domingo, 4 de outubro de 2015

Família


      - Amor, olha o celular tocando... - disse Rose, para o marido que estava no banho.

      Ele não ouviu e a insistência incomodou-a muito. Num gesto automático atendeu e não disse nada.

      - Ti, tô te esperando, cadê você? - disse uma voz meiga do outro lado da linha.

      - Oi? - perguntou Rose, assustada e sem acreditar no que acabara de ouvir.

      Celular mudo e depois a pessoa desligou. Rose ficou branca e o coração acelerou. O que era aquilo que acabara de presenciar?

      Tiago e Rose estavam casados há vinte anos. Amor à primeira vista, jovens ainda, amavam-se ternamente. Uma família completa, feliz, muito respeito, amor, companheirismo, filhos lindos, tudo perfeito. Sempre agradecia pela sorte de ter Tiago em sua vida. Na verdade não se imaginava sem ele, sem sua família e muito menos Tiago olhando para uma outra mulher.

      Rose era linda, vaidosa, boa esposa, ótima mãe... Tinha seus defeitos, claro, era bagunceira, mas com o progresso dos negócios do marido, podia ter o luxo de uma faxineira duas vezes por semana. Cuidava de tudo, ia à academia, salão de beleza, manicure, massagista, enfim, se cuidava. Nunca trabalhara fora, acordo feito desde o namoro e aceito prontamente por ela. Para todos era o casal perfeito, exemplo de amor e dedicação, carinho... Ah se todos fossem como eles, o mundo seria bem melhor, comentavam os amigos.

      Tiago era caseiro, competente nos negócios, lindo, másculo, também vaidoso e nunca dera motivos para Rose duvidar de sua palavra.

      Mas naquele dia algo havia mudado. Quem era a tal que ligara de manhã para o celular de Tiago, Ti, como chamava a moça. Que intimidade era aquela com seu homem? Nunca ouvira ninguém chamá-lo de Ti. Ti, que Ti o quê? Como assim, meu Deus, pensava.

      Ainda pálida e sentada na cama, colocou o celular no criado-mudo, do jeito que estava e levantou-se. Foi fazer o café. O que falaria, o que perguntaria?

      Rose, em questão de segundos, desmoronara. O chão se abriu e ela se jogou. Não queria nunca mais olhar para a cara de Tiago. Ti...

      Mas, por outro lado, poderia muito bem ser engano. Por que não? - pensava.

      Tiago apareceu na cozinha, como todos os dias, abraçou Rose pelas costas, beijou seu pescoço e ficou olhando o que ela estava fazendo, por cima de seu ombro.

      - Ti- chamou-o, sem pensar duas vezes.

      Tiago afastou-se e gaguejando perguntou:

      -Ti? Que Ti? O que é isso agora? Vai me botar apelido, amor? Sabe que eu não gosto!

      - Eu atendi seu celular. Alguém te chamou de Ti. Quem era? - Rose virou-se, cruzou os braços e ficou esperando a reação de Tiago.

      - Nnnnnão sei... Quem era? Disse o nome?

      Rose, não aguentando começou a chorar e voltou ao quarto. Jogou-se na cama e ali permaneceu. de bruços, aos prantos. Tiago aproximou-se, sentou-se ao seu lado, alisou seus cabelos e com voz embargada pediu perdão.

      - Não posso mentir pra você... Não consigo mentir pra você. Mas te garanto que não teve importância nenhuma! Foi só uma...

      Rose levantou-se e começou a estapeá-lo e xingá-lo de vários nomes que ela jamais imaginaria que saísse de sua boca. Mandou-o pegar suas coisas e sumir de sua vida. Tiago apenas afastou-se e saiu. Achou melhor deixar passar a raiva. Conhecia muito bem Rose e sabia que num momento de fúria ela não ouviria nada.

      Amava Rose, venerava sua família e não queria que uma aventura sem nenhum significado acabasse com o castelo construído por anos. Mas tinha medo de desmoronar. Rose sempre foi a mulher de seus sonhos, de sua vida, e estava constrangido por tê-la feito passar por situação dolorosa. Se perdesse sua mulher, não saberia mais viver. Eram unha e carne, e a outra era apenas um relaxamento, um momento de descontração, uma novidade casual, nada além disso. Como explicar tudo isso para Rose, sua amada?

      Ao voltar para casa, Tiago entrou devagar, calmamente, e encontrou Rose com os olhos inchados e vermelhos. Chorara o dia todo. O remorso corroeu Tiago, que num ímpeto, ajoelhou aos seus pés e pediu perdão. Estava arrependido e jurou que isso nunca mais iria se repetir. Rose chorava, soluçando, com o rosto desfigurado, como Tiago nunca havia visto. Levantou-se e abraçou a mulher. Ela ficou paralisada, mas não relutou pelo abraço.

      - Hoje foi o pior dia de minha vida, e você, Ti, foi o responsável, seu ingrato, insensível, mulherengo barato. Você acabou comigo e com nosso casamento. Não quero te ver tão cedo. Saia do meu quarto, agora!

      Tiago obedeceu, e assim como foi o pior dia na vida de Rose, também foi de Tiago. Mas mesmo tendo magoado a esposa, não conseguia ver motivos para tanto. Foi só um relaxamento, nada mais que isso. Mas como fazer Rose entender?

      Os dias se passaram e Rose já não chorava mais. Tiago entrava mudo e saía calado de casa. Preferiu deixar a iniciativa para Rose, talvez com o tempo ela entendesse que era e sempre será a mulher de sua vida.

      E aconteceu o que Tiago tanto queria, não como ele imaginava, mas já era um começo.

      Rose, depois de pensar muito, depois de colocar na balança uma vida inteira de harmonia, família unida, amor na relação, resolveu perdoar Tiago. Mas com ressalvas: se acontecesse de novo, seria o fim. Ele concordou com tudo e aceitou todos os castigos impostos por ela.

      Aquela confiança, o amor compartilhado, o companheirismo, claro que nunca mais foi o mesmo. O cristal trincou e dificilmente retornaria como era antes. Mas Rose amava Tiago e praticamente vivia a vida dele. Não totalmente, mas concordou em abrir mão de uma carreira profissional para dedicar-se à família, à união, educação dos filhos e casa em ordem. Na verdade a partir daquele dia, confiava desconfiando, mas também não ficava procurando por algum outro deslize. Sabia que se acontecesse, ficaria sabendo, mais cedo ou mais tarde.

      E assim a família se preservou, apesar dos pesares, o amor venceu.

       Fim.


   

17 comentários:

  1. O amor venceu, mas a pulguinha na camisola já estava lá,rs... Que desgraçado esse TI! Muito legal e bem escrito, como sempre!bjs, chica

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    1. Depois que a gente perde a confiança fica difícil, mas é bom perdoar. rsrsrs
      Boa semana, Chica gaúcha!

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  2. "Naqueles tempos' da minha juventude, eu não "perdoaria". Agora, mais velha, talvez um pouquinho mais "sábia", talvez...A confiança nunca mais será a mesma. Homem burro é fogo...Como dar o número de telefone para outra?! Melhor dizer, com todas as letras algo como "amo minha mulher, meus filhos, nunca vou me separar dela, não tenha expectativas, você é só um passatempo" e pronto. Aborrecimentos sob controle...
    Pensando bem, mesmo agora, com a minha idade e "sabedoria", jamais perdoaria e ele jamais tocaria em mim...
    Sou bem confusa, né? rs
    Beijo e boa semana, Clarinha.

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    1. Não acho vc confusa. Acho que cada caso é um caso e acho que homem, no caso esse, vacilou muito. A confiança será difícil acontecer, mas perdoar é bom, dá um alívio, o que não significa que se tem que continuar juntos. Como eu disse, cada caso é um caso.
      Beijos e boa semana pra nós, maninha!

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  3. São acontecimentos na vida de um casal deste tipo que trincam uma felicidade.
    Você escreve cada vez melhor ,Parabéns!

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    1. Trincam mesmo, e o encanto se acaba. É o tal príncipe que um dia amanhece sapo, e o sonho do felizes pra sempre vai por água abaixo. Realidade que dói muito.
      Vc sempre gentil, Élus poeta, muito obrigada!

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  4. Quando surge um caso é a oportunidade de reavaliar a relação, não apenas fingir que nada aconteceu. Algo provavelmente precisa ser alterado na relação. O sinal foi dado. bjs

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    1. Vc mais do que ninguém sabe disso. Lidar com sentimentos embutidos ou enrustidos não deve ser fácil. E se isso acontece tem sim que ser verificado e avaliado.
      Beijos, Norma!

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  5. Boa noite minha amiga Clara.
    Hoje aqui para lhe parabenizar e desejar toda felicidade e paz neste mundo, que seus sonhos estejam ativos e que possa realiza-los.
    Meu abraço com carinho amiga.
    Beijo de paz.

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    1. Meu amigo Toninho poeta, muito obrigada!
      O tempo vai passando e a gente só tem a agradecer a Deus pela vida, pela saúde e pelos bons amigos que cruzam nosso caminho...
      Um abraço carinhoso pra vc, um beijo e fique com Deus!

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  6. Dizem que a confiança apodrecida é pior que veneno letal.
    Aqui o amor buscou superar a falha. Há caso assim mesmo Clara, que por um deslize há um rompimento mas que o reatamento torna-se possível com o tempo e o desejo de que nunca mais se repita.
    Mas que ficará para sempre na Rose esta duvida a martelar.

    Mais um abração para voce amiga.
    Beijo de parabens amiga.

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    1. Isso é mais comum do que pensamos, e a confiança vai se acabando com as falhas, mas o amor acaba tomando o lugar do rancor, mas a desconfiança permanece por mais termpo.
      Mais uma vez muito obrigada, meu querido amigo!

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  7. Boa tarde
    Passei pelo teu cantinho para te dar a conhecer o meu modesto espaço de poesia.
    Espero que gostes. Um abraço, Ana Pereira
    http://almainspiradora.blogspot.pt/

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  8. Às vezes eu me pergunto se as pessoas amam mesmo ou tem apego. Acho que ninguém ama desse jeito.

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    1. O amor é o mesmo, mas acho que as pessoas demonstram de um modo diferente. Homens são diferentes de mulheres e mesmo assim ninguém é igual a ninguém. Cada um aceita o que lhe convém.
      Beijos, meninas!

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  9. Oi Clara! Como está?
    Não vou ficar aqui desenvolvendo uma teoria antropológica a respeito do comportamento masculino diante de um caso extraconjugal, porque, na maioria das vezes, para os homens, é uma coisa sem importância mesmo, faz parte de um instinto inato de reprodução e perpetuação da espécie que é atávico no masculino, que é ensinado e educado pela própria sociedade e cultura para não sentir culpa pelo acontecido. Geralmente, é a mãe quem educa seus filhos: as meninas para serem exatamente tudo aquilo que ela mais odeia em si mesma e, os meninos, para serem também exatamente tudo aquilo que ela mais odeia nos homens. Mas, visto pela ótica feminina, a mulher é sempre a vítima da situação, como se morresse em vida para se dedicar ao marido, família e filhos, exigindo um comportamento masculino que é sabido que jamais mudará.
    O conto é sugestivo, polêmico e reflexivo, mas, por outro lado é indutivo de um comportamento que criminaliza o masculino, como se fosse o único a ter uma atitude dessas. Não estou defendendo a traição como se ela fosse natural e aceitável. O ato de trair é, por si só, abominável, mas o que não se discute é o sentimento de posse, o apego exagerado às coisas e pessoas que toma-as para si e exige que tudo seja exatamente como o possessivo quer. Todos nós nascemos livres, depois, culturalmente, vamos nos moldando aos comportamentos impostos e aceitáveis pela sociedade. Qualquer desvio é punido, principalmente pela moral constituída, mas esta moral é temporal, regional e tão instável quanto duradoura.
    Condeno a atitude de Tiago e, pelo que ficou implícito, o tratamento Ti denota uma cumplicidade que não foi gerada por um único encontro fortuito e casual, mas que se estendeu até gerar uma intimidade. Diferente das mulheres, os homens são dados a amar mais de uma mulher? Podem se divertir com outras como se fosse um instinto apenas? As mulheres não são dadas à traição? São tantas questões que nunca terão uma resposta definitiva, não é?
    Não façam imagem de mim só porque resolvi questionar. Não defendo nenhum dos personagens, já que Rose também pode ser culpada de ter confiado demais e se acomodado, acreditando na segurança e esfriado a relação. Mas essa discussão jamais terá um desfecho coerente.
    Um abraço!

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    1. Olá, Augusto, como vai? Eu estou bem, graças a Deus.
      Olha, tudo o que vc escreveu eu concordo e assino embaixo. Algumas vezes já defendi tudo isso que citou e fui chamada de machista. Não que eu defenda a traição, mas o ser humano tem mania de posse mesmo, e, principalmente a mulher, de querer moldar "seu" homem à sua vontade e fantasia. Por outro lado tem o homem que acha que nunca será descoberto, portanto, é um dilema sem fim.
      Cada caso é um caso e numa relação que não dá certo, ou que dá e tem crises, nenhum dos dois é culpado. Cada um é cada um e pronto.
      Seu comentário só veio a acrescentar o texto e é bem corajoso. Eu escreveria exatamente tudo isso, mesmo correndo o risco de ser chamada de "corna e machista". Sei que não é e não adianta só a mulher achar que não quer assim e que não concorda. Isso é fato e está em todos os lugares. Claro que há exceções, mas no grosso modo é isso aí mesmo. Mulher é romântica e mesmo sabendo que homem é assim, acredita que o seu jamais será. E não está errada em não aceitar, mas há uma pontinha de hipocrisia em pensar de uma maneira e não querer saber da realidade. Cada um aceita o que lhe convém.Não é fácil e nem rápido mudar uma cultura, mas talvez seja um começo. Não sou feminista, mas respeito quem seja.
      Muito bom, ótimo seu comentário.
      Muito obrigada!
      Um abraço!

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