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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Silêncio! Estou Ouvindo...


      Numa manhã de outono, terça feira, Alice acordara animada, afinal era dia de trabalho voluntário no Hospital do Câncer, na ala infantil, sua ocupação mais prazerosa.

      Para ela, o trabalho voluntário era mais que uma obrigação, pois anos atrás fora muito bem acolhida, cuidada e recuperada devido a um pequeno aneurisma que deixou-a em coma por uma semana.

      Trabalho voluntário sempre esteve nos seus planos, mas sempre havia uma desculpa para adiá-lo. E agora chegara a hora, agora era o depois... Depois do coma... Depois de quase morrer... Depois de se desgastar com futilidades... Depois de uma vida recheada de bens materiais e vazia de afeto.

      Alice ficava eufórica por encontrar as crianças, mas ficava na expectativa de algumas não estarem mais por lá, ou por terem voltado para casa ou por terem ido morar na casa do Pai. E lamentava, orava, ali mesmo, no meio de todos, com os olhos fechados, apenas mexendo os lábios e olhando para o alto, convicta de que Deus ouviria suas súplicas.

      No começo era difícil, Alice tinha crises de choro, de dor imensa, de revolta, mas foi se acostumando a fazer tudo com naturalidade. Incrível como acostuma-se com tudo, até com o sofrimento alheio. Via o brilho especial nos olhos das crianças, como se implorassem por vida, por salvação, mesmo não tendo conhecimento da gravidade da doença. Cruel, pensava, orava e continuava sua missão, com paciência, sorriso carimbado e um carinho na cabeça de cada criança.

      O que Alice queria era ficar o tempo todo por ali, mas pelas regras do Hospital, só era permitido duas horas semanais. Muito pouco, porém, melhor que nada. Eram as duas horas mais preciosas da semana.

      Um dia, andando pelos corredores, uma voz chamou-lhe a atenção. Parou na porta para saber de quem era aquela voz doce, que contava pausadamente e fazia gestos com a mão, mesmo a mulher acamada estando de olhos fechados. Não se conteve e se emocionou. Não interrompeu a senhora contadora de histórias e seguiu seu rumo.

      Nunca mais seus dias de voluntariado foram os mesmos. Depois de acariciar a cabeça das crianças, andava pelos corredores procurando a senhora meiga de voz suave e suas fabulosas histórias. Nunca mais viu-a. Dias se passaram e a curiosidade em saber da senhora não cessava.

      Um dia, brincando com as crianças, um pensamento lhe veio: "Mas claro, eu conheço essa voz!", pensou.

      Alice se lembrara daquela voz, das histórias, das fábulas...  No tempo em que estava em coma ela ouvia aquela voz... Aliás ela ouvia tanta coisa, familiares, médicos e enfermeiros... Contou tudo isto depois, mas aquela voz tinha marcado seu silêncio. Sempre aparecia no silêncio, na penumbra. Uma paz, uma vontade de viver... Por onde andava a senhora contadora de histórias? Ela falecera!

      Não se conteve em lágrimas, para estranhamento de todos, porque nem conhecia a senhora.

      Como não? Claro que conhecia! Ela me contava histórias enquanto eu dormia...

      Mesmo lidando com a morte, esta notícia caiu-lhe como um raio fulminante, como um punhal fincado no peito.

      É a lei da vida, a morte! Ela chega sem avisar e nos arranca a alma, nos dilacera e abre uma cratera no peito, difícil de fechar.

      É claro que ninguém entendeu nada... Claro que não! Mas nem precisava... Só Alice ouviu, só ela sentiu e só ela sabe o poder de uma palavra na hora certa. Um anjo humano que doa um pedaço da vida, uns minutos silenciosos, uma fresta de conforto a quem precisa, no dia certo, na hora certa e no momento adequado.

      Que Deus a tenha!

      Texto publicado em 16 de agosto de 2011. Editado.


15 comentários:

  1. Emocionante e me arrepiei toda com essa história...Linda demais! beijos,chica

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  2. Chica, obrigada querida!!!!

    Beijos e bom dia!

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  3. Bom dia,Clara!!

    Nossa...que história linda!!!Atitudes simples como desta senhora podem fazer a diferença entre viver e morrer, como um luz na escuridão...um farol que guia mostrando o caminho!!!
    Maravilhosa esta história!!Me emocionou muto!!
    Beijos pra ti!

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  4. Bom dia Vivian...

    É um exemplo que infelizmente são poucos nesse mundo.

    Beijos, querida!!!!

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  5. Clara,que emoção ao ler sua história!Linda e cativante do começo ao fim!Lembro de uma vez que estava internada e quando acordei não havia ninguem no quarto e eu estava com muita sede.Uma senhora entrou e me deu água e depois nunca mais a vi,não era enfermeira,nada...talvez alguem que passasse,mas pra mim foi um anjo!Bjs,

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  6. Anne, anjos existem e eu acredito!
    Já me cruzei com alguns deles que fizeram um pequeno gesto e sumiram... nunca mais vi...
    Como explicar isso?

    Beijos, beijos....

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  7. Ah Clara que coisa mais linda esse conto, ou relato... AMEI!
    Beijo, beijooooo!
    She

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  8. She, é conto.
    Obrigada, querida!

    Beijosssssss

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  9. Clara
    Cheguei aqui através do blog da Celina Dutra e me emocionei demais com esse conto.
    Sabe que é uma coisa que estou pensando em fazer já há um bom tempo: trabalho voluntário. Ando tão atarefada com trabalhos que não estão me satisfazendo em nada. Acho que chegou a hora de fazer algo mais gratificante.
    um beijo

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  10. Macá, seja bem vinda!
    Que bom que veio através da Celina, que é uma querida.

    Eu ainda não faço trabalho voluntário, mas está nos meus planos, mas não em hospitais, pois tenho fobia a doença e sangue. Mas dá-se um jeito.

    Volte sempre, viu!

    Beijos....

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  11. Clara,

    Vc. disse por aí, anjos existem! Que bom para o mundo! Belo trabalho! Sou sua fã!

    Girassóis nos seus caminhos.
    Beijos

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  12. Celina, amada minha....
    Eu acredito em anjos sim...
    Eles vêm na hora que precisamos e depois somem sem ninguém ver...

    Beijos e tbm sou sua fã!!!!
    Bom dia pra vc...

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  13. Perfeita construção Clara na emoção bem dosada.
    Prendeu o leitor e lhe aguçou a curiosidade.
    Abraços.
    Beijo

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  14. Oi Clara!
    Uma história maravilhosa. Grande exemplo!
    Deixo um beijo!

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  15. Lindo e tocante. Doação. Palavra linda em todos os sentidos.

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