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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Doce Ilusão


      Depois de uma noite em claro, apesar do quarto escuro, Joana se levanta com dores no corpo como se um caminhão tivesse lhe atropelado e decepado seu coração. Totalmente partido em pedaços miúdos e incapazes de se juntarem tão rapidamente quanto fora estraçalhado.

      Se desfazer de um sonho, de uma vida, de um amor certeiro e da felicidade plena não seria uma tarefa fácil para ela. Mais uma vez se encararia no espelho e perguntaria para a imagem o que teria acontecido de errado que tudo acabou tão repentinamente, praticamente da noite para o dia?

      Ontem, juras de amor eterno, confidências imagináveis de vidas passadas que agora se reencontraram, e hoje um deserto de ilusões. Nem uma lágrima. Tudo acumulado no peito esperando a hora de desabar e inundar o corpo magro, ossudo e longilíneo de Joana.

      Tem forças para ligar o rádio. Música internacional, para não se distrair nas palavras dos intérpretes e sofrer mais ainda. Quando tudo está ruim até as músicas conspiram! Engano! Difícil não traduzir uma palavra ou outra... "Lover Why". Foi  como um tiro no peito para que tudo desabasse de uma vez...

      As comportas dos olhos se romperam, encharcaram, inundaram a alma de Joana... Se lembra de ter chorado tão intensamente só quando sua avó partira. Doía demais... Não conseguia controlar o riacho que lhe escapava dos olhos... O gosto do beijo, o cheiro do corpo, do sexo, o tom da voz sussurrada, as mãos deslizando pelo seu corpo... Como um turbilhão de imagens a lhe invadir os pensamentos, todos aleatórios numa rotação acelerada para não perder nem um capítulo de uma história sonhada a dois e terminada num só. Um se foi, sem nada, a outra ficou, com um pedaço do que se foi... Que aos poucos lhe escapava por entre os dedos... Doía... Muito.

      Não tinha forças para mais nada a não ser chorar, soluçar, lamentar... "You never say goodbye... Why lover, why?" A música não lhe saía da memória junto com a imagem do príncipe comum, com todos os defeitos e manias, como ela sempre dizia...

      Acabou! Porque sim, ela se respondia, acabou porque durou o tempo que tinha que durar. Nesse momento Joana sentiu na pele que as coisas acabam, assim, porque sim... Mesmo que a outra parte ainda permaneça envolvida por muito tempo, ou nem muito assim, quem sabe amanhã já nem chore mais... "Why lover, why?"

      E os dias passam, as lágrimas não secam, Joana magrela e ossuda fica mais magrela e ossuda, o rosto afina, as bochechas somem, os olhos ficam fundos e com olheiras, lábios secos, cabelo oleoso... Corpo encurvado... E os dias passam...

      Joana não contou quanto tempo se passou, mas um dia acordou sem lágrimas. Se levantou, ligou o rádio, foi fazer o que tinha que fazer e não chorou. As lágrimas secaram? Não sabia e não queria saber.

      Passou, como tudo na vida, passou!

      Se lembraria dos bons momentos, das palavras carinhosas, dos sonhos imaginados de uma provável vida passada... Queria lembrar disso tudo e seguir em frente. Uma história tão linda, tão real, que faria parte de sua vida daí para frente. Só memórias, quem sabe transformada em um livro, não para ser publicado, mas para contar para os netos quando estes forem dormir em sua casa. Uma história de um príncipe que não queria aquela princesa. Na verdade não era uma princesa para aquele príncipe. Princesas são muito sonsas e aquela princesa queria muito mais do que belas palavras sussurradas no ouvido.

      Deu certo! O tempo que durou, deu certo!

      Passou um batom vermelho, colocou um vestido fresco que lhe escondesse os ossos, soltou os cabelos, se equilibrou num salto bem alto e se foi... Por aí...

      Fim.


14 comentários:

  1. Olá Clara. Bom dia parceira!
    Nós, seres humanos, temos uma dificuldade muito grande em lidar com finais... Acredito que a maioria, costuma adiar o inevitável e, quando se dá conta do que ocorreu, a tendência é desmoronar como a personagem do seu conto.
    Senti falta de ler seus escritos.
    Não conhecia a música, acho que até para quem não entende inglês só de ouvir o tom que o cara canta, se pessoa estiver mal, vai chorar. rs.
    Abraço!

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    1. Oi, Christian, que bom que voltou!
      Não gostamos de sofrer, né? Ninguém gosta e qdo isso acontece, muitos tentam se fazer de durões e acumulam amargura por anos e anos. Melhor colocar tudo pra fora mesmo, sofrer o tempo que for preciso e depois continuar vivendo, da melhor forma possível.
      Eu sou uma romântica assumida, choro fácil fácil...rsrsrs
      Um abraço,querido!

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  2. Que beleza de texto, parabéns Clara!
    Conforme eu ia lendo, ia imaginando que ela daria a volta por cima, mas imaginei assim porque esta seria a minha reação, eu nunca me entregaria, faz parte de mim reagir e me proteger. Tomara que alguma moça, mulher ou mesmo um homem nesta situação, leia seu texto e tome coragem. adorei!
    beijos cariocas e ótimo fim de semana.


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    1. Beth, tem gente que é muito dependente do amor dos outros, acham que uma união nunca pode ter fim, essas coisas que a gente sabe que é muito raro acontecer e que bom que existem relacionamentos assim. Mas qdo um não quer dois não têm como ficar juntos e felizes. Acabou acabou, né?
      Um lindo fim de semana pra vc também!
      Beijos

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  3. Olá, querida Clara
    Gostei da música!
    Me pareceu uma mulher determinada e com coragem suficiente para não se sentir julgada...
    Vc escreve com vontade e capricha nos personagens que coloca nos contos que cria...
    Bjm fraterno

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    1. Gosto de escrever sentimentos, Rosélia, cada um reage de uma forma pra o que acontece na dor...
      Obrigada, viu?
      Beijos!

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  4. Lindo texto, Clara... e eu já vivi isso!
    Só que demorei 38 anos para dar a volta por cima, para passar o batom e acreditar que "Passou, como tudo na vida, passou!"

    Ainda me pego perguntando por que tantos anos eu demorei para acreditar que havia passado, para aceitar aquilo.

    Seria uma obsessão? Um carma? Uma teimosia?
    Nunca saberei...

    Mais uma vez repito: lindo seu texto. Me vi dentro dele, protagonista dele!!!

    Abraços,
    Vilma do Richard

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    1. Mas olha só que amiga mais chique? Vilma do Richard.... ahhhhhhhh....rsrsrsrs

      Vilma, qto ao amor não dá pra julgar a intensidade do outro. Romper um sonho, terminar uma relação, quebrar castelos, é tudo muito difícil. Só vc sabe a intensidade da vida a dois que viveu. E se foi difícil pra vc seguir em frente logo depois, tudo bem! Cada um no seu tempo. O seu demorou o tempo que vc conseguiu superar. Só não pode dar a vida por vencida e não querer mais se arriscar por medo de sofrer. De um jeito ou de outro acabamos sofrendo,então, menina, dê uma olhada a sua volta pra vc ver...
      Acho que o Richard tá esperando a deixa pra te pegar de jeito!!! rsrsrs

      Beijos, lindona querida!

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  5. Chegando hoje neste seu espaço. Justamente no tempo de ler esta postagem: lírica, triste e repleta de esperança... Que linda inspiração pra recomeçar (mais uma vez) a vida! Adorei!

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    1. Bem-vinda, Cláudia!
      Recomeçar sempre! Esse é o segredo!

      Beijos

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  6. Quem já não passou por algo semelhante? Incrivel seu conto e me emocionou muito. Ainda bem que o tempo conspira para curar as feridas! bjs,

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    1. Tem uns amores que ficam eternos na gente... são inesquecíveis, mas é tão bom lembrar que um dia foi bom...

      Beijos, Anne!

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  7. Oi, Clara! Passamos por essas etapas e sobrevivemos quando nos dispomos a desprender o passado e deixar que ocupe seu lugar.
    Para depois começar tudo de novo, hahaha... Já chorei muito com músicas de amor, minhas companheiras fieis de alegrias e fossas.Um abraço!

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    1. Sim, temos uma sensação horrível, de uma dor profunda, mas sobrevivemos, graças a Deus! rsrsrs Não se tem notícias de alguém que morreu de amor...
      Música é nosso consolo nas tristezas...
      Beijos, menina!

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