, proporcionando-me liberdade. Eu gritava, mas minha voz continuava embargada; então ele repetia várias vezes, mas sem precisar gritar, para eu ficar quieta. Eu me debatia, tentando me livrar de seus braços, mas a força do homem era infinitamente maior que a minha.

      Ainda me segurando pela cintura subimos a escada em forma de caracol e chegamos ao topo do farol. Grandes janelas nos mostravam o céu com algumas estrelas e alguns raios de sol do outro lado. O mar batia nas pedras e fazia um barulho que penetrava em minha mente, como se me esperasse para o derradeiro mergulho em suas águas geladas e profundas. Sussurrava e lançava gotas até chegarem à janela que me aguardava ansiosa por minha queda. Um vento gelado uivava competindo com o barulho das ondas, entrava pelas janelas e esvoaçava nossos cabelos, quase que entrelaçando-os, num balé de quase fim de ato.

      O homem me levou até uma janela que ficava do lado mais fundo do mar, segurou meu rosto e me mostrou a linda paisagem. Cochichou alguma coisa no meu ouvido, mas que não conseguia
entender, com sua enorme mão me segurando o queixo, virou bruscamente meu  rosto de frente para o seu e mais uma vez me beijou fortemente. Mordi seu lábio inferior que sangrou, então ele se afastou e me deu um tapa no rosto, ainda me segurando firme pela cintura, com seus longos braços entrelaçados. Eu me debatia, mas estava praticamente imóvel e exausta. Ele começou a me xingar, mas eu não conseguia entender nada do que ele dizia. Sabia que estava xingando pela expressão de ódio em seus olhos. Mais uma vez ele segurando  meu rosto, mostrou-me a paisagem que seria a última visão que eu teria. Eu tentava gritar e não conseguia.

      Num movimento rápido, ele me ergueu  e apoiou-me no parapeito da janela. Olhei para baixo e senti vertigem. Gritava, mas era inútil. Mais uma vez ele cochichou algo no meu ouvido e me empurrou para o abismo.

      Neste momento, gritei tão alto que minha voz ecoou. Segundo a segundo eu via aquele homem se distanciando de meus olhos enquanto eu caía. Um frio tomou conta de meu corpo, meus cabelos longos taparam meu rosto antes mesmo de meu corpo tocar o mar agitado. Parecia que a queda não teria fim. Sentia falta de ar, como se minhas narinas estivessem fechadas e meu grito abafado tivesse cortado minha garganta impedindo a saída do ar. Fui caindo e desfalecendo. O barulho do mar era cada vez mais forte, mas já não me importava com a morte. Queria a morte de uma vez por todas. Praticamente já sentia as gotas do mar respingando meu corpo. Abri os braços e me entreguei! Por uma última olhada, de relance vi, na outra janela do farol, Nêumo, com seu olhar frio e calculista. Entendi tudo.

     A Lei cumpriu seu destino. Mais uma desobediente a ser esquecida no vilarejo Mathias. Quanto à força de um homem, um olhar instigante e tudo se acaba. O fim foi consentido e determinado.

     Caia no mar agitado e não fazia questão de sobreviver, nem se houvesse um milagre.




     Clara Lúcia

     

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Amor Psicopata - O Livro


"Tem que aguentar, casou tem que aguentar..."
"Tenha paciência que com o tempo ele muda..."
"Acho que é exagero seu, não é não?"
"Que isso, é super gente boa..."
"O que você fez para provocá-lo?"
"É assim mesmo, casamento é assim..."
"Pense nos seus filhos sem pai, que tristeza seria..."
"Acho que você deveria tratar ele melhor, assim ele fica tão irritado..."
"Você aceita porque quer..."
"Vai ver você gosta do negócio..."
"O amor tem poder..."
"Não conta pra sua mãe não porque vai ser pior pra você..."
"Você acha que seu relacionamento não é normal?"
"Apanhar do companheiro é normal, já que você se considera culpada?"
"O amor realmente cura tudo?"


Quantas e quantas vezes ficamos sabendo de um provável relacionamento abusivo de alguém conhecido?
E o que fazemos? Nada! Afinal em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher.
Você sabe como é o dia a dia de uma pessoa que vive com um relacionamento abusivo?
Sugestões e conselhos todos dão, mas e ajudar? Quem sem propõe?

Imagine que aquela sua vizinha que vive chorando e sendo agredida pelo marido tenha apenas uma chance, a de ler esse livro, na vida?
E sua prima que de uns tempos para cá ficou estranha e nem se cuida mais, vive apática e sem humor nenhum? Pense na alegria dela em saber que não precisa aguentar agressão de ninguém e que ela consegue sim viver sem aquele homem estúpido e agressivo?
E a amiga de trabalho que aparece com escoriações de vez em quando? Não vai presenteá-la com esse livro por que?

Será que as mulheres passam por relacionamentos abusivos porque querem ou porque não conseguem raciocinar que isso não é amor e nunca será?

Conhece alguém? Dê de presente! Ou então convide-a a dar um passeio e deixe-a ler o livro perto de você e ofereça seu abraço. Ela irá precisar, com certeza, e lhe agradecerá pelo resto da vida por ter-lhe aberto os olhos e tomado providências, antes que o pior pudesse acontecer.

Seja esse caminho para a liberdade que aquela pessoa que mudou tanto depois que começou a conviver com aquele rapaz e que não há mais aquele brilho nos olhos e nem amor pela vida!

Livro físico:
À venda na Bok2
E também - amazon Americanas Submarino
e-Book aqui


Gratidão!
Clara Lúcia

terça-feira, 10 de julho de 2018

AS PANTUFAS DE NONNA


O tempo era meio esquisito no inverno, num dia um calor seco, no outro um frio cortante, daqueles de soltar fumaça pela boca. Ana Vitória nem podia sair de dentro de casa para brincar, devido a sua sensibilidade com o clima seco. Sofria no inverno a pequena. Mas invenções para brincadeiras é que não faltavam para entretê-la.
Ana Vitória, uma menina de cabelos encaracolados, olhos grandes e verdes, sardas no nariz e, no auge dos seus cinco anos, as janelas na boca eram inevitáveis. Os quatro dentes de leite da frente já não faziam mais parte de sua figura. Era uma criança doce, meiga, porém teimosa como uma mulinha em crescimento. Adorável quando queria alguma coisa, cativante para evitar broncas por alguma travessura, mas educada, que era o que mais importava.
Em sua casa, além dela e seus pais, sua bisavó vivia com eles em harmonia perfeita. Afinal que família não vive em harmonia quando se tem uma bisneta a querer brincar com a bisavó fazendo-a sentar no chão e cruzar as pernas? Ana fazia isso e depois gritava pela mãe para ajudar a nonna a se levantar. E ria da situação. Nonna se divertia demais! Fazia de propósito só para ouvir as gargalhadas da bisneta. E ficava mole quando sua neta, mãe de Ana Vitória, ia acudi-la para se levantar. Percy, mãe da pequena, tinha medo de nonna se machucar ou quebrar algum osso. "Que nada", dizia nonna, "aguento muita coisa ainda, fia".
E nesse tempo frio, Percy fez pantufas para nonna, toda colorida em crochê. Ela adorou! Qualquer ventinho mais frio que dava, lá estavam as pantufas a esquentar os pés da nonna.
Ana Vitória também ganhou pantufas, mas as dela eram de ursinho bem peludo. Tinham a sola antiderrapante e eram bem macias. Já as da nonna eram somente em crochê, sem sola antiderrapante nem nada. Mas  eram quentinhas e confortáveis. Nonna calçava-as e ficava sentada no sofá cobrindo as pernas com uma manta leve.
Ana Vitória ficava observando as suas pantufas e comparando com as da nonna. Eram diferentes uma da outra, apesar de terem o mesmo nome, deduzia a pequena. Ana indagava a bisavó sobre a sola não ter aquelas bolinhas, as antiderrapantes, e nonna apenas dizia que as pantufas que tinham bolinhas eram somente para crianças felizes poderem correr, brincar e não cair. Ana abria uma sorriso, colocava seu pé do lado do pé de nonna e comparava o tamanho, depois dava um beijo na bochecha dela e voltava aos seus brinquedos.
Num dia frio nonna preferia não se aventurar no chão com a bisneta. Mas engana-se quem imaginava que Ana Vitória ficasse quieta perto da nonna! Fazia questão de trazer seus brinquedos para perto dela, arrumava tudo em volta dos pés da nonna formando um círculo, e ali cantarolava com as bonecas e fazia chá para servir à nonna.
Percy ficava observando a criatividade da filha com a bisavó e sentia paz. A diferença de idade era de oitenta anos, porém não fazia a menor diferença. Nonna, encurvada e com os cotovelos apoiados nos joelhos, entrava na brincadeira e fazia tudo que Ana Vitória pedia. E riam descontroladamente das caretas que nonna fazia quando tomava o chá.
Percy, que ficava observando da porta da sala, ria também e se lembrava de quando era criança e nonna fazia chá para os netos. Era o chá de cheiro, saboroso e perfumado. Sempre era acompanhado por pão caseiro, bolinho de chuva ou bolo de fubá. Os netos se fartavam com as delícias de nonna! Depois de moça é que Percy descobriu o segredo do chá, apenas água com açúcar. E pensava que além desses dois ingredientes, havia também muito amor envolvido, muito capricho e bom humor. Percy fechava os olhos e imaginava o aroma do chá de cheiro com o pão caseiro invadir a casa... E olhava para a filha que brincava com nonna e se emocionava pela falta de seu bisavô e de seus pais, todos falecidos. A família havia diminuído, mas a energia do amor enchia a casa de Ana Vitória!
Não sabia por mais quanto tempo nonna estaria entre eles, mas fazia questão de proporcionar o maior conforto possível para ela. E fazia questão de Ana Vitória participar de tudo e ter uma lembrança maravilhosa da infância ao lado de nona por toda a vida.

Clara Lúcia

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Picuinhas De Casal


Alguns e-mails que recebo sobre relacionamentos abusivos, nem sempre são abusivos. Às vezes as pessoas são complicadas, difíceis e não conseguem enxergar o outro como uma outra pessoa, um outro universo, um outro ser independente e pensante.
A maior dificuldade é essa mesma, de se colocar no lugar do outro, entender o que se passa com o outro, saber o que pensa, o que gosta, como age, como quer viver, como quer compartilhar. Em vez disso instala-se uma enxurrada de acusações e cobranças, muitas vezes infundadas.
O que eu percebo é a falta de comunicação, como sempre.
A mulher gosta de falar, gesticular, discutir (nem todas), e o homem foge de discutir alguma coisa (nem todos). Ou seja, há quem goste de discutir e há quem não goste de discutir nada, independente quem seja.
Conviver com outro ser humano é muito complicado.
Aí pode aparecer alguém e dizer: "Ah, mas você nem é casada, como pode dar palpite e saber se é assim ou assado?".
Eu fui casada, sei como é difícil, e a questão nem é sobre casamento, mas sobre o ser humano e sua individualidade.
Quantas vezes você chegou pra a pessoa que vive com você e perguntou se ela estava bem, se queria que fizesse de uma outra maneira, se estava confortável assim, se gostaria de alguma ajuda, enfim?
E quantas vezes você reclamou pra a pessoa, essa mesma que vive com você, que não aguenta mais, que só você faz as coisas, que não há colaboração de nada, ou então que só sabe reclamar e não tem a dignidade em ajudar ou tomar a iniciativa de nada?
Fatos corriqueiros em todo casamento.
O que falta é o diálogo E a aceitação do outro como sendo diferente de você.
Há os costumes que carregamos de casa, do seio da família, de pai, mãe, avós, irmãos e afins. E esses costumes estão entranhados em nós e definimos eles como se fossem a verdade absoluta a ser seguida. Essa atitude é inconsciente. E não é errado seguir regras e costumes que aprendemos dos pais. Errado é pensar e querer que nossos costumes se prevaleçam sobre os costumes da pessoa que vive com a gente.
Talvez o motivo de hoje em dia haver tanta separação, sem ao menos tentar superar os problemas é esse, não ter a tolerância em seguir os costumes impostos pelo(a) parceiro. Hoje a maioria é independente financeiramente, o que faz pensar que não é necessário passar por situações de incômodo com a outra pessoa, se se pode viver sozinho ou então ir procurando, procurando, até encontrar alguém que se encaixe em nossa vida como queremos que ela seja.
Isso também não é errado, isso é liberdade, é livre arbítrio.
O erro é não tentar entrar em um acordo, aceitar o outro como ele é, sem querer moldá-lo ao seu jeito, e também se encaixar na vida do outro, aprendendo a viver de uma maneira diferente da sua, mas que seja tão boa quanto.
Quando há o conflito, o que se imaginou na preparação para o casamento, acaba pouco tempo depois. Por falta de diálogo, a vida se torna um inferno! E conversas não existirão, nem acordos, nem respeito, nem vida individual.
Vocês acreditam mesmo que quando há o casamento os dois se tornam uma só pessoa? E a individualidade fica aonde? Talvez fique com um soberano reinando e o outro apenas se calando e aceitando tudo que lhe é imposto. Aí sim, apenas um vive, o outro se conforma com o que tem e passa a viver uma vida que não é sua.
Um exemplo bem clássico, mas que existe: a mulher, em vez de falar claramente o que lhe incomoda, prefere comentar sobre a relação com as amigas, a mãe, a tia... E como mulher é um ser pensante e que tem várias terminações nervosas no cérebro, embaralha tudo e chega a sua própria conclusão de que está certa e que o homem que ela escolheu não deveria agir de tal maneira. Isso sem que ele saiba o que se passa na cabeça linda dela. E ela começa a investigar, fuxicar, cheirar, perseguir, e transformar a vida dele, e dela também, claro, num inferno.
Com isso, o que o homem faz? Vai se afastando, aquele carinho que sentia quando namoravam vai se acabando, não há o entusiasmo de antes, não entende porque ela mudou tanto da noite pro dia, não quer conversar sobre o assunto pra não piorar... E os dias vão passando.
E a mulher, pressentindo o homem distante, sem aquele interesse que antes sentia por ela, fica mais encabulada e o acusa de ter mudado tanto do dia pra noite.
E a vida continua aquele inferno, cada um pro seu lado, sem conversa, sem carinho, sem sexo, apenas fazendo as vezes do casamento perfeito e esperando só uma oportunidade pra jogar tudo pro alto e se separarem.
Outra situação: o homem percebe que a mulher está se dando bem, está evoluindo no trabalho, anda bem arrumada, tem amigos, tem vida própria, e começa a perseguição, o ciúme infundado. Confisca celular, quer senha disso, daquilo, proíbe de usar certas roupas, afinal agora ela é casada e tem que se dar o respeito, não quer saber de amigas por perto, enfim...
Então nessa situação, a mulher, em vez de conversar, prefere contar com a ajuda da amiga, aquela que tudo entende e que sabe como ninguém dar conselhos. Ela volta diferente pra casa, cada vez mais. O homem continua com cenas de ciúme, não elogia mais, não colabora com a casa nem com nada, vive de mau humor... Então ele prefere sair e beber com os amigos, desabafar, esquecer um pouco, ou seja, ele se proporciona sair e espairecer com os amigos, mas a mulher dele, por ser casada, tem que se dar o respeito e ficar confiscada em casa.
E a vida vai se tornando um inferno.
Não há o diálogo, não há a paciência e a admiração acaba. O homem não consegue entender nada, e a mulher, que pensa muito, não consegue perceber que o homem é diferente dela. Não existe ela querer impor sua rotina, seu raciocínio. O homem não percebe que a mulher tem hormônios com vida própria e isso é involuntário a sua vontade.
Um gesto busca uma consequência, e outra, e outra. Tudo por falta de diálogo e entendimento.
Falta de conhecer e respeitar a individualidade do outro.
Falta de aceitar que cada um é cada um e que a casa, agora deles, é deles, e não de um só que vai impor regras.
Talvez a vida íntima do outro seja até mais interessante que a sua. Talvez o que você poderia aprender com o outro, seja de grande valia pra sua vida. Talvez o modo complicado ou então a facilidade com que o outro encara as dificuldades seja a resposta pra superar qualquer pendenga do casal. Gentilezas não significam submissão. Gentilezas são gentilezas mesmo. E feitas com vontade, certamente serão retribuídas.
Aceitação.
Respeito.
Admiração.
Companheirismo.
Amor.
Um não vive sem o outro.
Simples.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Em Qual Segundo O Amor Se Perdeu?


— Alô, por favor, tem algum quarto pequeno e simples vago aí? Sim, pode ser, em meia hora eu chego e acerto tudo. Obrigado! — Arnaldo, após fechar a mala, lavou o rosto e ficou se olhando no espelho.
Enquanto detalhava sua fisionomia refletida, procurou uma explicação para que tudo tenha terminado tão rápido. Ontem mesmo havia se casado, tudo lindo e perfeito!
Anitta, linda toda de branco e com um sorriso terno e cativante, que foi um dos motivos que ele tinha se encantado. Meiga, calma e charmosa, chegava a irritá-lo quando precisava de uma urgência ou de uma rapidez que pra ela seria incapaz de executar. Os opostos se atraem e com eles não foi diferente.
Arnaldo apoiou as mãos na pia, abaixou a cabeça e chorou. Foi a primeira vez que lamentou não ter dado certo a união que prometia ser eterna. O amor também acaba...
Anitta ficaria no apartamento, ele seguiria seu rumo sem certeza nenhuma. Apenas partiria.
Olhou novamente seu reflexo e, voltando os pensamentos ao passado, tentou se lembrar em qual instante o amor havia se perdido. Não conseguia se lembrar. Talvez o desgaste, a falta de diálogo ou de tempo para os dois. Lembrou-se da época de namoro quando os dois tinham tempo um para o outro. Finais de semana, feriados, ou mesmo à noite, durante a semana, sempre davam um jeito de estarem juntos.
A rotina acabou com o casamento exatamente um ano depois.
Não tinham mais vida social, os amigos se afastaram, ou melhor, eles se afastaram dos amigos, o encanto havia se transformado em presença invisível, tudo muito automático e tedioso.
Não se lembrava de ter conversado com Anitta sobre o assunto. Ela também não gostava de discutir relação e nem implicar com nada. Apenas vivia sua vida tranquila e talvez a responsabilidade de dirigir uma casa tenha sobrecarregado sua rotina. Estava sempre cansada, mesmo não reclamando, era clara a insatisfação em ter que fazer coisas corriqueiras. Arnaldo ajudava, mas reconhecia que deixava a desejar na ajuda doméstica. Talvez ele esperasse por um puxão de orelhas, ou então uma ordem para fazer isso ou aquilo, mas partindo de Anitta, a tranquilidade em pessoa, seria impossível. Não percebeu que os dias passaram e que Anitta foi perdendo o interesse pela vida de casada.
Lembrou dos conselhos de sua avó, de que quem governa o lar é sempre a mulher. Ela quem determina como será a vida a dois, o momento de cada coisa e, para ele ficar atento, pois se ela se desinteressasse, dificilmente voltaria atrás. Uma luz brilhou refletida no espelho e Arnaldo chegou à conclusão de que nem todas as mulheres são como sua avó mencionou. Talvez Anitta fosse diferente, e ele ficou esperando ela governar uma casa que nem ela mesma queria governar. Talvez ela esperasse uma atitude voluntária de sua parte em participar dos afazeres.
Por fim, pela falta de interesse dela, ele saía com amigos e até se interessava por outras mulheres, mas a presença da mulher era grande demais para se aventurar em outras camas. Para ele era normal ser assim, mas hoje, depois de fechar a mala, percebeu que foi ele quem se afastou do casamento. Ela sempre esteve ali ao seu lado, e ele preferiu se calar e esperar por uma atitude dela.
Um arrepio percorreu sua coluna só em pensar em Anitta nos braços de outro homem... Será?
O que diria sua avó? Seus conselhos seriam bem-vindos nessa hora, mas preferiu resolver tudo sozinho.
Arnaldo colocou os sapatos, pegou a mala e o casaco que estava sobre a cama, respirou fundo e seguiu para a sala.
Anitta estava sentada no sofá, pernas cruzadas, braços abertos e apoiados no encosto do sofá, e olhou profundamente o marido. Também respirou fundo e chorou. Arnaldo, vendo aquela cena não se conteve e se ajoelhou aos seus pés, como se implorasse uma segunda chance a ela, em nome do amor. Não disse nada, apenas ficou esperando uma palavra dela. E a história de esperar uma atitude de Anitta se repetiu. Com dificuldade disse a ela que a amava, que não queria sair dali com mágoa e se houvesse uma única chance de recomeçar, ele aceitaria as condições que ela quisesse.
Anitta levou as mãos ao rosto e chorou. Depois limpou as lágrimas, colocou suas mãos sobre as mãos dele e disse que também o amava, mas estava cansada e queria ficar sozinha um pouco. Não havia se adaptado ao casamento e estava incomodada com o descaso dele todos os dias. Na verdade ela não percebeu que esse era o jeito dele.
Arnaldo, num impulso, levantou-se, segurou as mãos de Anitta, e fez com que ela também se levantasse. Imediatamente ela o abraçou, forte...
Se beijaram e logo se entregaram um ao outro. O sexo era o ponto forte daquela relação. Arnaldo não soube precisar quando o sexo deixou de fazer parte da rotina. Para ele era sempre o cansaço dela, e para ela era o descaso dele durante o dia que a deixava sem vontade nenhuma de ter relação com ele. Como sempre um não soube decifrar o que o outro queria. Queriam que desse certo, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa para evitar o fim do casamento.
Se declararam, apaixonados... A noite toda se amaram...
Arnaldo, tranquilo em sua cama, levantou-se de manhã, abraçou Anitta acordando-a. Ela, porém, se afastou dele e disse que o que havia acontecido foi apenas uma despedida. Ela não havia mudado de ideia da separação.
Arnaldo foi ao chão! Não conseguia entender o raciocínio dela em consentir uma noite maravilhosa e depois afirmar que estava tudo acabado.
Ele sentou-se na cama sobre os calcanhares e riu...
Isso deixou Anitta muito irritada. Ela levantou-se, se enrolou no lençol e foi ao banheiro. Antes de fechar a porta disse a ele que não sairia de lá até que ele pegasse suas coisas e fosse embora.
Arnaldo, colocou as mãos na cabeça, respirou fundo, vestiu-se, pegou a mala e saiu, batendo a porta atrás de si.
Antes de entrar no elevador, começou a chorar, depois a rir, depois ficou sério.
Anitta chorou compulsivamente no banheiro e ficou lá, sentada no chão, a manhã toda.
Teve rompantes de arrependimento, mas sabia que se continuasse com Arnaldo, tudo voltaria a ser como antes. Não reconheceu que também falhou ao não se abrir com ele sobre a sobrecarga doméstica que sentia todos os dias. Para ela, era obrigação dele saber o que fazer.
Ela era mais independente que ele, se virava sozinha há anos. Arnaldo não, sempre foi orientado a fazer isso ou aquilo.
Anitta esperava uma atitude digna dele, pelo menos em insistir em continuar o casamento e teve a decepção quando ele concordou, sem discutir, em sair de casa. Para ela ele já esperava e até queria se separar, pela frieza com que ultimamente a tratava. E ele, sem entender nada, preferiu não piorar a situação e seguir seu rumo.
Coisas de casal.

Clara Lúcia

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Quando O Pra Sempre Acaba


Quando temos um amor que ficou no passado, mas que o consideramos o ideal, que não ficamos juntos por culpa do mundo, que cada um foi pro seu lado sem motivo nenhum...
Alguns já devem ter tido esse pensamento, de amor do passado que, provavelmente, teria dado certo se não fosse o "se"...
Há um ditado que diz que tudo que nos pertence junto de nós permanece. Não gosto muito de ditados não, e esse eu acho duvidoso.
Tem um outro ditado que diz que se não deu certo não era pra ser. Também discordo.
Quando queremos algo, claro que lutamos, claro que teremos, independente do "se".
Quando não dá certo, certamente uma das partes não queria, e a outra lamenta por anos a fio a perda da oportunidade de um amor pra sempre.
E se afastam...
Cada um segue sua vida, e, mesmo uma das partes não tendo se esforçado para que tudo acontecesse, ainda crê que aquele amor do passado sobrevive.
E um dia, talvez por conspiração, ou, eu acredito que seja, para resolver essa pendência e continuar seguindo em frente, há o reencontro.
Tudo volta à tona, todas as lembranças, sentimentos não vividos, mas imaginados, sonhados...
E a esperança de renovar aquele amor do passado se faz viva.
E morre logo a seguir.
São outras pessoas, outras vidas, outros assuntos, outros objetivos, outras paixões.
Talvez a maturidade não deu espaço aos sonhos joviais e eternos.
A maturidade é cruel às vezes. Nos priva de sonhar lá na frente, de imaginar a eternidade... A realidade toma conta de tudo e acabamos admitindo que não é bem assim agora.
Agora não dá mais...
E dói...
E dói menos que naquela época da separação por causa do "se". Maturidade ingrata! Por que não permite sonhar lá frente de novo?
Porque naquela época não era amor. Era paixão. E paixão cega todo mundo. E éramos cegos um pelo outro, química absurdamente incontrolável, faíscas nos olhares e borboletas no estômago. Quem nunca?
Tudo bem! A maturidade nos sacode e nos esfrega na cara que podemos ter e ser o que quisermos, mas nem tudo nos é favorável.
Uma palavra mal interpretada e tudo vai por água abaixo.
Será que eu nunca havia prestado atenção nesse detalhe, meu Deus do céu?
Não, naquele tempo havia apenas a jovialidade e fome de viver intensamente tudo que estava ao alcance. E o que não estava, usávamos escada pra alcançar. Simples.
E os pensamentos de uma união nessa fase borbulham e morrem na praia.
Não era pra ser porque nenhum dos dois queria. Não era forte suficiente pra sustentar o sentimento. Nem era sentimento, era juventude. O distante se torna incógnita na vida. E o "se" se fortalece até o reencontro.
Que bom!
Acho que todo mundo deveria resgatar aquela paixão da juventude e constatar que foi melhor assim, que ninguém queria nada, só paixão mesmo, por isso cada um seguiu seu caminho. E o melhor de tudo, está tudo bem como está.
Uma paixão morta. Lembranças boas, vida que segue.
Se assim foi escolhido, tudo bem!