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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Eu e minhas dores

 


Muito se tem falado dessa geração mimizenta, que não suporta nenhum tipo de contrariedade. Porém, nos tempos passados, não era tão diferente.

Meus avós sofreram muito, pois tudo que precisavam era sofrido. Tudo era dificultoso, longínquo, dolorido, escasso... E essa situação fez com que na mente deles e de seus descendentes ficasse registrado que a vida é dura, sofrida, escassa, que pra ter uma suposta estabilidade tinha que trabalhar muito duro e ter a garantia de um emprego fixo.

Hoje, essa geração é assim também, só que, em vez de achar que tudo tem que ser sofrido, prefere achar que tudo tem que ser fácil, sem o mínimo esforço e que seja feita sua vontade. Além de ser cheia de dores e vitimistas. Nenhuma das duas gerações estão certas ou erradas. Apenas fases vividas, épocas diferentes, que seguem tradições impostas.

 A internet facilitou muito a vida de todos, e, sendo muito bem usada, é um veículo fabuloso pra ser navegado.

Por falar nisso, vocês tem consciência de que estamos em plena Revolução Digital?

Voltando a esse tempo de gente dolorida...

Pra fazer parte da vida, muitos se juntam a grupos ou gangues, ou seja lá o que for. O pior é esperar desses agrupadores a salvação coletiva. Não terá. Nem do governo, nem da religião, nem do guru, nem do ator famoso que prega a salvação da Amazônia e não tem noção de que lá há interesses mundiais do que está abaixo da terra. Mas esse é um outro assunto.

Quando sentimos algum incômodo, algum tipo de dor ou sofrimento, não há como transferi-lo para outras pessoas. Somente nós passamos com o que acontece conosco. Pra você, isso não quer dizer nada? Ou será que chegou à conclusão de que somos nós por nós mesmos? Nós e nosso poder sobre nós e sobre tudo que há na Terra? Nós e nossa mente poderosa capaz de decidir como será nossa vida e nosso entorno?

Qual o motivo de pensarmos que não devemos sofrer anulando algum incômodo?

Se temos sentimentos, qual é a lógica de camuflarmos só para não nos chatearmos ou sofrermos? 

Alguém já disse que a dor nos faz crescer. Bem, de todo jeito cresceremos, com dor ou sem dor. Ninguém fica estacionado ou evoluído por sentir dor ou alegria. Crescer é uma lei da natureza.

Vejam bem, quando existe alguém (sempre existe e sempre existirá) que nos incomoda, que entra dentro de nosso ser e nos faz colocar pra fora o que temos de mais dolorido, certamente não foi esse alguém que nos colocou naquela situação. Fomos nós mesmos. O que tem na pessoa que ressoa em nós e que dói tanto? Será o espelhamento? Nos vemos na outra pessoa e isso nos machuca? Ou será que a outra pessoa faz exatamente o que gostaríamos de fazer ou tem a coragem de agir de uma certo modo e nós não temos essa coragem, portanto nos incomoda?

Até os seis anos é nossa fase de aprendizado, de captar absolutamente tudo que vai definir nossos próximos anos. E o que acontece, e que também faz parte da natureza humana, é absorvermos medo, angústia, crença (lá vem falar de crença de novo. Sim, se é crença, não tem outra denominação que a substitua), paradigmas, céu, inferno etc.

E assim nosso mundo gira em torno de nós mesmos. O que vivemos é o que acreditamos que exista. Se não temos acesso, não existe. É simples. E esse mundo é povoado pelas pessoas próximas que vivem conosco. Todos na mesma sintonia. E assim são criados e nomeados os grupos: os pobres, os ricos, os empresários, os atores, os advogados, os médicos enfim. E geralmente não se misturam. 

Por que falo sobre esse assunto? 

Em plena Revolução Digital nunca em todos os tempos tivemos tanto acesso à informações, à sabedoria, às notícias, os mundos, tudo!

E aquela bolha que nos limitava a viver somente o entorno, estourou. O acesso a tudo é para todos a qualquer momento, e o que você consegue acessar, acredite, você pode alcançar. Como? 

Imagine uma pessoa humilde que, em vez de ficar dentro da bolha, resolveu desbravar as mentes diferentes e seguir o mesmo caminho daqueles que vivem num outro mundo. E chegou ao outro mundo. Por que somente alguns chegam a lugares que fogem de seu padrão de vida e outros ficam estacionados?

Pelo medo.

Medo de não dar certo, medo de arriscar, medo de decepcionar pai e mãe, medo de pensar diferente, medo de fracassar, medo de ser julgado, medo da instabilidade, medo de passar fome, medo de se machucar, principalmente machucar as emoções, medo do castigo de Deus, medo de ficar doente, medo de ficar sozinho, medo de assalto, medo de sofrer, medo de prosperar, medo de ficar rico, pois rico "não presta", medo de aparecer, medo de ficar famoso, medo de ser criticado, medo de perder pessoas amadas, medo de morrer.

Se juntar todos os medos, chegamos ao medo de morrer. Medo do desconhecido que é a morte. Medo de ficar doente e morrer, medo de ficar sozinho e morrer e não ter ninguém por perto, medo da instabilidade e passar fome e morrer, medo do castigo de Deus e ir pro inferno quando morrer, medo de ser criticado e não suportar a dor e morrer, ou se matar, medo de ser assaltado e morrer, medo de fracassar, ser a chacota da família, não ter apoio de ninguém e nem como se sustentar, e morrer, medo de ficar rico e morrer assassinado, medo de se machucar e ter alguma complicação e morrer, medo de perder pai e mãe e não ter mais ninguém no mundo, e morrer, enfim.

O medo faz parte da vida, só não podemos ficar travados por causa dele. O amor é capaz de anular o medo. Qual o amor? O amor que Deus sente por nós! Nos sentirmos amados por Ele e nos entregarmos, assim como uma criança pula de um lugar alto para os braços de seu pai...

A morte é natural na vida humana.

Uma vez ouvi um amigo dizer que tinha medo de morrer e deixar a filha sozinha... Eu perguntei por qual motivo ele imaginava que a filha iria ficar de braços cruzados, definhando, até morrer? Ele se assustou e concordou comigo.

Eu já tive depressão e síndrome do pânico e sei muito bem qual é a etapa da dor e do medo. É insuportável! Mas depois de superado, percebi que tudo dependia de mim. Eu decidi alimentar minha dor, e queria alimentar mesmo, inconscientemente. Me torne vítima de meus pensamentos e de minhas atitudes. E confesso que há pouco tempo que realmente aceitei que tinha atitudes de vítima e não de protagonista. Quando entendemos o processo, é bem mais fácil retomar o poder a nós destinado por Deus.

Escrevi tudo isso pra falar pra você que esse medo que você tem, esse sofrimento que não acaba mais, e até essa alegria inabalável é a cura de várias outras pessoas, e através dessas outras pessoas, é sua cura também.

Quantas pessoas você teve notícia de que perdeu filho, pai, mãe, emprego, e a partir de então desenvolveu uma maneira de ajudar quem sofre pelo mesmo motivo? É esse o sentido de todos nós.

É esse o propósito. Se curar através da cura do outro. Ou seja, tudo está em você. Tudo começa e termina em você.

- Clara, por que tenho que ajudar os outros, se ninguém nunca me ajudou?

Porque estamos todos interligados e somente nos curamos através da cura do outro. Porque o outro que está bem próximo a nós é nosso espelho a refletir o que devemos enxergar e canalizar a energia em atitudes de ajuda ao próximo. Nós sabemos o caminho de entrada e saída. Nem todos sabem esse caminho.

VAMOS, RAPAZ, GAROTA, SAIA DA BOLHA E DESBRAVE O MUNDO!

Basta um clique pra conhecer milhares e milhões de situações nunca imaginadas, mas que existem! E você aí preocupado em não magoar o outro, se magoando e dizendo sim a todo momento. É sua autotraição. Certamente conviverá com pessoas traidoras... Você se trai... E atrai exatamente o que você é.

"Ah, mas eu nunca fiz mal a ninguém". MAS FAZ MAL A VOCÊ MESMA! Se trai, boicota suas vontades, faz o que os outros determinam pra você e se pune por não ter obedecido!

Meu Deus do céu!

Meus queridos, somos únicos e essenciais nessa vida, podemos dizer sim e não quando queremos dizer sim e não. Que importa o que dizem de nós? A crítica é única e exclusiva pra quem solta a crítica. E pegamos, sem ser nossa... E ficamos doentes, e com medo, e morremos. 

- Clara, porque tenho que dar um clique, se estou bem como estou?

Porque o mundo é maravilhoso, a natureza é exuberante, as pessoas são essenciais, e a vida é muito curta pra deixar tudo isso encoberto. Tudo é perfeito e está exatamente como deveria estar. E você merece toda a abundância e prosperidade que existe na Terra!

Conhecer a si mesmo é o grande segredo da humanidade.

"O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus".

Você é livre! Inclusive pra continuar do jeito que está!


Clara Lúcia


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Perfume Adocicado


      Contados exatos dois meses, Ariela finalmente alcançou a coragem em entrar no quarto que era de sua mãe, Dona Hortência, que nos últimos meses, por falta de opção, viveu seus últimos dias no asilo São Tomé de Deus. Eram somente mãe e filha morando numa cidade pacata. Todos os parentes estavam muito longe, na cidade grande. Ariela, por ser concursada em Pedagogia, escolheu a tranquilidade de ter ar puro e silêncio para viver com sua mãe. Mas nem tudo saiu como o esperado. Dona Hortência não podia mais viver sem acompanhamento constante, obrigando assim Ariela a deixá-la sob os cuidados de pessoas estranhas no único asilo daquela cidade.

      Ariela visitava a mãe todos os fins de semana, e vez ou outra levava-a para sua casa, para rever seus pertences e matar a saudade de uma comida caseira e especial. Eram como irmãs e Ariela sofria por ter que deixar Dona Hortência com estranhos. A mãe dizia que era feliz no novo lar e que a filha não precisava se preocupar com nada. Às tardes jogava bingo e tomava chá com amigos. Riam e dançavam, depois se recolhiam aos quartos coletivos. Era tudo limpo, mas na verdade Dona Hortência não era mulher de ficar reclamando. Sentia solidão, muita solidão todos os dias. Não queria ter seus objetos por perto por medo de ser roubada. Não confiava nas pessoas tanto assim.

      Naquele quarto vazio Ariela sentiu o cheiro de mofo, de roupa guardada há anos, de pó nos móveis que a fez espirrar seguidamente. Por fim amarrou um lenço tapando as narinas para, enfim, retirar as roupas e doar a quem precisasse. Isso era uma ordem de Dona Hortência para quando ela morresse.

      Ariela não sentiu vontade de chorar, mesmo quando apertava algum vestido de sua mãe em seu peito. Ela pensou que sofreria mais, mas estava tranquila e até conformada com a ausência da mãe. Tinha saudades, e teria para sempre, mas não doía tanto quanto imaginava. Por momentos pensou ser fria como uma pedra de gelo, mas talvez pela vida solitária em que sua mãe passou os últimos momentos, sabia que agora Dona Hortência poderia estar num bom lugar, junto com os seus já falecidos.

      Certamente doaria tudo para o asilo de sua mãe, era assim que o chamava.. Ariela pegou roupas, sapatos, perfumes, talcos, maquiagens, esmaltes, bijuterias, tudo que sua mãe usava. Antes, claro, teve o cuidado de deixar tudo limpo e perfumado. Chegando lá, a primeira cena que viu foi uma senhorinha encostada no portão. Cumprimentou-a e perguntou se ela estava esperando alguém. Ela respondeu que sim, que seu filho logo chegaria. Ela usava batom cor-de-rosa e um perfume adocicado e enjoativo. Ariela sorriu, fechou os olhos e foi como se sentisse sua mãe por perto, devido ao perfume doce. Parecia ser o mesmo que estava na mala, o mesmo que sua mãe usava. "O perfume acabou de encontrar sua dona...", pensou Ariela. Ela entrou carregando com dificuldade a mala cheia com os pertences de sua mãe.

      As voluntárias que lá estavam receberam Ariela com alegria e, num abraço apertado, agradeceu pela gentileza em levar os objetos de Dona Hortência para lá.

      Ariela parou no corredor e, pela janela, ficou olhando o jardim. Não era dia de visitas e os idosos estavam sentados, cada um em um canto, olhando para o nada e sem se comunicarem uns com os outros. Ariela estranhou não encontrar aquela alegria descrita por sua mãe, dos jogos, brincadeiras, risadas e tudo o mais. Resolveu caminhar por eles e conversar um pouco com cada um.

      Um senhor que estava na cadeira de rodas, ficava o tempo todo com a boca aberta e vez ou outra, limpava a baba que escorria. Tinha os olhos lacrimejantes que pareciam olhar para o horizonte avistando a morte. Apenas esperava por ela. Não muito adiante, um outro senhor se entretinha com um livro. Ariela percebeu que ele passava as páginas rapidamente, impossível de terem sido lidas. Nesse instante uma enfermeira chegou até ela para acompanhá-la no passeio. Sem que Ariela perguntasse nada, Fabiana, a enfermeira, começou a contar sobre cada um. O senhor do livro não sabia ler, mas sempre foi tão encantado por livros que não se importava com esse detalhe; gostava de folhear as páginas e depois repetia todo o processo. Ariela pensou que poderia, de vez quando, voltar para ler para ele. Perguntou sobre o senhor da cadeira de rodas. Fabiana disse que ele tinha Alzheimer e que se lembrava apenas de sua infância, cada vez mais remota. Ninguém o visitava há anos... Depositavam o valor da mensalidade e pronto. Ariela perguntou sobre a mulher no portão. Fabiana disse que o filho morava há três quadras dali e que dificilmente ele vinha visitar a mãe. Mesmo assim ela ficava esperando por ele todos os dias e quando começava a escurecer, ela entrava, jantava e se recolhia para dormir. Balbuciava algumas palavras lamentando o filho não ter vindo naquele dia e logo dormia. No outro dia tudo se repetia.

      Ariela sentou ao lado de uma senhora que calmamente crochetava, sem saber definir o que seria. Era uma capa para bule de café, dizia ela, sorrindo para Ariela. Mostrou os detalhes e disse que todos os dias fazia a metade de um, que depois eram vendidas no bazar que faziam no asilo. Ficava feliz em poder ajudar de alguma maneira. Dona Antonieta, o nome dela, não tinha família e resolveu esperar pela hora da morte junto a pessoas. "Que triste morrer e ninguém saber", dizia ela, que imaginava seu corpo apodrecer até acabar o último resquício de carne e só depois algum vizinho sentir sua falta. Ariela pegou suas mãos e as beijou. Dona Antonieta acariciou seu rosto e disse que se sua filha estivesse viva seria assim, como ela.

      "Truco!", Ariela voltou-se para ver quem gritava quebrando aquele silêncio. Era Gumercindo e Antunes, que jogavam baralho o dia todo. Eram os únicos que se enturmavam nos dias comuns. Eram amigos de longa data e se reencontraram no asilo. Haviam feito o Tiro de Guerra na juventude e guardavam lembranças preciosas. Para Fabiana, esse reencontro foi a melhor coisa que havia acontecido no asilo nos últimos anos. Eram eles que animavam a turma nas festas. Mas o que animava mesmo os idosos eram os familiares que apareciam em dias de visita. Todos os dias poderiam ter visitas, mas se compreendia que a família precisaria trabalhar para sobreviver.

      Ariela perguntou para Fabiana se ela teria coragem de internar sua mãe num asilo. Ela apertou os lábios, abaixou os olhos e disse que se precisasse, sim, internaria. Mas sabia que dizia isso por não ter mais a mãe por perto, que havia falecido quando ela era bem pequena. Aquele amor de mãe ela não sabia como era. Talvez por isso respondeu tão rápido a pergunta.

      Ariela passou a tarde toda com os idosos e se sentiu muito bem. Poucos se lembravam de Dona Hortência.

      À noite, quando colocou a cabeça no travesseiro, orou, chorou e pediu perdão à mãe. Arrependeu por não ter criado uma outra alternativa para manter Dona Hortência por perto até seu último dia. Mentalmente começou a calcular quanto seria contratar uma cuidadora. Não, não seria possível com o salário de Pedagoga. Chorou durante algumas horas e depois adormeceu.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Gratidão


Gratidão, segundo Michaelis, qualidade de quem é grato, agradecimento, reconhecimento.

Seja grato!

Com tudo, a todo o momento, bom ou ruim, agradeça...

Feche os olhos e eleve seus pensamentos ao Altíssimo e agradeça...

Dores, sofrimentos, agonias, doenças, fazem parte da vida de cada um. Agradeça assim mesmo...

Não peça nada, agradeça! E espere... Levante-se e corra atrás, busque seus objetivos, com fé n'Ele, não desista!

Deus sabe de cada detalhe nosso e como um Pai carinho quer o melhor pra nós, e nem sempre esse melhor é o que queremos, mas o que ele tem certeza que nos faria melhor. Deixe de ser teimoso e agradeça pelas perdas também. E limpe a mente e espere o novo. o inusitado, sem lamentações, sem lamúrias ou ladainhas. Deus não suporta ladainhas... Ninguém suporta ladainhas, a não ser que você pague pra alguém ouvir suas ladainhas e reclamações.

Quer chorar, chore o tempo necessário, depois agradeça...

Limpe seu coração de todo rancor, ódio, vingança, inveja... Você tem inveja de quê? Não se assuste, o ser humano também tem esse sentimento, a inveja. E procure controlá-la e alcance o que é seu, por merecimento. Sim. você merece!

Tantas coisas boas acontecem na vida e não nos damos o trabalho de simplesmente agradecer. Por que? Não nos lembramos, não é? Só reclamações. "Ah, mas por que foi acontecer justamente comigo?" E por que não com você? Ou comigo? Ou com aquela pessoa?

E se você ganhasse uma fortuna, também reclamaria? "Ah, mas por que eu ganhei, e não a outra pessoa? Heim?

Agradeça e espere pelo que virá. Deus sabe das coisas e de nós. Sabe de nosso coração e do que carregamos dentro dele. Busque o que você queira, de coração aberto e pensamento positivo.

Gratidão e caridade. Caridade de coração pra coração... Sem esperar retorno. Não digo caridade de sempre ofertar algo aos pobres. Isso também, claro, mas caridade de se doar por algum tempo pra outra pessoa, seja da maneira que for. Já fez isso? Enquanto se doava pra outra pessoa pensou nos seus enormes problemas?

Agradeça, isso é o que importa. O resto virá, com certeza, bem maior e mais rápido do que você imagina. E esteja preparado pra receber o que você tanto queria. Está preparado?

Crê no Criador e se entregue de corpo e alma.

Um Feliz Natal a todos e um maravilhoso 2015, com muita luz, saúde e tudo aquilo que desejamos sempre. Se for desejo de coração é uma forma de caridade.

Voltarei só ano que vem (essa é velha, eu sei).

Amém!


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

VenceDora


      Dona Beatriz, que Deus a tenha, acertou em cheio na escolha do nome da filha. Dora, de venceDora. É a palavra ideal para definir essa mulher nos seus últimos tempos.

      O tempo passa e a hora de partir vai ficando mais próxima... Um dia a menos de vida, uma lágrima que nem escorre mais, uma dor num lugar que nem se imaginava existir... Mas a dor maior é a da solidão do fim dos tempos. Dói... Como um canivete cego que tenta cortar uma carne mole e não consegue... Para lá e para cá, forçando e apertando até abrir uma fissura que não sangra e que linha e agulha não costuram. Fica exposta, ao tempo, até definhar de vez.

      Ainda tem boa saúde, sua visão é de uma jovem e só usa óculos para ler as letras miúdas. Sua mente guarda coisas que nem o mais potente computador se lembraria, e é lucida. Que orgulho que Dora tinha de sua lucidez!

      Aos poucos e em doses homeopáticas presenciou a partida de gente querida... Primeiro seu pai, depois sua mãe, que teve todo o carinho de Dora até os últimos momentos. Solteirona assumida, mas não por vontade própria. Apenas ficou esperando um homem especial que se esqueceu de aparecer na sua vida. Ainda hoje quando sai por aí e se encontra com algum amigo dos bons tempos fica imaginando se não seria ele sua alma gêmea. Combinavam tanto... E não passou de uns olhares mais penetrantes. Logo se casou com outra e hoje tem uma penca de netos.

      Dora continuou cuidando, amparando, curando, ouvindo... E o tempo passou. Sem filhos, com sobrinhos todos encaminhados por aí e sobrinhos-netos sem paciência para responder as perguntas da tia solteirona que fica apertando suas bochechas. Uma linda idosa que não tem para quem contar as várias histórias de sabedoria que todos idosos têm. Quem sabe ainda dê tempo para escrever num caderno tudo o que achar importante, e num dia qualquer, depois de sua morte, algum curioso antes de doar seus pertences abra o caderno e se encante, pelo menos com a caligrafia desenhada. Seria demais imaginar um livro sobre sua vida. Todos têm um livro embutido chamado vida. O de Dora é mais um que logo ficaria eternizado numa estante, perdido em alguma casa de algum parente.

      Seus olhos azuis eram expressivos, penetrantes, instigantes. Contam as más línguas que Dora tinha o dom de ler os pensamentos. Bastava olhar fundo e ela descobria algum segredo que ninguém imaginava. Às vezes descobria até o que estava para acontecer. Os longos cílios deitavam em suas bochechas quando fechava os olhos. Os cabelos grisalhos se encaixavam harmoniosamente em cachos minúsculos, como se fossem moldados todas as manhãs. As rugas de expressão denunciavam dia após dia que a contagem regressiva caminhava a passos ligeiros. Até hoje perguntavam porque não casara. Porque não, respondia. Já se achava no direito de não dar explicações de nada sobre sua vida. Já estava no fim e quem quisesse saber que perguntasse para os mais velhos.

      Num sábado nublado, Dora acordou e não quis se levantar. A cama quente e a luz fraca do abajur eram seu aconchego. A cortina florida balançava suavemente com a brisa que entrava pelas frestas da janela. Nem quis saber que horas eram, queria ficar quietinha e conversar com Deus. Um monólogo torturante de quem não suportava mais ouvir a própria voz e nem ver a própria imagem no espelho. Esperar mais o quê, meu Deus do céu? Já cumpri minhas obrigações por aqui cuidando de irmão mais novo, de pai e de mãe, então que me leve logo para um outro lugar, onde não sinta tanta dor na alma como sinto neste quarto, nesta casa... Indagava a Deus e nem uma lágrima se atrevia a escorregar pelo rosto.

      Ficava imaginando fechar os olhos, dar um último suspiro e aos poucos o corpo ir padecendo, órgão por órgão, até o último cessar. O coração. Este que já suportou tantas dores de desaforos, tanta discriminação por simplesmente não ter gerado vidas em seu ventre, tanto descaso por ser uma idosa... Outro dia ouviu sem querer de uma sobrinha adolescente que gente ruim também envelhece e que nem todos velhinhos são bonzinhos. Será que falava dela? Preferiu nem saber. Se afastou sem fazer barulho e foi se sentar no alpendre da velha casa de seus pais que agora era sua. Não por direito pois sabia que esperavam sua morte para fazerem a partilha. Olhava as samambaias, penduradas na parede, com as folhas que caiam como cascata até encostarem no chão, verdinhas, sem nenhuma folha seca que lhe tirasse o frescor. Quem aguaria suas plantas quando ela se fosse?

      Um estorvo. Não dependia de ninguém e exatamente por esse motivo não a enfiaram num asilo. Se morresse naquele minuto talvez, quando dessem por sua falta, já estaria em estado de putrefação. Quem sentiria sua falta?

      Ainda deitada ouviu o relógio da sala tocar dez badaladas. A campainha tocou e Dora ficou se perguntando quem seria naquela hora? Ninguém batia em sua porta. Pela curiosidade pediu licença a Deus, colocou um robe e foi ver quem era. Um vendedor de pamonha, quentinha e com queijo! Ah, mas que delícia comer pamonha e morrer! Chegaria satisfeita nos céus. Quantas vezes ralou os dedos junto com as espigas para fazer pamonhas, numa das muitas reuniões de família! Comprou quatro. Duas comeria agora e as outras duas à tarde. E se morresse depois de comer duas como havia programado? Bem, se chegassem a tempo poderiam comer as outras duas.

      No caminho da rua até a cozinha parou na sala e ligou a TV como sempre fazia pela manhã. Quando se deu conta estava sentada no sofá com o prato com as pamonhas, comendo tranquilamente e assistindo ao seu programa favorito. Riu e olhando para o teto conversou com Deus:

      - Mas o Senhor é porreta mesmo, heim, meu Pai? Eu queria morrer, lembra? E olha o que o senhor coloca na minha frente: pamonhas! Tá bom, depois conversamos sobre uma outra data para eu morrer.

      Fim.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Sozinha na Multidão


Chego à conclusão de é comum, como na imagem, se sentir sozinha na multidão. Não é ruim, cada um tem sua vida, suas coisas para fazer, sua família para cuidar e ainda ficar se preocupando com quem aparentemente está bem, é impossível.

Como já disse no post sobre como superei a depressão, tudo começou a melhorar, dia a dia, uma coisa de cada vez, com paciência.

Mudei de emprego e o que eu tenho escutado das pessoas é que já era tempo de fazer isso, de sair mais de casa, ver gente, conhecer, respirar novos ares... Enfim...

Concordo com todas elas porque isso é bom. Aí fico me perguntando e para algumas até fiz a mesma pergunta: sabem o que eu passei nesse tempo todo? Onde estavam que não vieram me falar isso há anos quando eu mais precisava de um apoio? Sabem das dificuldades que tive até então? Sabem o motivo pelo qual não saía de casa, não arrumava outro emprego?

Não, não sabem porque eu nunca contei. Acho que desde sempre aprendi a me virar sozinha e agora ter que compartilhar algo com os outros é difícil. Tenho a sensação de que contando ou lamentando estou reclamando além da conta. Não gosto de ficar lamentando ou reclamando. Há um gasto de energia desnecessário, tempo desperdiçado, amolação aos ouvidos dos outros...

Antes, bem antes, eu até ficaria magoada ou triste com essas pessoas, mas aprendi a conviver com tudo e com todos. Eu também sou assim. Quem sabe alguém próximo passa por situação e eu nem me dei conta? Não temos bola de cristal e nem o dom de ler a mente das pessoas, então ficamos achando que tudo está bem e que a vida do outro é sempre melhor que a nossa. É a vida... São as pessoas, cada um com seu cada qual.

Sábado, no Altas Horas, vendo Pe.Fábio de Melo, mais uma vez ele repetiu uma frase que me marcou muito e que concordo plenamente: "Eu me conheço e os outros me imaginam".

É bem por aí mesmo. Só nós para nos conhecermos. Mesmo nos expondo de alguma forma ninguém saberá o que se passa em nossa vida ou em nossa mente.

Que julguem, que falem, que comentem, que inventem... Que me importa?

E para concluir, um pedaço do texto de Madre Teresa de Calcutá:

"No final verá que é entre você e Deus. Nunca será entre você e os outros."

Uma ótima semana a todos!


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Amar o Próximo

Voluntários do Sertão

Um dia, um rapaz saiu do sertão da Bahia, lugar precário de tudo, e foi para o Sudeste. Se deu bem, prosperou em Ribeirão Preto e mesmo assim não ficou satisfeito. Queria agradecer de alguma forma por tudo o que conquistou, ajudando o povo de sua terra. Tudo começou com essa formiguinha chamada Doreedson Pereira, o Dorinho e hoje já é um projeto que deu certo, que atende milhares de pessoas carentes, em cidades sem nenhuma infraestrutura, gente humilde que aguarda ansiosa, uma vez ao ano, ser atendida por um mutirão de voluntários para cuidar de algo que não teria condições nem financeiras e nem de especialistas.


"Implantado em 2000 pelo empresário Doreedson Pereira, (Dorinho) o projeto iniciou distribuindo brinquedos e cestas básicas, em Condeúba e cidades vizinhas, no sertão da Bahia. Atualmente o programa realiza atendimento médico, odontológico, pequenas cirurgias, palestras, e distribui Kits de saúde e higiene pessoal.

Seu objetivo é promover assistência social, saúde, segurança alimentar, nutricional e promover o voluntariado com acompanhamento dos indicadores de transformação social. A ação é anual e a equipe de voluntários é composta por médicos de várias especialidades, dentistas, enfermeiros, psicólogos, pilotos, cozinheiros, motoristas, auxiliares administrativos e populares de boa vontade, liderados por especialistas das respectivas áreas.

A caravana é composta por caminhões, aviões, e vans que corta o país e realiza uma maratona de atendimento que dura uma semana e resulta na maior ação de saúde e cidadania do interior da Bahia."

Leia mais no link clicando AQUI

E mais esse link AQUI da EPTV de Ribeirão Preto, que é emocionante.

Um trabalho de formiguinha, um ajudando o outro a ajudar o próximo. Quem quer faz e não se discute. Vai atrás e, graças a Deus, gente boa e disposta é que não falta nesse mundo. As autoridades até tentam pegar uma rabeira na história, mas quem faz tudo é o povo caridoso que não mede esforços para ajudar quem precisa.

Vida longa aos Voluntários do Sertão!