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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Vida de Malabares


Por esses dias, andando de ônibus, de manhã, entra um rapaz jovem com duas crianças, seus filhos, creio eu. Uma menina com seus quatro anos e um menino, um pouco mais novo. O rapaz estava vestido de forma simples, com roupas velhas e um pouco sujas, com um chapéu coco e carregava consigo alguns malabares na cor verde cítrico. As crianças estavam limpinhas, bem penteadas, roupas passadas, sapatos limpos, enfim, bem cuidadas. Pareciam que, apesar de bem pequenos, já estavam acostumados a "surfar" no ônibus pois nem ficaram com medo de cair quando o ônibus começou a andar. O pai carregava uma mochila cor de rosa, que deveria ser das crianças e outra sacola, com certeza com pertences seus.

Primeiro passaram as crianças por baixo da catraca, o pai orientou-os a se sentarem no primeiro banco vazio. Depois passou as mochilas e depois ele passou. Colocou as mochilas num canto, colocou o filho num outro banco, sozinho e se sentou onde a filha estava, colocando-a em seu colo. Ficaram quietos até o ponto em que desceriam. Um ponto antes o pai se levantou, pegou as mochilas, pegou na mão dos pequenos e se foi.

Fiquei pensando... De um jeito ou de outro o homem tem que se virar. Que bom ele usar o talento artístico para poder sustentar sua família, e mesmo antes de começar, tem o cuidado de deixar as crianças em algum lugar seguro. Pela mochila pensei que ele levaria os filhos a uma creche ou à casa de alguém. Não sei.

Para muitos motoristas esses artistas de rua não passam de uma amolação no trânsito, mas cada um tem sua história, suas necessidades, seu talento, seus sonhos, sua vida para continuar sendo vivida da melhor forma possível.

Só quem passa por situações de falta de alguma necessidade básica como um alimento, por exemplo, sabe como é difícil ganhar alguns trocados e fazer esses trocados se multiplicarem para sustentar muitas bocas famintas. Imagina você com seus filhos, chegar em casa, abrir a geladeira e só ver água e um chuchu. Consegue imaginar isso? Mesmo assim ainda criticam, xingam, fecham os vidros, saem cantando pneus quando eles vão de carro em carro pedir somente umas moedinhas.

Nesse mundo violento todo o cuidado é pouco, mas se o cidadão está num semáforo tentando ganhar a vida, por motivos particulares ou então por não poder esperar dias ou meses para arrumar trabalho melhor, pois a fome é diária, acho pouco provável que seja algum bandido ou vadio que só quer vida boa com os bens dos outros. Está ali, no sol quente, mostrando sua arte, sem incomodar ninguém...

Nunca concordei em ficar dando esmolas, mas nesse caso não é esmola e sim um agrado, um pagamento mínimo do mínimo por um show particular de alguns minutos que um artista gentilmente lhe oferece, em troca de uma vida digna que ele está buscando, para sua família.


11 comentários:

  1. Bela observações do cotidiano e reflexão acerca dela! beijos,linda semana!chica

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    1. Eu observo tudo, Chica, e acho o ser humano impressionante. Acho que tbm sou observada e isso é fantástico! Cada um uma história, cada um uma vida, enfim, cada um um ser único no Universo.
      Beijos, gaúcha querida!

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  2. Sim, Clara, pode ser apenas um pai de família tentando ganhar sua vida honestamente, mesmo que seja por pouco. Melhor do que não fazer nada, ou se aventurar por caminhos da malandragem. O pouco que se ganha honestamente vale muito.
    Não é para todos que dou uns trocados, mas para os que verdadeiramente minha intuição leva a perceber que são sérios e merecem mesmo. Há que ter, também, uma certa habilidade. Artistas de rua existem no mundo inteiro e acho que são valorizados e talentos são descobertos. Não é como aqui, que achamos que é fazer corpo mole quanto a arranjar um emprego estável ou que são apenas bandidinhos, querendo um trocado para a droga ou o tênis da moda. Sei não...Somos, às vezes, cruéis com os nossos semelhantes.
    Também sou observadora assim, e fico imaginando o que há por trás das figuras com as quais nos deparamos num ônibus, numa lanchonete, num parque, etc. Só não escrevo assim, lindamente.
    Beijo e boa semana!

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    1. Lúcia, dias desse, bateu um homem aqui no meu portão pedindo comida. Como já havia passado o horário de comer, não tinha mais. Ofereci uma banana pra ele, só pra não ficar com muita fome. Ele riu da minha cara e saiu debochando falando que banana não enche a barriga de ninguém. Achei tanto desaforo que não vi a hora de mandar ele pro inferno, com todas as letras. Não é pra todo mundo que ofereço o pouco que tenho, e mesmo com a boa vontade, ainda tenho que aguentar deboche na minha cara, no meu portão?
      Faça-me o favor! Naquele dia estava de TPM atacada.... geralmente nem respondo e "entro pra dentro".... rsrsrsrs
      Beijos

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  3. Concordo com você Clara é muito comum aqui no NE, em Recife, nos cruzamentos nos deparamos com estes artistas, a empolgação e prazer que eles demonstram as vezes impede que possamos dar algum dinheiro, pois quando o semáforo abre , ai de você se parar , o buzinaço atras é geral. Falta humanidade em alguns, infelizmente. Bela observação. Boa semana.

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    1. Sim, falta humanidade, falta um olhar especial pra quem quer somente ganhar o pão de cada dia, mostrar seu talento, não sei... tbm acho que cada caso é um caso...
      Beijos, linda semana!

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  4. Clara achei seu texto muito interessante, convidando a enxergar malabaristas de sinal sob outro olhar. O problema é que alguns pedem esmola mesmo e usam crianças para conseguir dinheiro, então a visão generalizada é a de que todos são assim.
    Veja só, nesse caso, as crianças estavam bem cuidadas e ficariam na escola, ou seja, é a arte mesmo como meio de sobrevivência... eu já tive na minha geladeira somente água... e algumas verduras. Sei o que é ter que ralar para conseguir sustento para os filhos.
    As pessoas tem que aprender, em todos os campos da vida, a parar, observar o contexto e analisar caso a caso para depois tirar suas conclusões.
    Um abraço!

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    1. Infelizmente, Bia, a aparência ainda conta muito na sociedade. Vc pode estar bem vestida e pedir um pouco de alimento que as pessoas vão estranhar, e pode estar com roupas velhas, porém limpas, e procurar emprego que dificilmente alguém vai te dar alguma chance.
      Só quem passa por dificuldade é que sabe o quanto é difícil sustentar uma casa, ter que se virar em mil pra fazer render o que tem... muito triste mesmo.

      Abraços, querida!

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  5. Querida, quem tem uma geladeira cheia nunca lhe passou pela cabeça a dor que deve ser ter um filho com fome... o seu texto tocou-me de uma forma especial. É muito ruim extrapolar, achar que toda a gente que está a pedir uns trocos é bandido. Mas o ser humano é assim, pequeno e limitado pelos seus medos.
    Parabéns por esta reflexão.
    Beijinhos, uma doce semana
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. É verdade, Ruthia, só quem passou necessidade sabe como é carinha de um filho que tem fome...
      A gente julga muito, temos pré-conceito das pessoas, enfim, não dá pra julgar ninguém, nunca!
      Beijos, menina!

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  6. Nunca tive problemas com dar esmolas ou contribuições, mas, francamente, não entendo semáforos como bom local para exibições. Para os "lava para-brisas" tudo bem, o local não é tão inapropriado, mas para artistas de rua deveria haver locais pré-designados, e não os há.
    Mas a solidadriedade é válida em qualquer lugar.
    Beijos.

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