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segunda-feira, 2 de março de 2015

O Baile


      Já estava decidido: não iria de jeito nenhum! Quem a obrigaria entrar naquele salão onde teria um baile seguido de um pedido de casamento completamente sem propósito algum?

      Beatrice ouviu sem querer que seu pai havia escolhido um pretendente para sua princesinha. E justamente escolhera a pessoa mais abominável de toda a cidade. Um perfeito canalha, mulherengo, beberrão e otário. Pensava que poderia conseguir o que quisesse sendo gentil com seu pai; e conseguiu, mas ninguém, nem mesmo seu pai a obrigaria a fazer o que não queria. Já sabia que não contaria com sua mãe, pois dona Amália apenas obedecia o todo poderoso Cleomar. Dr Cleomar, como gostava de ser chamado.

      Fugiria! Antes da música começar a tocar já estaria bem longe. Tudo combinado com Edward que a esperaria nos fundos da casa, com sua moto. Amava velocidade e Edward era mais que um irmão para Beatrice. Cresceram juntos e aprontaram muita arteirice juntos. Ela, filha do dono. Ele, filho do motorista.

      Beatrice nunca desconfiara, mas Edward era apaixonado por ela. Fazia todas as suas vontades e o que mais queria era fugir com ela na garupa de sua moto. Iria aos céus, ou quem sabe ao inferno, só para defendê-la. Quando pequena, Beatrice era chorona, enjoada e só Edward tinha a paciência de ficar ao seu lado, tentando consolá-la. Aparentemente Beatrice era frágil como uma folha seca que esfarelava com o vento, mas era forte como um bambu, impossível de se quebrar. Era mimada e não suportava que contrariassem suas vontades. Mandona e autoritária, sem perder a doçura e o encanto. Pequenininha, magrinha e branquinha, além das sardas no nariz, cabelos ruivos e olhos azuis que pareciam faróis que iluminavam quem ousasse encará-la. Não era fácil lidar com Beatrice. Tinha poucas amigas e não aceitava nada menos do que escolher o que fazer e onde ir. Se não fosse do seu jeito, não tinha passeio que a tirasse de casa. Edward era o único que a entendia e defendia. Nem precisava de defesa mas ele fazia questão de estar sempre por perto, caso Beatrice precisasse.

      Faltava pouco para a meia-noite. Beatrice, ansiosa, esperava ouvir o barulho da moto de Edward para poder pular a janela e sumir no mundo. Estava simplesmente linda num vestido longo, branco, com corpete bem acinturado que dava a impressão de espremê-la até cortar-lhe o ar. A saia bem rodada se arrastava no chão, dando a impressão de uma cascata delicada, formada por espumas de algodão. Escolhera sapatos confortáveis para facilitar a corrida até a moto que a aguardaria antes da palhaçada do baile começar.

      Começou o baile. Beatrice não ouviu Edward chegar. Seu pai, o todo poderoso Dr Cleomar, foi buscá-la em seu quarto. Por pouco Beatrice não fugiu pela janela, mesmo sem Edward aparecer para resgatá-la. O jeito foi acompanhar seu pai, de braço dado, até o grande salão.

      A primeira dança foi com Dr Cleomar e as próximas seriam com o desengonçado do Araújo, o prometido. Antes de chegar na segunda música Beatrice vê Edward na porta, com as mãos sujas de graxa, lhe acenando. Queria matá-lo, com um olhar fulminante. Conversaram praticamente em telepatia, ele explicando o furo no pneu e ela odiando e querendo enfiar a roda da moto na sua cabeça.

      Como não teria como escapar da tragédia que se anunciava Beatrice simulou um desmaio. Logo foi amparada e carregada por Araújo. Levou-a ao seu quarto e esperou, junto com sua mãe, que recobrasse os sentidos. Disfarçadamente ela abriu um olho e viu que Araújo estava do seu lado. Fechou-o rapidamente e virou-se para o outro lado. Depois simulou um choro, como uma sangria desatada e implorou para ficar sozinha no quarto. Não queria nem a mãe por perto. E assim atenderam a vontade da mimada Beatrice. Caso contrário seria capaz de quebrar todo o quarto.

      Quando todos saíram Beatrice olhou pela janela e lá estava Edward sobre sua moto, acelerando e rindo. Não pensou duas vezes e pulou sem medo de se machucar nas folhagens secas do final de outono. Sua saia ficou presa na janela e à medida que ia caindo, ia rasgando, deixando um rastro de um crime mal-sucedido. Ficou praticamente só com a parte de cima do vestido e um minúsculo pedaço de tule tapando-lhe as partes íntimas. Nem se importou. Edward, vendo aquela cena espetacular não teve outra reação a não ser ficar de queixo caído e com os olhos arregalados. Beatrice correu, sentou em sua garupa e mandou que ele acelerasse o mais rápido possível.

      E assim começou a feliz união de Beatrice e Edward. Contrariando toda a família, mas com seu gênio impossível de ser domado, não havia mais o que ser feito. Na verdade quem não sabia desse amor era Edward que jamais sonhara que o que Beatrice sentia era amor... Apenas amor!

      Fim.

      Texto publicado em 18 de abril de 2014

11 comentários:

  1. Muita adrenalina! rs Gostei. Histórias de amor e com finais felizes, que resiste?
    Beijo, Clara.

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    1. São irresistíveis, Lúcia, mas eu ainda prefiro uma tragédia pra dar uma animada maior ainda... rsrs
      Beijos

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  2. Vale sempre reler coisas boas!Adorei! bjs, chica

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  3. Oi, Clara!
    Edward era o principe! Não tinha um cavalo, mas tinha uma moto.
    Finais felizes... Quem não gosta?
    Beijus,

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    1. Luma, e qtos príncipes existem por aí sem a princesa saiba disso? Tímidos? Ou não se acham capazes de se declararem?
      Beijos

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  4. Sempre escrevendo belos contos. Muito bom!...
    Beijos

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    1. Élys, querido amigo poeta, obrigada!
      Beijos

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  5. Que belo romance. Fico a imaginar o depois de tudo, como seria a vida do casal! abraços

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    1. Um inferno pro marido... que aceita tudo e sempre perdoa Beatrice. rsrsrs

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  6. Hihi, o Dr. Cleomar deve ter tido um treco!
    Adorei a estória.
    Beijinhos, hoje temos festa cá em casa (aniversário do pequeno explorador).
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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