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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Vida e Morte, Morte em Vida


Uma semana difícil com tragédias sem sentido nenhum. Essa é a vida. Um dia aqui e outro acolá, num outro plano.

Difícil estar com uma pessoa num dia e no outro ela estar morta. Morre a família junto.

Mas vamos falar de vida e morte. O normal é nascermos, vivermos e morrermos, no seu tempo certo, de morte morrida e não de morte matada, ou provocada, ou acidentada ou fora do percurso natural da vida. Isso nos choca, nos deprime, nos causa infelicidade, agonia e nos faz pensar na vida em que levamos. E ficamos neste estado de abismo por alguns dias. Depois outras coisas acontecem, muda-se o foco e tudo volta como antes.

Muitos falam em aproveitar a vida. O que seria aproveitar a vida? Cada um sabe o que de melhor a vida pode lhe oferecer e o que pode ser aproveitado pra valer.

Mas o pior de tudo isso é a morte em vida. Gente que não vê mais graça em nada, que se fecha em seu mundo e morre... Gente que adoece com a certeza de não ter mais nenhuma volta, de que a partir dali é contagem regressiva pra dar adeus aos que ficam... Gente que não tem mais consciência e nem lembranças, gente que tem as lembranças roubadas por uma doença, que aos poucos lhe faz regredir e desaprender tudo o que aprendeu durante a vida saudável.

Hoje presenciei, no ônibus, um casal. Menos de sessenta anos cada um, creio eu. A mulher bem arrumada, bonita, com os cabelos presos num coque alto, roupa justa, mas não vulgar e o homem não aparentava ter nenhuma deficiência. O tempo todo ela tratava-o de "amor". Muito paciente segurava em sua mão, colocando-o sentado num banco vazio.

Eu já tinha visto este casal dias atrás. E o tratamento era o mesmo. Sempre "amor" pra cá e pra lá. E ele, obedecia seus comandos e permanecia quieto.

Outro dia eles entraram no ônibus e o homem estava irritado e não queria obedecê-la. Mas o carinho e cuidado continuavam o mesmo. "Amor" aqui e ali. Depois vi-a chorando e enxugando as lágrimas com o punho.

Hoje, ao entrarem no ônibus, como sempre o cuidado continuou, mas ele ficou agachado e não queria se levantar de jeito nenhum. Ela insistiu e repetiu várias vezes pra que ele se levantasse e se sentasse. Sentaram-se na minha frente. A mulher olhou pra mim, piscou e sorriu. Depois olhou de novo e comentou que ele tinha Alzheimer. Eu não soube o que dizer, então não disse nada. Ela conversava com ele como se fosse um garoto. Depois me olhou e disse que não era fácil não. E continuou conversando com o marido, perguntando se queria comer quando chegasse em casa. Ele dizia que não, que não gostava de comer. Ela, então, perguntou se queria sorvete. Ele disse que sim, que sorvete ele queria. Ela me olhou, piscou e sorriu de novo.

Perguntei-lhe, então, há quanto tempo ele estava assim. "Há dois anos, mas só descobri há um ano. Diagnosticaram como sendo depressão." Eu lamentei e continuei observando.

Não tive como não me colocar no lugar dele, sendo dependente de alguém depois de mais da metade da vida. Que triste! E que bom ele ter uma pessoa pra lhe cuidar. Tenho medo de ficar dependente de alguém por conta de alguma enfermidade. Sempre fui muito independente e não sei qual seria minha reação ter que esperar alguém fazer algo por mim. Parece egoísmo e deve ser mesmo, não sei.

Mas não me senti bem, tanto com essas mortes de pessoas que nem conheço, e com a lembrança de meu irmão que faz dois anos que faleceu e depois esse casal com o senhor totalmente dependente. Não foi fácil, não é fácil, mas é a vida, ou a morte, ou a morte em vida...

Bom fim de semana pra todos.



5 comentários:

  1. Assim é a vida aqui neste planeta-escola. Precisamos viver procurando sempre fazer o bem, buscando a verdadeira fraternidade. Assim, creio, estaremos fazendo o nosso melhor e semeando um futuro de paz.
    Beijos,
    Élys.

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  2. Olá, querida Clara
    Sim, de fato, o clima atual é de pesar...
    Guerra e mortes sucessivas...
    Passei um semestre envolvida com doenças em família e agora, mortes súbitas, aviões caindo como nunca... etc...
    Bem, vamos ter esperança de dias melhores e respirar fundo pra não entrarmos na tristeza do próprio coração...
    Bjm fraterno de paz e bem

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  3. Também fiquei muito mexida com estas mortes todas.

    Acho muito triste quando a doença chega.
    Não tenho medo da morte e sim de ficar sofrendo antes de partir.
    Beijinho carinhoso de
    Verena e Bichinhos

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  4. Essa semana não foi fácil com todas essas notícias que foram emendadas com aquelas mortes de crianças e tudo o mais. Algo está errado no Planeta.
    Mas, vamos ter fé e bons pensamentos, apesar de tudo.
    Uma boa noite pra todos e obrigada pelos comentários!
    Beijos

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  5. Documentou muito bem, Clara, a vida é assim mesmo.
    Mas não tenha receios, porque você já foi totalmente
    dependente nesta vida mesmo.
    Até um ano depois de nascida, você não sabia nem falar!
    O mal não é o que parece, o mal num caso desses, é não
    reconhecer que se necessita da ajuda ds outros.
    É somente assim, infelizmente, que qprendemos.
    Beijos.

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