amazon

amazon
amazon - clique na imagem

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

SEO ANTÔNIO

Eliana Teixeira

Por Eliana Teixeira

Seo Antônio era um agregado que trabalhava nas terras de meu avô, Chiquitão. Seu capricho na lida era de causar inveja aos fazendeiros que visitavam a Lagoa Grande, mas por dinheiro nenhum deixava Chiquitão que, antes de ser patrão, era um amigo querido que ele acompanhava desde muito jovem.
Seo Antônio tinha tido mulher nos antigamentes, mas enviuvou cedo e não teve filhos. Ele morava num rancho de adobe logo abaixo do ribeirão São João; aproveitou o curso d'água pra fazer pequenos canais que irrigavam sua horta e seu canavial– daquela cana bem fininha, que nem carece descascar pra ser chupada; é só cortar e mastigar, que aquele sumo docinho até escorre pelos cantos da boca.
A vida de Seo Antônio era simples, rotineira e regrada. Era um bater enxada o dia inteiro, de seca e verde, fazer sua comida no fogão a lenha, banhar-se no São João no fim do dia e fazer suas rezas antes se dormir. Seo Antônio era um homem feliz, e a felicidade se mostrava na cantoria que arrumava, enquanto a enxada limpava sem dó o mataréu.
Seo Antônio só mudava seus hábitos uma vez por ano; não perdia o baile da festa junina que o Gilmar dos Quartéis organizava. Havia também uma quermesse, onde Seo Antônio gastava uns trocados comprando as delícias que a Lu, mulher do João da Venda, fazia. A renda, um dinheirinho pouco mas bem-vindo, era doada pra Igrejinha de São Geraldo.
Seo Antônio tomava umas cachacinhas, um caldo de costela, e, de sobremesa, sempre comprava uma cocada de colher. E dançava bem o danado! O baile ia até a meia-noite, e Seo Antônio tirava a barriga da miséria. Dançava sem parar; era um pé-de-valsa de primeira, e não faltava par pra ele.
Ano passado teve uma cara nova no baile. Nêgo tinha se casado de pouco com uma moça chamada Ermelinda, vinda da Lontra. Era moça recatada por demais, de modo que ninguém a conhecia até que Nêgo apresentou a mulher pros amigos. Estava inchado de tanta vaidade. Ermelinda era uma morena de olhos verdes, bonita de encher os olhos. E era pura simpatia; derramava-se de amor pelo marido, e ele não via mal nenhum em sua mulher dançar com seus amigos. Ela adorava dançar e ele não sentia ciúme; ali eram todos gente da terra, amigos de longa data.
Seo Antônio esperou, esperou, até que houve uma brevíssima pausa em que Ermelinda parou a dança para um copo d'água. Era a brecha. Ele chegou perto dela e, com sua delicadeza de sempre, convidou a moça pra dançar. Ela aceitou com um sorriso na cara, encantada por ver aquele homem já idoso tão animado para a festa. E dançaram tanto que Nêgo foi ter com os dois.
– Agora é a vez do marido, Seo Antônio! No próximo arrasta-pé Ermelinda promete ao senhor a primeira dança, não é, minha rainha?
Ermelinda, com um sorriso brincando no rosto, assentiu. E Seo Antônio agradeceu, resolveu que a noite estava ganha e foi tomar mais uma cachacinha antes de montar na sua mula Bonita e invernar no trabalho até o ano seguinte.
Bonita era uma mula branquinha e esperta; era a montaria de Seo Antônio e a ajudante de todas as horas pro serviço pesado. Puxava madeira, a carretinha carregada de cana que Seo Antônio cortava pro gado, e cargas e mais cargas de lenha pra Mãe Bertina, minha avó.
Bonita era companhia constante de Seo Antônio, de modo que ele conversava com ela como se conversa com gente. E, feito gente, ela prestava atenção. Ele tinha certeza que ela entendia tudo, fosse uma ordem de serviço, fosse um caso que ele dava de contar sobre os acontecimentos nas redondezas.
Se ela algum dia respondeu, nunca se soube. Mas Bonita tinha lá seu entendimento de mula, disso ninguém duvidava.
No fim de semana seguinte, fora de seu hábito, Seo Antônio resolveu ir ao Bar do Gilmar. Também fora de seu costume, errou a mão na cachaça. A sorte é que ele tinha ido com Bonita e então, mesmo dormindo no lombo da mula, chegou em casa são e salvo.
Bonita, vendo que Seo Antônio não conseguiria apear, abaixou-se feito um cavalo de circo fazendo mesura, e fez Seo Antônio rolar na graminha macia que crescia na porta da casa. Ali ele ficou e só acordou quando o sol já estava alto. A cabeça doía e estava doido por um caneco d'água. Fechou a mão em concha e bebeu da água que corria perto do rancho. Levantou-se moído pela noite dormida no chão e, colhendo de suas caninhas, tirou o amargor da boca com o docinho da fruta.
Trabalho é que salva a gente – disse Seo Antônio, e, sem fazer caso da dor no corpo, foi bater enxada num dia de domingo, o único dia que tirava pra rezar um terço e cuidar de suas plantas.
Nesse dia Seo Antônio deixou de lado a cantoria. Bonita estranhou o silêncio do dono e ficou rodeando o velho o dia inteiro, aflita pra saber o que ia na cabeça de Seo Antônio.
O dia acabou e Seo Antônio, suado, tomou seu banho na água gelada do São João, sem se importar com o vento frio da tarde.
Fez uma sopa de inhame e só então se lembrou que não comera nada o dia inteiro. Tomou sua sopa, rezou três avemarias e um pai-nosso e se deitou. Bonita, que rumava pro pasto toda noite, resolveu que pastaria da graminha da porta da casa e velaria por seu dono.
Seo Antônio tinha o sono fácil, mas não soube dizer ao certo o que fez com que ficasse rolando de um pra outro no seu colchão de capim.
A semana começou e Seo Antônio voltou à rotina de trabalho, mas não se ouvia mais
seu cantar. Bonita se achegava, rondava e roçava Seo Antônio no seu jeito bicho de fazer carinho. Seo Antônio corria a mão pelo seu pelo com o olhar perdido, perdido. Bonita começou a se preocupar, porque animal sofre muito sofridas as dores do seu dono. E ele, desacorçoado, via que a bichinha percebia seu lamento da alma. O que era aquilo? Danou a pensar na Ermelinda, que parecia ter nuvens nos pés pra dançar.
– Ermelinda, linda, linda!, repetia na cabeça, sem ousar pronunciar o nome.
Seo Antônio mal pôde esperar o fim de semana seguinte. Todo sábado a vaqueirada se reunia no Bar do Gilmar pra um dedinho de prosa e umas cachaças. Alguns levavam as mulheres, que se reuniam em volta de Donana, mãe de Gilmar. Ah, ela sabia de tudo quanto é mezinha e não tinha uma erva que ela não conhecesse. Além do mais, ela tirava mau-olhado e quebranto, e todas que tinham criança de colo aproveitavam a noite de sábado pra buscar proteção pros pequenos.
Seo Antônio lustrou Bonita e lá se foi pro Bar do Gilmar. Todo mundo estranhou, Seo Antônio nunca for homem de frequentar buteco. Estranharam mais ainda a cara triste de Seo Antônio. Ele chegou sem jeito, cumprimentou a turma e disse que precisava de uma ajuda de Donana, que andava esquisito, podia até ser do coração. Enquanto esperava o mulherio se aquietar em volta de Donana, tomou três cachaças com os companheiros, ouvindo a prosa cabisbaixo em seu canto.
Sentia um peso no peito, uma dor aguda que não acabava nunca.
Levantou-se e procurou a curandeira.
– Donana, preciso de sua ajuda pra sarar. Meu peito dói demais, uma dor sem fim…
Donana pegou as mãos calejadas de Seo Antônio, olhou com cuidado as palmas, o dorso, passou-lhe a mão pelo rosto, repuxou-lhe a pálpebra, olhou o branco dos olhos, mandou que botasse a língua pra fora, estudou o desenho esbranquiçado e chamou Seo Antônio num canto. E lhe disse: – Antônio, tem dores que não tem remédio que alivia. Dor de amor, só o amor pode curar.
Seo Antônio, cabisbaixo e com os olhos marejados, disse: – Mas Donana, sou um velho que nem sabe do que a senhora está falando.
– Ah, Antônio, seu coração é moço, todo coração é menino quando se trata de amor!
Seo Antônio saudou os amigos de longe, pediu a Donana que não repetisse aquela tolice pra ninguém e foi-se embora mais soturno que quando chegou.
Bonita estava a postos aguardando seu amigo e, entristecida, tocou pro ranchinho, com seu triste dono no lombo.
Os dias que seguiram foram de pura agonia para os dois. Seo Antônio deu de falar sozinho, cochichado, e Bonita se sentia incapaz de fazer qualquer coisa que mudasse o estado d'alma de seu dono. Ele estava descabeceado, começava um serviço e não terminava, passava pra outra tarefa e não dava conta, minguava a olhos vistos.
Em sua cabeça bailava Ermelinda, olhos de mato, pés de nuvem, e seu amigo Nêgo a torturar seu pensamento. – É errado, é pecado pensar na mulher dos outros; mulher de amigo então, isso é crime de morte.
Procurou Chiquitão. Carecia explicar porque o serviço não estava a contento. Chiquitão se preocupou: – O amigo está doente? Nunca vi você tão abatido, meu velho! Não está comendo direito?
– Estou doente, Seu Chico, doente do coração.
– Mas que médico lhe disse isso, Antônio? De onde tirou essa ideia?
– A dor no peito, Seo Chico, a dor no peito não me deixa trabalhar mais. Acho que é hora de eu me encostar.
Chiquitão não estava preocupado com o serviço, estava preocupado com o amigo de toda a vida. Decidiu levá-lo ao médico mas, fora os achaques da idade, estava tudo em ordem; Seo Antônio tinha boa saúde.
Chiquitão chamou Seo Antônio pra uma pescaria no São Francisco.
– Amigo, você está precisando é de arejar as ideias, descansar a cabeça, que deve estar cheia de caraminholas.
Mas o companheiro alegre, cozinheiro de mão cheia, de tantas outras viagens, tinha desaparecido. Chiquitão puxou conversa, pediu pra Seo Antonio abrir o coração, mas não teve jeito. O homem fechou-se em concha e a sombra de sua tristeza abafava ainda mais o dia calorento. Antônio estava tão jururu que Chiquitão encurtou a viagem. O que quer que estivesse entristecendo seu amigo era assunto que não ia cair no esquecimento com uma simples diversão; voltaram.
Chiquitão deu ordem pra Seo Antônio descansar, sem se preocupar com o serviço. Os outros empregados dariam conta do recado.
Seo Antônio, pra desassossego de Bonita, quedou-se na cama e mal saía pra ver a cara do dia.
O tempo foi passando e êle, quando muito, via Chiquitão, que sempre dava uma passadinha levando um guisado pro amigo doente de amor.
Bonita passava os dias na porta do rancho, à espera de um sinalzinho que fosse da velha alegria de seu dono.
Todo mundo ficou sabendo que Seo Antônio andava adoentado e,em setembro, ele recebeu a visita de Nêgo e Ermelinda. Com olhinhos febris, o velho apaixonado olhava para o casal e se sentia culpado pelo ardor que lhe queimava a alma. Ermelinda, doce e terna, fez-lhe um chá de cidreira, arrumou a cozinha que estava abandonada há tempos, varreu a casa e o terreiro e prometeu voltar sempre pra dar uma olhadinha no doente. Seo Antônio enrubesceu e não disse nada, mas seu pobre coração se encheu de esperança.
Ermelinda cumpriu o prometido. Todos os dias ia até a casa de Seo Antônio e cuidava do velho, sempre febril. A febre de Seo Antônio aumentava cada vez que via Ermelinda. Era febre de amor, pensava ele. Ermelinda tinha-lhe um carinho de irmã, um grande afeto, que fazia com que dedicasse parte de sua manhã a lavar a roupa, varrer, cozinhar, enfim, era o anjo da guarda que Seo Antônio nem pensava merecer.
Mas a febre não cedia e até Donana foi vê-lo pra ver se podia fazer alguma coisa. Mas ao examinar seu amigo Antônio não via sinal de nenhuma moléstia, só a febre alta que não dava trégua. Sabia o que se passava no coração do velho homem e se condoía com o amor desesperançado de Seo Antônio.
Mas ele não se importava, bastavam-lhe os cuidados de Ermelinda, era mais do que jamais sonhara que um amor lhe daria.
Com o tempo Seo Antônio voltou a bater enxada. Plantou flores em volta da casa, capinava o quintal, cuidava da roça.
O jardim floriu em profusão. Flores de cores brilhantes, febris como Seo Antônio.
Bonita passou a ter febre também; seguia Seo Antônio por todo canto e, amiga, perguntava como ele andava. Mas ele apenas dava um muxoxo e continuava na lida.
Com tanta febre, Seo Antônio começou a delirar. Via Ermelinda flutuando no ar, feito um anjo. Bonita olhava aquele vazio que capturara os olhos de seu dono e parecia adivinhar que algo estranho estava para acontecer. Aquela Ermelinda era só de Seo Antônio, só dele. Dali em diante ele passou a vê-la onde quer que fosse.
Um dia Seo Antônio percebeu que a Ermelinda-anjo o chamava. Seo Antônio selou Bonita, montou e seguiu sua miragem.
A última notícia que se tem dele é de pessoas que o viram passar pela estrada da Lontra. Seo Antônio desapareceu sem deixar rastro. Bonita sabia bem o caminho a seguir. A Ermelinda de Seo Antônio vivia no país dos sonhos, pra lá do fim do mundo.

                                                                                                                                                             Fim

%$%$%$%$%$%$%$%$

Mais um daqueles textos maravilhosos de Eliana Teixeira. Causos da fazenda, vida na roça, simplicidade e sentimentos à flor da pele.
Saboreiem essa maravilha!

10 comentários:

  1. Boa Tarde, querida Clara!
    São histórias bem contadas que faz a gente ler até o final do conto...
    Vamos sonhando e nos tornando menos febris, rs...
    Bjm muito fraterno

    ResponderExcluir
  2. Amo os contos de Eliana Teixeira. Sao tao reais e puros que nos entramos na estoria e participamos de tudo ate o seu final. Simplesmente fantastico
    Grace Fleury dos Santos

    ResponderExcluir
  3. Que beleza beleza de conto e me fez bem ler onde estou (acompanhando Kiko nacquimioterapia)
    Bjs,chica

    ResponderExcluir
  4. Realmente o texto é delicioso, Claríssima. Que bom que compartilhou!
    Ando sumida - até de meu próprio blog, mas tentando ressuscitá-lo...
    Abraço!

    ResponderExcluir
  5. Um texto que li com toda atenção e relembrando casos de minha infância. OS nomes das pessoas, as localidades coincidentes das Gerais e o velho Chico como opção de pescaria.O amor aqui fazendo suas artes.
    Um bom texto Clara na sua partilha.
    Uma semana linda para voce.
    Bjs de paz amiga

    ResponderExcluir
  6. Muito interessante, rs! Uma linda semana para você!!

    ResponderExcluir
  7. Coisa mais linda esse conto! Li, ouvindo a voz de Rolando Boldrin contando esse "causo" de amor. Confesso que me emocionei. Parabéns Eliana, pela delicadeza das palavras e Parabéns Clara, por proporcionar a seus leitores esse belezura de história. Bjs

    ResponderExcluir
  8. Um bonito conto que você nos deu a oportunidade de ler.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  9. Um final inesperado. O amor não tem idade.
    Abriu o blog a escritores amigos, foi?
    Abraço, bom domingo
    Ruthia d'O Berço do Mundo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Às vezes eu publico textos de amigos sim, o que eu acho bom eu trago pra cá.... rsrsrs
      Eliana não tem blog, o texto é maravilhoso e merecia ser compartilhado.
      Uma ótima semana pra vc, querida!
      Beijos!

      Excluir

Olá, seja bem vindo e deixe seu comentário!

Eu os responderei por aqui mesmo ou por email, se achar necessário.

São muito bem-vindos, sempre!