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terça-feira, 19 de setembro de 2017
Quando Eu Morrer, Não Tenha Medo De Mim
Quando eu morrer, não tenha medo de mim...
Continuarei a ser a mesma pessoa, que estará em outra dimensão. Você acredita na outra dimensão?
Eu sim. Acho um desperdício a gente viver somente aqui, num corpo perfeito, numa alma inexplicável, depois morrer e acabou. Muito pouco, não acha?
No começo sei que vai ser difícil, haverá choros e sofrimentos. Mas passa... Eu sei que passa... Você tem sua vida e deverá cuidar dela até chegar sua hora de partir, assim como eu partirei.
Talvez você sinta calafrios, tremores, arrepios e medo. Pode ser eu, ainda inexperiente, nessa minha nova morada, tentando me aproximar para matar a saudade. Mas nem todas as vezes que sentir essas coisas serei eu.
Às vezes eu fico pensando na morte, em como ela chegará para mim, se de modo inesperado ou em conta-gotas. Pena não poder escolher, mas é melhor assim. Imagina a angústia ficar em contagem regressiva para o adeus terreno? Eu morreria! Hahaha, foi uma péssima piada!
Talvez você sinta uma brisa suave a movimentar seus cabelos, e se sentir vontade de fechar os olhos, suspirar e se lembrar de mim, saiba que, mesmo não sendo eu, de alguma forma saberei que me imaginou nesse instante. E ficarei feliz.
Acredito que depois da morte alguns sentimentos acabarão. Só o amor sobreviverá...
Talvez você sinta cheiro de rosas... Pode ser eu sentada num lindo jardim a lhe observar de longe... E sorrirei...
Sinto saudades de muitos que já partiram. Quem será que verei primeiro? Será que vou poder abraçar, beijar?
Talvez você sonhe comigo, um sonho leve, com luzes, brisas e crianças correndo. Bem, não entendo esse negócio de sonhos, mas sei que não ficarei nesse lugar lindo de imediato. Há todo um aprendizado a percorrer, até subir os degraus da evolução e sentir aquela paz tão recomendada durante o velório.
Por falar nisso, quem irá se despedir de mim?
Talvez você acorde no meio da noite e chore... Certamente chegarei correndo para lhe confortar... Choro a gente não deixa passar. Tentarei lhe tocar, lhe beijar, lhe abraçar, mas não conseguirei, e você não sentirá minha presença. Mas ficará sofrendo até adormecer novamente... E a vida seguirá, sem mim... E eu sem você. Eu lhe verei, você só terá lembranças...
Você estará perto de pessoas que lhe ama, que saberão lhe acolher, lhe confortar, abraçar quando precisar...
Eu estarei sozinha, pois terei uma caminhada até chegar ao plano dos que já se foram.
Lembra quando eu dizia que nascemos só e morremos só? É isso.
Claro que não estarei sozinha isolada, haverá gente, quer dizer, almas por perto. Você seguirá sua vida, sua família estará por perto, por longos anos, eu espero. Aproveite a vida! Ela é muito preciosa para ser desperdiçada com sofrimento fútil.
Lembra quando eu falava que a maioria dos sofrimentos nós mesmos que provocamos? Então, ainda acredito nisso. Mas são atitudes que só com o amadurecimento adquirimos. Quanta bobagem nós provocamos, em troco de nada... Quanta dor inútil... Quanto choro em vão... Quando na verdade o que vale a pena é nosso bem-estar, nossa saúde, nosso prazer na vida.
Ainda acredito que a vida é única, no sentido de ser preciosa, de ser absolutamente divina e que jamais deve ser deixada para lá por causa de uma outra pessoa. Cada vida um valor. Nem mais, nem menos.
Talvez você não consiga entrar no meu quarto, mexer nas minhas coisas, sentir meu cheiro... Talvez você veja vultos...
Olha, lembra do amor que você declarou a mim por esses longos anos? Então peço-lhe que não sinta medo... Sou eu! Não tenha medo!
Vou olhar por você de onde eu estiver, isso eu tenho certeza! E se eu puder fazer com que você saiba disso, farei. Mas talvez não... O medo é traiçoeiro... Talvez demore alguns anos para que isso aconteça... Lembre-se que a alma é eterna, e no plano que estarei, não morrerei mais.
Como será a contagem do tempo no céu? Podemos chamar de céu o lugar para onde vamos? Sei também que antes de chegar lá há uma longa caminhada, mas sempre fui disciplinada, então chegarei com tranquilidade.
E esperarei até o dia em que poderei lhe abraçar e matar a saudade...
Hoje já sinto saudade, mesmo estando assim, grudadinha em você...
Não se esqueça, nem hoje, nem nunca: eu te amo!
Clara Lúcia
Escrevo sobre a vida e os momentos específicos emocionais.
Assuntos relacionados sobre a mente humana e como conviver com o outro sem a necessidade de mudá-lo.
O conhecimento é primeiro processo de cura.
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quinta-feira, 22 de junho de 2017
Dia dos Moços
Dia desses encontrei Rominho, de nome Romildo, caboclo forte, robusto, moreno e careca. Ah, me lembro muito bem o medo que esse menino tinha de ficar careca! Imagina? A homarada da família tudo careca e ele num ia ficar? Capaz!
Éramos amigos do tempo em que morávamos na roça. Nunca mais tinha visto ele, e, do nada, encontrei o caboclo perambulando pela rua, ora essa! Foi ele quem me conheceu, me gritou e veio com o mesmo sorriso fácil de sempre, pronto pra um abraço apertado. Diz ele que continuo o mesmo. Olha, não sei se isso é elogio ou não, mas contando o que já havíamos aprontado na infância e juventude, qualquer palavra dele é um elogio pra mim.
Conversa vai, conversa vem... E saiu da boca dele a Raquel. Ei, ai... E quem não se lembrava da Raquel?
Era Rominho, eu mais Tiago. O trio do sertão que galopava ligeiro e que tinha a pele queimada do sol, como se fôssemos mulatos. Chegava a brilhar o suor nos braços roliços. Hoje vendo esses jovens se acabando em academias, não têm a barriga dura igual a gente tinha naquele tempo. Dava pra contar os gominhos, mesmo não fazendo tanto sucesso quanto hoje. Nem eu nem Rominho preservamos os gominhos. Cheguei à conclusão quando o vi, que a vida é ingrata, mesmo sabendo que nós é quem somos ingratos com a vida. Custava ter preservado pelo menos os gominhos? As meninas até gostavam, mas quem fazia sucesso era Tiago. Como muda a vida! Rominho tá casado e já é até avô! Só falta falar que também usa dentaduras, aí seria derrota demais da conta!
Raquel, morena roliça, de pele brilhosa, coxa forte e bunda arrebitada. Jesus, o que era aquilo? Tinha idade pra ser nossa mãe, mas ainda bem que não era. E a danada gostava da coisa, de tudo de uma vez...
Quando ela chegava no pasto só soltava um assovio e nós três, em sincronia, olhávamos pra ela e saíamos correndo. Parecia até a mãe chamando, numa sangria desatada! E mesmo assim a gente nem corria quando a mãe chamava! Quem chegasse primeiro ganhava um beijo. Os outros não! Tinham que ficar esperando a vez, mas podiam ver tudo, serviço completo! Depois chamava o outro e depois o outro. Quem não estava na labuta ficava esperando, já em ponto de bala! Adivinha quem sempre ganhava o beijo? Rominho! Muleque comprido, canela fina e corria igual um cavalo. Ninguém ganhava dele!
Qualquer lugar era lugar, no meio do pasto, na beira do rio, no meio das bananeiras, não importava, Raquel chegava com o lugar já escolhido e nós íamos seguindo em fila indiana, como filhotes de patinha a acompanhar a mãe rígida. Essa era a alegria dos moços da roça!
A gente esperava por esse dia, que às vezes demorava, às vezes eram dois ou três dias seguidos. O bom de ser nós três juntos é que quem ficava olhando, também ficava vigiando se avistava o Benito, o namorado de Raquel. Aquele sim era um armário perigoso. Nem preciso dizer nada dele. Apenas vivíamos a adrenalina do medo seguido de tesão. Mas vem cá, que vida chata de quem não tem aventuras, não é? Que histórias contaria pros filhos e pros netos? Rominho ria enquanto se lembrava de Raquel e do nosso medo do namorado dela, o Benito.
Será que ela casou com ele? Só sabíamos que ela havia se mudado pra cidade e nunca mais pousou aquela bunda redonda na roça...
Rominho se formou doutor advogado, família feliz, quase rico, escritório particular, carrão do ano... Eu continuo na mesma, não na roça, mas na cidade, no meu primeiro emprego, numa autoescola. Dando aulas. Quase trinta anos no mesmo lugar. Caramba, como o tempo passou e eu nem percebi! Poderia ter me formado também, ter tido uma casa boa, carro bom, mulher bem cuidada, filhos formados... Mas não, a única aventura de que me lembro era me aliviar com Raquel.
Tiago, nem eu nem Rominho tínhamos contato mais. O que fez de Tiago?
Na época ele era o come-quieto, sabe? Aquele que surpreendia, que chegava pelas beiradas e fazia um estrago nos corações das moças. Também, loiro de olhos azuis! E era bonito, porque tem loiro de olhos azuis que é feio igual um diabo!
E Raquel, que fim levou Raquel? E Benito, o noivo dela?
Saudade daquele tempo, daquela roça com as pastagens verdinhas, os cavalos que a gente galopava sem arreio, na pele mesmo, da cachoeira gelada que fazia a gente encolher tudo, do pé de jatobá, ô fruta difícil de comer, mas a gente comia com gosto, porque era só apanhar e pronto. Do fogão a lenha, da horta verdinha, e do bananal, que maravilha! De manhãzinha, quando a gente acordava, ia na varanda, com a caneca de café, só pra ver o nascer do sol. Visão mais linda nunca vi igual! O céu azul escuro ia clareando, aos poucos o amarelo ia empurrando o azul pra cima, um clarão atingia nossos olhos e lá estava ele, todo imponente, majestoso, grande, quente! E a vida começava, dia após dia...
Parece que foi ontem! Obrigada, meu amigo Rominho, por me trazer tantas lembranças boas!
Clara Lúcia
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terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Perfume Adocicado
Contados exatos dois meses, Ariela finalmente alcançou a coragem em entrar no quarto que era de sua mãe, Dona Hortência, que nos últimos meses, por falta de opção, viveu seus últimos dias no asilo São Tomé de Deus. Eram somente mãe e filha morando numa cidade pacata. Todos os parentes estavam muito longe, na cidade grande. Ariela, por ser concursada em Pedagogia, escolheu a tranquilidade de ter ar puro e silêncio para viver com sua mãe. Mas nem tudo saiu como o esperado. Dona Hortência não podia mais viver sem acompanhamento constante, obrigando assim Ariela a deixá-la sob os cuidados de pessoas estranhas no único asilo daquela cidade.
Ariela visitava a mãe todos os fins de semana, e vez ou outra levava-a para sua casa, para rever seus pertences e matar a saudade de uma comida caseira e especial. Eram como irmãs e Ariela sofria por ter que deixar Dona Hortência com estranhos. A mãe dizia que era feliz no novo lar e que a filha não precisava se preocupar com nada. Às tardes jogava bingo e tomava chá com amigos. Riam e dançavam, depois se recolhiam aos quartos coletivos. Era tudo limpo, mas na verdade Dona Hortência não era mulher de ficar reclamando. Sentia solidão, muita solidão todos os dias. Não queria ter seus objetos por perto por medo de ser roubada. Não confiava nas pessoas tanto assim.
Naquele quarto vazio Ariela sentiu o cheiro de mofo, de roupa guardada há anos, de pó nos móveis que a fez espirrar seguidamente. Por fim amarrou um lenço tapando as narinas para, enfim, retirar as roupas e doar a quem precisasse. Isso era uma ordem de Dona Hortência para quando ela morresse.
Ariela não sentiu vontade de chorar, mesmo quando apertava algum vestido de sua mãe em seu peito. Ela pensou que sofreria mais, mas estava tranquila e até conformada com a ausência da mãe. Tinha saudades, e teria para sempre, mas não doía tanto quanto imaginava. Por momentos pensou ser fria como uma pedra de gelo, mas talvez pela vida solitária em que sua mãe passou os últimos momentos, sabia que agora Dona Hortência poderia estar num bom lugar, junto com os seus já falecidos.
Certamente doaria tudo para o asilo de sua mãe, era assim que o chamava.. Ariela pegou roupas, sapatos, perfumes, talcos, maquiagens, esmaltes, bijuterias, tudo que sua mãe usava. Antes, claro, teve o cuidado de deixar tudo limpo e perfumado. Chegando lá, a primeira cena que viu foi uma senhorinha encostada no portão. Cumprimentou-a e perguntou se ela estava esperando alguém. Ela respondeu que sim, que seu filho logo chegaria. Ela usava batom cor-de-rosa e um perfume adocicado e enjoativo. Ariela sorriu, fechou os olhos e foi como se sentisse sua mãe por perto, devido ao perfume doce. Parecia ser o mesmo que estava na mala, o mesmo que sua mãe usava. "O perfume acabou de encontrar sua dona...", pensou Ariela. Ela entrou carregando com dificuldade a mala cheia com os pertences de sua mãe.
As voluntárias que lá estavam receberam Ariela com alegria e, num abraço apertado, agradeceu pela gentileza em levar os objetos de Dona Hortência para lá.
Ariela parou no corredor e, pela janela, ficou olhando o jardim. Não era dia de visitas e os idosos estavam sentados, cada um em um canto, olhando para o nada e sem se comunicarem uns com os outros. Ariela estranhou não encontrar aquela alegria descrita por sua mãe, dos jogos, brincadeiras, risadas e tudo o mais. Resolveu caminhar por eles e conversar um pouco com cada um.
Um senhor que estava na cadeira de rodas, ficava o tempo todo com a boca aberta e vez ou outra, limpava a baba que escorria. Tinha os olhos lacrimejantes que pareciam olhar para o horizonte avistando a morte. Apenas esperava por ela. Não muito adiante, um outro senhor se entretinha com um livro. Ariela percebeu que ele passava as páginas rapidamente, impossível de terem sido lidas. Nesse instante uma enfermeira chegou até ela para acompanhá-la no passeio. Sem que Ariela perguntasse nada, Fabiana, a enfermeira, começou a contar sobre cada um. O senhor do livro não sabia ler, mas sempre foi tão encantado por livros que não se importava com esse detalhe; gostava de folhear as páginas e depois repetia todo o processo. Ariela pensou que poderia, de vez quando, voltar para ler para ele. Perguntou sobre o senhor da cadeira de rodas. Fabiana disse que ele tinha Alzheimer e que se lembrava apenas de sua infância, cada vez mais remota. Ninguém o visitava há anos... Depositavam o valor da mensalidade e pronto. Ariela perguntou sobre a mulher no portão. Fabiana disse que o filho morava há três quadras dali e que dificilmente ele vinha visitar a mãe. Mesmo assim ela ficava esperando por ele todos os dias e quando começava a escurecer, ela entrava, jantava e se recolhia para dormir. Balbuciava algumas palavras lamentando o filho não ter vindo naquele dia e logo dormia. No outro dia tudo se repetia.
Ariela sentou ao lado de uma senhora que calmamente crochetava, sem saber definir o que seria. Era uma capa para bule de café, dizia ela, sorrindo para Ariela. Mostrou os detalhes e disse que todos os dias fazia a metade de um, que depois eram vendidas no bazar que faziam no asilo. Ficava feliz em poder ajudar de alguma maneira. Dona Antonieta, o nome dela, não tinha família e resolveu esperar pela hora da morte junto a pessoas. "Que triste morrer e ninguém saber", dizia ela, que imaginava seu corpo apodrecer até acabar o último resquício de carne e só depois algum vizinho sentir sua falta. Ariela pegou suas mãos e as beijou. Dona Antonieta acariciou seu rosto e disse que se sua filha estivesse viva seria assim, como ela.
"Truco!", Ariela voltou-se para ver quem gritava quebrando aquele silêncio. Era Gumercindo e Antunes, que jogavam baralho o dia todo. Eram os únicos que se enturmavam nos dias comuns. Eram amigos de longa data e se reencontraram no asilo. Haviam feito o Tiro de Guerra na juventude e guardavam lembranças preciosas. Para Fabiana, esse reencontro foi a melhor coisa que havia acontecido no asilo nos últimos anos. Eram eles que animavam a turma nas festas. Mas o que animava mesmo os idosos eram os familiares que apareciam em dias de visita. Todos os dias poderiam ter visitas, mas se compreendia que a família precisaria trabalhar para sobreviver.
Ariela perguntou para Fabiana se ela teria coragem de internar sua mãe num asilo. Ela apertou os lábios, abaixou os olhos e disse que se precisasse, sim, internaria. Mas sabia que dizia isso por não ter mais a mãe por perto, que havia falecido quando ela era bem pequena. Aquele amor de mãe ela não sabia como era. Talvez por isso respondeu tão rápido a pergunta.
Ariela passou a tarde toda com os idosos e se sentiu muito bem. Poucos se lembravam de Dona Hortência.
À noite, quando colocou a cabeça no travesseiro, orou, chorou e pediu perdão à mãe. Arrependeu por não ter criado uma outra alternativa para manter Dona Hortência por perto até seu último dia. Mentalmente começou a calcular quanto seria contratar uma cuidadora. Não, não seria possível com o salário de Pedagoga. Chorou durante algumas horas e depois adormeceu.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2016
Geraldo Pelotão
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| Placa fixada ao lado da Casa do Artesanato, na Praça Barão, em Franca/SP |
Uma figura peculiar de minha cidade, anos 80, que de certa maneira amedrontava alguns e causava curiosidade em outros. Mas é sabido que ele era muito querido em Franca, interior de São Paulo.
Geraldo Pelotão!
O que me lembro era da molecada provocando ele, chamando-o "Ô, Pelotão!", deixando-o muito irritado, pois passavam correndo por ele. Acho que Pelotão ficava tonto com os gritos e arruaças dos pequenos. Daí pegava pedras que encontrava pela frente, colocava-as no bolso da calça e saía atrás dos meninos, que corriam ao seu redor, zunindo como uma espada sem plano de voo. Os garotos riam, e Pelotão desnorteado ameaçava jogar pedras neles. Não me lembro de alguma pedra ser lançada, pois eu também tinha medo e logo saía de perto.
Uns diziam que o dia que Pelotão não era provocado ele nem dormia direito à noite. Lendas urbanas, que fizeram parte de minha adolescência e que muitos francanos que lerem o texto vão se lembrar com carinho desse cidadão carrancudo, mas de bom coração.
"Quem não se lembra de um homem que frequentou a Praça Barão de Franca durante décadas e, se era chamado pelo apelido, rebatia com reação violenta xingando e jogando pedras? Geraldo Gomes, mais conhecido como Geraldo Pelotão. Faleceu com 85 anos no dia 7 de maio de 2000, mas seu comportamento único fez dele um dos tipos populares mais lembrados pelos francanos. Agora, sua figura ressurge na tela do artista plástico Ismael Donizete Oliveira e ganha o maior prêmio do Salão de Abril de Belas Artes.
De acordo com os familiares, Geraldo Pelotão teve meningite quando criança e permaneceu com a mesma idade mental da época da doença. Ele morou em Franca com uma irmã e, após o falecimento dela, recebeu os cuidados de uma vizinha."
Link retirado DAQUI
Muito poderia se falar dele, mas para os que tiverem paciência e gostarem de um pouco de nostalgia, tem o vídeo abaixo, com mais de uma hora (podemos acelerar com o mouse), para matar saudades e voltar àquela época quando ninguém passava pelo centro da cidade sem ouvir os berros e os xingamentos de Geraldo Pelotão, que tentava correr, mas só dava conta de acelerar os passos tentando atarracar em algum moleque desaforado!
Confessa! Você foi um dos moleques que provocou Geraldo Pelotão, sim, francano?
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terça-feira, 23 de agosto de 2016
O Reflexo
— Nossa, como tô horrível! Olha esse roxo aqui! — disse em voz baixa — Preciso parar com isso... Nunca gostei e cada dia piora mais...
Paloma, logo em seguida, entrou debaixo do chuveiro e chorou. Sua pele branca denunciava um aperto mais forte, uma mordida inesperada, um tapa estalado na bunda... Nunca gostou de violência. Na verdade acreditava ser trauma, mas acabava cedendo aos caprichos de Eli. Amava-o tanto que se entregava aos seus apelos. Sexo selvagem. Ainda debaixo do chuveiro e com a água se misturando ao choro silencioso, pensava que já havia passado da hora de colocar um ponto final na relação conturbada. Já sofria por antecipação e não suportava mais se olhar no espelho e ver manchas roxas pelo corpo. Não entendia como não sentia dores durante a relação, pois sempre foi muito sensível ao toque, meiga e comportada, com vários planos em mente, incluindo um roteiro matrimonial de acordo com os bons costumes. Pecou em não se manter virgem, mas sabia que não conseguiria se unir a um homem que nunca tivesse tocado seu corpo.
Disfarçou as partes escuras com maquiagem, caprichou em esconder as olheiras, vestiu o uniforme e seguiu para o trabalho. Vendedora de loja de departamentos, trabalho duro, ficava em pé o tempo todo. Uma das regras do estabelecimento era ser apresentável e manter o bom humor. Ela tirava de letra e faturava um gordo salário, motivo pelo qual optou por morar sozinha.
Felizmente ninguém reparou em nada de estranho com Paloma. Muitas vezes temia que alguém pensasse que era agredida, e caso isso acontecesse, não saberia onde colocaria seus argumentos. Local onde há vários funcionários seria difícil evitar comentários maldosos. Sempre que possível se retirava para se olhar no espelho, retocando aqui e ali, disfarçando o arroxeado na pele.
Retornando para casa, Eli a aguardava no saguão do prédio. Um abraço carinhoso, um beijo nos lábios, um cheiro e subiram. Paloma não estava preparada para romper, mas o trauma se fazia cada vez mais presente. Seria doloroso, mas era a atitude mais sensata a ser tomada.
Eli deixou o apartamento nervoso, saiu cantando pneu e sumiu. Nunca mais tiveram contato.
Paloma já não sofria tanto e aos poucos voltou com sua vida normal, trabalho, passeios com amigos e um curso de artesanato para preencher o pouco tempo ocioso. Optou pela argila. Modelar vasos de vários tamanhos, formas e cores, lambuzar as mãos e ver nascer um objeto que ornaria algum ambiente. Inicialmente presentearia os amigos, depois, quem sabe, arriscaria vendê-los.
Entre os alunos do curso um lhe chamava a atenção. Rodrigo. Um pouco mais baixo que ela, risonho, uma covinha no queixo, olhos amendoados e porte atlético. "Aposto que pratica artes marciais, só pode!", pensava. "Lindinho demais", concluía.
O mesmo espanto que teve quando pensou em terminar com Eli, agora pensava em começar a se relacionar com Rodrigo. Ficou feliz em não sofrer por Eli. Nunca mais precisou esconder marcas roxas e nem olheiras, devido às noites intensas com Eli.
Não demorou para marcarem encontro. Primeiro beijo, abraço aconchegante, carinhos intermináveis e tudo estava certo para Paloma, Rodrigo era o carinho em pessoa, tudo o que ela sempre quis.
Primeira noite de amor... Simplesmente fechou os olhos e seguiu seus instintos. Se entregou aos seus carinhos e gostava do básico do básico; sentia conforto em seus braços, sem novidades, sem rapidez, tudo meigo e pausado. Vez ou outra pensava em Eli e em seu jeito intenso de amar. Depois olhava nos olhos amendoados de Rodrigo e sorria. Estava nos braços do homem mais carinhoso do mundo. Mas... Não conseguiu sentir prazer. Pela primeira vez fingiu. Porém ficou feliz; tudo seria uma questão de tempo, de se acostumar com o novo, cultivar o carinho e pegar para si toda a ternura que Rodrigo lhe entregava de bandeja.
Alguns meses de namoro e já eram incontáveis as fingidas de prazer. Paloma não se sentia tão feliz e satisfeita como no começo, mesmo tendo imenso carinho e amor por Rodrigo, com todo aquele corpo perfeito e torneado, a boca macia e carinhosa, o toque aveludado de suas mãos, os suspiros longos em seu pescoço que provocavam arrepios intensos, tudo isso não era mais suficiente para estar sempre disposta ao sexo. Começava a inventar dores de cabeça e cansaço. Sentia tédio. Falta de inovar, de mudar, de inventar, falta de uma dor provocada, um tapa de leve na bunda, uma mordida no lábio inferior ou então no bico do seio, uma violenciazinha inocente, um puxão de cabeço... Por fim não tinha mais paciência com tanta calmaria sexual.
Paloma se assustou com seus pensamentos que estavam guardados no passado. Suspirou, fechou os olhos e imaginou Eli caminhando em sua direção, tirando a camisa e abrindo o zíper da calça. O volume intenso fazia ela se arrepiar... Chegava bem a sua frente e puxava seu cabeço pela nuca. Consequentemente fechava os olhos e abria a boca esperando o beijo intenso, molhado e quente. Deitava sobre ela sem se importar com o peso de seu corpo que era bem maior que o dela, mordia o pescoço e arrastava os lábios, arranhando com os dentes, até chegar à boca...
Paloma abriu os olhos e deu um tapa em seu rosto. Se assustou por estar completamente úmida. Eli... Só ele conhecia seu corpo e suas vontades.
Na última noite com Rodrigo, por impulso, deu-lhe um tapa no rosto. Ele se assustou, segurou seu punho e encarou-a com estranheza.
— O que é isso, amor, tá maluca? Odeio violência, você sabe disso, não sabe? — delicadamente repreendeu Paloma.
Ela, aproveitando a oportunidade, pôs fim à relação. Respirou aliviada, sem sofrimento.
O tempo passou, Paloma tinha Eli em seus pensamentos praticamente todos os dias, noites com insônia e falta do corpo dele sobre o seu. Mas não tinha coragem de ligar, perguntar como estava, ou então ouvir a voz dele e desligar. Será que seu número ainda fazia parte de seus contatos? Se não, poderia desligar sem problemas. Paloma nunca foi tímida, mas estava receosa em procurar Eli. Não sabia como ele reagiria..
— Alô?
— Oi...
— Paloma!
— Quando você me chama pelo nome boa coisa não é... Tudo bem?
— Olha, estou um pouco ocupado, depois a gente se fala, pode ser?
— Claro!
O chão se abriu sob os pés de Paloma. Um longo suspiro e uma lágrima já descia pelo seu rosto. Sentiu vergonha e arrependimento. Não deveria ter ligado. Sabia onde ele trabalhava, deveria ter provocado um encontro por acaso por lá, na rua. Agora era tarde e já estava feito. Procurar por homem, pelo ex, nunca foi boa ideia para ninguém.
Voltou a sua rotina, sem procurar pensar em homem nenhum.
— Alô, amor...
— Eli... amor...
— Estou aqui em baixo, abre a porta pra mim que quero subir, agora!
Trêmula, Paloma andou de um lado a outro, procurando algo decente para vestir, se olhou no espelho ajeitando os cabelos, enfim, tudo seria inútil naquele momento, pois ficaria nua, fecharia os olhos e se entregaria a Eli, como sempre fez.
E esse foi o dia batizado por ela por "O dia roxo", onde assumiu seu prazer em sentir dor, em provocar também, em não se importar com marcas pelo corpo, nem precisar se desculpar caso alguém a questionasse, enfim, o recomeço mais colorido de sua vida.
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segunda-feira, 2 de maio de 2016
Dona Assunta
Ao primeiro raio de sol que entrava pelo vão entre a janela e a parede, o aroma de café já se fazia presente na casa de Dona Assunta.
Mulher trabalhadora, forte, porém esquelética. Braços finos e dedos longos, pernas que pareciam dois cambitos, rosto que definia o contorno da cabeira, olhos fundos e sorriso contido. Na juventude era meiga e doce, mas a vida tornou-a seca e de coração duro, mas a meiguice às vezes desabrochava nos gestos suaves quando Dona Assunta tomava conta da cozinha.
Tinha os cabelos esbranquiçados, ralos e compridos até um pouco abaixo dos ombros. Quando falava, a parte inferior da boca murchava e a superior tentava equilibrar a dentadura antiga, com os dentes bem gastos e a gengiva rosada. Ela ria e os dentes se pronunciavam para fora, quase que completamente. Quando estava em casa os cabelos eram sempre ajeitados num coque baixo, preso por grampos longos que ficavam aparentes como se fosse palitos negros que contrastavam com o branco acinzentado dos cabelos. Tanto Dona Assunta quanto Seo Lão eram esguios, retos, parecendo cabides ambulantes. Seo Lão usava um chapéu de palha encardido de vermelho e só o tirava quando entrava dentro de algum comodo.
As janelas de madeira eram trancadas com uma tramela e nas portas, o colorido da chita florida em azul, vermelho e amarelo, quebravam a cor da terra predominante no ambiente e separavam os cômodos. Apenas quarto e cozinha.
No quarto, debaixo da janela, a cama em madeira envelhecida, colchão de molas com um vão em cada lado, pelo seu uso ininterrupto. Tudo se emoldurava com o casal, como se os objetos tivessem vida e obedecessem ao corpo de cada um, sem teimosia em querer espetar e correr o risco de furar a pele frágil e craquelada. Um roupeiro sem as portas e mais uma poltrona velha e esburacada compunham a mobília do quarto. Numa das paredes uma única foto, emoldurada de madeira, que também se decompunha pelos cupins, carimbava o casal, sereno e sem os traços enrugados definidos.
Na cozinha um fogão à lenha bem rústico e pequeno, encerado em vermelhão e muito tem lustrado, que fora feito pelo esposo, que era magro e ossudo como Dona Assunta. Eram tão magros que davam a impressão de não terem carnes pelo corpo, apenas os ossos e a pele enrugada. Passavam dos setenta e aparentavam noventa anos. Trabalhadores da roça, tiveram ajuda de uma sobrinha de uma vizinha de terreno, para se aposentarem com um salário mínimo. Sentiam-se privilegiados com a pequena fortuna mensal e agradeciam ao acordar e ao deitarem-se, a Deus, por ainda estarem vivos e com saúde.
Não tinham muitos móveis, somente uma mesa pequena e cinco cadeiras, onde uma delas ficava de enfeite, por não ter uma das pernas. Deixava-a encostada na parede e a mesa a escondê-la, para evitar algum acidente de algum desavisado "cair de maduro" no chão, como dizia rindo Dona Assunta. Meia dúzia de caixotes de madeira empilhados fingiam ser o armário. Duas panelas, quatro pratos e alguns talheres. Na parte de cima um jogo de pratos rasos e fundos, com um filete dourado eram intocáveis. Dona Assunta ganhara de uma ex patroa, na época em que trabalhava na roça. Era sua preciosidade, seu enfeite nobre, sem uso. O orgulho de poder mostrar que tinha algo de valor. Na verdade não sabia o valor, mas sabia que um dia em sua vida ganhara um presente lindo e o levaria intacto até seu último dia de vida. Na parte de baixo, um jarro de plástico cor-de-laranja e vários copos também de plástico, cada um de uma cor. Alguns acusavam mordidas nas bordas, lembrança de seus filhos, quando ainda eram pequenos, também guardados junto com as boas recordações.
Depois de tomar o café forte em uma caneca de alumínio pintada em esmalte branco, Seo Lão ficava um bom tempo, ainda sob os primeiros raios do sol, sentado num toco que servia de banqueta, estrategicamente colocado na sombra da pequena varanda defronte à casa. Colocava a caneca no parapeito da janela, pegava uma palha seca, o canivete que tinha o cinturão como moradia e descascava calmamente o fumo de rolo. Depois ajeitava os fiapos, passava a língua em um dos lados da palha e calmamente fechava o pito. Ia até o fogão, abaixava a cabeça com o pito na boca encostando-o na brasa fumegante, chupando até sair as primeiras baforadas. Chupava longamente, engolia a fumaça e depois soltava pelas narinas. Era um momento de profundo prazer para Seo Lão. Melhor que pitar um cigarro de palha era tomar uma pinga diariamente ao final da tarde, e às sextas feiras, três ou quatro para fechar a semana. Depois voltava para casa, lavava os pés e se deitava ao lado de Dona Assunta para repousar a carcaça cansada.
Dona Assunta gostava de ir à feira bem no finalzinho da manhã para pegar algum legume abandonado na sarjeta, nada que uma água limpa e uma boa esfregada com as mãos, não os transformassem numa sopa suculenta. Apesar da aposentadora, Dona Assunta gostava de guardar um pouco, dentro de casa mesmo, muito bem escondido, para um eventual contratempo. Desde que nasceram aprenderam a sobreviver com o pouco, com o mínimo e até com o nada. A abundância e o desperdício não faziam parte da vida deles. Vez ou outra compravam pão fresco na padaria, mas preferiam o pão "dormido", por ser mais barato. Colocava-o em uma panela, alguns minutos na quentura do fogão e pronto, o pão ficava com cara de novo e muito saboroso.
Não tinham assunto um com o outro, não se olhavam, não riam, não iam juntos aos lugares, mas pelo olhar de soslaio era visível perceber o carinho, o cuidado e o amor entre eles.
Tiveram dois filhos, que faleceram há vinte anos, afogados num lago onde foram pescar com outros dois rapazes. A dor não passou, a tristeza nunca mais saiu de seus olhos, o choro secou e a vida tornou-se infinitamente insuportável. Mesmo assim agradeciam pelos poucos prazerem que lhes restavam. Houve um tempo em que não comiam e nem dormiam, queriam morrer de desgosto e tristeza, mas Deus não permitiu, como eles descreviam para quem não sabe de sua história. Então se Deus não tirou eles da vida, agradeciam por cada sol nascido e por cada lua que iluminava a varanda da pequena casa. Estava bom como viviam e viveriam até o último dia sem reclamar de nada. "Deus sabe das coisas", repetiam quando a tristeza aparecia. O olhar longínquo de Seo Lão na verdade ainda procurava uma explicação para tamanha dor que o tempo não curou. Dona Assunta se entretinha com o fogão vermelho reluzente, seu xodó, com sopas, arroz, feijão e vez ou outra, uma linguiça fininha tilintava na panela.
Os parentes estavam todos longe, na roça, que perderam contato fazia tempo. Os vizinhos eram gente boa, mas não se misturavam com ninguém. Todos muito pobres e sofridos, mas não tanto como Seo Lão e Dona Assunta. Os filhos deles sempre estavam por perto para acudi-los em alguma necessidade.
Não comentavam um com o outro, mas nos agradecimentos a Deus pediam para morrer primeiro, ou então um em seguida do outro, para não terem que ficar sozinhos no mundo. E o dinheiro guardado com cuidado, num esconderijo inimaginável, que quem o encontrasse fizesse por merecer. Esse era o único pedido deles. O mesmo pedido feito separadamente, sem um saber do outro.
E assim viviam, Seo Lão com a alegria de uma caneca de café e um pito de palha e uma pinguinha, um fogão brilhante e vermelho, da cor do fogo, que esquentava o coração e a alma de Dona Assunta.
Até quando Deus quiser.
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Escrevo sobre a vida e os momentos específicos emocionais.
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domingo, 6 de dezembro de 2015
Até Ano Que Vem!
Que todos tenham um ótimo natal e um maravilhoso começo de ano!
Mesmo que não tenhamos o hábito de estar com pessoas várias vezes ao ano, vale estar no natal, ano novo, aniversário e até em outras datas. O importante é estar.
Não importa a quantidade de dias e sim a qualidade das horas vividas junto com quem se tem apreço ou carinho, amizade, amor... Sentimentos bons não morrem e nem ficam adormecidos, então, meus queridos, não se culpem por ficarem tanto tempo logo dessa ou daquela pessoa. A vida é assim mesmo.
É pra isso que servem datas comemorativas, pra reunir, conversar, compartilhar, vivenciar momentos bons, colocar o papo em dia, abraçar mais apertado, beijar mais estalado, chorar de emoção...
E que Deus nos abençoe a todos!
Ano que vem eu volto!
Beijos!
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terça-feira, 16 de setembro de 2014
E Por Falar em Saudade
Onde anda você?
Até que ponto aguentamos uma saudade? A vida toda, se preciso for.
Me lembro quando era criança e ouvia meus pais relembrando o passado e achava chato. Nessa época eu não tinha passado, mas o passado que tenho hoje morro de saudades.
Tempo em que enxergava só o lado bom das pessoas, da inocência e até da ingenuidade.
Tempo em que não sabia ler nas entrelinhas e nem decifrar olhares.
Tempo do gosto doce da fruta da época... Um ano para saboreá-la novamente... E um ano demorava a passar...
Tempo do pé no chão, do cheiro de terra molhada e bolinho de chuva... Canela...
Tempo do chá de cheiro de minha avó, de sua voz doce e meiga, do pão caseiro e da salada de repolho brilhante regada com óleo.
Tempo da pamonha premiada sem queijo, propositalmente, e eu sempre pegava essa.
Tempo de Sessão da Tarde com Jerry Lewis e Lessie.
Tempo ganhado e nunca perdido, saboreado gota a gota, em doses homeopáticas e doces.
E por falar nisso onde anda você que nunca mais vi?
Carinha de anjo, olhos de demônio, alma indefinida, corpo do pecado e beijo apimentado.
Onde anda você?
Uma vida já se passou, ou duas vidas?
Que importa se estamos condenados a nos encontrar em todas elas?
E aquele seu sorriso meia-boca, continua a carimbar seu rosto?
Fecho os olhos e vejo... E sinto... E morro de saudades, completamente viva!
Escrevo sobre a vida e os momentos específicos emocionais.
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quarta-feira, 14 de maio de 2014
Recaída
De tanta bagunça, tantos papéis espalhados, gavetas empanturradas de quinquilharias e até uns chaveiros sem a argola para prender na chave Anabelle virou as tralhas no chão. Uma lixeira que estava por perto logo estaria cheia. Nada do que estava guardado serviria para alguma coisa. Menos um pen drive perdido há algum tempo. Anabelle nem tinha mais esperanças de encontrá-lo e ele tão perto, gritando para ser descoberto.
Correu para o computador para vasculhar o que havia guardado, o que dera por perdido e o que mais encontraria naquele pequeno objeto grandioso.
Alguns arquivos de músicas, todas românticas, fotos de viagens, ensaios de contos, e fotos. Muitas fotos. "Imagina alguém vendo isso daqui, meu Deus, que horror!", pensava enquanto passava foto por foto. Até parar em uma que lhe balançou. Um grande amor de tempos atrás. Nem era tanto tempo assim, mas parecia uma eternidade desde seu fim.
Não se lembrava mais do rosto dele... Tão lindo... Apoiada com o cotovelo na mesa e a mão sob o queixo, ficou uns instantes olhando, cada detalhe, cada traço... Com o mouse passou a flechinha por todo seu rosto, pelos cabelos cacheados, pelo queixo quadrado, pelos olhos que sempre sorriam, pelos lábios... Entreabriu a boca e sentiu seu beijo, tão intenso, quente, molhado...
Suspirou e passou a mão em sua figura... Acariciando com os dedos seu rosto, sua boca... Fechou os olhos e voltou aos bons tempos de ternura, de cuidados, de gargalhadas sem motivos, de olhares perdidos um no outro, de abraços... de amor...
Voltou aos papéis com a esperança de encontrar seu telefone ou algo que pudesse entrar em contato. Havia bloqueado o moço nas redes sociais quebrando qualquer possibilidade de contato. Parou por uns instantes e achou melhor não procurar nada. Tinha a foto, a única sobrevivente além de seu carinho e ternura por um homem que a modificou para melhor numa fase conturbada em sua vida. Mas acabou, melhor assim, melhor ficar como estava. Não queria estragar essas boas lembranças deste momento mesmo tendo cultivado uma raiva temporária e muitos choros por dias seguidos.
Apesar da dor extrema com o fim de um promissor relacionamento eram essas as lembranças que levaria consigo para sempre, de bons tempos, de amor eterno enquanto durasse, de surpresas inesperadas, de longos telefonemas... Boas lembranças.
Chorou de saudades... Não imaginava que ele ainda habitava seu corpo, seu coração, seu ser... Esquecera tão rápido e bastou uma foto numa tela fria para voltar todo o sentimento enterrado.
Nunca mais seu cheiro, sua voz, seus abraços, seu calor... Só saudades...
Sem fim para nunca mais!
Fim.
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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Linhas Tortas
"Hoje vou te buscar", disse Henrique, num telefonema rápido para Luiza, "E não tenho horas para te devolver", brincou, fazendo com que Luiza desse um sorriso e o coração acelerasse.
Na hora combinada ele estava lá, com o mesmo sorriso canalha de sempre, dizendo com os olhos que a noite prometia... Uma noite que sol nenhum iria interromper. Luiza gostava disso e concordava. Não precisavam dizer palavras... Olhares se encontravam e corpos se reconheciam, como uma segunda pele, arrepiando a cada toque... Bocas se achavam e se fartavam num terno beijo molhado, intenso depois de alguns segundos à medida em que as mãos exploravam um ao outro.
Alguns minutos e já estavam despidos. Luiza deitava e Henrique por cima enchendo-a de beijos, de toques sutis, até se encaixarem e se perderem na noite... Sem horas para se devolverem ao mundo real...
Mas o mundo real, teimoso e cruel, bateu à porta e os separou. Hora do príncipe montar em seu cavalo e da princesa voltar para a torre do castelo.
Se perderam no caminho de volta e outras bocas encontraram. Outros arrepios, outros toques, outras vidas...
Com remorso de tanta crueldade o mundo real conspirou e fez com que Henrique e Luiza se reencontrassem. Os olhos se reconheceram, a pele arrepiou, as bocas secaram esperando uma gota de vida uma da outra... Mas muito tempo havia se passado e nada mais sabiam um do outro. Os olhos contavam tudo mas a boca se calou... O coração batia acelerado e mesmo assim um não ouviu o outro. Luiza estava doente, por falta de amor, e Henrique estava com a outra que ele encontrara pelo caminho perdido...
Se despediram e se foram, cada um para sua vida, levando aquele olhar e as lembranças da melhor noite que já tiveram... Passado...
Luiza, por querer o bem, fugia de Henrique quando sentia sua presença em algum lugar, por medo de não resistir àquele olhar que tudo contava, mas que estava com outra pele ao lado. Fugia e seus pensamentos ficavam...
Inconformado, o mundo real conspirou mais uma vez e fez os olhos se reencontrarem... Luiza, radiante, não mais sofria por falta de amor... Queria vida, queria continuar vivendo a partir daquele dia, daquela noite eterna... Henrique não estava pronto. Fazia que ia e não ia... Medo... O passado estava longe e mesmo assim parecia tão perto... Ontem mesmo se perdeu nos braços de Luiza. Será que os braços seriam os mesmos? E essa boca do meu lado, quem irá beijar a não ser a minha? Dúvidas...
Luiza esperava, mas sabia que o passado não voltaria... Estava muito distante... Tantas águas rolaram, tantas noites infinitas já amanheceram e aquela noite eterna nem era tão eterna assim.
Se não era para ser por que os olhos se reencontraram? E por que as bocas continuaram secas, sedentas uma pela outra? E por que o medo dos corpos se tocarem e não conseguirem mais se separar venceu a vontade de voltarem no tempo?
Não era para ser...
Luiza, não querendo mais saber de carruagem, caminhou sem olhar para trás, levando consigo por toda a vida, aquela eterna noite que ainda não amanheceu.
Henrique... Não era para ser...
Fim.
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segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Saudade - Conto Sensual
Ester, depois de um dia com muito trabalho e problemas resolvidos, voltava para casa caminhando, com a sensação de dever cumprido. Resolveu passar por outro caminho, por uma avenida movimentada que cortava a cidade. Queria sentir a brisa do fim de tarde, o barulho dos carros, o comércio fechando as portas e apesar do sapato não ser tão confortável para caminhar, resolveu arriscar umas prováveis bolhas que formariam. A tarde estava linda, fresca, e com o horário de verão ainda chegaria em casa com o sol quente.
Na avenida pessoas caminhavam exercitando-se. Se lembrou que precisava urgente se matricular em uma academia. Ao atravessar uma rua um carro que aguardava o sinal verde buzinou insistentemente e Ester ouviu alguém chamá-la. Olhou e não reconheceu a pessoa. O rapaz chamou de novo, estacionou por ali mesmo e caminhou em sua direção com os braços abertos.
- Jorge! - ela abriu um sorriso e quase desmoronou por ali mesmo.
- Oi, sumida, por onde você anda que nunca mais te vi? - respondeu Jorge, chegando perto já com os braços abertos esperando um abraço apertado.
Depois de falarem um do outro, chegaram à conclusão de que a última vez em que se encontraram foi há vinte anos. Como o tempo voa, disseram praticamente juntos.
Algumas rugas, uns cabelos brancos, uns quilos a mais, mas o brilho nos olhos era o mesmo. Bastou o toque na pele para aquele arrepio dar o ar da graça e o tempo voltar naquele dia em que se separaram. Cada um se casou e foi viver a vida. Agora ambos estavam separados e os olhos mais brilhantes do que nunca.
Jorge ofereceu carona para Ester que aceitou prontamente. Entraram no carro, mas antes de dar a partida ele olhou-a fixamente, derrubando-a, como sempre fazia, deixando-a corada de vergonha. Nada havia mudado dentro deles, dentro dos corações, as emoções, a excitação, a vontade de tocar, de beijar, enfim, de grudarem um no outro.
Jorge disse que não a levaria para casa naquele momento. Ester concordou e foram para um motel.
Mal chegaram e Jorge já tomou-a nos braços, ainda dentro do carro, dando-lhe um beijo inesquecível, intenso, molhado, deixando Ester toda trêmula e não conseguindo controlar suas mãos. A excitação era tanta que Jorge a colocou em seu colo, de frente a ele. Ester se sentiu uma jovem, com todas aquelas emoções, sensações, e se entregou totalmente, sem medo, sem vergonha, sem pudores. Jorge adorava isso em Ester, pois apesar de tímida era a mulher dos sonhos, a mulher perfeita no sexo, que retribuía e aceitava todos os jogos e brincadeiras. Bastava uma troca de olhares e já sabiam o que queriam.
Jorge se perdeu nos braços de Ester. Não sabia como aguentou ficar tanto tempo longe daquela boca quente, da pele macia, da respiração ofegante, do toque suave de suas mãos, dos cabelos sedosos e, mesmo depois de tanto tempo, continuava a mesma mulher sedutora de sempre, que o enlouquecia e tirava-lhe o prumo.
Ester não queria mais perder um segundo de um tempo precioso e explorava o corpo de Jorge com as mãos e com a boca, com os lábios entreabertos, e também lamentava ter vivido tanto tempo sem aquele cheiro de homem, aquele gosto afrodisíaco de sua boca, os braços a lhe entrelaçar deixando-a imobilizada e quase sem fôlego... Morreria em seus braços naquele momento e levaria consigo os poucos instantes de entrega e roubo de emoções, de prazer, de ternura, de carinho...
O que Ester adorava em Jorge era justamente esse ímpeto de possuí-la sem ficar pedindo ou falando o que queria fazer. Simplesmente fazia. Simplesmente conhecia seu corpo, lia seu arrepio, sabia os locais do toque, do beijo, do sexo, e falava baixinho em seu ouvido tudo o que ela amava ouvir.
Não se importavam se o carro era um lugar desconfortável, para eles qualquer lugar era lugar, qualquer canto era um mundo de dois que se transformava em um, que queriam entrar um dentro do outro para nunca mais sair.
Foram para o quarto e se jogaram na cama. Perderam a noção do tempo. O que importaria o tempo num mundo onde não havia hora marcada? Não tinham que dar satisfações para ninguém, então o tempo que esperasse a vontade deles.
Entre um carinho e outro, ficavam se olhando e lamentando o tempo perdido nesse espaço enquanto ficaram longe um do outro. Não sabiam explicar porque se separaram e nunca mais se viram. Não se conformaram de não estarem juntos desde sempre... A vida prega peças e desenha rumos diferentes, mas o destino entende quando há união de corpos e volta atrás redesenhando o caminho inverso, transformando os corpos em ímãs.
O reencontro, o brilho nos olhos, o coração pulsando, os corpos colados, não sabiam até quando, mas enquanto estivessem juntos, o mundo e o tempo seriam deles.
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sexta-feira, 12 de abril de 2013
Saudade
Participando do Projeto Bloínquês - 12ª Edição Solte o Verbo.
Dói, e muito!
Quando a pessoa é viva fica fácil, mas uma das saudades mais doloridas é por alguém que já morreu.
Há cinco meses que meu irmão se foi. E até hoje não nos acostumamos com sua ausência. Meus pais sofrem ainda, minha cunhada continua chorando muito, minha sobrinha ainda é muito nova para entender o que significa morrer, mas chora pela falta do pai, inconformada.
Sempre me pego pensando nele, ouvindo sua voz, seu sorriso largo, seus olhos brilhantes e suas reclamações costumeiras. Ô homem que reclamava de tudo! Sinto falta disso também.
De uns tempos para cá confesso que fiquei ausente do convívio familiar, mas sabia que ele estava lá, onde sempre esteve. E qualquer coisa, era só ligar, ouvir a voz, aparecer.
Hoje, a única coisa que consigo fazer é fechar os olhos e imaginá-lo, e é inevitável não lembrar do velório, das pessoas chorando, de meu pai arrasado e definhando em questão de horas, dos muitos amigos, parentes, vizinhos e conhecidos que compareceram. Como esquecer de minha cunhada abraçada ao caixão o tempo todo? Como esquecer aquela fisionomia morta e gelada naquela cama de madeira sem colchão? E como esquecer que a vida continua, querendo ou não, agora sem ele.
Dá um aperto no coração, um oco bem no meio do peito, um vazio na mente, até que uma lágrima desce, teimosa, pelo rosto abaixo, ganhando o colo vazio, ardendo e quase evaporando por causa da quentura da saudade que bate e fica, que criou raízes profundas, como um bambu japonês que nunca, nunca mais será arrancado. Enverga, mas não quebra. Logo volta a sua posição ereta, imponente, marcando presença dia a dia, até nosso último suspiro, como simples mortais.
É a morte ganhando da vida, é a dor caminhando de mãos dadas com a saudade, é um sorriso a menos e um rio de lágrimas a mais, é um outro modo de enxergar o que realmente vale enquanto estamos vivos. Podia ter ficado mais perto, ter ajudado mais, ter gargalhado mais, ter convivido mais com ele. Mas mesmo sabendo que um dia vamos embora para sempre, ainda teimamos em querer dominar o tempo e deixar tudo para depois. Amanhã eu vejo, amanhã eu converso, amanhã eu beijo, abraço, amanhã eu digo que amo... Amanhã eu enterro e levo comigo a saudade eterna, a dor e o remorso de não ter estado mais junto, mais perto, enquanto todos nós tínhamos vida.
Que esteja com Deus, sempre, você e nós!
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