quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Quando Os Olhos Falam


      Já passava das das vinte horas quando Lívia começou a se despedir de todos à mesa para ir embora. Imediatamente Lucas a puxou pelo braço e pediu que ficasse mais um pouco. Eram amigos há alguns anos e sempre se encontravam, com mais três amigos também, para uma rodada de cerveja e petiscos. Aos poucos cada um foi se retirando permanecendo apenas os dois e Diana. Diana era amiga de Lívia e quase não participava da reunião deles. Especialmente neste dia havia bebido muito e certamente precisaria de ajuda para voltar para casa. A incumbência ficou por conta de Lívia, que se sentia responsável por Diana ser mais nova e frágil quando bebia álcool. Nada exagerado, porém Lívia se sentia culpada por induzir a amiga a beber de vez em quando.

      Lívia, com as bochechas rosadas e os cabelos um pouco grudados na cabeça devido ao calor de verão, deu um beijo no rosto de Lucas para se despedir, como sempre fazia. Lucas não era de beber demasiado. Era o responsável da turma e sempre levava todos para suas casas. Nesse dia não levaria ninguém, como havia combinado antes de se sentar à mesa. Tinha um compromisso mais à noite e não mudaria sua rota desde então. Lívia, ainda encostada no rosto no de Lucas, demorou um pouco para concluir o beijo. Na verdade quem demorou foi Lucas. Se afastaram e se olharam... Olhar profundo como jamais haviam se olhado antes. Não era aquele olhar carinhoso ou cuidadoso, era diferente... Lívia suspirou, continuou firme pesquisando o fundo dos olhos de Lucas. Mexia os olhos descontroladamente, observando as sobrancelhas, o nariz, a testa, os lábios... Cada detalhe daquele rosto tão conhecido. No instinto, ela entreabriu a boca, como se esperasse um beijo, e Lucas, hipnotizado, retribuiu o olhar e segurou o rosto de Lívia, abaixo da orelha e acariciou a bochecha com o polegar. Estavam muito próximos um do outro... Ele fixou seu olhar nos lábios dela e se aproximou. Lívia fechou os olhos e se entregou, mas antes de tocar seus lábios nos de Lucas abaixou a cabeça, segurou nas mãos dele, pediu desculpas e se afastou. Olhou para Diana, que estava com os olhos arregalados, queixo caído e não sabendo o que fazer. Lívia sorriu, pegou na mão da amiga chamando-a para irem embora. Moravam há poucas quadras do bar em que estavam, portanto iriam à pé. O sol aos poucos anunciava o início da noite, proporcionando uma cena belíssima estampada num alaranjado escuro com pitadas de vermelho e marrom a sua volta. Lívia suspirou, caminhou olhando para o chão e sem falar uma palavra. Lucas ficou observando as duas se afastarem, apoiando os cotovelos na mesa.

      Lívia nunca havia percebido, mas Lucas, quando tinha a oportunidade de estar no mesmo ambiente que ela, não desgrudava em nenhum momento. Quando chegava e não havia cadeira vazia perto dela, fazia com os demais se afastassem até se acomodar ao seu lado. Lívia se divertia dizendo que ele era seu protetor, que quando estava com ele estava com Deus. e ele olhava para Lívia com aquele olhar profundo e enigmático, mesmo tentando mostrar a ela o que cabia dentro daqueles olhos além da doce amizade de anos.

       Lívia, no caminho para casa e sem prestar atenção no que Diana estava lhe falando, suspirava e sentia o coração pulsar rápido. Medo e vergonha era o sentimento que tomava conta dela, uma paixão momentânea por um amigo querido. Jamais imaginou se relacionar com Lucas de um modo que não fosse somente amizade.

      Lívia, percebendo que os olhares de Lucas ultimamente não eram mais inocentes como antes, suspirou e mordeu o lábio inferior. Não sabia o que pensar e nem o que dizer a ele num próximo encontro. Abaixou a cabeça, cochichou sem deixar Diana ouvir, como se quisesse falar para si mesma, que tudo isso era besteira, que estavam sob o efeito do álcool e que tudo continuaria como antes. Respirou aliviada, chegou na sua casa, se despediu de Diana e entrou feliz. Diana seguiu mais uma quadra, onde morava com seus pais.

      Cantarolando e se distraindo com suas coisas, Lucas não saía da mente de Lívia. De repente se via pensando nele, suspirando, boca seca e coração acelerado. Depois se levantava, disfarçava a petulância por ter tido pensamentos quase pervertidos e continuava sua rotina de distrações.

      Os dias se passaram, Lívia estava tranquila quando aos suspiros por Lucas, até se encontrarem ocasionalmente na rua de sua casa. O acaso era o que ela pensava, mas Lucas foi procurá-la. De longe viu o amigo caminhando com as mãos nos bolsos, vez ou outra ajeitando a franja lisa que tapava parte de seus olhos e estampando um largo sorriso ao avistá-la. Lívia, desconcertada, tentou não ter uma síncope com o coração querendo saltar para fora do peito. Sorriu acanhada e caminhou olhando mais para o chão, por vergonha de olhar novamente aqueles olhos cor-de-mel que soltaram faíscas na última vez em que foram olhados. A uma quadra de distância, Lucas parou, cruzou os braços e ficou esperando Lívia se aproximar. Ela, percebendo o longo caminho a percorrer até ele, suspirou, sentiu a boca seca e continuou. Não conseguia disfarçar o largo sorriso e as bochechas já coradas, por causa da timidez. Chegou à frente de Lucas, olhou de novo o fundo daqueles olhos, entreabriu a boca, como se esperasse mais um vez um beijo. Lucas, continuando do ponto onde parou dias atrás, no último encontro, pegou o rosto de Lívia, tocando em seu pescoço e acariciou a bochecha com o polegar. Fixou os olhos nos lábios dela e beijou-a ternamente. Lívia se entregou sem  remorso... Se abraçaram e ficaram parados no tempo, de olhos fechados, sentindo o coração pulsar...

      — Minha ceguinha... Até que enfim percebeu, né? — ele sussurrou no ouvido de Lívia...


❤❤❤


Um Feliz Natal a todos, um Ano Novo repleto de esperanças e realizações. Fiquem com Deus e até!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Perfume Adocicado


      Contados exatos dois meses, Ariela finalmente alcançou a coragem em entrar no quarto que era de sua mãe, Dona Hortência, que nos últimos meses, por falta de opção, viveu seus últimos dias no asilo São Tomé de Deus. Eram somente mãe e filha morando numa cidade pacata. Todos os parentes estavam muito longe, na cidade grande. Ariela, por ser concursada em Pedagogia, escolheu a tranquilidade de ter ar puro e silêncio para viver com sua mãe. Mas nem tudo saiu como o esperado. Dona Hortência não podia mais viver sem acompanhamento constante, obrigando assim Ariela a deixá-la sob os cuidados de pessoas estranhas no único asilo daquela cidade.

      Ariela visitava a mãe todos os fins de semana, e vez ou outra levava-a para sua casa, para rever seus pertences e matar a saudade de uma comida caseira e especial. Eram como irmãs e Ariela sofria por ter que deixar Dona Hortência com estranhos. A mãe dizia que era feliz no novo lar e que a filha não precisava se preocupar com nada. Às tardes jogava bingo e tomava chá com amigos. Riam e dançavam, depois se recolhiam aos quartos coletivos. Era tudo limpo, mas na verdade Dona Hortência não era mulher de ficar reclamando. Sentia solidão, muita solidão todos os dias. Não queria ter seus objetos por perto por medo de ser roubada. Não confiava nas pessoas tanto assim.

      Naquele quarto vazio Ariela sentiu o cheiro de mofo, de roupa guardada há anos, de pó nos móveis que a fez espirrar seguidamente. Por fim amarrou um lenço tapando as narinas para, enfim, retirar as roupas e doar a quem precisasse. Isso era uma ordem de Dona Hortência para quando ela morresse.

      Ariela não sentiu vontade de chorar, mesmo quando apertava algum vestido de sua mãe em seu peito. Ela pensou que sofreria mais, mas estava tranquila e até conformada com a ausência da mãe. Tinha saudades, e teria para sempre, mas não doía tanto quanto imaginava. Por momentos pensou ser fria como uma pedra de gelo, mas talvez pela vida solitária em que sua mãe passou os últimos momentos, sabia que agora Dona Hortência poderia estar num bom lugar, junto com os seus já falecidos.

      Certamente doaria tudo para o asilo de sua mãe, era assim que o chamava.. Ariela pegou roupas, sapatos, perfumes, talcos, maquiagens, esmaltes, bijuterias, tudo que sua mãe usava. Antes, claro, teve o cuidado de deixar tudo limpo e perfumado. Chegando lá, a primeira cena que viu foi uma senhorinha encostada no portão. Cumprimentou-a e perguntou se ela estava esperando alguém. Ela respondeu que sim, que seu filho logo chegaria. Ela usava batom cor-de-rosa e um perfume adocicado e enjoativo. Ariela sorriu, fechou os olhos e foi como se sentisse sua mãe por perto, devido ao perfume doce. Parecia ser o mesmo que estava na mala, o mesmo que sua mãe usava. "O perfume acabou de encontrar sua dona...", pensou Ariela. Ela entrou carregando com dificuldade a mala cheia com os pertences de sua mãe.

      As voluntárias que lá estavam receberam Ariela com alegria e, num abraço apertado, agradeceu pela gentileza em levar os objetos de Dona Hortência para lá.

      Ariela parou no corredor e, pela janela, ficou olhando o jardim. Não era dia de visitas e os idosos estavam sentados, cada um em um canto, olhando para o nada e sem se comunicarem uns com os outros. Ariela estranhou não encontrar aquela alegria descrita por sua mãe, dos jogos, brincadeiras, risadas e tudo o mais. Resolveu caminhar por eles e conversar um pouco com cada um.

      Um senhor que estava na cadeira de rodas, ficava o tempo todo com a boca aberta e vez ou outra, limpava a baba que escorria. Tinha os olhos lacrimejantes que pareciam olhar para o horizonte avistando a morte. Apenas esperava por ela. Não muito adiante, um outro senhor se entretinha com um livro. Ariela percebeu que ele passava as páginas rapidamente, impossível de terem sido lidas. Nesse instante uma enfermeira chegou até ela para acompanhá-la no passeio. Sem que Ariela perguntasse nada, Fabiana, a enfermeira, começou a contar sobre cada um. O senhor do livro não sabia ler, mas sempre foi tão encantado por livros que não se importava com esse detalhe; gostava de folhear as páginas e depois repetia todo o processo. Ariela pensou que poderia, de vez quando, voltar para ler para ele. Perguntou sobre o senhor da cadeira de rodas. Fabiana disse que ele tinha Alzheimer e que se lembrava apenas de sua infância, cada vez mais remota. Ninguém o visitava há anos... Depositavam o valor da mensalidade e pronto. Ariela perguntou sobre a mulher no portão. Fabiana disse que o filho morava há três quadras dali e que dificilmente ele vinha visitar a mãe. Mesmo assim ela ficava esperando por ele todos os dias e quando começava a escurecer, ela entrava, jantava e se recolhia para dormir. Balbuciava algumas palavras lamentando o filho não ter vindo naquele dia e logo dormia. No outro dia tudo se repetia.

      Ariela sentou ao lado de uma senhora que calmamente crochetava, sem saber definir o que seria. Era uma capa para bule de café, dizia ela, sorrindo para Ariela. Mostrou os detalhes e disse que todos os dias fazia a metade de um, que depois eram vendidas no bazar que faziam no asilo. Ficava feliz em poder ajudar de alguma maneira. Dona Antonieta, o nome dela, não tinha família e resolveu esperar pela hora da morte junto a pessoas. "Que triste morrer e ninguém saber", dizia ela, que imaginava seu corpo apodrecer até acabar o último resquício de carne e só depois algum vizinho sentir sua falta. Ariela pegou suas mãos e as beijou. Dona Antonieta acariciou seu rosto e disse que se sua filha estivesse viva seria assim, como ela.

      "Truco!", Ariela voltou-se para ver quem gritava quebrando aquele silêncio. Era Gumercindo e Antunes, que jogavam baralho o dia todo. Eram os únicos que se enturmavam nos dias comuns. Eram amigos de longa data e se reencontraram no asilo. Haviam feito o Tiro de Guerra na juventude e guardavam lembranças preciosas. Para Fabiana, esse reencontro foi a melhor coisa que havia acontecido no asilo nos últimos anos. Eram eles que animavam a turma nas festas. Mas o que animava mesmo os idosos eram os familiares que apareciam em dias de visita. Todos os dias poderiam ter visitas, mas se compreendia que a família precisaria trabalhar para sobreviver.

      Ariela perguntou para Fabiana se ela teria coragem de internar sua mãe num asilo. Ela apertou os lábios, abaixou os olhos e disse que se precisasse, sim, internaria. Mas sabia que dizia isso por não ter mais a mãe por perto, que havia falecido quando ela era bem pequena. Aquele amor de mãe ela não sabia como era. Talvez por isso respondeu tão rápido a pergunta.

      Ariela passou a tarde toda com os idosos e se sentiu muito bem. Poucos se lembravam de Dona Hortência.

      À noite, quando colocou a cabeça no travesseiro, orou, chorou e pediu perdão à mãe. Arrependeu por não ter criado uma outra alternativa para manter Dona Hortência por perto até seu último dia. Mentalmente começou a calcular quanto seria contratar uma cuidadora. Não, não seria possível com o salário de Pedagoga. Chorou durante algumas horas e depois adormeceu.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Cristaleira



      Depois de passar o fim de semana na casa de uma irmã mais velha, em outra cidade, Nair voltou para sua casa, cansada, louca para deitar em sua cama e dormir um pouco. Depois dessa viagem, ela constatou que não tinha mais idade para tanta aventura, mesmo a cidade ficando a 3 horas de distância. Não tinha mais paciência em ficar sentada dentro de ônibus por tantas horas, com gente conversando o tempo todo, crianças gritando, chorando, comendo, enfim, Nair sabia que estava velha.

      Era a primeira vez que ela viajava sozinha depois de ficar viúva. Passados exatos dois anos, sua única filha a incentivou a respirar novos ares, a conversar com a irmã que não via há anos, a passear e distrair a cabeça com outra rotina que não fosse a sua. Por tanta insistência ela aceitou, mesmo a contragosto, só para agradar a filha. Nair era assim mesmo, não sabia falar não, mas não significava estar satisfeita com a situação. Não gostava de confusão, nem de discussão e nem de desagradar as pessoas. Era uma senhora tranquila que sofria por não se impor, acabando por fazer o que não queria. Nair sofria e chorava, escondida em seu canto, sua casa, seu quarto, sua cama e seu travesseiro que agora fazia as vezes de seu amado Odair. Que falta ele fazia em sua vida!

      Ainda não havia superado a perda dele, mesmo tendo o apoio de pessoas queridas que sempre estavam por perto para distraí-la, confortá-la e ajudar no que fosse preciso. Era a recompensa por ter sido uma mulher cuidadora. Às vezes se sentia constrangida, pois nunca soube o que seria ser cuidada. Tipo de mulher que nasceu para cuidar, e o fazia muito bem.

      Chegando em casa, Nair levou um susto! Sua louça e sua prataria não estavam no lugar de sempre, em sua cristaleira antiga e reformada. Ficou estática olhando e esperando alguma explicação da filha Roberta.

       Mãe, amanhã chega a prataria novinha e a louça moderna para enfeitar essa cristaleira. Tudo estava tão velho que eu resolvi doar para umas pessoas carentes. A senhora vai ver como vai ficar lindo!  disse, com entusiasmo, para a mãe.

      Nair só deu um sorriso acanhado, entortando a boca para um lado, abaixou a cabeça e foi para seu quarto. Desabou na cama e chorou... — "Mas que petulância da Roberta que nem sabe nada da vida e vem pegar minhas coisas e dar pra quem eu nem conheço! Não basta ela ter suas coisas e agora vem intrometer nas minhas?" — Pensava, soluçando baixinho para que Roberta não a ouvisse.

      Se levantou, foi até o maleiro do guarda-roupas e tirou uma caixa onde guardava fotos antigas. Despejou em cima da cama e achou uma de seu casamento, época que tinha o costume de colocar os presentes sobre a cama. Lá estavam sua prataria e suas louças. Chorou e apertou a foto em seu peito, fechando os olhos e se lembrando daquele momento único.

      Nair lembrou de cada detalhe, de cada peça ganhada, todas inteiras e brilhantes. A prataria ganhou de uma das madrinhas que era mais bem de vida. Nunca foi usada, por dó e por medo de estragar. Não era uma prata de boa qualidade, mas brilhava como um espelho. A louça antiga, conjunto para seis pessoas, continha pratos rasos, pratos fundos, xícaras de chá e xícaras de café, além de uma sopeira que parecia ser trabalhada à mão de tão perfeita. Era branca com desenhos delicados de rosas cor-de-rosa e um filete dourado nas bordas. Pelo tempo e pelo uso haviam alguns trincados e uns lascados nas bordas. Nair ganhou da avó e eram o seu xodó, que agora habitavam outros lares. Seriam lares ou seriam apenas casas com pessoas desorganizadas e mal-cuidadosas? Talvez já estivessem até quebradas pelo mau uso. Nair chorou de soluçar só em imaginar a cena de um prato espatifado no chão.

      Nunca perdoaria a filha por essa atitude. Mas depois de pensar muito resolveu não tocar no assunto e continuaria vivendo até seus últimos dias com esse nó na garganta.  "Que os dias sejam breves e curtos"  pensava Nair. Por pirraça, ela resolveu doar também a cristaleira para uma parente distante, que sabia ser caprichosa em sua casa e que deixava tudo bem arrumado e conservado.

      Resolvido o problema, Nair foi decaindo aos poucos, dia a dia, e sempre quando estava sozinha em seu quarto suas orações eram direcionadas ao amado Odair, para que viesse lhe tirar dessa vida e levá-la para junto dele. Não queria mais viver, não queria mais passar pela sala e ver aquele vazio onde ficava a cristaleira com sua prataria e suas louças. Como doía lembrar que Roberta lhe arrancou um sentimento! Que ousadia da filha mexer em seus objetos e decidir o que fazer! Por que não esperou que morresse? Poderia até jogar tudo fora de uma vez, mas esperasse pelo menos ser enterrada. Nair tinha pensamentos depressivos e a cada dia que passava andava com a cabeça mais baixa, passos lentos, sem se cuidar e sem se alimentar como deveria. Perdeu o encanto da vida...

      Nair, com sua paciência e bondade, nunca mais saiu de casa a passeio. Queria esperar a morte perto do pouco que lhe restava, que agora estava trancado em seu guarda-roupas, escondido. Poucas lembranças que ornavam alguns objetos carregados de valor sentimental. Valor da vida, de décadas vividas, de choros, risos, sofrimentos, alegrias, de dores, de cores, de cinza e de branco, como aquele vestido todo rendado, acinturado, com um véu de tule que lhe cobria toda a parte de trás e se arrastava pelo chão, recolhendo todo farelo e grãos de sujeira que estavam no caminho ao altar, onde viveu o momento mais feliz de sua vida. O dia decisivo para uma união duradoura, de amor, de respeito, de companheirismo, e que agora o "até que a morte os separe" se fez valer.

     

      Texto publicado em 29 de julho de 2014 - Editado

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Geraldo Pelotão

Placa fixada ao lado da Casa do Artesanato, na Praça Barão, em Franca/SP

Uma figura peculiar de minha cidade, anos 80, que de certa maneira amedrontava alguns e causava curiosidade em outros. Mas é sabido que ele era muito querido em Franca, interior de São Paulo.

Geraldo Pelotão!

O que me lembro era da molecada provocando ele, chamando-o "Ô, Pelotão!", deixando-o muito irritado, pois passavam correndo por ele. Acho que Pelotão ficava tonto com os gritos e arruaças dos pequenos.  Daí pegava pedras que encontrava pela frente, colocava-as no bolso da calça e saía atrás dos meninos, que corriam ao seu redor, zunindo como uma espada sem plano de voo. Os garotos riam, e Pelotão desnorteado ameaçava jogar pedras neles. Não me lembro de alguma pedra ser lançada, pois eu também tinha medo e logo saía de perto.

Uns diziam que o dia que Pelotão não era provocado ele nem dormia direito à noite. Lendas urbanas, que fizeram parte de minha adolescência e que muitos francanos que lerem o texto vão se lembrar com carinho desse cidadão carrancudo, mas de bom coração.


"Quem não se lembra de um homem que frequentou a Praça Barão de Franca durante décadas e, se era chamado pelo apelido, rebatia com reação violenta xingando e jogando pedras? Geraldo Gomes, mais conhecido como Geraldo Pelotão. Faleceu com 85 anos no dia 7 de maio de 2000, mas seu comportamento único fez dele um dos tipos populares mais lembrados pelos francanos. Agora, sua figura ressurge na tela do artista plástico Ismael Donizete Oliveira e ganha o maior prêmio do Salão de Abril de Belas Artes. 
De acordo com os familiares, Geraldo Pelotão teve meningite quando criança e permaneceu com a mesma idade mental da época da doença. Ele morou em Franca com uma irmã e, após o falecimento dela, recebeu os cuidados de uma vizinha."
Link retirado DAQUI

Na pacata Praça Barão daquela época, era sagrado o encontro diário com vários amigos para tomar um café no famoso Café Globo que até hoje reina por aqui. O engraxate na porta que a tudo observava, certamente se emocionaria por saber ter presenciado uma lenda tão carismática como foi Geraldo Pelotão.

Muito poderia se falar dele, mas para os que tiverem paciência e gostarem de um pouco de nostalgia, tem o vídeo abaixo, com mais de uma hora (podemos acelerar com o mouse), para matar saudades e voltar àquela época quando ninguém passava pelo centro da cidade sem ouvir os berros e os xingamentos de Geraldo Pelotão, que tentava correr, mas só dava conta de acelerar os passos tentando atarracar em algum moleque desaforado!

Confessa! Você foi um dos moleques que provocou Geraldo Pelotão, sim, francano?