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sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

2021 - O Ano

?

 O que esperar de 2021?

- Bons pensamentos para termos bons resultados;

- Bons projetos para que tenhamos uma excelente prosperidade;

- Boa alimentação, para que nossa saúde seja perfeita para vivermos até o último suspiro sem nenhuma sequela;

- Meditação todos os dias, para nos encontrar com Deus;

- Bons amigos que nos incentivem ou que, pelo menos, não nos desanime para o que temos planejado;

- Capacidade para aceitar o outro como ele é;

- Capacidade de perdoar, não importa o quê;

- Amar incondicionalmente, nos enxergar  no outro;

- Amar o trabalho do momento, para que possamos estar felizes e prosperar;

- Entregar além do solicitado;

- Ajudar ao próximo, sem julgar o que o próximo fará com nossa ajuda;

- Ajudar quem quer ser ajudado;

- Espalhar coisas boas, para essas coisas boas venham até nós;

- Estudar o que nos propusermos, para estarmos o menos manipulável possível;

- Pesquisar várias fontes de informações para tirarmos nossa própria conclusão;

- Ler bons livros para expandir nossa mente e estarmos mais preparados para os desafios da vida;

- Aceitar que as pessoas morrem e um dia esse momento chegará pra nós;

- Aceitar que não temos o controle sobre nada nessa vida, nem em nossos pensamentos;

- Aceitar que cada um tem seu momento e deve ser respeitado;

- Agradecer por tudo que está a nossa disposição para desfrute;

- Lembrar todos os dias que somos feitos à imagem e semelhança de Deus;

- Podemos acessar qualquer tipo de informação, basta querer e agir;

- Aceitar que tudo começa e termina em nós;

- Deus é bom e misericordioso e nos trata como um Pai amoroso;

- Ter a certeza que tudo começa e termina em nós, porque somos seres eletromagnéticos;

- Saber que existe reação a toda nossa ação;

- Saber que o grande propósito do ser humano e relacionar-se com o outros seres humanos;

- Saber que estamos aqui para sermos felizes, amar e sermos amados, ajudar e sermos ajudados.


Um excelente Ano Novo para todos!





domingo, 29 de outubro de 2017

Depois De Tanto Tempo

Escola Cel.Francisco Martins - Franca/SP

Este fim de semana, amigas e eu fomos a uma pizzaria.
Na saída, enquanto esperávamos por uma das amigas, passou por nós uma mulher, seus filhos e o marido. Tudo bem, sorrimos todas umas pras outras, ela parou a minha frente e disse que me conhecia.
Meus Deus, não me lembrei de jeito nenhum de onde e muito menos o nome dela.
Disse que estudamos juntas, nessa escola da foto acima.
Isso faz "somente" quarenta e quatro anos! E ela se lembrou de mim! Será que não mudei nada? Mudei sim, mas a fisionomia continua a mesma, é o que dizem...
Quando ela me disse isso, imediatamente me lembrei dela, que era a filha da professora do segundo ano primário, Dona Jupira, um doce de professora, claro que iria me lembrar dela, assim como me lembro de quase todas elas.
Depois de identificá-la que reparei nos seus traços e era ela mesma, Cléa, a aluna branquinha, pequenininha, que me ajudava nas redações corrigindo meus erros de português, na casa dela mesma, antes que a mãe corrigisse. Não sei se fazia essas correções somente com minhas redações, mas como poderia me esquecer disso?
Uma que me lembro claramente foi uma palavra que escrevi errado e nunca mais me esqueci de como se escreve: "ruim". Eu havia escrito "rui... era muito rui...", me lembro como se fosse hoje.
A letra dela era mais redondinha do que a minha, e não tenho certeza se a mãe dela, a doce Dona Jupira, não desconfiava da tramoia da filha.
Bem, se desconfiava ou não, nunca tive problemas com redações ou com a língua portuguesa, porque, naquela época, graças a Deus, tínhamos ditado e depois redações, várias redações, que nos permitia decorar a grafia correta de cada palavra.
Que alegria ao ficar sabendo da mãe de Cléa, a doce Dona Jupira, que ainda está viva e com noventa e um anos. Ela disse que a mãe tem falhas de memória, mas está bem de saúde.
Mandei um beijo e disse a Cléa que jamais me esqueci dela.
Professores, mesmo não tendo o devido reconhecimento, saiba que ele vem através dos alunos, que jamais esquecerão de vocês, passe o tempo que passar. Portanto, tenham amor à profissão, que é a base de todas as outras!
Não percam as esperanças de dias melhores, mesmo que a situação não esteja favorável, é uma profissão belíssima!
Que Deus abençoe a todos os professores e que os alunos se lembrem com carinho de vocês!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Dia dos Moços


Dia desses encontrei Rominho, de nome Romildo, caboclo forte, robusto, moreno e careca. Ah, me lembro muito bem o medo que esse menino tinha de ficar careca! Imagina? A homarada da família tudo careca e ele num ia ficar? Capaz!

Éramos amigos do tempo em que morávamos na roça. Nunca mais tinha visto ele, e, do nada, encontrei o caboclo perambulando pela rua, ora essa! Foi ele quem me conheceu, me gritou e veio com o mesmo sorriso fácil de sempre, pronto pra um abraço apertado. Diz ele que continuo o mesmo. Olha, não sei se isso é elogio ou não, mas contando o que já havíamos aprontado na infância e juventude, qualquer palavra dele é um elogio pra mim.

Conversa vai, conversa vem... E saiu da boca dele a Raquel. Ei, ai... E quem não se lembrava da Raquel?

Era Rominho, eu mais Tiago. O trio do sertão que galopava ligeiro e que tinha a pele queimada do sol, como se fôssemos mulatos. Chegava a brilhar o suor nos braços roliços. Hoje vendo esses jovens se acabando em academias, não têm a barriga dura igual a gente tinha naquele tempo. Dava pra contar os gominhos, mesmo não fazendo tanto sucesso quanto hoje. Nem eu nem Rominho preservamos os gominhos. Cheguei à conclusão quando o vi, que a vida é ingrata, mesmo sabendo que nós é quem somos ingratos com a vida. Custava ter preservado pelo menos os gominhos? As meninas até gostavam, mas quem fazia sucesso era Tiago. Como muda a vida! Rominho tá casado e já é até avô! Só falta falar que também usa dentaduras, aí seria derrota demais da conta!

Raquel, morena roliça, de pele brilhosa, coxa forte e bunda arrebitada. Jesus, o que era aquilo? Tinha idade pra ser nossa mãe, mas ainda bem que não era. E a danada gostava da coisa, de tudo de uma vez...

Quando ela chegava no pasto só soltava um assovio e nós três, em sincronia, olhávamos pra ela e saíamos correndo. Parecia até a mãe chamando, numa sangria desatada! E mesmo assim a gente nem corria quando a mãe chamava! Quem chegasse primeiro ganhava um beijo. Os outros não! Tinham que ficar esperando a vez, mas podiam ver tudo, serviço completo! Depois chamava o outro e depois o outro. Quem não estava na labuta ficava esperando, já em ponto de bala! Adivinha quem sempre ganhava o beijo? Rominho! Muleque comprido, canela fina e corria igual um cavalo. Ninguém ganhava dele! 

Qualquer lugar era lugar, no meio do pasto, na beira do rio, no meio das bananeiras, não importava, Raquel chegava com o lugar já escolhido e nós íamos seguindo em fila indiana, como filhotes de patinha a acompanhar a mãe rígida. Essa era a alegria dos moços da roça!

A gente esperava por esse dia, que às vezes demorava, às vezes eram dois ou três dias seguidos. O bom de ser nós três juntos é que quem ficava olhando, também ficava vigiando se avistava o Benito, o namorado de Raquel. Aquele sim era um armário perigoso. Nem preciso dizer nada dele. Apenas vivíamos a adrenalina do medo seguido de tesão. Mas vem cá, que vida chata de quem não tem aventuras, não é? Que histórias contaria pros filhos e pros netos? Rominho ria enquanto se lembrava de Raquel e do nosso medo do namorado dela, o Benito. 

Será que ela casou com ele? Só sabíamos que ela havia se mudado pra cidade e nunca mais pousou aquela bunda redonda na roça... 

Rominho se formou doutor advogado, família feliz, quase rico, escritório particular, carrão do ano... Eu continuo na mesma, não na roça, mas na cidade, no meu primeiro emprego, numa autoescola. Dando aulas. Quase trinta anos no mesmo lugar. Caramba, como o tempo passou e eu nem percebi! Poderia ter me formado também, ter tido uma casa boa, carro bom, mulher bem cuidada, filhos formados... Mas não, a única aventura de que me lembro era me aliviar com Raquel. 

Tiago, nem eu nem Rominho tínhamos contato mais. O que fez de Tiago?

Na época ele era o come-quieto, sabe? Aquele que surpreendia, que chegava pelas beiradas e fazia um estrago nos corações das moças. Também, loiro de olhos azuis! E era bonito, porque tem loiro de olhos azuis que é feio igual um diabo! 

E Raquel, que fim levou Raquel? E Benito, o noivo dela? 

Saudade daquele tempo, daquela roça com as pastagens verdinhas, os cavalos que a gente galopava sem arreio, na pele mesmo, da cachoeira gelada que fazia a gente encolher tudo, do pé de jatobá, ô fruta difícil de comer, mas a gente comia com gosto, porque era só apanhar e pronto. Do fogão a lenha, da horta verdinha, e do bananal, que maravilha! De manhãzinha, quando a gente acordava, ia na varanda, com a caneca de café, só pra ver o nascer do sol. Visão mais linda nunca vi igual! O céu azul escuro ia clareando, aos poucos o amarelo ia empurrando o azul pra cima, um clarão atingia nossos olhos e lá estava ele, todo imponente, majestoso, grande, quente! E a vida começava, dia após dia... 

Parece que foi ontem! Obrigada, meu amigo Rominho, por me trazer tantas lembranças boas!


Clara Lúcia

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Quando Os Olhos Falam


      Já passava das das vinte horas quando Lívia começou a se despedir de todos à mesa para ir embora. Imediatamente Lucas a puxou pelo braço e pediu que ficasse mais um pouco. Eram amigos há alguns anos e sempre se encontravam, com mais três amigos também, para uma rodada de cerveja e petiscos. Aos poucos cada um foi se retirando permanecendo apenas os dois e Diana. Diana era amiga de Lívia e quase não participava da reunião deles. Especialmente neste dia havia bebido muito e certamente precisaria de ajuda para voltar para casa. A incumbência ficou por conta de Lívia, que se sentia responsável por Diana ser mais nova e frágil quando bebia álcool. Nada exagerado, porém Lívia se sentia culpada por induzir a amiga a beber de vez em quando.

      Lívia, com as bochechas rosadas e os cabelos um pouco grudados na cabeça devido ao calor de verão, deu um beijo no rosto de Lucas para se despedir, como sempre fazia. Lucas não era de beber demasiado. Era o responsável da turma e sempre levava todos para suas casas. Nesse dia não levaria ninguém, como havia combinado antes de se sentar à mesa. Tinha um compromisso mais à noite e não mudaria sua rota desde então. Lívia, ainda encostada no rosto no de Lucas, demorou um pouco para concluir o beijo. Na verdade quem demorou foi Lucas. Se afastaram e se olharam... Olhar profundo como jamais haviam se olhado antes. Não era aquele olhar carinhoso ou cuidadoso, era diferente... Lívia suspirou, continuou firme pesquisando o fundo dos olhos de Lucas. Mexia os olhos descontroladamente, observando as sobrancelhas, o nariz, a testa, os lábios... Cada detalhe daquele rosto tão conhecido. No instinto, ela entreabriu a boca, como se esperasse um beijo, e Lucas, hipnotizado, retribuiu o olhar e segurou o rosto de Lívia, abaixo da orelha e acariciou a bochecha com o polegar. Estavam muito próximos um do outro... Ele fixou seu olhar nos lábios dela e se aproximou. Lívia fechou os olhos e se entregou, mas antes de tocar seus lábios nos de Lucas abaixou a cabeça, segurou nas mãos dele, pediu desculpas e se afastou. Olhou para Diana, que estava com os olhos arregalados, queixo caído e não sabendo o que fazer. Lívia sorriu, pegou na mão da amiga chamando-a para irem embora. Moravam há poucas quadras do bar em que estavam, portanto iriam à pé. O sol aos poucos anunciava o início da noite, proporcionando uma cena belíssima estampada num alaranjado escuro com pitadas de vermelho e marrom a sua volta. Lívia suspirou, caminhou olhando para o chão e sem falar uma palavra. Lucas ficou observando as duas se afastarem, apoiando os cotovelos na mesa.

      Lívia nunca havia percebido, mas Lucas, quando tinha a oportunidade de estar no mesmo ambiente que ela, não desgrudava em nenhum momento. Quando chegava e não havia cadeira vazia perto dela, fazia com os demais se afastassem até se acomodar ao seu lado. Lívia se divertia dizendo que ele era seu protetor, que quando estava com ele estava com Deus. e ele olhava para Lívia com aquele olhar profundo e enigmático, mesmo tentando mostrar a ela o que cabia dentro daqueles olhos além da doce amizade de anos.

       Lívia, no caminho para casa e sem prestar atenção no que Diana estava lhe falando, suspirava e sentia o coração pulsar rápido. Medo e vergonha era o sentimento que tomava conta dela, uma paixão momentânea por um amigo querido. Jamais imaginou se relacionar com Lucas de um modo que não fosse somente amizade.

      Lívia, percebendo que os olhares de Lucas ultimamente não eram mais inocentes como antes, suspirou e mordeu o lábio inferior. Não sabia o que pensar e nem o que dizer a ele num próximo encontro. Abaixou a cabeça, cochichou sem deixar Diana ouvir, como se quisesse falar para si mesma, que tudo isso era besteira, que estavam sob o efeito do álcool e que tudo continuaria como antes. Respirou aliviada, chegou na sua casa, se despediu de Diana e entrou feliz. Diana seguiu mais uma quadra, onde morava com seus pais.

      Cantarolando e se distraindo com suas coisas, Lucas não saía da mente de Lívia. De repente se via pensando nele, suspirando, boca seca e coração acelerado. Depois se levantava, disfarçava a petulância por ter tido pensamentos quase pervertidos e continuava sua rotina de distrações.

      Os dias se passaram, Lívia estava tranquila quando aos suspiros por Lucas, até se encontrarem ocasionalmente na rua de sua casa. O acaso era o que ela pensava, mas Lucas foi procurá-la. De longe viu o amigo caminhando com as mãos nos bolsos, vez ou outra ajeitando a franja lisa que tapava parte de seus olhos e estampando um largo sorriso ao avistá-la. Lívia, desconcertada, tentou não ter uma síncope com o coração querendo saltar para fora do peito. Sorriu acanhada e caminhou olhando mais para o chão, por vergonha de olhar novamente aqueles olhos cor-de-mel que soltaram faíscas na última vez em que foram olhados. A uma quadra de distância, Lucas parou, cruzou os braços e ficou esperando Lívia se aproximar. Ela, percebendo o longo caminho a percorrer até ele, suspirou, sentiu a boca seca e continuou. Não conseguia disfarçar o largo sorriso e as bochechas já coradas, por causa da timidez. Chegou à frente de Lucas, olhou de novo o fundo daqueles olhos, entreabriu a boca, como se esperasse mais um vez um beijo. Lucas, continuando do ponto onde parou dias atrás, no último encontro, pegou o rosto de Lívia, tocando em seu pescoço e acariciou a bochecha com o polegar. Fixou os olhos nos lábios dela e beijou-a ternamente. Lívia se entregou sem  remorso... Se abraçaram e ficaram parados no tempo, de olhos fechados, sentindo o coração pulsar...

      — Minha ceguinha... Até que enfim percebeu, né? — ele sussurrou no ouvido de Lívia...


❤❤❤


Um Feliz Natal a todos, um Ano Novo repleto de esperanças e realizações. Fiquem com Deus e até!

sábado, 18 de junho de 2016

Letra de Livro


      Anos 70...      

      O cachorro latia insistentemente fazendo com que Dona Aurora se irritasse e o mandasse ir deitar. Figo chorava, abanava o rabo fazendo com que seu corpo envergasse lateralmente. Dona Aurora olhou pelo vitrô da cozinha e entendeu o motivo: Véio chegando com um embrulho nas mãos. Não era um embrulho, mas uma maleta verde que ela não tinha ideia do que seria.

      Véio, como era carinhosamente chamado por todos, devido a precocidade de seus cabelos brancos, desde os dezesseis anos, assoviava subindo o degrau que separava a calçada do portão de ferro, enferrujado pelo tempo, que garantia a segurança e privacidade de sua casa. Ao abri-lo, um ranger incomodava quem estava por perto. Garantia que afugentava os homens de pouco caráter, pensava ele todas as vezes em que entrava ou saía de casa. Já estavam acostumados com o ranger, mas os vizinhos ainda ficavam incomodados. Quem passava em frente a sua casa não entendia o mistério do portão denunciador, pois o restante do muro era baixo, sendo de fácil acesso a quem tivesse destreza suficiente para pulá-lo. Mas, além do portão, havia Figo, seu leal companheiro, aos doze anos com cara e jovialidade de um adolescente. Seu pelo, quando exposto ao sol, ficava esverdeado, bonito, brilhoso, por isso o nome Figo. Figo da fruta, que faz o doce mais suculento já feito por Dona Aurora. Ficava tão verde que dava dó de comer sem lamentar estragar a perfeição da bolinha em foma de pião. Mas essa é uma outra história. Lembram do pião de madeira que os meninos enrolavam uma corda e lançavam ao chão?

      Dona Aurora, enxugando as mãos no avental surrado, ficou na porta esperando Seu Véio todo pimpão chegando com sua maleta misteriosa. 

      Todo orgulhoso destravou o fecho, abriu calmamente, riu e perguntou para sua mulher se sabia o que era aquilo. 

      — "Não, quéisso, Véio?" — perguntou curiosa.

      — "Isso é uma máquina que faz letra de livro, muié, espia só!" — sorriu, abrindo os braços mostrando a maravilha de aparelho que acabara de comprar.

      Dona Aurora não entendeu nada, apenas olhou na cara dele e voltou à lida da casa. 

      Seu Véio sentou-se, ficou admirando a bichinha, depois levantou-se e pegou um pedaço de papel, desses de enrolar pão. Tentou enfiar pelo rolo da máquina, mas não fazia ideia de como ela ficaria retinha lá dentro. Olhava de um lado, do outro, descobriu as rodelas laterais que faziam girar o rolo e deduziu que se introduzisse o papel de um lado, logicamente saía do outro lado. E fez! Ficou todo torto, mas conseguiu. Só não atinou que havia um "prendedor" para a folha ficar esticadinha, bastava puxá-lo para a frente, ajeitar o papel e depois soltá-lo. Com sacrifício, enfiou a folha sem afastar o "prendedor", com muita dificuldade, mas acabou conseguindo. Sorriu e se achou o maioral dos maiorais, pelo menos entre seus amigos era considerado o mais inteligente e culto. 

      Lembrou-se das instruções da moça da loja, em apertar as teclas com força, para que carimbassem no papel. A primeira seria A, em homenagem à Aurora, sua deusa para todos os momentos, tanto alegres quanto tristes. Não tinha muita paciência com ele, mas pelo menos não ficava criticando ou chamando sua atenção. 

      Depois veio a letra U. Depois R e assim por diante, até escrever Aurora em letra de livro, como havia prometido a moça da loja.

      — Corre aqui, veia, vem ver!

      Dona Aurora chegou por trás de Véio e leu seu nome, todo retinho, bonitinho e com letra de livro.

      — Gente, coméisso, Véio, cê endoidou, foi?

      Seu Véio ficou o resto da tarde fuçando na máquina de datilografia. Vez ou outra cantarolava uma moda de viola que saía do radinho de pilha que tinha lugar cativo sobre a geladeira. Dava uma sacudida nos ombros e depois voltava a acariciar sua preciosidade. Correu para pegar a Bíblia e copiar alguma frase. A folha não estava mais em branco e nem retinha na máquina, mas as letras de livro estavam todas em carreirinha, ornadas uma do lado da outra, algumas sem espaço entre elas e outras totalmente ilegíveis, como se Seu Véio fizesse um teste com as letras não utilizadas naquele momento. Depois os números, em ordem crescente e depois decrescente. E finalmente descobriu como escrever em letras grandes, maiúsculas e fáceis de enxergar. Soltou um grito de satisfação, levantou-se, puxou Dona Aurora pelo braço, segurou sua cintura e começou a rodopiar com ela, aproveitando a carona do forró que tocava solto na rádio.

      Dona Aurosa ria que dava gosto. Era feliz com seu veio assim, de graça, sem fazer esforço. Primeiro namorado e único homem de sua vida, Para sempre, obedecendo o sacramento matrimonial que há quarenta anos uniu esse homem descabeçado, avoado, curioso e doce. Simplesmente o amor de sua vida.

                                                                                                                                                           Fim

domingo, 29 de maio de 2016

Mensagem Para Você


Hoje assisti a esse filme, aliás, todas as vezes que passa eu assisto. Adoro!

Primeiro eles se conhecem virtualmente, depois ele descobre que ela é a moça da livraria, que pessoalmente a achava muito chata. Ela o conhece virtualmente e quando o conhece pessoalmente, sem saber de quem se tratava, fica com raiva, pois ele provocou o fechamento de sua livraria...

Falando de internet, por um lado conseguimos nos comunicar com quem nem conhecemos, às vezes contamos segredos, lamentações, dúvidas, desejos, sem ao menos saber quem está do outro lado do avatar, ou do vídeo. Pessoalmente temos tanto receio de um bom papo com gente estranha, não é?

Normal, pois não sabemos de quem se trata e quais as intenções. Mas virtualmente o corpo está longe, não há perigo do toque ou algo que não gostaríamos que acontecesse. Ou então gostaríamos muito, e aos poucos nos encantamos, nos apaixonamos e até amamos quem está longe.

Interessante como se tem facilidade (sem generalizar, por favor) em se apegar ao difícil, ao quase impossível, se há tantas pessoas por perto, tão mais fácil olhar nos olhos, tocar, ou simplesmente ter um papo olho no olho.

Pessoas virtuais são reais, e pessoas reais se tornam apenas conhecidas, talvez por medo de uma entrega ou por receio, ou pela primeira impressão que não foi boa, ou por comentários alheios que nem sabemos ser verdadeiros, enfim, quando não há a visão mútua, o conhecimento, pelo menos aparentemente, evolui mais.

Eu, por exemplo, sou mais da escrita do que da fala. Se fosse pra eu falar esse texto todo, com certeza não falaria mais que duas linhas, mas escrever, tenho muito mais facilidade.

Vale a experiência, vale o pé no chão, vale a intuição, vale o retorno, vale a pesquisa, vale stalkear, vale tudo, quando um relacionamento, tanto por amizade ou por interesse sentimental, se torna mais intimista.

Muito bom teclar com pessoas de várias partes do mundo, conhecer culturas, saber um pouco de cada um... E vale muito conhecer pessoalmente e ter um olhar carinhoso, dar uma chance, sentar e ouvir sem julgar, tocar, enfim, viver em comunidade, tanto virtual quanto real.

Uma ótima semana a todos!

quarta-feira, 23 de março de 2016

Um Novo Tempo


Nesses tempos difíceis que o Brasil se encontra, um respiro pra desejar uma Feliz Páscoa a todos, e que as bênçãos de Jesus habite cada coração, principalmente aqueles machucados ou inconformados.

Há uma disputa de opiniões, divisões políticas, guerras de palavras, achismos desnecessários, injustiças e a famosa cegueira momentânea.

Espero que tudo se resolva da melhor forma possível e, de preferência, o bem sobressaia o mal, o justo tenha humildade e que nenhum ser humano seja endeusado ou glorificado. Estamos no mesmo patamar, meu caro, nem mais, nem menos.

Mesmo que o final agrade só a uma parcela, não devemos nos esquecer que a vida é breve e o retorno vem a jato. O Universo não sabe se nossos atos são bons ou ruins, portanto nos é devolvido o que lançamos ao vento.

O julgamento quem nos fará será o Altíssimo, ninguém mais.

Não sabemos o que tem do outro lado, ou se há o outro lado da vida, e nosso livre arbítrio, às vezes, é traiçoeiro.

Quem crê, quem tem fé, quem se entrega a Deus, amém! E que Ele seja misericordioso aos que se acham imortais e indestrutíveis.

Está tudo muito triste e talvez o fim, aquele que tanto almejamos, demore anos, ou centenas deles, ou quem sabe nem virá, mas o importante é termos discernimento de não julgar e nem agredir quem não compactua com nossa opinião. Afinal somos únicos e é totalmente saudável divergir um do outro.

Respeito, paz e amor!

Uma Feliz Páscoa a todos!

domingo, 6 de dezembro de 2015

Até Ano Que Vem!


Que todos tenham um ótimo natal e um maravilhoso começo de ano!

Mesmo que não tenhamos o hábito de estar com pessoas várias vezes ao ano, vale estar no natal, ano novo, aniversário e até em outras datas. O importante é estar.

Não importa a quantidade de dias e sim a qualidade das horas vividas junto com quem se tem apreço ou carinho, amizade, amor...  Sentimentos bons não morrem e nem ficam adormecidos, então, meus queridos, não se culpem por ficarem tanto tempo logo dessa ou daquela pessoa. A vida é assim mesmo.

É pra isso que servem datas comemorativas, pra reunir, conversar, compartilhar, vivenciar momentos bons, colocar o papo em dia, abraçar mais apertado, beijar mais estalado, chorar de emoção...

E que Deus nos abençoe a todos!

Ano que vem eu volto!

Beijos!

domingo, 29 de novembro de 2015

AMOR OU PAVOR?



      Joana chegou à casa de sua mãe logo após o meio dia e encontrou Lucimara chorando, deitada em sua cama. Ficou preocupada, pois nunca havia presenciado um choro da irmã num lugar tão óbvio. Sabia que quando tinha seus sofrimentos, era na hora do banho, debaixo do chuveiro, que desabafava. Sabia disso pois o nariz e os olhos ficavam avermelhados.. Sentou-se na beira da cama, pegou em sua mão e começou a conversar, sem perguntar nada; apenas conversar. Essa atitude fez com que Lucimara desabafasse com a irmã. Joana era muito mais que irmã; era uma amiga, uma mãe para todas as horas. Havia se casado há pouco mais de um ano, o que fez com que Lucimara sofresse pela falta de sua companheira amada..

      Lucimara não combinava com os pais; viviam discutindo por causa das brigas entre os dois. Tinham o hábito de agredirem-se o tempo todo com palavras ofensivas e grosseiras. Era meiga, calma, terna e a atitude dos pais deixava-a infeliz. Ainda bem que tinha um apoio carinhoso de sua irmã mais velha, Joana, que cuidava dela como se fosse uma filha.

      Aos poucos, Lucimara conseguiu se abrir comentando que os pais haviam comprado uma casa, num bairro bem distante daquele em que moravam, e que para ela seria inviável continuar estudando numa cidade próxima, indo e vindo todos os dias, no período noturno. Não teria como voltar para casa se fosse morar num lugar muito longe. E o pior, ela foi a última a saber da mudança. Joana não sabia que os pais não haviam contado para a irmã, pois já era sabido por todos sobre a compra da casa; por isso não comentou nada até aquele dia. Praticamente teria que arrumar as coisas de um dia para outro. Isso deixou-a chateada. Pensava até em morar sozinha, em algum quarto de pensão ou dividir um cômodo com outra amiga, quem sabe? Lucimara tinha um bom trabalho, ganhava razoavelmente bem e teria como se sustentar. Os planos já estavam em andamento e sutilmente comentou sobre eles com Joana.

      Na mesma hora Joana interrompeu-a tranquilizando-a, pois ela poderia arrumar as malas e se mudar para a sua casa. Lucimara relutou, pois não queria incomodar a irmã recém casada. Sabia que o período de adaptação de uma vida a dois não era fácil, e ter uma terceira pessoa, uma intrusa, por perto, atrapalharia o costume que ainda não havia se concretizado.

      Mas, com a insistência de Joana, Lucimara aceitou o convite com a condição de ajudar nas despesas. Feito o acordo, arrumou as malas e mudou-se naquela mesma semana. Os pais pouco se importaram pela atitude da filha mais nova, sempre deixara-a livre para escolher o que lhe fosse melhor. Essa atitude era vista como descaso e indiferença por Lucimara, que muitas vezes se sentia rejeitada e pensava até não ser uma filha legítima. Vez ou outra procurava traços que fizessem com que acreditasse ter o mesmo sangue de seus pais. Na infância chorava escondida, se sentia rejeitada e feia, mas conseguiu superar boa parte desse sentimento. Os pais mudaram-se também, duas semanas depois.

      Lucimara era uma moça linda, que chamava a atenção de todos, mas não por sua beleza, mas por seu modo de agir e suas atitudes firmes e corretas. Seus pais sempre ouviam elogios sobre ela, e alguns até parabenizavam pela boa educação dada à caçula. Joana amava a irmã, mas não escondia de ninguém que tinha uma pontinha de inveja, pois nunca ouvira nenhum elogio a seu respeito, como ouvira tantas vezes sobre a irmã. Gostava de tê-la por perto, mas às vezes gostaria de trancá-la num cômodo e jogar as chaves fora. Enquanto isso, Lucimara ansiava pela inteligência de Joana, que sempre teve facilidade com os números, com a matemática e com os cálculos. Nunca conversaram sobre esse assunto, nunca se elogiaram em nada, apenas uma cuidava da outra e a outra se sentia segura ao seu lado.

      A vida em família caminhava tranquilamente, já que Lucimara ficava pouco em casa, pois trabalhava o dia todo e estudava à noite. Mas nas festas que o casal promovia, era Lucimara quem chamava a atenção de todos, deixando Joana muito intrigada. Seu esposo, Waldir, ficava de olho na cunhada, apesar de sempre respeitá-la.. Numa dessas festas, ouviu um comentário dele com um amigo, que a grama do vizinho era sempre melhor do que a grama de sua própria casa, e olhou para a cunhada e os dois caíram na risada. Isso deixou Joana inconformada! Será que havia colocado uma cobra traiçoeira dentro de casa? Depois desse episódio, começou a olhar Lucimara com outros olhos. Olhos de revolta, de inveja, de ódio, de arrependimento.

      Joana ficava pelos cantos ouvindo conversas e vasculhando as gavetas da irmã, cheirava a roupa do marido e mexia em seu celular para ver se encontrava alguma pista de uma possível traição. Já tinha um discurso pronto para quando chegasse o dia da descoberta. Não havia mais sossego e nem conversa amigável entre as duas. Lucimara não entendia a atitude da irmã, sugerindo até que procurasse ajuda médica. Joana soltou um grito quando ouviu tal insinuação: onde já se viu, querer afastá-la de sua própria casa, para desfrutar de um prazer em sua cama? Isso a incomodava muito e fazia com que imaginasse cenas dos dois nos quatro cantos da casa, escondidos, aos beijos e abraços. Imaginava pega-los no flagrante e cometer uma loucura caso isso acontecesse. Quantas e quantas vezes chegou pé ante pé no quarto da irmã só para verificar se estava mesmo dormindo sozinha, ou se seu marido não teria se infiltrado para tê-la nos braços, escondido dela.

      A situação estava cada dia mais insuportável, porém o final do ano se aproximava e Lucimara poderia seguir seu rumo, ou naquela cidade, ou em outra, caso conseguisse um bom emprego na área de sua formação.

      Chegado o dia da formatura, Lucimara estava exuberante e Joana num misto de amargura e alívio de se ver livre da irmã o quanto antes, de preferência no dia seguinte. Não lhe desejava o mal, mas queria-a longe de sua casa. Os pais não compareceram à formatura,  pois sendo em outra cidade e por serem idosos, ficariam cansados. Lucimara achou melhor assim, pois estava muito feliz por conseguir concluir uma etapa tão importante e não queria presenciar brigas na frente de todos, num dia em que era para ser comemorado.

      No outro dia, Lucimara feliz agradeceu à irmã e ao cunhado pela hospedagem durante o ano, e disse que na próxima semana se mudaria para um pequeno apartamento que iria dividir com uma amiga do mesmo curso.

      Joana não pensou duas vezes, abraçou a irmã, mas não com aquele amor cuidador, mas com um alívio de que seu casamento estaria a salvo daquela mulher linda que todos admiravam, mas que ofuscavam-na; e estando longe, seu reinado continuaria como era há um ano. Poderia respirar aliviada e já planejava se afastar da irmã. Já estava encaminhada e não necessitaria mais de apoio ou de atenção. Quem sabe até mudaria de cidade e seria feliz bem longe dos olhos de seu Waldir.

      E assim foi feito: Lucimara mudou-se e Joana voltou a ser a esposa dedicada e amada de Waldir. Mas a dúvida de uma provável traição continuou a perturbar-lhe. Nenhuma pista, nenhuma prova, nenhum cheiro ou marca de batom, nem nada! Resolveu deixar para lá. Já estava longe mesmo e Waldir continuava o mesmo de sempre, carinhoso, atencioso e com desejos pela esposa. Mas, se Joana encontrasse uma poeirinha sequer de traição, não mediria esforços para causar um estrago na vida de todos. Começaria pela irmã traidora que, além de perturbar-lhe a paz no lar, ainda roubara-lhe um pouco de Waldir. Brigaria até com os pais, por não ter corrigido a irmã mais nova enquanto era tempo. Deixara-a ao vento, que por sua própria conta levava-a onde bem entendesse e quisesse. Para Joana, Waldir era homem, e homem não resiste. Cabe à mulher conter-se e se portar com bons modos, como manda o figurino.

      A vida como ela é...

      Texto publicado em 18/06/2012 ´Editado

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A Felicidade Diferente Incomoda


Para quem ainda não viu, esta é a propaganda do O Boticário para o Dia dos Namorados, com casais gays. E está incomodando muito e já foi denunciada no CONAR, por pessoas que se sentiram ofendidas.

Mesmo com todo o avanço tecnológico, mesmo com toda a liberdade em redes sociais em se falar o que quiser, a vida alheia ainda incomoda muito. A vida íntima das pessoas ainda é assunto em todos os lugares.

Os defensores dos bons costumes, acham imoral a união entre pessoas do mesmo sexo, que agride a moral dos demais etc...

Cada um tem o direito de achar o que quiser, concordar ou não, mas fico pensando que no mundo há tantas coisas erradas e que fogem completamente dos bons costumes e mesmo assim não são condenadas. Mas a vida íntima de cada um, a felicidade, ah, mas incomoda muito.

Se é pecado ou não, é problema de cada um. Se relacionar com pessoas do mesmo sexo for pecado, eles são pecadores, assim como os julgadores que os condenam. Todos iguais pecadores.

Será que a vida sexual do cidadão está acima de seu caráter?

O que pode modificar na minha vida saber que não sei quem é gay e está feliz?

Ninguém precisa se tornar gay só porque há uma "revolução" pela liberdade de ser gay. Deixem eles em paz e cuide de sua vida, eduque seus filhos e seja honesto com as pessoas. Ninguém tem o poder de modificar o outro, então é de bom senso que se aceite o outro como é e não como você quer que ele seja..

A propaganda do Boticário não mostrou nada que fere os bons costumes. Mostrou apenas o amor entre as pessoas. Só isso!




quarta-feira, 27 de maio de 2015

Só Escuto Seus Olhos


      - Zé, preciso de você... Não tô bem e preciso conversar. Pode me encontrar agora, tô aqui na sorveteria perto de sua casa. Vem? - Com os olhos lacrimejando, Manu implorou para o amigo acudi-la.

      Menos de cinco minutos e Zé já estava sentado à sua frente, pronto a ouvi-la, pela enésima vez.

      Manu começou a ladainha amorosa de seu namoro eterno de oito anos, com Roni. Não aguentava mais a indiferença e falta de romantismo do namorado. Se conheceram ainda adolescentes e foi paixão arrebatadora que ultimamente nem estava tão arrebatadora assim. Manu sofria, pois pressentia que seus sonhos de princesa estavam por um fio. Tinha intimidade suficiente para confiar em Zé, seu amigo atencioso e carinhoso.

      Mal sabia ela que Zé, há algum tempo, enxergava-a de uma maneira mais intensa, mais íntima e apaixonada. Sempre que Manu tinha problemas, era com Zé que desabafava. E ele ouvia, ouvia, depois abraçava-a e pronto, tudo ficava bem. Cada um seguia seu caminho.

      Neste dia Manu estava linda, com os cabelos despenteados, boca minuciosamente desenhada com um batom vermelho e um perfume suave, que invadia o ar que Zé respirava. Enquanto ela reclamava de Roni, ele admirava-a, olhando cada detalhe de seu rosto, cada curva de seu queixo, nariz empinado, olhos pequenos e inquietos. Olhos negros, que não encaravam ninguém enquanto conversava. Gesticulava muito, dando a impressão de pedir ajuda às mãos para completar seu raciocínio.

      Zé nem ouvia seus lamentos, mesmo quando uma lágrima ou outra escorria pela bochecha. Calmamente ele passava o polegar de baixo para cima, como se quisesse devolvê-la aos olhos. E como brilhavam os olhos negros de Manu! Que otário esse Roni, pensava Zé, agora segurando uma das mãos de Manu. A outra permanecia livre, conversando com ele, junto com os lábios.

      Ela falava, ele ouvia e sorria: "Zé, tá me ouvindo? Tira esse riso da cara, pelo amor de Deus, é sério" - bravejava, nervosa. Vez ou outra ele assimilava "grosseiro" ou "esgotada", que ela balbuciava.

      Continuava reclamando e Zé concordava, acenando com a cabeça, mas com o pensamento naqueles lábios vermelhos, prontos para serem beijados com ternura. Uma lágrima escorreu, Zé enxugou-a com o polegar e continuou acariciando o rosto de Manu. Firmou seus dedos em torno da cabeça e deslizou o polegar pela bochecha e contornou seus lábios. Manu parou de falar e fitou na boca de Zé. Como um ímã, praticamente em movimentos lentos, as bocas entreabertas se grudaram num beijo suave, longo...

      Manu empurrou-o: "Você é meu amigo, e me beijou...." - puxou-o novamente e beijou Zé com mais intensidade, segurando seu rosto com as mãos, com receio dele escapulir e deixá-la no vazio...

      Zé, olhando nos olhos de Manu, disse-lhe que estava ali e que queria fazê-la feliz, como merecia ser. Que cuidaria, protegeria e nunca mais permitiria que nenhum ser humano arrancasse qualquer lágrima daqueles olhos pequenos. Manu, sem entender, abraçou-o e chorou.

      Em menos de seis meses já estavam casados, e depois de dois anos, nasceram as gêmeas Beatriz e Rita. Final feliz, reencontro inusitado, mas esperado.

      Fim.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Apenas Mais Uma


      Celular desligado e colocado num lugar que a vista não alcança, música triste no último volume e um dia inteiro, sem fazer nada, conspirando pensamentos que não deveriam habitar a mente de Telma. Mas habitavam, não cabiam dentro dela e escorriam pelos olhos em forma de lágrimas. Uma a uma se espatifavam no chão frio, tão frio como a noite que prometia ser especial. Clóvis...

      Depois de tanto tempo, se reencontraram e a declaração de Clóvis foi convincente, linda, romântica... Telma se encantara em ouvir tantos elogios. Como poderia saber que causava tantos desejos em um amigo da juventude? Tímido na época, mas bem ousado nos dias atuais.

      Trocaram telefones e redes sociais, não conversavam sempre, mas vez ou outra um aparecia para dar um oi, para saber se ainda tinham o mesmo interesse em se relacionarem além do aperto de mãos. E por que não? Pensava Telma, estava sozinha há tempos e pelo que sabia, Clóvis também não estava comprometido com ninguém.

      E aconteceu o que ambos queriam. E foi bom... Diferente, intenso, caloroso... Sem beijos, sem palavras bonitas, sem sussurros, mas foi bom. Uma rapidinha selvagem, ela definia. Inusitado e com desejo de durar a noite inteira. Menos de uma hora e Clóvis já se trocava para ir embora. Compromissos inadiáveis, dizia ele, trabalhava demais e não tinha tempo disponível além daquele. Quem sabe um outro dia? Um selinho de despedida e só.

      Ainda no mesmo dia, Telma tentou contato com Clóvis. Apenas visualizou. Outra vez e respondeu com uma imagem.

      Telma desmoronou. Não que quisesse algo ou coisa parecida, mas não tinha o costume de se entregar e nunca mais conversar com o homem. Não sabia como lidar com essa situação de frieza e abandono. Não era abandono, mas doía saber que foi tão rápido e com um tchau significando adeus.

      O sexo foi de comum acordo, e foi bom. O depois foi péssimo, medonho, dolorido e vazio.

      Qual a dificuldade de Clóvis dar-lhe um bom dia, ou boa tarde, ou fazer um só elogio? Dificuldade bem menor do que o sentimento de impotência de Telma, de não ter tido o bom senso de pensar mais um pouco e não se envolver de maneira tão banal e oca. Chorou muito. Não de saudades ou de paixão, não. De arrependimento. Há tempos já havia combinado com ela mesma em não se envolver com ninguém tão facilmente. Esse tipo de relação não fazia parte de sua vida, sendo tão romântica e carente. A carne falou mais alto... Um sexo casual... Horrível.... De comum acordo, sem interesse sentimental, sem envolvimento. Apenas sexo...

      Não pensava nada além por ter sido tão fácil e com a certeza de ser mais uma na vasta lista de conquistas de Clóvis. Sabia disso e não podia reclamar. A amizade talvez tenha acabado, a ilusão nunca existiu, o corpo padeceu em sangria desatada de uma dor só dela e de mais ninguém. Será que para ele foi tão ruim assim, que nem se interessou em fazer um elogio sequer? Pensando nesta possibilidade se sentiu mais usada ainda. Mas também usou Clóvis e estava tudo certo. Mania que mulher tem de não saber separar sexo de paixão, de amor... Mulher sempre espera algo, uma surpresa, um suspense, uma palavra, mesmo sabendo que poderia não ser verdadeira...

      Apagou todos os contatos e a vontade era de sumir. Como pôde ser tão fácil? Foi. E foi bom. Nem começou e acabou. Como um suspiro lento e profundo...

      Telma respirou fundo, enxugou as lágrimas, e pensou no trabalho do dia seguinte. Nada melhor do que o trabalho para preencher o tempo ocioso. Mente ingrata que captura o que não se deve.

      Os dias se passaram e já nem pensava mais no assunto quando levou um susto ao ler a mensagem no celular: "Oi, gostosa... saudades".

      Engoliu seco, desligou o celular e pensou, como ele conseguiu o número? Ela apagara os contatos, mas ele não. "Quero te ver, que horas posso te pegar?". Telma sentiu um calafrio e toda a lembrança daquela noite intensa e quase inesquecível veio à tona. O coração disparou e teve a certeza que para Clóvis também foi bom, afinal ele estava chamando-a.. Mais uma vez leu a mensagem, encostou o celular no peito e suspirou..

      Sorriu... E por que não? Sem compromisso, sem envolvimento, só sexo, dos bons... Canalha!
   
      Fim.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Parabéns Simples e Clara!


Dia 22 o blog faz quatro anos!

Dando uma espiada no começo do blog, ah, como eu melhorei! Meio perdida entre o teclado e o vídeo, não tinha noção de quem leria, quem acessaria, quem gostaria, quem se tornaria um fã... Eu tenho fãs!

Essa interação virtual é fabulosa, quando sabemos usá-la. Respeito é primordial sempre, em todos os lugares, e aqui, graças a Deus, nunca tive problemas de comunicação e nem qualquer tipo de agressividade. Talvez a vida seja mesmo um espelho, como já falei tantas vezes.

Não é fácil manter um blog por tanto tempo. Tantos que chegaram se foram... Talvez uma fase sem inspiração ou por não ter mais sentido escrever e não ter retorno. Eu tenho retorno, vários!

E como me propus a escrever contos, crônicas, publicar poesias e até alguns desabafos, não são todos dispostos a ler um texto longo. Eu entendo. Mas mesmo assim meus queridos leitores sempre estão por aqui, comentam ou não, mas estão.

Percebo também uma ajuda mútua entre os blogueiros ou só leitores. Isso é maravilhoso! Gente disposta a ajudar quando precisamos, a nos acariciar quando estamos tristes, a dar conselhos, a rir, a chorar, enfim, gente que lê e se emociona de alguma forma.

MUITO OBRIGADA!

Vamos em frente porque o mundo não para. São todos bem-vindos!


sábado, 20 de dezembro de 2014

Gratidão


Gratidão, segundo Michaelis, qualidade de quem é grato, agradecimento, reconhecimento.

Seja grato!

Com tudo, a todo o momento, bom ou ruim, agradeça...

Feche os olhos e eleve seus pensamentos ao Altíssimo e agradeça...

Dores, sofrimentos, agonias, doenças, fazem parte da vida de cada um. Agradeça assim mesmo...

Não peça nada, agradeça! E espere... Levante-se e corra atrás, busque seus objetivos, com fé n'Ele, não desista!

Deus sabe de cada detalhe nosso e como um Pai carinho quer o melhor pra nós, e nem sempre esse melhor é o que queremos, mas o que ele tem certeza que nos faria melhor. Deixe de ser teimoso e agradeça pelas perdas também. E limpe a mente e espere o novo. o inusitado, sem lamentações, sem lamúrias ou ladainhas. Deus não suporta ladainhas... Ninguém suporta ladainhas, a não ser que você pague pra alguém ouvir suas ladainhas e reclamações.

Quer chorar, chore o tempo necessário, depois agradeça...

Limpe seu coração de todo rancor, ódio, vingança, inveja... Você tem inveja de quê? Não se assuste, o ser humano também tem esse sentimento, a inveja. E procure controlá-la e alcance o que é seu, por merecimento. Sim. você merece!

Tantas coisas boas acontecem na vida e não nos damos o trabalho de simplesmente agradecer. Por que? Não nos lembramos, não é? Só reclamações. "Ah, mas por que foi acontecer justamente comigo?" E por que não com você? Ou comigo? Ou com aquela pessoa?

E se você ganhasse uma fortuna, também reclamaria? "Ah, mas por que eu ganhei, e não a outra pessoa? Heim?

Agradeça e espere pelo que virá. Deus sabe das coisas e de nós. Sabe de nosso coração e do que carregamos dentro dele. Busque o que você queira, de coração aberto e pensamento positivo.

Gratidão e caridade. Caridade de coração pra coração... Sem esperar retorno. Não digo caridade de sempre ofertar algo aos pobres. Isso também, claro, mas caridade de se doar por algum tempo pra outra pessoa, seja da maneira que for. Já fez isso? Enquanto se doava pra outra pessoa pensou nos seus enormes problemas?

Agradeça, isso é o que importa. O resto virá, com certeza, bem maior e mais rápido do que você imagina. E esteja preparado pra receber o que você tanto queria. Está preparado?

Crê no Criador e se entregue de corpo e alma.

Um Feliz Natal a todos e um maravilhoso 2015, com muita luz, saúde e tudo aquilo que desejamos sempre. Se for desejo de coração é uma forma de caridade.

Voltarei só ano que vem (essa é velha, eu sei).

Amém!


domingo, 23 de novembro de 2014

Ser ou Estar Sozinha?


"Você é bonita, por que não arruma um namorado?" Esta é a frase que mais ouvi nos últimos 15 anos.

Gostaria que tivessem me perguntado se estava bem, se precisava de alguma coisa, não sei... Mas depois de tanto tempo chego à conclusão de que a vida se resume em relacionamentos. Assunto mais comentado em todos os lugares.

Existe a alma gêmea? O parceiro perfeito? Você seria a alma gêmea de alguém? O(a) parceiro(a) perfeito(a) pra alguém? Geralmente procuramos quem se encaixa melhor nas nossas exigências, mas nunca pensamos em nos encaixar da melhor maneira na vida de alguém. A velha mania de querer mudar o parceiro.

Pra quem ainda me faz essa pergunta, estou bem, estou sozinha, mas não solitária. Preciso dessa solidão pra me sentir bem. Se aparecer alguém, que seja bem-vindo e que acrescente e compartilhe vida comigo. Se não, tudo bem também. Isso não me causa sofrimento.

Não é fácil viver sozinha, tenho minhas carências, mas jamais colocaria minha felicidade e meu bem-estar nas mãos de uma pessoa. Isto é de minha competência e responsabilidade. Assim como não daria felicidade embrulhada num pacote a ninguém.

"Mas você não sai, não vai passear, não vê gente, não conhece gente nova, não faz amizades, não dança, não se entrosa, não conversa, não se diverte..." Gente indignada com minha vida...

Nunca fui de badalações e nem de frequentar lugares tumultuados, exceto os shows que eu ia. Tenho uma certa fobia social. Sou assim mesmo, caseira, tranquila, quieta, porém, minha mente faz todas as vezes de uma vida agitadíssima. Sou feliz assim, acreditem!

Com o tempo me descobri metódica. Não gosto de mudanças na minha casa, nem de bagunças e nem de nada que possa me estressar. Metódica e chata. E com isso não sei se conseguiria conviver com outra pessoa novamente. Por um tempo pode ser, mas a liberdade que tenho dificilmente seria capaz de compartilhar, ou perdê-la.

Isso é definitivo? Não! A única certeza é que tenho dias a menos de vida e esse dia pode ser hoje. Amanhã não sei. A maturidade às vezes castiga a gente. Tem o lado bom, o da sabedoria, da leveza, da tolerância, do conhecimento acumulado, dos valores que realmente valem a pena, enfim, velhice tem o lado bom. E o lado ruim é que é muito breve também. A vida é muito breve, em todas as suas fases.

Digamos que sei de minha vida, mas não sei do querer da vida dos outros. Sei o que quero e o que não quero, mas não tenho controle sobre as pessoas. Então não dá pra programar nada envolvendo outras pessoas, ainda mais as que ainda não conheço. Como programar começar namorar, casar etc? Procurando? Hmmmm, acho que não sei fazer isso não. Não mais. Deixa assim como está.

Ah, sim, já amei muito, poucos, mas muito. Tenho um amor eterno, antigo, bem lá do comecinho, que continuará sendo eterno, tenho um platônico que continuará sendo platônico, tenho um carnal, que ainda tenho esperanças, e tenho esperanças de um novo amor sim. Contraditório? É, pode ser. Mas confesso que tenho um pouco de preguiça... Preguiça de sofrer caso não dê certo. O último relacionamento é sempre o mais sofrido, o mais dolorido e o que nos faz repetir novamente que nunca mais, mas coração é traiçoeiro, tem vida própria, samba no peito da gente e teima em querer quem não se deve querer. Finca o amor na cabeça da gente e nem lavagem cerebral é capaz de tirar. A gente tenta ter os pés no chão, mas não adianta, o coração domina tudo! Não procuro, mas quem sabe alguém esteja procurando desesperadamente por mim em algum lugar do planeta? E perdeu o mapa? Então!

Depois de tantas besteiras, vamos pra última semana de novembro e logo dezembro, natal etc... Pra completar, não gosto das festas de fim de ano... Esquisita, eu.

Boa semana pra todos!



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Uma Doce Ex-Namorada


      Mesmo depois de anos e com uma vida amorosa totalmente estável, Matheus não se esqueceu de Marissol, sua ex-namorada, que lhe dava muitas alegrias. O amor acabou, mas as lembranças são permanentes em sua mente.

      Uma mulher feliz, falante, avoada e sem noção de tudo. Falava pelos cotovelos e não tinha a menor vergonha de perguntar indiscretamente o que não sabia. E essa era sua graça, de ser autêntica com uma certa ingenuidade.

      Nunca mais a viu. Mudou-se de cidade e perderam contato. Mas sempre que se lembrava de Marissol um sorriso carimbava-lhe o rosto permanecendo por alguns minutos e, olhando para o nada, ficava com cara de apaixonado pelos bons momentos em que passaram juntos.

      Certa vez Matheus chegou em sua casa - Marissol morava sozinha num quarto e sala alugados - e viu um bilhete dizendo para que entrasse sem bater. Estranhou, mas obedeceu.

      Assim que abriu a porta uma música começou a tocar, romântica e melosa, voz de mulher tendo um orgasmo ou uma síncope. Ele riu, entrou e fechou a porta. A luz estava apagada. Apenas um abajur aceso e com um tecido vermelho cobrindo-o, dando uma sensação de aconchego. Parou, sorriu, cruzou os braços e, antes de continuar a decifrar os avisos pregados propositalmente em lugares inusitados, ficou imaginando o que estaria por vir. Marissol gostava de surpresas que, para ela, eram surpresas, mas eram sempre as mesmas surpresas, os mesmos bilhetes, a mesma luz vermelha, a mesma música, enfim, uma surpresa rotineira. Ele gostava e se divertia.

      Continuando, vários outros bilhetes dizendo do amor que Marissol sentia por ele, com desenhos grotescos de coração e beijos com batom vermelho. Também alguns pingos oleosos nos papéis, que certamente era do óleo corporal que ele adorava. Matheus abriu um sorriso mais largo, mexeu com a cabeça de um lado para o outro e continuou.

      Na porta do quarto um bilhete grande com letras desenhadas com glitter e vários beijos de batom espalhados por todo o papel: "Vem, meu amor, estou te esperando...". Matheus não aguentou e já soltou a primeira risada.

      Abriu a porta devagar e viu a cama vazia. É claro, tinha que achar o amor se quisesse o amor. Sempre era assim e sempre seria. Apesar do quarto minúsculo, Marissol sempre dava um jeito de se esconder cada vez em um lugar diferente.

      Matheus entrou e começou a olhar debaixo da cama. Levantou-se e sentiu os braços delicados de Marissol entrelaçar sua cintura. Fechou os olhos por um momento, acariciando os braços lisos e macios e depois virou-se. Olhou-a de cima a baixo e não aguentou. Caiu na gargalhada!

      -Ah, amor, o que foi? Olha que eu te sento o cacetete, heim? - disse Marissol, com expressão de decepção por não ter sido convincente o quanto queria.

      Estava vestida de policial sexy, com um top que mal lhe cobria os seios, uma minúscula saia preta com imitação de couro, que mais parecia um cinto largo, uma boina e um cacetete enfiado sob a saia fazendo volume em seu baixo ventre. Estava maquiada exageradamente com batom vermelho-cereja, olhos destacados de preto e cabelos presos num rabo-de-cavalo. Linda!

      Matheus, de tanto gargalhar, caiu deitado na cama e se contorceu, com cólicas abdominais. Lágrimas escorriam pelo rosto e cada vez que olhava a carinha de Marissol com aquela roupa mais ele ria.

      Numa respirada pediu desculpas, mas não aguentou e voltou a gargalhar. Marissol, realmente decepcionada, sentou-se na beira da cama, emburrada, braços cruzados e de cabeça baixa. Matheus, vendo que a amada estava ao seu lado, puxou-a para si e encheu-a de beijos e abraços. Ela, por sua vez, não resistiu as suas investidas e rendeu-se ao namorado. Marissol não era sensual. Tinha um jeito de moleca, de bagunceira, de quem preferia ralar os joelhos no asfalto do que trocar roupas nas bonecas.

      Depois de um bom tempo e já recomposto, Matheus fez Marissol desfilar e se fingir de policial, como ela desejava desde o início. Ela obedecia com gosto, se insinuando para ele de todas as formas. Só depois que ele percebeu que a cama estava toda coberta com pétalas de rosas vermelhas e no criado-mudo estavam vários incensos queimando, fazendo aquela fumaça com cheiro forte. Mas que importância tinha a fumaça quando se tinha um fogo inteiro de nome Marissol?

      Essa era Marissol, alegre e sem medo de ser feliz. Esse era Matheus, um eterno enamorado de sua ex-namorada doce e linda.

      Lembranças que seguiriam com ele por toda a vida. Ele de um lado e ela de outro, perdida por aí, sabe-se lá onde. Será que um dia poderiam se reencontrar? Quem sabe?

      Fim.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Inocente

Cena do filme "Divã", do livro de Martha Medeiros

      Depois de um banho rápido e uma vaporada de perfume na nuca, Paula pegou sua maleta e as chaves, se despediu do marido com um leve beijo para não borrar o batom e se foi. Dentro do carro virou o retrovisor para si e deu uma última olhada na maquiagem para ver se estava tudo perfeito. Nem precisava disso, pensava ela, mas se cuidar é bom, concluía, sorrindo.


      Paula era do tipo mulherão, dinâmica, bem sucedida e independente nos seus 36 anos.Era administradora  numa empresa de importação e exportação de material esportivo, e não tinha filhos. Não pensava neles ainda e já cogitara com o marido em não tê-los. Seus planos eram muito ousados, e filhos teriam que ser muito bem cuidados por ela e não por babás e escolas. Tinha consciência de que uma boa educação se começava em casa e abrir mão de um futuro promissor ainda não estava nos seus planos.

      No trajeto para a reunião muitos pensamentos lhe atordoavam e o que mais lhe corroía era o quanto amava o marido Maciel.

      Maciel, 46 anos, lindo, bem-humorado, bem-resolvido, um gentleman, e excelente marido. Era o retrato da família perfeita e que causava inveja principalmente nos familiares que se diziam insatisfeitos com a vida.

      Paula se lembrou de seu casamento e do quanto foi tudo perfeito, amigos, família... A lua de mel dos sonhos... A casa própria... Enfim, tudo perfeito. E era impossível não se lembrar sem estampar um sorriso no rosto.

      Ao longe avistou o local de sua reunião: Motel Paradiso. O coração disparou, um gelo lhe tomou o estômago, respirou fundo e sorriu.

      Na portaria perguntou pelo quarto de sempre, duas vagas na garagem com uma delas já ocupada; um luxo. Abriu a porta e pelo caminho até a cama pétalas de rosas vermelhas, na mesa de apoio um balde de gelo com um champagne e uma cumbuquinha com morangos bem vermelhos e grandes. Um sorriso mostrando os dentes perfeitos e uma rosa na mão aguardava-a na cama. Adriano.

      Ah,  Adriano... Sua perdição de longa data... Daqueles homens que se percebe pelo cheiro quando se aproxima, pelo toque inesquecível na nuca... Se aproximou, se jogou na cama e deu-lhe um longo beijo apaixonado, quente, de tirar o fôlego. Adriano era o tipo de homem envolvente, sedutor e que sabia onde tocar a mulher, na hora certa, sussurrar nos ouvidos, amar enlouquecidamente até desfalecer. 

      Paula e Adriano eram unha e carne no sexo. Não precisavam falar nada; sabiam exatamente o que o outro queria. Não podiam e nem conseguiam ficar longe por muito tempo. Batia a vontade, a saudade, a paixão, o desejo e se não extravasassem, enlouqueciam.

      Ficariam horas, dias, meses enfiados numa cama de motel se assim fosse possível, mas cada um tinha a sua vida. Paula com o marido Maciel, e Adriano com sua linda Olívia, dedicada, boa mãe, excelente companheira, perfeita!

      Se sentiam culpados? Não, já haviam se conformado com a situação. Nunca sequer cogitaram a possibilidade de serem marido e mulher. O que os unia era a carne, o pecado, o sexo... Casamento era família, união, amizade, amor, respeito. E não arriscariam suas vidas felizes e confortáveis por uma paixão louca.

      Passado quatro horas, tomaram banho, vestiram-se e foram cada um para sua família. O próximo encontro? Quando desse vontade...

      Chegando em casa Paula esperou por Maciel para o almoço, que logo chegou, beijou-lhe carinhosamente, disse=lhe que amava-o e que não conseguiria viver sem ele. E ele, num gesto fraterno, disse que cuidaria dela até o fim de seus tempos.

      Almoçaram e voltaram ao trabalho, agora no escritório, e continuaram felizes cada um de seu jeito.

      Texto publicado em 10 de agosto de 2012 - Editado


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eu Sei Quem Você É



      Artur, depois de um dia agitado com cuidados com Maria da Graça, deitou-se e logo a mulher abraçou-o. Sabia que esse era um gesto involuntário, talvez um costume de mais de cinquenta anos de uma união de amor, respeito e cuidados um com o outro.

      Um dia, conversando com a mulher, notou que ela estava estranha, que esquecia as coisas e que não conseguia achar o caminho da cozinha para o quarto, deixando-a agoniada. Levou-a ao médico e o diagnóstico foi preciso: Mal de Alzheimer. Naquele dia não tinha ideia do que seria e do que viria pela frente, mas prometeu, em pensamento, mais uma vez, cuidar da mulher até seus últimos dias.

      Com o passar do tempo, mesmo medicada, Maria da Graça foi piorando, se esquecendo, se lembrando de outras coisas do passado e chegou o dia em que não se lembrou de Artur. Ficava se escondendo dele atrás das portas ou então dentro do banheiro. Sorte que ele, por precaução, tirou todas as chaves das portas deixando apenas a porta da frente que dava para a rua trancada e com a chave em seu bolso. Sempre.

      Seus quatro filhos, todos homens, ajudavam no que fosse preciso, mas tinham suas vidas e seus problemas. Artur já estava aposentado e tinha todo o tempo para cuidar e vigiar Maria da Graça.

      Mesmo ela não se lembrando de nada, tratava-a com todo o amor de sempre, com toda a paciência e carinho. E quando ela ficava sentada olhando para o nada, ele se sentava ao seu lado e contava histórias de um passado que ela agora desconhecia, mas que ele fazia questão de se lembrar sempre.

      Como no dia em que chegou em casa e seu filho mais velho já havia nascido com a ajuda de uma parteira, amiga de uma vizinha. Se assustou quando entrou no quarto e viu a mulher com o bebê nos braços a lhe sorrir. "Olha, bem, é homem!", dizia, com um sorriso lindo e olhos brilhantes por poder presentear o marido com um menino-homem. Rafael. Um bebê rechonchudo e chorão, faminto e inquieto. Artur se acabou em lágrimas ao ver a bravura da mulher que escondeu as dores durante o dia inteiro só para não perturbá-lo no trabalho. Ela que preparou tudo, desde as roupinhas que colocaria no filho até a bacia com água, a tesoura e os lençóis branquíssimos para poder acolher o recém-chegado à vida.

      Enquanto contava essa lembrança, Maria da Graça ficava olhando o céu, os pássaros e apontava para eles, sorrindo. Depois olhava para Artur e dizia para que ele saísse de perto dela, que não o conhecia e queria que chamasse sua mãe Albertina. Artur pegava sua mão enrugada, acariciava e dizia que Albertina já estava vindo e que enquanto isso ele faria companhia para ela. Maria da Graça continuava a olhar os pássaros e a falar coisas desconexas, confusas e a rir sozinha.

      Os filhos até sugeriram que Artur internasse Maria da Graça em uma clínica especializada, com enfermeiras em tempo integral e médicos todos os dias. Artur não aceitou, pois ele era o marido e seria ele quem cuidaria da mulher. Ela não o conhecia mais, mas ele sabia quem era aquela mulher. E assim foi feito.

      Nesse dia em que se deitou e Maria da Graça o abraçou, dormindo, ele ficou olhando para aquela pessoa tão indefesa e se lembrou de todos os cuidados que ela sempre teve com ele. Nunca lhe faltara nada, nunca discutiu nem contrariou-o. Não porque o obedecia, mas porque se entendiam até com os olhares, com os pensamentos. O que um queria, o outro concordava prontamente, sem discussão.

      E assim seria até que chegasse a hora da partida. Até que Maria da Graça fosse conhecer uma outra vida, ao lado da mãe que tanto chamava, dona Albertina. E esse dia, com certeza, levaria o coração de Artur que ainda ficaria por aqui esperando sua vez de dar adeus e ir ao encontro da amada numa outra vida, quem sabe...

      Fim.

      Texto publicado em 20 de maio de 2013

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Provação


      Sábado à tarde, já sabiam que não tinha compromisso então não teve como negar o convite. Pietra tomou um banho rápido, vestiu a primeira roupa que encontrou e se foi. Estava ansiosa, afinal muitos anos se passaram até esse reencontro. Estava com medo também, não de encarar certas amigas, mas de seu temperamento nada agradável quando algo lhe deixava constrangida. Medo de sua reação, pois sabia que o assunto voltaria à discussão, com certeza. Mas, arrebitou o nariz e se foi. Um passado que voltara sem permissão para ser presente, sem se anunciar, topetudo e imponente.

      A recepção foi boa, havia mais gente do que imaginaria e isso tranquilizou-a. A pessoa ao qual temia apareceu bem depois, quase no final da reunião de amigas. Estava do mesmo jeito, só um pouco mais metida do que de costume. E sentou-se bem à sua frente. Se olharam e sorriram. Elogiaram uma a outra, falaram de trabalho, de filhos, e Andreza, a amiga desmascarada sem saber que fora, começou o rotineiro assunto fútil de falar de outras pessoas. A cada assunto pautado ela nomeava uma cidadã para criticar ou comentar de alguma forma. Pietra se calava nessa hora. Não tinha o que falar, pois estava distante dos assuntos atuais da turma. Algumas lembranças de críticas com algumas delas lhe veio à mente mostrando-lhe o tanto que era arrogante na época. Apesar das lembranças nem tão boas ria muito com as besteiras ditas por outras. Estava sendo uma agradável tarde.

      Relacionamentos. Era esse o tema da qual todas gostavam. Cada uma falou um pouco, contou sobre a vida de solteira, de casada, de separada e Andreza reclamou, reclamou, reclamou... Como se a vida fosse ingrata por ela estar casada há tanto tempo com um único homem. Demonstrou claramente a insatisfação e o tédio de uma união onde o amor era peça guardada na estante, empoeirada e esquecida.

      Pietra sabia que ela tinha uma vida confortável, quase de luxo, e não entendia o porquê da reclamação. Tão simples se separar e recomeçar! Mas entendeu que a vida que Andreza levava nada mais era do que fora plantado e a hora era da colheita. Assim como a sua e a de todas. Pietra observava cada detalhe, cada gesto, cada palavra da amiga e tirava suas conclusões. É claro que ela não sabia que já fora desmascarada há tempos, mesmo não tendo ido a público e espalhado como papeis picados e lançados ao vento. Que importância teria revelar algo tão comum hoje em dia?

      O assunto que Pietra temia fora posto para discussão. Seu relacionamento conjugal. Estava separada há um bom tempo e sempre lhe perguntavam sobre uma possível volta. Já havia se acostumado e a resposta sempre era a mesma: nunca! Curta e grossa para ninguém perguntar mais nada e mudar de assunto. Mas Andreza gostava de cutucar, de debochar, sonsa como sempre não perderia a oportunidade de constranger Pietra. Perguntou-lhe se não voltaria mais, nunca mais, depois perguntou-lhe o motivo de tanta raiva, já que perdoar é um dom divino. Pietra sorriu, calmamente olhou para a miga e disse que já havia perdoado o ex e todas as amigas que tiveram um caso com ele, mesmo ele estando casado com ela. E continuou encarando a amiga. Viu-a mudar de cor, de disfarçar com outro assunto, rir nervosamente sem controle e ainda chamá-la de exagerada. Como assim, ele fez isso? Perguntou debochando. Sim, fez! Respondeu calmamente ainda encarando Andreza. Pietra se sentiu cínica, sonsa como a amiga traidora. Mas gostou da situação.

      Logo mudaram de assunto e Pietra se sentiu satisfeita com sua reação. Sim, já havia perdoado. Mas perdoar e se afastar é muito fácil. Difícil seria perdoar e continuar convivendo. Essa seria a provação que teria que passar.

      Pensou em Deus e em seus caminhos que fazem as pessoas percorrer. Riu sozinha da cilada em que se metera, mas entendeu que foi necessário encarar as pessoas e se provar que realmente havia perdoado. Nenhuma raiva, nenhum constrangimento, nenhum sentimento de vingança ou ódio. O perdão se fez.

      E continuou pensando que as pessoas têm seu caráter. Ou é bom ou é ruim. Não existe meio termo. E concluiu que não há necessidade de vingança em nenhum momento da vida. As pessoas são como são e cavam sua própria cova, sua própria infelicidade. Bastou olhar para Andreza para ter esta certeza. Uma rica menina pobre. Pobre de cultura, de assunto, de caráter, de gratidão... Teve tudo o que sempre quis menos o principal que era a harmonia, a felicidade, o amor... Viveria até o fim da vida reclamando, ainda querendo o que pertencia ao outro, ainda almejando o que nunca fora capaz de conquistar: o amor.

      Não seriam amigas, pelo menos da parte de Pietra. Poderiam se encontrar de vez em quando, mas a empatia se rompera, os valores eram diferentes e nada mais tinham que conversar. Pietra estava feliz em ter sua vida como queria, apesar dos pesares, mas a sensação de liberdade de fazer escolhas, de aceitar ou negar uma situação deixava-a confortável perante a vida. Se respeitava, além de tudo. Sabia que ao virar as costas Andreza falaria sobre ela, criticando-a ou colocando algum defeito. Não se importava com isso, pois sabia que só havia futilidades e asneiras para oferecer aos outros. Se sentia livre para não aceitar nenhum comentário sem valor nenhum e que não lhe causaria nenhuma mudança. Apenas alguém falando futilidades e mais nada. Sentiu pena.

      A vida dando voltas e esfregando na cara de que nada é em vão. E o melhor ainda é cultivar o que lhe agrada, ir atrás do que acredita, ouvir sua intuição e seu coração. E crer em Deus, na Sua benevolência e cuidados com quem Lhe entrega e aceita a vida.

      Uma provação para poucos, uma percepção somente para quem tem sensibilidade suficiente de que não temos nada nessa vida, além dos sentimentos que adquirimos e cultivamos. O amor, esse sim sempre vale a pena.

      Fim.




segunda-feira, 17 de março de 2014

Agora Vai


      Andando distraída pela praça central da pequena cidade onde morava, Manuela não ouviu que alguém gritava seu nome. Depois de várias insistências ouviu o grito e num impulso se virou para ver de onde vinha aquela voz estranha. Apertou os olhos tentando enxergar o vulto. Sem sucesso pois sua miopia não permitia tanta insistência. Continuou sem rumo certo.

      Os ventos de outono não permitiam que seus cabelos se aquietassem fazendo com que grudassem em sua boca besuntada de gloss transparente. Segurou-os num rabo improvisado com as mãos. Sentiu alguém tocar seu ombro. chamando-a pelo nome. Assustada dá um passo à frente e se surpreende. Marcelo...

      Há quanto tempo não tinha notícias do amigo de colégio! E como estava diferente, mais encorpado, cabelos ajeitados, sorriso lindo... Muito diferente daquele pirralho que vivia lhe mandando cartinhas, jurando amor eterno e uma vida de princesa. As poucas palavras eram encantadoras e não tinha como não se envaidecer. Um menino que sabia fazer poesias com palavras simples e rimas óbvias. Nunca dera esperança para ele. Manuela sempre foi a mais alta da turma, magra como um fiapo de manga, cabelos lisos que presilha nenhuma segurava-os. E Marcelo era quase a metade de sua altura. Tinha que olhar para os céus para alcançar seus olhos cor de mel. E sorria, mesmo tímido, quando lhe oferecia uma flor roubada do canteiro do pátio do colégio.

      Vendo o homem em que se transformou Manuela gelou. Ficou um bom tempo olhando seus olhos castanhos com cílios compridos que lhe davam a impressão de ter olhos de uma criança meiga crescida tardiamente. Ficou praticamente de queixo caído esperando que ele começasse uma conversa. E começou. "Oi, minha linda, se lembra de mim?" Perguntou, com aquele mesmo encanto de anos atrás. Gaguejando Manuela respondeu que sim, que quase não o reconhecera, mas que se lembrava dele. E completou dizendo que continuava o mesmo menino gentil de antes.

      Marcelo se aproximou e lhe deu um beijo na bochecha. O cheiro do perfume cítrico tomou conta do ar que Manuela respirava e que, disfarçadamente, inalou num suspiro longo, quase que fechando os olhos e esperando um possível beijo daquele homem lindo e adorável. Se recompôs logo em seguida e viu um sorriso largo naquele rosto de pele lisa. "Gente, eu beijei ele! Foi meu primeiro selinho!", pensou e sorriu. Não se atreveu a lembrá-lo desse dia e nem confessaria que ficou apaixonada por aquele beijo roubado. Ficou com vergonha de estar na sua frente depois de tantos nãos ditos naqueles bons tempos de inocência. Disfarçadamente olhou em suas mãos e não viu nenhuma aliança comprometedora. Que bom, pensou. Continuou olhando em seus olhos e vez ou outra escorregava para a boca, o queixo quadrado, o pescoço e o peito. Que falta fazia os óculos de sol, pensou, se sentindo envergonhada por ter pensamentos tão masculinos. Corou.

      Marcelo olhava-a fundo nos olhos, quase que lendo sua mente, e caminhava por todo seu rosto como se decorasse cada pontinho, cada marquinha, cada pintinha, deixando-a mais desconcertada do que o normal. Nunca fora tímida e agora se via nessa situação de puro acanhamento. Mal conseguia responder às perguntas do rapaz que, até pouco tempo, não passava de um pirralho.

      Numa breve divagação se lembrou daquele dia em que ficara sozinha com ele na sala de aula e que num gesto rápido Marcelo lhe roubou um beijo, saindo logo em seguida, com medo de levar uma bronca ou de ouvir um grito agudo. Mas mesmo querendo não fazer barulho saiu derrubando cadeiras, tropeçando e caindo. Uma servente que passava pelo corredor entrou na sala e perguntou se tinha se machucado. Mais que depressa Marcelo se levantou e saiu correndo dali, fugindo de um provável castigo pela ousadia do roubo.

      Quando Manuela voltou a si, Marcelo lhe perguntou se estava tudo bem, pois ficou com o olhar vidrado no rosto dele quase que sem respirar. Sentiu sua mão acariciando seu rosto e gelou mais uma vez. Estava fascinada com Marcelo e isso deixava-a constrangida. Combinaram de se encontrar outras vezes mas se esqueceram de marcar o dia, o local e de pegar telefone um do outro.

      Como encontraria Marcelo novamente? Já estava sofrendo por perdê-lo antes mesmo de saber se aquele amor jurado na infância seria mesmo verdadeiro. Hesitou, olhou para trás vendo Marcelo se afastar,  mas preferiu esperar pelo destino quem sabe uni-los mais uma vez e talvez um romance deslanchar. Deu dois passos e parou. Olhou de novo para Marcelo e viu que ele também havia parado e estava voltando ao seu encontro. Gelou. Pediu seu telefone, deu-lhe mais um beijo na bochecha e se foi. Este gesto foi mais que suficiente para desestruturar Manuela que ficou paralisada por um tempo, sem saber que rumo tomaria. Resolveu voltar para casa e ficar quieta se lembrando de uma infância que cresceu e se tornou bela e apaixonante. Será que Marcelo demoraria para ligar? Não demorou meia hora e o telefone tocou... Marcelo...

      Fim.