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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Marlon Guido


Meu nome é Marlon Guido, sou filho de dona Marta e até hoje me lembro de coisas e fatos que se deram em minha vida, ocorridos quando eu ainda era bebê. Um deles, me lembro nitidamente, ainda ia fazer dois anos de idade, minha mãe confraternizava com amigos, sentados numa mesa às margens do Rio Paraíba do Sul, em São João da Barra, quando ela me pegou no colo e em fração de segundos me atirou lá dentro do rio. Caí próximo ao dique e logo a fadiga de estar bebendo água e tê-la entrando no meu nariz já tinha tomado conta de mim. 
Minha mãe foi mãe solteira, me teve aos 18 anos e, expurgada de casa, foi para o Rio de Janeiro comigo nos braços, e só voltou a ter contato com a família quase dois anos depois. Até um ano e meio de idade eu não tinha nome. Passeando comigo no carrinho, na rua, as pessoas brincavam com o filhinho de Marta e perguntavam: "qual o nome dele"? "Sorvete. Ele ainda não tem nome", dizia minha mãe. Pois bem, o tempo passou, minha mãe prosperava dia após dia, como vendedora, galgava postos cada vez mais altos nas empresas à nível nacional, como o grupo Garavelo na época, Golden Cross, foi gerente de banco e aparentemente era muito requisitada. Também, foi "Garota Alternativa", "Garota Objetiva", garota isso, garota aquilo, era um monte de concursos de beleza que hoje correspondem a esses novos que lançaram aí. Mamãe era de fato uma mulher muito bonita, eu a amava e passava horas olhando-a como se o tempo parasse. 
No decorrer de toda sua vida, todas as suas atitudes comigo foram no sentido de me fazer virar homem o quanto mais rápido possível. Era como se ela quisesse que eu fosse precoce em tudo, até na natação, como já relatei. Seu desejo era, que meu nível de entendimento, visão de mundo e defesas, fossem aguçados ainda que totalmente fora da minha capacidade. 
Depois de termos a vida que pedimos a Deus, de obtermos tudo aquilo que sempre queríamos, numa fração de pouquíssimo tempo minha mãe já havia se tornado totalmente dependente do álcool A rapidez com que aquela mulher obteve a ascensão foi a mesma do fracasso. Das reuniões nos restaurantes chiques no Rio de Janeiro pros pedaços de pedra embaixo da ponte da Lapa, acompanhada de outros alcoólatras e que muitos deles moravam ali mesmo. Foram quase quinze anos, onde ela parecia ter como objetivo o suicídio lento, regado pela bebida e pelo cigarro. 
Algumas manias ela nunca perdeu, como a de viajar por exemplo, só que agora nós não andávamos mais nos leitos dos ônibus e nem nos carros, mas nos caminhões de carona, onde eu passava noites em claro vigiando-a, a fim de coibir aquele momento em que o motorista mudaria a marcha e levemente se aproveitaria pra tentar alisar sua perna. Era quando eu sempre simulava uma tosse pra que ele percebesse que eu estava acordado e vendo, a fim de quebrar o clima e ele interromper a empreitada. 
Eu tinha um ciúme da minha mãe que não gosto nem de me lembrar. Eu tinha um cuidado com ela que minha disposição de levar dias acordado e sem me alimentar direito era abastecida pelo simples fato de saber que alguma coisa poderia lhe acontecer no momento em que eu dormisse, ou que me enfraquecesse por falta de comida. Minha saliva era suficiente e me manter longos minutos sem piscar era uma estratégia para espantar o sono. 
Ruas, becos, vielas, favelas, prédios abandonados, obras inacabadas, terrenos, rodoviárias e ate beiras de praias eram lugares comuns onde passávamos horas, dias e até meses. 
Muita coisa não dá pra ser explicada por aqui, mas o que eu quero trazer à tona, sem o mínimo constrangimento, é que eu amo minha mãe cada vez mais a cada dia, ainda que ela já não esteja mais aqui na terra há mais de dez anos. pois a cada momento em que me lembro dela, me lembro também de cada ato dela comigo durante o tempo em que passamos juntos. Parecia que ela já sabia que me deixaria cedo demais e talvez eu não estivesse ainda preparado pra enfrentar o mundo sem ela, sozinho. Mas sobrevivi, e tenho certeza que tudo que ela fez me ajudou, me preparou, me fortaleceu, até os atos mais loucos. Agradeceria a ela desde o dia em que me jogou naquele rio, onde alguns longos segundos depois, um cara que provavelmente estava sentado naquela mesa com ela, pulou e parece que posso sentir ate hoje suas mãos nas minhas costelinhas, me subindo de volta à superfície. Não sei quem ele é, mas tenho certeza que conta isso ate hoje, se estiver vivo. 
Agradeceria também a todas as noites nas rodoviárias, testemunhando aquelas cenas e fazendo feições de quem poderia fazer mal a qualquer um que se aproximasse dela, mesmo estando totalmente temeroso e indefeso, mas sabendo que havia um Deus que nos protegia e nos guardava, senão Ele sabia que pra mim não tinha sentido Ele não proteger nós dois, então que eu ficasse desprotegido, e não ela. 
Agradeceria também pelo nível de realidade que ela me ensinou a viver, por me ensinar a analisar as pessoas, as coisas, os ambientes, o "feeling" pra detectar os mínimos detalhes e fatos que se dão num curto espaço de tempo entre pessoas, sem que elas percebam que foram vistas e "lidas", me facilitando reações e me permitindo elaborar situações pra me safar do que quer que seja e progredir em qualquer necessidade. 
Eu ficaria aqui por horas, até dias, contando coisas que provavelmente você só verá em filmes, alguns até baseados em fatos reais, mas sem o teor e a veracidade do relato sendo contado pelo próprio autor da história real. Se valorize mais, vencer na vida é uma questão de visão, talvez você já seja um vencedor e não reconhece isso... ‪#‎Amor‬

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Este é Marlon Guido, de Campos de Goytacazes, RJ, amigo virtual querido, desses que a gente esbarra por aí e nem imagina que teve uma história dolorida. Rapaz sério de olhos brilhantes, olhos que falam e sentem, ternura que esbanja por onde passa, rapaz que sentiu as muitas dores na carne, na alma, e nunca se deixou abater. Vive como tem que viver, com Deus no coração sempre, valorizando o que é de valor e agregando o que lhe convém. Simples, como tem que ser. Um vencedor, produtor rural, que vive e faz a diferença por onde passa. Respira com vontade, com garra e nunca, jamais, desiste de seus sonhos e objetivos. Teve um anjo cuidador, sua mãe, mesmo, às vezes, com atitudes duras, e foi um anjo pra ela, cuidando-a com tanto cuidado como se tivesse a impressão que se quebraria caso alguém lhe encostasse um dedo. Ainda vamos ouvir falar muito dele. Guardem seu nome!

Obrigada, Marlon, por me permitir compartilhar sua vida.





20 comentários:

  1. Que história! Nenhum escritor sabe contar essas dores do mundo, a não ser quem as viveu. Muito bonito o rapaz.
    Desejo que ele tenha uma vida cheia de alegrias e que essa lembrança boa dessa mãe, de quem ele foi guardião, invertendo os papeis, esteja sempre com ele. Ela está, mesmo que não fisicamente.
    Beijo para o Marlon e para você, Clara.

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    1. Amém, Lúcia, gente do bem merece tudo de bom!
      Descrever um dor é muito difícil e poucos sabem fazer com maestria.
      Em suas palavras dá pra sentir até seus olhos doerem por insistir em ficar abertos e não perder a mãe de vista.
      Beijos, mana Lúcia!

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    2. Um beijo, Lúcia, obrigado pela aproximação calorosa, que bom que se contentou com os relatos, saúde e paz a ti e aos seus aí...

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  2. Olá, Clara!
    Nossa, como escreve bem este rapaz, tem futuro como escritor!
    Sua história é mesmo de luta e de muito amor por sua mãe, acho bonito isso nos filhos.
    O nome dele já é de escritor, gostei demais Marlon Guido!
    um super abraço carioca

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    1. Nome de artista ele já tem, e com certeza vc ainda vai ouvir falar muito nele aí no Rio de Janeiro. Com certeza, Beth.
      Beijos

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  3. UAU! Que história de vida! Que garra, que raça desse rapaz! Escreve bem e tem ,certamente, muiiiiiito a contar! Vamos esperar! beijos, tudo de bom,chica

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    1. Tem muito a contar sim, Chica, e se ele me permitir, publico aqui de novo. rs
      Beijos, gaúcha!

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  4. Gosto de histórias de vida e esta principalmente nos chama atenção pela resiliência do autor do texto. Que bom que vc foi autorizar a compartilhar e podermos acompanhar seu relator de amor e garra.
    Grata pela visita, volte sempre.

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    1. Ele poderia seguir tantos outros caminhos, mas optou pelo mais difícil, creio eu, e o único salvador. Que Deus o abençoe, Norma.
      Beijos e boa semana.

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  5. Linda e emocionante história.
    Parabéns ao rapaz!
    Ele é um guerreiro!
    Beijão de
    Verena e Bichinhos

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    1. Ele é um guerreiro e vai longe na sua empreitada. Deus é Pai, Verena.
      Beijos e ótima semana.

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  6. Olá Clara, Marlon, como vão? Gosto demais de ler histórias onde a pessoa consegue se sobrepôr a qualquer circunstância que tenha enfrentado e ainda, conserva a capacidade de sair grata, reconhecer os ganhos que teve, apesar das perdas. Marlon é abençoado por sua capacidade de enxergar a vida pelo prisma do amor e do perdão e merece ser muito feliz. Abraço aos dois!

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    1. Tbm gosto muito, Bia, apesar de todos os pesares ainda ser grato e viver com o coração cheio de amor. Isso prova o bom caráter e as bençãos de Deus na vida da pessoa.
      Que os anjos digam amém pro Marlon.
      Beijos e obrigada!

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  7. Algumas pessoas poderiam ter todos os motivos para se revoltarem e assumirem o papel de vítimas do mundo, da sociedade, de Deus. Mas histórias como a de Marlon mostram que a verdadeira grandeza se mostra quando se espera a fraqueza e a queda. Exemplos como o dele valorizam o ser humano, demonstram que as almas por Deus criadas são capazes de grandes feitos, ainda que passados nos becos e galpões escuros, distantes dos olhos de todos.
    Obrigado pela carinhosa visita, Clara!
    Um beijão
    Bíndi e Ghost

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    1. Sim, também concordo com tudo que disse, Bindi. Sem falar que é uma pessoa super terna e educada. Um amigo muito querido...
      Beijos!

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  8. Uma historia emocionante e que faz reflexão sobre as atitudes dos ditos humanos.
    Que a vida lhe sorria sempre e que as marcas do passado sejam estimuladoras para levar esta longa jornada vida a dentro.
    Boa partilha Clara.
    Um abração amiga e que sua semana seja de paz, alegria e muita luz.
    Beijo

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    1. Sim, assino embaixo de tudo que disse, Toninho. O rapaz é um guerreiro!
      Um abraço, amigo poeta!

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  9. Oi Clara, fico com um dó desse rapaz que acha que a mãe fez o melhor por ele... Amor entre uma mãe e o seu filho é visceral, não tem explicação, mas faz-me confusão vê-lo a defender com tanto ardor alguém que o levou para lugares onde nunca devia ter estado, o fez presenciar coisas que nunca devia ter visto...
    Não posso julgar, só lhe desejo que continue a superar-se.
    Abraço
    Ruthia d'O Berço do Mundo

    P.S. Saiba que indiquei o Simples e Clara para a 3ª Xícara de Ouro da Patrícia Galis. Boa sorte!

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    1. Sim, Ruthia, não podemos julgar, pois mãe é mãe. Ela lhe ensinou o caráter, a percepção, a sobrevivência em qualquer situação, os perigos do mundo, enfim, ensinou a ser um homem onde quer que ele esteja. Talvez não tenha sido do modo mais confortável, mas ela poderia ter desistido dele no primeiro instante, e foi guerreira e enfrentou sozinha, tudo e todos.
      Beijos, querida, e um ótimo restinho de semana.

      Sim,. tbm te indiquei, com certeza, seu blog é um dos melhores que leio.
      Beijos

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    2. Sinto amor por você, Clara, e estou com saudades...

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