quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Quando eu Crescer


Participando da Blogagem Coletiva do Blog M@myrene - 20ª Edição.

      Muito a contragosto, dona Mafalda sempre arrastava Fabrícia para que lhe ajudasse com as tarefas de casa. A pequena não gostava nada. Na verdade, dona Mafalda não queria desgrudar os olhos da filha, que não parava quieta e aprontava muito. Então o jeito era arrastá-la para todos os lados e para não ficar emburrada a mãe lhe contava histórias.

      Fabrícia ficava observando e fazia perguntas sobre o que a mãe contaria. Muitas vezes ela mesma criava personagens e terminava as histórias. Um momento que seria chato para uma garota que acabara de aprender a ler se tornava prazeroso com a criatividade da mãe.

      Um dia, dona Mafalda estendendo roupas no varal, antes de começar a contar mais uma história, perguntou para a pequena o que ela gostaria de ser quando crescesse.

      - Jogadora de futebol, mamãe - respondeu prontamente.

      - Jogadora, filha, por que? - perguntou curiosa, dona Mafalda.

      - Não gosto de bonecas e o papai não me deixa nunca brincar no campinho com os meninos. As meninas são muito chatas e só gostam de brincar de coisas que eu não gosto. Não tem graça ficar sentada no chão brincando. Não gostam nem de apostar corrida. Jogar bola é que é bom. - concluiu a pequena Fabrícia.

      Espantada, dona Mafalda terminou rapidinho de estender as roupas e correu para dentro de casa. Não sabia que atitudes tomar quanto à filha, pois meninas são delicadas, mimosas e nunca soube, pelo menos naquela cidade, de meninas jogando futebol. Onde será que Fabrícia viu garotas nesse esporte?

      Pegou uma vela e foi ao oratório pedir para Santo Antônio cuidar de sua menina, tão pequena, tão meiga e já querendo chutar o mundo por aí. Não suportava futebol. Seu marido só sabia assistir futebol na TV e agora mais essa, ter que aceitar a filha jogando futebol.

      - Santo Antônio do céu, pelo amor de Nosso Senhor, arranca essa ideia da cabeça da menina, por favor, por tudo que é mais sagrado! Onde já se viu uma mocinha indefesa querer jogar futebol com os meninos, Santo Antônio, eu estou certa, não estou? Tenho que preservar minha filha, sua integridade e seu futuro. Então, meu santinho amado, desvie essas ideias tortas da cabecinha avoada dela, tá bom? No seu dia eu prometo doar cinquenta pãezinhos para serem distribuídos para os pobres. Sua bênção, amém!

      Dona Mafalda não via a hora do marido chegar e contar a novidade. Teria que ser sem Fabrícia escutar, pois o tanto que o pai gostava de futebol era bem capaz de gostar da ideia e incentivar a pequena.

      - Melhor me agarrar com Santo Antônio. Este sim, não me falta nunca!

      Fim.



   

20 comentários:

  1. kkk tadinha da menina existe mesmo muito preconceito nessa profissão.
    Parabéns pelo escrito.

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    1. Ainda existe sim, mas já mudou bastante, ainda bem.
      Obrigada, Patrícia!

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  2. Clarinha,
    agora sua história me fez lembrar o que aconteceu comigo, viajei no tempo. Certa vez , meu tio trouxe nem sei porque para mim uma pipa. Não me lembro que eu gostasse de pipas. Delas, só a sensação horrorosa de ser arrastada por uma. Meu irmão e os meninos ficavam na rua a brincar. Eu trepava no Medidor de água, era alto, de alvenaria e ficava lá olhando, isso com seis anos. Nunca me era permitido sair de casa. E eu nem ligava. bastava-me ver meu irmão lá e olhar o povinho. De repente, um menino amigo de meu mano, me deu a linha da pipa dele( q estava no alto) para eu segurar. Depois é que vi que ele correu para pegar outra. Nossa, deve ter passado umas mil horas. A pipa me arrastava. E eu, com medo de perder a linha do menino. Deve ter sido traumático pois nunca esqueci risos. mas , gostei da sua história. Coitado do Santo Antônio, ele não vai resolver as questões tão profundas do medo da mãe. E o final? Tô curiosa!!!! Ela falou com o pai? Meu deus!!!!
    Beijos, minha filhota! Obrigada pelos comentários lá no Memórias. Estava te devendo uma visita. Mas volto ... sempre adoro seus causos!

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    1. Mainha, essas coisas de infância ficam pra sempre. E tudo tão intenso, tão traumático, quase uma morte anunciada... É bom depois pra gente se lembrar, ficar feliz ou triste, ou com raiva, sentir saudades... é bom lembrar.

      Vou contar: ela falou com o marido, ele gostou e apoiou a filha. Hoje ela é jogadora famosa e ganha uma nota preta com a profissão. Bom, né? rsrsrs
      Beijos

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  3. Uma história interessante e muito bem contada.
    Gostei muito da narrativa.
    Clara Lúcia, minha querida amiga, tem um bom resto de semana.
    Beijo.

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    1. Obrigada, Nilson, um ótimo fim de semana, com paz!
      Beijos

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  4. Será que Fabrícia venceu essa questão?
    Uma bela história!
    Abraço!
    Sonia

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    1. Venceu, o pai adorou a ideia, incentivou e hoje Fabrícia é jogadora profissional e ganha uma boa grana pra se divertir! rsrsrs

      Beijos, Sonia!

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  5. Minha filha mais velha sempre gostou de jogar bola
    Não curtia bonecas...rs
    Bela inspiração, Clara
    Um beijão de
    Verena e Bichinhos

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    1. Esse preconceito ainda existe mas nem tanto. Isso é ótimo, Verena!

      Beijos, menina!

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  6. Muito bom Clara!
    Criou-se um rótulo nas meninas que devem ser meigas e prontas para as coisas de mulher. Esqueceram de que mulher tem atitudes e muito mais frequente do que se pensa, gosta de coisas bem diferente do universo meigo e frágil que inventaram pra ela.
    E Santo Antônio que aguente seus ouvidos!

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    1. Coitado do Santo Antônio. Essa mãe deve ter até o celular dele pra uma emergência.... rsrsrs

      Beijos

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  7. Clara!
    Como uma imagem pode trazer várias formas de expressão, todas diferenciadas.
    Gostei da sua inovação.

    Que seu final de semana seja esplendoroso!!
    cheirinhos
    Rudy
    Blog Alegria de Viver e Amar o que é Bom!

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    1. Essa BC foi maravilhosa!
      Li tantos textos lindos, tantas lembranças do passado, emocionantes, Rudy!
      Uma simples imagem e a gente viaja na história!
      Beijos, lindo findi pra vc também!

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  8. Lembrei-me de Lourdes "Bentiva", que jogava futebol com a meninada e era até boa de bola. Não lhe faltava disposição nem temia discussão. Perdi contato faz cerca de trinta anos, mas soube que casou e era boa dona-de-casa.
    Histórias assim não são somente fantasias, são vida real. Mas você contando, é outra história, rerrerré!
    Beijos.

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    1. Imagino há 30 anos, isso deveria ser muito mais preconceituoso. Hoje já tá tranquilo, com a invasão da mulherada em tudo quanto é lugar...

      Beijos

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  9. Muito criativa , como sempre sua participação.
    bjs

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  10. Oie Clara!
    Achei que a ideia que a mãe da menina teve foi ótima, ela está estimulando a filha desde pequena a criar histórias e personagens! Amei a história.
    Beijos... Samantha.
    sopramenores.blogspot.com.br/

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    1. Sim, isso foi proposital mesmo, aguçando a criatividade da filha e parece que deu certo! Desde sempre já é topetuda! Já sabe o que quer e não tem medo de dizer e nem de enfrentar!

      Beijos

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