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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

No Tempo Em Que Tudo Era Longe


      Na minha época de infância, a cidade ainda era pequena e tudo parecia muito longe.

      Pela pouca idade e pelas condições da família, andávamos a pé. Ruas longas, largas, difícil chegar ao destino. Me lembro que meu pai me colocava sobre os ombros e eu agarrava seu pescoço, mexendo no gogó. Isso era minha diversão. Não me lembro de conversarem e nem nada, apenas caminhavam.

      Os atalhos. O que mais me lembro eram dos atalhos que passávamos. Naquele tempo ainda existiam vários terrenos vagos e estes eram nossos atalhos. Me encantava com as pequenas flores, miúdas, coloridas e algumas me sapecavam a mão. Certa vez colhi algumas para levar a uma tia, e colhi junto um mandruvá listrado em preto e branco. Quando fui sentir o perfume, vi aquele bicho asqueroso e joguei tudo longe, limpei as mãozinhas no vestido com saia bordada e nunca mais apanhei flor nenhuma. Esse assunto foi motivo de muitas risadas e me deixou constrangida pela minha timidez.

      Muitas casas eram cercadas com arame que ficavam encobertos com uma trepadeira que davam umas frutinhas amarelas com sementinhas vermelhas. Gostava de colhê-las e comer as sementinhas. Nunca soube o nome dessas frutinhas. Alguém sabe? Também me lembro de, mesmo comendo-as, ficava pensando se não seriam veneno e eu morresse ali mesmo, naquele instante. Cabecinha imaginativa desde sempre.

      Nessa época ainda não sabia o que era andar de carro. Mas já havia andado de charrete. Meu avô levava os netos para dar uma volta vez ou outra. Era carrancudo, ranzinza, nunca o vi rindo nem falando algo agradável, mas sabia alegrar os netos com essa charrete. Ele morava numa vila que ficava distante da cidade, estrada de chão, poucas casas e uma praça com um igreja bem pequena. Ouvia, depois de mais crescida, que no passado a cidade era um cemitério, e que na lua cheia Lobisomem uivava e pegava quem estivesse na rua. Lendas da cidade que me deixavam com medo. Gostava de lá pelo espaço grande da casa, pelo quintal imenso com goiabeira, bananeira... E o banheiro... Gente, o banheiro era do lado de fora da casa. Um buraco fundo no chão, uma casinha de madeira tampando, o assento também de madeira e pronto! Era fossa. Morria de medo! Minha infância foi marcada por muitos medos... Medo de me perder dos meus pais, medo de não encontrar o caminho de volta, medo de tudo, enfim.

      Para irmos até a casa de meus avós só de ônibus. Lá era muito, muito longe. Hoje, de carro, nada mais do que dez minutos. Voltando ao carro, o primeiro que entrei e andei algumas quadras foi um Gordini. Lembram dele? Fiquei encantada!

      A cidade cresceu muito, claro, há muitos lugares longes, estradas compridas, mas poucos terrenos com flores para serem colhidas, poucos andam a pé, ônibus vão em todos os lugares, nada tão distante que não se possa chegar.

      Bons tempos aqueles em que esperava o domingo, e como demorava chegar o domingo, para colocar um vestido azul, rodado com a saia bordada, e ir na casa da vovó. Era longe, mas pela minha pouca idade, ia no conforto dos ombros do meu pai.

      O que me lembro também é que tinha os olhos curiosos e nem me importava de andar, mesmo quando meu pai estava junto para me colocar nos ombros. Olhava tudo e todos. Digo isso porque quando meus filhos eram pequenos não gostavam nem de ir à esquina. Quando levava-os à escola, às vezes tinha que ir puxando suas mãozinhas para que andassem um pouco mais rápido, ou carregá-los no colo, mas reclamavam. E olha que a escola era três quadras da minha casa. A comodidade vicia, trás preguiça...

      Cresci e o gosto por andar não acabou. Se precisar ando quadras e quadras, vou e volto, sem problemas.

      É isso.

9 comentários:

  1. Clara, hoje pela manhã filha me perguntou se haviam muitos terrenos baldios na minha infância! Sim eram muitos, o que atualmente é raridade.
    Gostei das tuas lembranças e andanças! E sou como você, adoro andar, não importa se é longe.
    Doces lembranças! Beijo.

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    1. Terrenos baldios, isso mesmo, Ana Paula...
      Hoje em dia é raridade por aqui. Quando já organizam um lote pra vender, logo já aparecem casas sendo construídas e mais rápido ainda se tem um bairro. Terrenos baldios como os do meu tempo são proibidos por aqui. O dono tem que cuidar, senão leva multa.
      Beijos

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  2. Que claro e simples, mas gracioso e envolvente ao ler, a ponto de voltar ao meu tempo de mennia, em um lugar bem parecido. Lendo-te, dei voltas no meu tempo de vilarejo! Amei, Clara Lucia! Um abraço bem gostoso! No meu vilarejo havia nas cercas, uma trepadeira com um frutinho e dentro dele tinha as tais sementinhas e era chamada de Sâo João!

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    1. Acho que são essas mesmo. Nunca soube do nome, mas pela descrição são essas mesmo.
      Obrigada, Maria Luiza...
      Nunca mais vi sementinhas de São João....
      Beijos

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  3. Ola Clara, sei o que estas lembranças teimosas nos fazem. Já escrevi sobre este tempo de feliz idade que pudemos ter sem os avanços de hoje. Caminhar era um prazer sem medo da violência, do transito, apenas de bichos e algumas assombrações que diziam, isto para os que vem do interior como eu. Minhas ferias era na casa de minha vó paterna, que era numa roça e para tal tinha que andar muito depois que a jardineira nos deixava no ponto próximo do local. Era como uma aventura naqueles anos 60.
    Viajei agora com você.
    Que bom lhe ver em 2015 com mesmas lembranças.
    Tudo de bom e que estejamos mais um ano nesta linda troca de sentimentos.
    Um abração com carinho.
    Beijo

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    1. A modernidade trás isso mesmo, a violência e a insegurança...
      Andar à noite ficou impossível, ainda mais a pé.
      Bons tempos daquelas décadas de 70, que foi minha infância.
      Muita história pra contar...

      Um beijo e um abraço carinhoso!

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  4. Que linda volta ao passado nas recordações daquele tempo! Adorei! Hoje as distância encurtaram...bjs praianos,chica

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    1. Bom recordar bons tempos, de inocência, de criança sempre feliz....
      Beijos, querida Chica!

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  5. Clarinha, fui capaz de refazer todo o caminho que você percorreu. Sou do interior e da década de 70, já viu, né?! Conheço tudo que você falou kkkkk
    Amo andar a pé, amo caminhar, amo ver gente e falar com o povo pessoalmente. Hoje está tudo tão distante pra os pequenos que chego a me admirar!
    bjsss e obrigada pela visita! Estou retomando. ;)

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