segunda-feira, 6 de abril de 2015

Um Perfume


      Ansiosa e nervosa, Ana Lara chegou em casa fora do horário de costume, debaixo de um temporal apavorante. Talvez seria a situação ideal ao qual ela esperava há tempos. Sem se importar com o sapato de salto agulha, enfrentou a chuva, deixando o carro do lado de fora da garagem. Não queria fazer barulho. Não queria ter surpresas, mas a situação insuportável se instalara entre o marido e ela. Aliás, só nela, pois o marido de nada desconfiava. Pelo menos nada demonstrava.

      Algumas vezes sentiu um perfume diferente em seu quarto, não era estranho, mas diferente. Perguntado, Rodrigo, seu marido, de nada sabia e logo mudava de assunto, ou saía de perto, evitando seu olhar fuzilante. Rodrigo sabia que teria que tomar cuidado, pois conhecia muito bem Ana Lara, mas sua esperteza lhe dava toda a segurança que precisava.

      Casados há exatos sete anos, Ana Lara sempre se lembrava dos conselhos de sua madrinha, já falecida, de que o casamento entrava em crise aos sete anos. Ela sempre ria, desdenhando, pois acreditava que amor que é amor não tem crise, e sim momentos ruins. Será que sua madrinha tinha razão?

      Antes de abrir a porta, tirou os sapatos e deixou-os na garagem. Devagar abriu a porta e pé ante pé vasculhou todos os cômodos, inclusive debaixo de móveis. Nada! Ninguém! Nem o perfume habitava sua casa naquele dia. Sentou-se no chão e chorou.

      Não queria ir além de sua capacidade, mas uma situação de traição ao qual ela não permitiria jamais estava além de sua bondade e perdão. Um absurdo existir traição num casamento. Traição era desamor,  falta de respeito,  repugnante e nojento.

      Pensou várias vezes em desistir, deixar para lá e seguir a feliz vida conjugal, mas não sentira mais paz com essa pulga atrás da orelha. Teria que ir até o fim, escarafunchar até se esgotar todas as possibilidades e mesmo assim ainda teria dúvidas. Rodrigo nunca demonstrou nada, sempre carinhoso e atencioso, ótimo companheiro, mas aquele perfume ficou carimbado em suas narinas. Quem seria a dona daquele perfume tão familiar?

      Os dias se passaram e nunca mais Ana Lara sentiu o aroma do misterioso perfume. Chegou ao cúmulo de entrar em uma perfumaria e provar todos os aromas para identificar o nome, a cor, o frasco ou qualquer rastro que deveria seguir e desvendar esse torturante mistério.

      Um dia, quando Rodrigo teria folga na período da manhã, Ana Lara lamentou muito deixá-lo na cama e ter que trabalhar. Coisas que aconteciam vez ou outra e que a irritavam profundamente. Não entendia essas folgas em dias úteis, mas não o culpava por isso. Arrumou-se toda linda e perfumada e foi à luta. Rodrigo ouvia os passos da mulher no assoalho de madeira, até chegar à porta, e depois de sair com o carro da garagem, virava para o canto e continuava a dormir.

      No meio do caminho, Ana Lara lembrou-se que havia esquecido as chaves de suas gavetas. Contornou a quadra e voltou para buscá-las.

      Bem na frente de sua garagem um carro bem conhecido estacionado. Gelou. Respirou fundo e repetiu todo aquele processo de se tornar invisível e entrar em sua casa. Segurou o choro, conteve a raiva e temeu que as batidas intensas de seu coração denunciassem sua presença. Ouviu um riso vindo de seu quarto.

      - Sua louca! Se minha mulher te pega aqui, me mata! - ouviu Rodrigo dizer.

      - Mas sexo bom é sexo com emoção, meu bem, e Ana Anta nunca foi boa em descobrir nada. Sempre era a última a saber de alguma coisa... Não se preocupe. - reconheceu a voz de sua irmã. Ana Letícia.

      A porta do quarto estava entreaberta e com cuidado viu os dois se esfregando em sua cama. Ana Lara ficou imóvel, como se o mundo parasse naquele instante e só houvesse sua cama com aqueles dois sobre ela, rindo de sua provável lerdeza em ser a última a saber. Se afastou e ainda ficou um bom tempo encostada na parede. Não ouvia nada, ou não queria ouvir mais nada. Não sabia o que fazer, mas a vontade era em pegar uma faca na cozinha e acabar com a farra depravada e indecente do casal esperto.

      Com a mesma lentidão que conseguiu chegar ao seu quarto, se afastou, pé ante pé, e saiu da casa. Estava branca como uma folha de papel, respiração lenta e coração quase parando. Mas aguentaria esperar mais um pouco, afinal a moça que se esfregava com seu marido teria que sair de lá.

      Ficou escondida entre a garagem e um pequeno jardim, atrás de uma parede. Eles não a veriam e, com certeza, não reparariam em seu carro estacionado à frente da casa.

      Mais de meia hora se passou e ouviu-se o abrir da porta e o estalar de um longo beijo. Ana Lara cruzou os braços e esperou. Assim que Rodrigo foi abrir o portão viu a sombra da mulher. Deu um pulo e soltou um grito de desespero. Tentou esconder Ana Letícia, mas Ana Lara foi mais rápida e agarrou-lhe pelos cabelos da nuca. Arrastou-a até a rua e lançou-a com tanta força que quase caiu na calçada. Rodrigo segurou o braço da mulher e pediu calma.

      - Você tem meia hora pra sumir da minha frente ou eu te mato. Vou presa, sem problemas, mas te mato! - esmagou-o com seu olhar carregado de ódio.

      Rodrigo, sentindo seu olhar a lhe fuzilar, obedeceu. Não era a melhor hora para discutir relação e não havia o que explicar. Trêmulo, foi embora também.

      Ana Lara, ainda na garagem, desabou num choro incontrolável. Não conseguia pensar em nada e não queria pensar em nada. Chorou até secar-lhe as lágrimas, por dias e noites. Um castelo desmoronado, uma família destruída, um sonho interrompido no meio do caminho e uma mulher a atrapalhar os planos de um casal que parecia se amar. Ainda havia amor, só amor... Mas o homem, seu homem, ofereceu-lhe a pior cena jamais vista. Enquanto vivesse se lembraria daquele dia.

      Ana Laura nunca imaginara sofrer tanto e se sentir tão só. Na verdade se afastara de tudo e de todos e se afundou em sua solidão. Sabia que teria que ser forte para superar e resgatar sua vida, e assim o faria, quando se sentisse segura para encarar esse problema e resolvê-lo.

      Recomeçaria, quando fosse capaz, seguiria em frente, viveria, apesar de todo sofrimento, a vida continuaria.

      Fim.

7 comentários:

  1. Uma situação muito ruim, um grande sofrimento que só o tempo apaga. Você escreve cada vez melhor.
    Beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Uma dupla traição, mas acho que a traição da irmã é ainda pior do que a do marido, não sei...
      Muito obrigada, meu amigo, sempre gentil!
      Beijos

      Excluir
  2. Não imagino o que faria numa situação idêntica. Acho que entrava naquele quarto como uma das fúrias gregas. E o seguimento da história?
    Beijinhos, uma linda semana. Espero que a Páscoa tenha sido muito doce
    Ruthia d'O Berço do Mundo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que só passando por situação pra saber. A personagem queria matá-lo e acho que o faria se ouvisse mais alguma frase daquela traidora que se dizia sua irmã. rsrsrs
      Vamos ver se tem segmento... Segmento nunca suprem as expectativas, mas vamos ver.
      Beijos, querida!

      Excluir
  3. Putz, mirabolantes inspirações! Que situação!1 Credo! beijos, linda semana,chica

    ResponderExcluir
  4. Pobre Ana Laura!
    Espero que encontre um verdadeiro amor
    Bonito conto, Clara
    Amei!
    Beijinhos de
    Verena e Bichinhos

    ResponderExcluir
  5. Engraçado esta coisa da crise dos sete anos Clara, lá em Minas se ouvia isto também.
    Assim como os sete anos de vacas magras e os sete seguintes de vacas gordas, será?
    Mas o que vale foi sua bela trama para este caso muito comum na vida conjugal e mesmo entre parentes ou amigos próximos.
    Belo trabalho com a arte de prender o leitor e deixa-lo curioso com o final.
    Bom que foi somente uma possível separação e não mortes, tão comuns neste casos, principalmente quando o contrario.

    Abração amiga.
    Bjs. e desde já um bom fim de semana com paz e alegrias.

    ResponderExcluir

Olá, seja bem vindo e deixe seu comentário!

Eu os responderei por aqui mesmo ou por email, se achar necessário.

São muito bem-vindos, sempre!