segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Nasce uma escritora

A passagem da 4ª para a 5ª série, do ensino fundamental, é um marco na vida de algumas meninas. É a independência de ter um único caderno para todas as matérias, vários professores, pequeno descanso entre uma aula e outra e a fase das primeiras paixões. Os primeiros são os professores, depois os colegas de turmas mais avançadas e depois os amigos dos amigos. Delícia de fase.
Joana, 11 anos, uma menina sardenta e cabelos ruivos, não se continha de tanta ansiedade para começar o primeiro dia. Agora ia sozinha à escola, já que era no mesmo bairro de sua casa. Algumas amigas ficaram em outra turma, mas novas amizades faria dali para frente, apesar de ser uma menina doce e tímida.
Uma ótima aluna, e ótima em português e matemática, que sempre tirava a nota máxima. E agora mais ainda, pois teria Literatura, sua paixão.
Um certo dia, a professora de Literatura chegou, colocou um vaso com flores sobre a mesa e pediu para turma fazer uma redação sobre essa cena que eles estariam vendo.
Joana ficou um bom tempo olhando o vaso com as flores e imaginando, enquanto o restante da turma já começava a escrever na folha almaço.
Rapidamente, foram terminando e entregando à professora o seu trabalho.
- Mas já terminaram? Não passou nem dez minutos!
- Já, Dona Vânia, essa é muito fácil.
E Dona Vânia começou a ler as que tinha em mãos:
"Hoje a professora chegou com um vaso com flores e colocou na mesa e pediu pra gente fazer uma redação contando o que a gente tava vendo.
Eu vejo uma mesa velha, um monte de livros em cima, de um lado, e do outro lado um vaso azul, que achei muito feio, com flores coloridas. Não sei como se chamam as flores, mas a professora deve ter catado no mato, porque são pequenas e algumas já estão um pouco murchas.
A professora fica andando pra lá e pra cá, olhando a gente como se fosse dia de prova. É chato isso, mas já tô acabando a redação. Não tenho mais o que falar."
Pegou outra:
"Eu vejo um vaso azul pintado com umas florzinhas amarelas, com algumas flores muito bonitas e cheirosas nele. Está em cima da mesa velha da professora.
Essas flores eu vejo igual quando venho pra escola, então eu sei que a Dona Vânia pegou elas de lá.
As flores são muito bonitas, eu gosto de todas as flores, pois quem fez as flores foi Deus, e tudo que Deus fez é perfeito, então eu amo tudo que Deus fez. Também amo a água que está dentro do vaso e amo também o chão que plantaram as flores. E amo também os cachorros, porque cachorro é tudo de bom.
Eu tenho um cachorro chamado Filippo, que eu amo muito ele. Ele pula nimim todo dia que chego da rua, e sei que Deus fez ele também. Então eu também amo os cachorros e todos os bichos."
Dona Vânia, um pouco decepcionada com a turma, quando se deu conta, apenas Joana permanecia na sala. Os outros já haviam saído para o intervalo.
Ficou observando aquela menina linda, já com corpo de moça, os olhos brilhantes, que chegava quase a deitar sobre a folha almaço para poder escrever. Um pouco antes do término da aula, Joana se levantou e entregou sua redação.
Dona Vânia, curiosa, leu:
"Hoje, no trajeto de minha casa para a escola, fiquei observando tudo pelo caminho; mesmo sendo muito cedo e muitos ainda dormiam, o sol já nos dava bom dia, todo iluminado e com um grande sorriso me acompanhava pela calçada.
Vários alunos, alguns ainda com sono, quase se arrastando, faziam o mesmo trajeto que eu.
Quase em frente à escola, um vasto campo aberto me chamou a atenção: estava repleto de flores do campo, todas coloridas, todas abertas, como se fosse um grande tapete natural onde se é proibido pisar, apenas admirar. À medida que ia me aproximando, seu perfume entrava pelo meu nariz e me fazia fechar os olhos e respirar fundo, tentando tirar daquelas lindas flores, um pouco do perfume que elas insistiam em nos presentear. Confesso que nunca as tinha visto assim, tão abertas, tão perfumadas.
O sinal tocou e tive que me despedir das princesas do campo e entrar para a sala de aula.
Hoje é um dia que gosto muito, pois tenho Literatura com a professora Vânia.
Mas quando entrei, adivinhe quem estava lá me esperando? As lindas do campo.
Ainda mais lindas, num belo vaso antigo, azul, sobre a mesa de Dona Vânia.
Parece até que a professora leu meus pensamentos, porque o tema da redação era sobre as flores no vaso.
Continuam lindas, como as vi no campo, mas algumas já estavam murchas, então fiquei com pena.
Talvez se a professora não tivesse cortado elas de lá, elas teriam um pouco mais de vida,  mais alguns dias para alegrar quem passasse por ali e perfumar mais um pouco o ar que respiramos.
Coitada de Dona Vânia, será que ela não sabe que flor também tem vida e que não devemos matá-la para colocar no vaso?
Ela vai ler a redação e vai ficar sabendo."
Dona Vânia, impressionada com o que acabara de ler, chorou... pois sabia que, por algum tempo, pode fazer parte da adolescência de uma grande escritora que nascia ali, em sua sala de aula.

14 comentários:

  1. Clara....você é a flor do campo que acaba de perfumar nossa manhã.

    ResponderExcluir
  2. Clara querida,

    Comecei lindamente a semana com suas flores no campo sob os olhos da escritora que nasce. Que elas continuem alegrando sua semana. Mas colha os girassóis (estes devem ser colhidos), muitos! Beijos.

    ResponderExcluir
  3. Nossa Clara... Que lindo!
    Você não imagina como é bom para mim iniciar a semana lendo algo tão rico e belo assim... Estou encantada!

    Tenha um semana repleta de dádivas!
    Um beijo carinhoso

    ResponderExcluir
  4. que texto especial, Clara. Vc tem um jeito de contar as coisas que é uma delícia de ler. essa história fez um bem, quem leu com certeza sentiu algo de diferente

    bom dia!

    ResponderExcluir
  5. Oi Clara!
    Que delícia de conto!
    Se ali nascia uma escritora tão sensível, hoje li um texto de uma que já sabe muito bem nos tocar o coração com seus belos escritos.
    Beijinhos e uma linda semana!

    ResponderExcluir
  6. oi amiga
    uma maravilhosa noite na presença de Deus bjs

    ResponderExcluir
  7. Clara,que história mais linda e dá mesmo vontade de chorar!Me imaginei no lugar dessa professora!Quanta satisfação ao ler um texto tão sensivel e comovente!Amei sua história!bjs,

    ResponderExcluir
  8. Linda historia da menina escirtora. Com 11 anos se esta descobrindo o mundo de um jeito agil e com olhos ainda de criança. É tudo de bom, fase fertil demais.
    Beijos da Cam

    ResponderExcluir
  9. Bom dia
    Se permites te sigo
    òtimos textos, amei conhece-la
    Aqui voltarei sempre
    Abraços iluminados
    Preciosa Maria

    ResponderExcluir
  10. Bom dia, Preciosa Maria!!!

    Seja muito bem vinda!
    Obrigada pelas palavras...
    Beijosss

    ResponderExcluir
  11. Adorei essa crônica, Claritcha!!

    Muita sensibilidade.

    Beijuxxxxxxxxxxxxx

    KK

    ResponderExcluir
  12. Amei a crônica e o ponto de vista da garotinha foi muito sensível e tocante.
    Até mais!

    ResponderExcluir
  13. Lindo demais Clara, quantas professoras não vêem isso antes de nós mesmos?

    ResponderExcluir
  14. Amei, Clara!
    Muito bacana!
    Beijos
    Chris
    http://inventandocomamamae.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

Olá, seja bem vindo e deixe seu comentário!

Eu os responderei por aqui mesmo ou por email, se achar necessário.

São muito bem-vindos, sempre!