segunda-feira, 30 de junho de 2014

Bom Dia - Conto Sensual



      O Sol acariciava o rosto de Cristine, cochichando-lhe para que despertasse, pois o dia começava. Sonolenta, esfregou os olhos e bocejou. Olhou para o lado e apenas uma rosa vermelha enfeitava sua cama. Sorriu, fechou os olhos e disse bom dia. Sem resposta. Abriu os olhos e percebeu que estava sozinha no quarto. Esfregou os olhos mais uma vez, levantou-se e vestiu uma camisa branca. Tinha o cheiro dele...

      Olhou para o chão e sorriu. Um rastro de pétalas vermelhas que ia até a porta atraia Cristine com pensamentos pervertidos. Sorriu, deitou-se e se lembrou da noite intensa e prazerosa que tiveram. Ainda sentia o gosto dos beijos, o toque na nuca, as mãos em suas entranhas, as carícias, os arrepios... Levantou-se novamente e seguiu as pétalas.

      Chegou à porta da cozinha e teve a visão mais maravilhosa para uma manhã romântica. Encostado na mesa estava aquele que levara-a ao delírio, Fabrício. Nu e segurando uma rosa que mal tapava-lhe o sexo, sorriso iluminado, cabelos desarrumados e atrevido no olhar. Despia-a com o pensamento mordendo o lábio inferior, olhando-a de cima a baixo. Cristine sorriu e olhou Fabrício também, da cabeça aos pés, jogou os longos cabelos para o lado e foi se aproximando, desabotoando a camisa. Fabrício abriu os braços e aconchegou-a, carinhosamente.

     Olhando sobre seus ombros, Cristine viu a mesa posta, com um simples café da manhã e também com uma cumbuca de morangos grandes e bem vermelhos. Fabrício beijou-a e ao mesmo tempo pegou um morango, olhou em seus olhos e lhe ofereceu o morando em sua boca. Cristine mordeu e encostou seus lábios nos dele. De olhos abertos e brilhantes degustaram o beijo com sabor de morango, até o fim.

      Fabrício puxou a cadeira e ajeitou Cristine, nua, para servir-lhe o desjejum. Conversavam bobeiras e se perdiam em olhares apaixonados. Por baixo da mesa Cristine acariciava Fabrício com os pés, deixando-o lindamente irresistível. Adorava fazer seu homem sentir prazer, e sabia muito bem como fazê-lo.

      Comeram pouco, pois a vontade de se grudarem novamente era maior do que a fome. Fabrício levantou-se, puxou a mão de Cristine que também se levantou, pegou-a no colo com ela entrelaçando suas pernas em seu quadril, beijaram-se longamente e voltaram para o quarto.

      O dia estava apenas começando e com certeza não teriam nenhuma pressa que acabasse. Tinham pressa de se terem, de se darem amor, prazer... O dia continuaria até à noite... E até a próxima manhã, quem sabe...

      Fim.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Insônia


Já fiquei dias e dias acordada, rolando na cama de olhos fechados, mas acordada. E via o relógio funcionar segundo a segundo até amanhecer. Um horror!

Ainda hoje guardo os resquícios de depressão e a insônia me faz lembrar de vez em quando que a noite é longa, muito longa.

Tenho meu ritual: um banho morno, cama confortável, música, e uma fresta de luz no quarto. Fecho os olhos e fico quieta, sem pensar em nada. Às vezes funciona, às vezes não.

Tem dias que não consigo não pensar em nada. Se me deito pensando em algo é quase certeza de que terei poucas horas de sono. Me rendo às músicas calmas, tranquilas, como gosto, e me esqueço do que aconteceu ou do que provavelmente acontecerá. Deito de lado, abraço meu travesseiro e relaxo... A partir deste momento não me levanto por nada durante a noite toda. Caso eu acorde e me levante, não durmo mais. Sem falar que odeio me levantar durante a noite.

Cheguei à conclusão de que preciso de cinco ou seis horas de sono para acordar bem. Nada mais que isso. E nem consigo dormir mais que isso.

Em noites de insonia meu corpo dói... De ficar rolando de um lado para o outro, de ficar abraçando o travesseiro, de ficar de bruços, de ficar pensando, pensando, pensando... E o pouco que durmo acordo com o corpo mais dolorido ainda.

Nossa mente acaba sendo um complô e nem sempre conseguimos dominá-la.

Quando tenho a sorte de dormir na primeira fechada de olhos e quando é dia de insônia acordo sempre por volta das três da madrugada. Na rádio que deixo ligada a noite toda ouço a Voz do Brasil. Alguém se lembra? Alguém em sã consciência já ouviu esse programa obrigatório na rádio? Então, eu já.

Há uns tempos eu tinha TV no quarto, mas não tenho mais. Só o rádio me basta e tem que ficar ligado a noite toda. Acho que é por isso que não consigo ficar sem música. O cérebro já se acostumou com ela.

Sem falar que silêncio absoluto e escuridão me travam. Me lembro de uma infeliz noite em que acabou a energia e eu acordei. Escuro total e silêncio... Já "ouviram" o silêncio? Medonho! Não consigo achar outra palavra, é medonho! Travei de uma maneira que não conseguia me mexer e mal respirava. Suei frio, olhos arregalados tentando achar um fiapo de luz em algum lugar, taquicardia, pavor... Pavor! Deve ter passado várias noites até ter coragem de, finalmente, me levantar e ir até o banheiro onde o vitrô com certeza me daria alguma visão de luz vinda da Lua ou das estrelas. Quando abri a porta do banheiro a luz voltou... Respirei aliviada, corri na cozinha e peguei vela, fósforo e uma xícara pequena para servir de apoio para a vela. Desde então esse é meu arsenal de sobrevivência noturna, caso a luz fuja de meu controle. Só abrir a gaveta do criado-mudo e pegar meu kit de luz. E tem também meu celular, aliás dois celulares e um ipod que ficam do meu lado. Só pressionar um botãozinho e a luz aparece. Então não será por falta de luz que vou ter aquele pavor novamente.

Parece brincadeira, palhaçada ou coisa de gente medrosa. Pode ser que sim, mas ainda não consegui dominar esse pavor. Quem sabe com o tempo eu consiga encarar a escuridão apagando e acendendo a luz e tendo a certeza de que tudo está devidamente no seu lugar e que ninguém estranho invadiu meu quarto para respirar perto de mim. Um horror!

Um dia de cada vez, com pensamentos bons, orações de agradecimento, kit de sobrevivência, música, fresta de luz, aliás duas frestas de luz para garantir uma visão perfeita de tudo que há no meu quarto e uma esperança de uma longa noite tranquila. Depois acordar, me olhar no espelho e agradecer mais uma vez pela tranquilidade da noite, pelos bons sonhos... Ah, sim, sem falar dos pesadelos que tenho... Mas vamos deixar isso para lá. Focar no bom, no tranquilo... Sempre! Até a noite seguinte, como agora que estou acabando de escrever e já vou me recolher.

Boa noite então, bom dia para quem vai ler de dia, bom fim de semana e bons pensamentos sempre!


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Show

Alguns shows que eu adoraria ter assistido de perto...









Hoje faz cinco anos que nosso eterno rei do pop se foi... Parece que foi ontem... Saudades!

Música, sempre nos salva de alguma situação, seja solidão, seja pra relaxar, pra lembrar, pra chorar, pra se soltar, pra cantar, pra encher o blog quando não se tem um bom texto... Música, sempre!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Prazer Platônico


      Carolina, num daqueles dias estafantes, com faxina por fazer, pia cheia de louças para lavar, roupas para colocar na máquina de lavar, dor de cabeça, angústia, tristeza, choro... Algo não estava indo bem nesse casamento de doze anos, onde ela, por opção, resolvera ser dona de casa abandonando uma profissão em que seria bem-sucedida. Não tinham filhos e isso deixava-a agoniada, pois o esposo se tornara um robô, apenas cumprindo os deveres de esposo e nada mais.

      Não sabia dizer se arrependera ou não de ter mudado radicalmente a vida abandonado seus sonhos, sua profissão e sua liberdade por um casamento que há tempos não era mais aquele mar de rosas. Aliás, o casamento nunca fora um mar de rosas, mas como boa companheira sabia contornar todos os problemas domésticos e rotineiros, deixando até de participar seu esposo, resolvendo ela mesma algumas chatices corriqueiras.

      Agora se achava solitária, numa casa vazia, apenas objetos para serem limpos, arrumados, organizados, e um esposo indiferente que amava-a, mas raramente demonstrava algum gesto de ternura por ela. O sexo já se tornara automático, e ela usava de artifícios após a relação para poder relaxar e, sozinha, se satisfazer. O esposo nem desconfiava achando que tudo caminhava muito bem com ambos.

      Rodrigo não se importava em não ter tido filhos, aliás ele nunca quisera tê-los. E nem animais de estimação. Isto deixava Carolina deprimida, pois não tinha com o que se distrair. Tempos atrás ela até fez cursos de pintura em tecido, bordados, crochê, mas era muito pouco para uma mulher que gostava de produzir, criar, construir. Queria um pouco de emoção, de atenção, de carinho, de sexo selvagem, de gestos proibidos, pensamentos pervertidos, mas Rodrigo, sendo treze anos mais velho, não acompanhava a jovialidade da esposa. O tédio matava-a dia a dia. Tinha muito amor guardado, embutido, esperando uma oportunidade para desabrochar

      Sexta-feira, Carolina corria contra o tempo para colocar a casa em ordem e esperar pelo marido, como sempre fazia, para satisfazer seus desejos carnais. Rodrigo chegava, tomava um banho, jantava, olhava para ela, dava-lhe um beijo na testa dizendo que amava-a e arrastava-a para o quarto. Tudo era sempre muito automático e Carolina nunca tivera a coragem de conversar sobre esta situação com o esposo, pois sabia que ele nunca a entenderia e a condenaria, desconfiando de suas atitudes. Ela era muito calma e calada, preferindo concordar com a situação ao invés de enfrentar os olhos brilhantes e verdes do esposo, que lhe davam um certo temor quando os encarava. Então se fechava e permitia toda esta rotina.

      No quarto tudo era sempre igual: eles se deitavam, ele beijava-a, passava a mão em seu rosto, fazia uma declaração de amor, beijava-lhe o corpo, mas só quando estava de bom humor, e começava a relação, tudo muito rápido e automático. Pronto! Virava para o lado e dormia. Carolina ia para o banheiro, ligava a ducha e se enfiava debaixo. Sonhava acordada com um homem a beijar-lhe, tocando-a delicadamente, encostando-a na parede e prensando-a com seu corpo quente e másculo. Alguém que lhe beijasse loucamente a boca, lhe revirasse do avesso e que lhe desse tanto prazer que seria capaz de ficar um ano inteiro sem sexo, apenas com as lembranças de momentos intensos e inesquecíveis. Queria ser adorada e desejada mesmo que por um dia, por um estranho. Imaginava um lindo ator, às vezes um cantor popular desses másculos e jovens, e se deliciava com um homem maduro, comum, sem rosto, mas que tocasse sua alma através das mãos descobrindo em cada toque uma fonte de arrepio e desejo.

      Chorava enquanto a água escorria pelo seu rosto e lamentava por aceitar esta situação em vez de conversar com o esposo ou mesmo contar do que gostaria que ele lhe fizesse. O medo era maior do que a coragem. Se contentava com suas fantasias solitárias, com um homem sem rosto, com corpo forte, com boca quente, com voz macia declarando em seus ouvidos e a dar-lhe um prazer que nem o mais sensível poeta seria capaz de descrevê-lo.

      Fechou a ducha, se enxugou, colocou a camisola, algumas gotas de perfume e foi se deitar do lado do esposo, que a essa hora, já roncava como um porco, pronto para o abate. A tortura da semana já havia terminado e no outro dia tudo continuaria como sempre fora, com toda aquela rotina, todo aquele tédio que deixava-a aliviada, pois ainda faltaria uma semana para a próxima sexta feira, quando outra sessão de tortura aconteceria novamente.

      E assim continuaria vivendo, como Deus queria... Era como Carolina definia sua vida.

      Fim.

      Texto publicado em 26 de junho de 2012. Editado

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Chico 7.0

Um amigo disse que todas as mulheres deveriam namorar Chico Buarque...


Ontem foi seu dia de comemorar mais um ano de vida, de genialidade, de flores no jardim, de sorrisos, de inspiração, de borogodó... Ôoooo, exagero de homem, né?


Um dia ele ousou jogar pedra na Geni, depois construiu como se fosse o último, brincou com a roda, falou de João e Maria...


Pecou com o cálice, se despediu do Brasil, estourou com a última gota d'água, dançou com a bailarina, consolou dizendo que vai passar, perguntou o que será?


Chorou atrás da porta, se partiu em pedaços, se fez tatuagem, lembrou dos anos dourados, ahhh, falou de amor, do dia a dia, de gente humilde...


E olhou nos olhos... bem fundo...

E tantas e tantas outras coisas...

Um jovem senhor talentoso... Que ainda joga uma pelada, que ainda se reúne com amigos, que bebe, que vive, como se ninguém estivesse olhando...

Simplesmente Francisco Buarque de Hollanda, Chico, pra nós, os mais íntimos.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Inocente

Cena do filme "Divã", do livro de Martha Medeiros

      Depois de um banho rápido e uma vaporada de perfume na nuca, Paula pegou sua maleta e as chaves, se despediu do marido com um leve beijo para não borrar o batom e se foi. Dentro do carro virou o retrovisor para si e deu uma última olhada na maquiagem para ver se estava tudo perfeito. Nem precisava disso, pensava ela, mas se cuidar é bom, concluía, sorrindo.


      Paula era do tipo mulherão, dinâmica, bem sucedida e independente nos seus 36 anos.Era administradora  numa empresa de importação e exportação de material esportivo, e não tinha filhos. Não pensava neles ainda e já cogitara com o marido em não tê-los. Seus planos eram muito ousados, e filhos teriam que ser muito bem cuidados por ela e não por babás e escolas. Tinha consciência de que uma boa educação se começava em casa e abrir mão de um futuro promissor ainda não estava nos seus planos.

      No trajeto para a reunião muitos pensamentos lhe atordoavam e o que mais lhe corroía era o quanto amava o marido Maciel.

      Maciel, 46 anos, lindo, bem-humorado, bem-resolvido, um gentleman, e excelente marido. Era o retrato da família perfeita e que causava inveja principalmente nos familiares que se diziam insatisfeitos com a vida.

      Paula se lembrou de seu casamento e do quanto foi tudo perfeito, amigos, família... A lua de mel dos sonhos... A casa própria... Enfim, tudo perfeito. E era impossível não se lembrar sem estampar um sorriso no rosto.

      Ao longe avistou o local de sua reunião: Motel Paradiso. O coração disparou, um gelo lhe tomou o estômago, respirou fundo e sorriu.

      Na portaria perguntou pelo quarto de sempre, duas vagas na garagem com uma delas já ocupada; um luxo. Abriu a porta e pelo caminho até a cama pétalas de rosas vermelhas, na mesa de apoio um balde de gelo com um champagne e uma cumbuquinha com morangos bem vermelhos e grandes. Um sorriso mostrando os dentes perfeitos e uma rosa na mão aguardava-a na cama. Adriano.

      Ah,  Adriano... Sua perdição de longa data... Daqueles homens que se percebe pelo cheiro quando se aproxima, pelo toque inesquecível na nuca... Se aproximou, se jogou na cama e deu-lhe um longo beijo apaixonado, quente, de tirar o fôlego. Adriano era o tipo de homem envolvente, sedutor e que sabia onde tocar a mulher, na hora certa, sussurrar nos ouvidos, amar enlouquecidamente até desfalecer. 

      Paula e Adriano eram unha e carne no sexo. Não precisavam falar nada; sabiam exatamente o que o outro queria. Não podiam e nem conseguiam ficar longe por muito tempo. Batia a vontade, a saudade, a paixão, o desejo e se não extravasassem, enlouqueciam.

      Ficariam horas, dias, meses enfiados numa cama de motel se assim fosse possível, mas cada um tinha a sua vida. Paula com o marido Maciel, e Adriano com sua linda Olívia, dedicada, boa mãe, excelente companheira, perfeita!

      Se sentiam culpados? Não, já haviam se conformado com a situação. Nunca sequer cogitaram a possibilidade de serem marido e mulher. O que os unia era a carne, o pecado, o sexo... Casamento era família, união, amizade, amor, respeito. E não arriscariam suas vidas felizes e confortáveis por uma paixão louca.

      Passado quatro horas, tomaram banho, vestiram-se e foram cada um para sua família. O próximo encontro? Quando desse vontade...

      Chegando em casa Paula esperou por Maciel para o almoço, que logo chegou, beijou-lhe carinhosamente, disse=lhe que amava-o e que não conseguiria viver sem ele. E ele, num gesto fraterno, disse que cuidaria dela até o fim de seus tempos.

      Almoçaram e voltaram ao trabalho, agora no escritório, e continuaram felizes cada um de seu jeito.

      Texto publicado em 10 de agosto de 2012 - Editado


segunda-feira, 16 de junho de 2014

E Então Acordei Assustada

   
      Não sei como esse homem me achou, só sei que corria muito dele por uma estrada comprida, levantando as saias de meu vestido que vez ou outra me faziam cair naquela terra úmida, pós chuva, cobrindo meus joelhos com lama. Rapidamente me levantava e continuava correndo. Olhava para trás e ele continuava a me perseguir, quase me alcançando.

      O vento frio de outono cortava meu rosto e jogava meus longos cabelos cacheados para trás, esvoaçantes e rebeldes, balançavam em harmonia e tapavam meu rosto quando virava para trás. Continuava a correr. Já estava escurecendo e não tinha para onde me esconder. De um lado da estrada um abismo com o mar azul escuro aumentando a maré e batendo nas pedras, espalhando espuma branca por toda a orla. Do outro lado uma floresta fechada, um labirinto que se alguém se arriscasse a entrar, com certeza não sairia nunca mais. O homem me perseguia, eu gritava mas a voz embargava. Comecei a ficar ofegante e meus passos diminuíram. O homem me alcançou, puxou-me pelos cabelos fazendo-me encurvar o corpo para trás. Olhou bem nos meus olhos e deu um sorriso sarcástico. Eu cuspi no seu rosto e ele me deu um beijo na boca. Nojo! Limpei meus lábios com o braço, esfregando várias vezes, tentando tirar o gosto de álcool, com hálito quente daquela boca carnuda.

      Ele me puxava pelos cabelos arrastando-me pela estrada até encontrar um caminho numa rua estreita que seguia direto para o farol, que ficava à beira do mar. Este estava bem agitado.

      Naquela época, mais precisamente em 1832, as jovens eram sacrificadas quando não queriam se casar com os homens que as escolhiam. Se revoltavam, se rebelavam, mas de nada adiantava. Acabavam mortas, ou enforcadas, ou lançadas num penhasco que tinha o mar como chão. 

      Era para esse lugar que o homem forte, bonito, mas nojento, vestindo roupas mal cheirosas, cabelos pretos e longos, barbudo e um nariz comprido e pontiagudo que parecia o bico de um papagaio, me levava.

      Me segurava pela cintura, me levantando e me mandava ficar quieta. Gritava, mas minha voz continuava embargada; então ele repetia várias vezes, mas sem precisar gritar, para eu ficar quieta. Eu me debatia, tentando me livrar de seus braços, mas a força do homem era infinitamente maior que a minha.

      Ainda me segurando pela cintura apenas com um braço subimos a escada em forma de caracol e chegamos ao topo do farol. Grandes janelas nos mostravam o céu com algumas estrelas e alguns raios de sol do outro lado, da floresta. O mar batia nas pedras e fazia um barulho ensurdecedor; gaivotas voavam por ali tentando pegar algum peixe que estava mais na superfície. Um vento gelado uivava competindo com o barulho das ondas e com o canto das gaivotas. Entrava pelas janelas e esvoaçava nossos cabelos, quase que entrelaçando-os, num balé de quase fim de ato.

      O homem me levou até uma janela que ficava do lado mais fundo do mar, segurou meu rosto e me mostrou a linda paisagem. Cochichou alguma coisa no meu ouvido, mas que não consegui entender, com sua enorme mão me segurando do queixo me virou bruscamente o rosto de frente para o seu e mais uma vez me beijou fortemente. Mordi seu lábio inferior que sangrou, então ele se afastou e me deu um tapa no rosto, ainda me segurando firme pela cintura, com seus longos braços entrelaçados. Continuava a me debater, mas estava praticamente imóvel e exausta. Ele começou a me xingar, mas não conseguia entender nada do que ele dizia. Sabia que estava xingando pela expressão de ódio em seu rosto. Mais uma vez ele moveu meu rosto, me mostrando a paisagem que seria a última visão que eu teria. Tentava gritar e não conseguia.

      Num movimento rápido, ele me levantou e me sentou no parapeito da janela. Olhei para baixo e senti vertigem. Gritava, mas era inútil. Mais uma vez ele cochichou algo no meu ouvido e me empurrou para o abismo.

      Neste momento, gritei tão alto que as gaivotas voaram assustadas todas para um mesmo rumo. Segundo a segundo eu via aquele homem se distanciar de meus olhos enquanto eu caía. Um frio tomou conta de meu corpo, meus cabelos longos taparam meu rosto antes mesmo de meu corpo tocar o mar agitado. Parecia que a queda não teria fim. Senti falta de ar, como se minhas narinas estivessem fechadas e meu grito abafado tivesse cortado minha garganta impedindo a saída do ar. Fui caindo e desfalecendo. O barulho do mar era cada vez mais forte, mas já não me importava de morrer. Queria me livrar daquela sensação de morte. Queria a morte de uma vez por todas. Praticamente já sentia as gotas do mar respingando meu corpo. Abri os braços e me entreguei!

      E então acordei assustada, sentindo falta de ar, arrepiada e suando frio. Acendi a luz e fiquei olhando para o teto. Cobri meu corpo dos pés até o nariz, deixando somente os olhos de fora. Que homem era aquele? Não me lembrava de seu rosto, apesar de tê-lo visto nitidamente durante o sonho. Liguei a TV e o rádio. Aquele pesadelo não saía de minha cabeça e até olhei debaixo da cama para ver se o homem estava por lá. Tomei coragem, levantei-me e fui até a cozinha beber água. Estava tremendo. O silêncio da noite era medonho, então voltei para o quarto, me cobri de novo e assim fiquei tentando não dormir com medo de sonhar de novo com aquele homem estranho e asqueroso que queria me matar.

      Será que foi algum resquício de uma vida passada? Comecei a ligar o sonho com o meu pavor de altura e de mar. Será que fui visitar e reviver uma encarnação passada? Que importa isso?  Minha vida é agora!



      Fim.

      Texto publicado em 01 de março de 2013.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Entendendo o Homem


      Tanto se fala em homem que não entende mulher, que homem é cruel, folgado, aproveitador, canalha etc... Mas e se nós, mulheres, nos colocássemos na pele do homem? Já fizeram isso?

      Muitas mulheres quando amam a primeira coisa que tentam fazer é modificar a característica do homem. Não estou falando de caráter, mas sim da diferença imensa que temos. Eu adoro essa diferença.Também confesso que tenho um pouco da alma masculina, entendo muitas coisas, não entendo outras tantas, mas aceito o homem como ele é, do mesmo jeito que gosto que ele me aceite como eu sou, sem tentar me modificar.

      Mulher é complicada, tem os altos e baixos, é minuciosa, carente, requer muita atenção, gosta de ouvir respostas, gosta de detalhes, gosta de ser notada e cuidada.

      E homem é prático, seco, claro e rápido. Simples...

      Mulher é emoção, sentimento...
     
      Homem é visão, prazer...

      Nem todos são assim, claro que existem as exceções, mas geralmente são assim mesmo.

      Muitas atenções que queremos para eles são apenas futilidades. E são mesmo, pura frescura.

      Por que um homem iria reparar que cortamos meio milímetro do cabelo? Ou que mudamos a cor do batom ou que emagrecemos 300 gramas?

      Agora, experimente ficar sensual, com uma lingerie nova, um perfume gostoso, um carinho especial, um agrado, seja o que for... Ele vai perceber na hora! Homem gosta de sexo e sempre estará pronto.

      Também não estou falando de amor. Homem e mulher amam do mesmo jeito, sofrem, choram, sentem saudades... tudo igual.

      Qual o problema dele ficar olhando fotos de mulher nua? Deixa ele olhar.  Ele vai fazer isso, perto ou longe de você.

      É horrível, eu sei, um homem que lhe acompanha ficar girando o pescoço toda a hora para olhar alguma que passa por aí. Mas homem olha mesmo, fazer o quê? Vale conversar e explicar que isso magoa. E muito!

      Mulher tem todo um jeito especial de pedir coisas, de fazê-lo entender do que não gosta... Então, use esse jeito, menina!

      E por que implicar tanto com ele e com o futebol? Por que não sentar ao seu lado, beber algo e beliscar algum petisco assistindo o futebol? Só não vale ficar fazendo perguntas idiotas. Para isso existe o Tio Google. Não é tão ruim assim. Aliás, é ótimo torcer no futebol. E péssimo é você competir com a bola. Vai arriscar?

      Agora, se você começar a implicar demais ele vai acabar indo em outro lugar assistir com os amigos. E aí, meu bem, só Deus toma conta! Braveza nunca segurou homem em lugar nenhum.

      Por que insistir para ele lhe acompanhar no shopping se ele não gosta? É da natureza dele, não gosta e ponto final. Vá sozinha, com os filhos, com as amigas e compre tudo que quiser, sem pressa e sem cara feia lhe chamando o tempo todo para ir embora.

      Aliás, saia com suas amigas, tenha um tempo só seu enquanto ele tem o tempo dele com os amigos dele. Não fique vigiando. Se ele quiser vai lhe trair querendo você ou não. Deixe-o livre, mas faço-o entender que nem tudo você aceita e que se não for bom para você ou se algo lhe incomodar, vai ter discussão sim. Ele tem liberdade tanto quanto você. E respeito é bom e todo mundo gosta.

      Trate-o bem sem se tornar uma doméstica ou uma empregada de cama. Tenha seu espaço, combine tudo antes, o andamento da casa, e não seja paranoica. A casa é tanto dele quanto sua.

      Deixe ele ficar mais preocupado com você do que você ficar preocupada com ele.

      Se respeite primeiro e respeite ele também. Se ame primeiro para depois amar o homem. Não seja dependente dele o tempo todo. Compartilhe a vida e não coloque a sua nas mãos de homem nenhum e nem tome a vida dele para você. Isso gera rotina e comodismo.

      Faça suas escolhas, desde roupas, acessórios até lugares que gosta de ir com ele. Se não gostar de algo vai lhe falar e aí você troca, se assim entrarem num acordo. Lembre-se que você não nasceu grudada nele e antes escolhia tudo sozinha, não é?

      Converse com seu homem quando vocês estiverem descontraídos e discuta a relação quando acontecer algo que não lhe agrada. Não amanhã ou daqui um ano. Faça no momento em que acontecer. Homem tem memória curta. Se você brigar por conta do passado talvez ele se cale, você vai pensar que ele está concordando com você, mas para não brigar ele nem sabe do que você está falando.

      Controle seu ciúmes. Isso é horrível e ninguém merece passar por cenas constrangedoras.

      Nunca se esqueça, minha querida, você o conheceu assim e se ele quiser mudar para melhor, por você, será de livre e espontânea vontade. Você idem!

      E dentro de sua casa - acho que não preciso falar isso, mas vou falar - o assunto é entre vocês dois; exclua os pais, os sogros e principalmente os amigos. Só vocês dois!

      Eu costumo ser perguntadeira, e ao longo de minha vida, algumas perguntas que fiz tive respostas satisfatórias:

      - Um amigo me disse que a primeira olhada que ele dá é nos pés. Por que? Porque se os pés estiverem limpos, arrumados, bem cuidados, é sinal de que o resto do corpo também está;

      - A grande maioria disse que prefere a mulher mais ao natural, sem muita maquiagem, sem muitos apetrechos; mas sabemos que quando passa uma gostosa, eles vão virar o pescoço, mesmo disfarçando;

      - Se eles nos falam que estamos lindas, que a roupa ficou ótima, é porque ficou mesmo; 

      - Preferem mulher bem humorada e que não fica reclamando de coisas sem fundamento;

      - Mulher fresca, mulher exibicionista, mulher egoísta, egocêntrica, mulher burra... Só para sair e nunca mais; 

      - O que eles querem, acreditem meninas, é ter uma dama de companhia no convívio social e ao mesmo tempo uma dama sem pudores, nem medos, nem tabus, sem frescuras e não-me-toques entre quatro paredes;

      - Eles gostam de variar, gostam de novidades, gostam de surpresas, de ousadias inesperadas, tudo bem discretamente, nada de ficar telefonando e exigindo que ele diga que a ama na frente de todo mundo. Para quê isso? 

      E que seja eterno enquanto dure.

      Falei muita besteira?

      Podem dar suas opiniões e me corrigir, dar opiniões, sempre!

      Texto publicado em 09 de janeiro de 2012




quarta-feira, 11 de junho de 2014

Vamos Namorar?


Dia dos namorados...

Como é fácil se encantar por palavras doces, beijos quentes, sussurros indecentes...

Que encanto é esse que nos faz perder o tino e soltar o riso?

Fácil demais se perder na luz dos olhos, nos beijos no canto da boca, na pegada do cabelo...

Que delícia se o mundo parasse quando estivéssemos namorando... E que cada segundo se tornasse uma eternidade...

O cuidado em oferecer uma rosa sem espinhos, um perfume amadeirado, um anel do tamanho exato, um chocolate meio-amargo, um jantar numa lanchonete, um par de tênis All Star, um cinema com filme de guerra, ou simplesmente pegar a bicicleta, colocar a amada na garupa e descer ladeira abaixo, gritando como loucos, espalhando para todo o mundo que o amor existe, que é contagiante, que é necessário e não cabe no peito.

Vamos namorar?




segunda-feira, 9 de junho de 2014

Nem Tudo é Por Acaso


      Ainda estava chuviscando quando Helena saiu de casa, batendo a porta de casa, sem rumo. Estava cansada da vida e não queria mais voltar para aquele lugar onde simplesmente a maltratavam. Eram cobranças e mais cobranças, humilhações, palavras grosseiras, xingamentos...

      Sentada na calçada e arrepiada de frio várias lembranças lhe vieram à mente. Como no dia em que sua mãe trancara-a no galinheiro, quando passavam o fim de semana na chácara, com o Sol do meio-dia a queimar-lhe a pele branca, sem água, por um longo período. Helena ficava sentada num canto observando a vida das galinhas. Ciscavam, olhando para os lados e depois bicavam algo que achavam no chão. Depois se ajuntavam num canto com sombra fresca e ficavam cochilando. E como um relógio londrino pontualmente se empoleiravam em seus devidos paus para passarem a noite. As lágrimas lhe escorriam pelo rosto quando a mãe finalmente lhe permitiu voltar para casa. De cabeça baixa andava sem pronunciar nenhuma palavra. Entrava no quarto e se jogava na cama. Mas sabia que era tempo suficiente para sua mãe entrar e lhe mandar tomar banho, pois onde já se viu deitar na cama fedendo a galinheiro? Mais uma vez obedecia, calada.

      Sem saber que aquele lugar era perigoso, Helena continuava, chorando, de cabeça baixa. Carros passavam, buzinavam, mexiam com a garota e até ensaiavam uma parada para conversar com ela. Sorte que nunca acontecera nada com a jovem. Como dizia sua mãe, apesar de todas as agressões, que seu santo protetor era forte e estava sempre de prontidão porque por ela já estaria morta e enterrada.

      Helena não entendia o motivo de tanta agressividade. Ainda distraída sentiu um arrepio quando uma mão tocou-lhe o ombro. Olhou e não viu ninguém. Levantou-se e começou a caminhar, ainda de cabeça baixa e olhando para trás o tempo todo. Sentia que estava sendo seguida. Acelerou os passos. Começou a correr e atravessou a rua sem olhar para os lados. Não percebeu que um carro vinha em alta velocidade. Antes de chegar na metade da rua, tropeçou e caiu. As rodas passaram rente a sua cabeça arrancando-lhe alguns fios de cabelos. Helena levantou-se assustada, ofegante e começou a chorar compulsivamente. Um vulto, uma luz clara estava a sua frente e lentamente foi sumindo. Chorou...

      Na calçada olhava para os lados sem entender o que acabava de acontecer e correndo voltou para casa. Antes de entrar ouviu sua mãe desesperada ligando para a delegacia dizendo que sua filha havia sumido, que era sozinha e que não podia perder a única coisa preciosa que tinha no mundo. Helena se escondeu e chorou mais ainda. Viu a mãe sair aflita no portão e gritar seu nome. Limpou as bochechas encharcadas de lágrimas, saiu do esconderijo e se colocou frente a sua mãe.

     Compulsivamente a mãe correu e lhe abraçou, mas em questão de segundos empurrou-a e começou a lhe dar tapas na cabeça, xingando-a de vários nomes, alguns novos, outros antigos, outros tão ofensivos que Helena tapou os ouvidos, entrou e se trancou em seu quarto. Um sussurro lhe fez arrepiar, dizendo-lhe: "Aguente firme, falta pouco...". Helena levantou-se e ficou encostada na parede, num canto, olhando cada canto daquele pequeno cômodo úmido e bagunçado. Apenas uma cama velha e um guarda-roupas  sem uma das portas mobiliavam seu quarto. A luz era fraca para evitar o desperdício, como dizia sua mãe. Uma pequena janela mal ventilava e mal dava para entrar os raios de Sol.

      Helena se assustou com os murros que sua mãe dava na porta, mandando-a abrir pois merecia uma surra maior. Amedrontada, Helena escorregou o corpo na parede e sentou-se, abraçando as pernas. Deitou a cabeça nos joelhos e chorou como uma criança indefesa. Sentiu uma mão acariciar-lhe a cabeça. Arrepiou, se levantou assustada e abriu a porta. Preferia enfrentar a surra da mãe do que lidar com o desconhecido. Abraçou-a, dizendo que amava-a, e que não faria mais isso, que não mais fugiria. Clotilde, a mãe, ainda tentando se desvencilhar do abraço inesperado da filha, cedeu ao apelo indefeso e chorou também. A impressão que Clotilde tinha era que a pequena Helena não havia crescido, que ainda era aquela pequena gorduchinha de cabelos cacheados, amorosa, querida, indefesa, que num certo momento de fúria de seu falecido marido, ficou no meio dos dois numa briga. O pai estava armado e ela, calmamente, mesmo com pouca idade, conseguira tirar-lhe o revólver e este, sem querer, disparou direto em seu coração. Morte instantânea. Apesar das constantes ameaças e das surras, Clotilde defendia o marido. Era um homem bom quando estava sóbrio, dizia para todos. Um dia ele para de beber e tudo fica na paz, repetia incansavelmente, como um mantra, na esperança dos céus ouvirem e lhe concederem essa graça.

      Por uma bênção de Deus Helena não se lembrava desse dia. Clotilde se sentia perturbada até então, pois o grande amor de sua vida, mesmo que agressivo, lhe fora arrancado assim, por uma criaturinha tão indefesa.

      Clotilde se rendeu ao abraço carinhoso da filha e chorou... Pediu perdão a Deus, e a ela. Mentalmente, pois ainda não se sentia capaz de dizer palavras doces naquele momento. Era um começo, uma redenção, uma libertação. Questão de tempo para viverem bem a partir daquele dia.

      Clotilde se tornou mais serena, mais tranquila e casou-se novamente, com o dono da barbearia em que seu marido frequentava. Não o amava, mas era uma pessoa decente, calma, metódica e respeitadora. Uma vida tranquila e sem novidades para as duas. Helena ainda tinha crises de choro, ainda se assustava com clarões, com barulhos estranhos, com mãos geladas, com arrepios, mas sabia que com o tempo tudo sumiria, ou então aprenderia a lidar com seus pavores mesmo nunca mais ter sentido a presença do desconhecido, da mão no ombro, do afago na cabeça e nem dos sussurros.

      Fim.

      P.S. Eu não terminaria o texto dessa forma, decifrando tudo, mas sei que muitos ficariam indignados e curiosos, então aí está o final, redondinho.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Amor Está No Ar


Dia dos namorados... Daqui a pouco! 


Tá namorando? Cuide bem do seu amor...


Pode até ser uma data comercial, mas se está amando e sendo amado, por que não caprichar?



Um ótimo fim de semana pra todos!

Ah, tem a Copa justamente no dia 12... Então, a Copa não será o dia todo... 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Adélia Prado

Dia dos namorados chegando... Romance no ar...


Amor Feinho

Eu quero amor feinho
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão, 
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

Do livro: Bagagem. Adélia Prado.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Meu Mal-Querer


      Sentada num canto do quarto e ainda sem entender o que acontecera, Alexia se culpava o tempo todo. Tantos planos, tantas declarações de amor eterno, surpresas inesperadas, visitas em horários aleatórios, bilhetinhos, paixão avassaladora... Tudo lançado ao vento, ao tempo... Para que leve de uma vez e deixe-a somente com sua dor. Um luto desnecessário, porém não havia outra explicação. Ele tinha outra.

      Há algum tempo já havia percebido sua sutil indiferença. Reclamava de tudo, culpando-a por sua falta de interesse, sendo agressivo e mal-educado nos horários mais inoportunos. Alexia aguentava calada para não piorar mais a situação. Talvez seria somente uma má fase, algum problema profissional ou de família que ele não queria comentar.
   
      Foi se fechando em seu mundo, desenterrando diálogo por diálogo tentando descobrir em qual palavra, qual atitude não agradou seu amor. Reconhecia que era uma mulher de fases, com dias completamente insuportáveis de se conviver, mas ele sabia e se afastava, ou então ficava quieto esperando tudo passar. Era paciente.

      Um dia ele chegou e simplesmente falou tudo o que não precisava, acusou Alexia de atitudes que antes eram toleráveis, humilhando-a com palavras rudes e gritos, pegou o pouco que tinha em sua casa e se foi. Acabou mesmo.

      Decepcionada por não ter sido capaz de ter dado o que tanto seu amor lhe pedia, Alexia se sentiu incapaz e feia. Nunca mais se olhou no espelho, nem penteou os cabelos, nem usou perfume e nem batom coloriu sua boca carnuda. Tinha a certeza de que nunca mais ninguém a olharia como mulher, como fêmea. As palavras do amor de sua vida lhe martelavam a mente, fazendo com que acreditasse que ele realmente tivesse razão. Se sentiu horrível e desprezível. Como não percebera o quão ridícula era? Será que simplesmente a toleravam o tempo todo? O amor de sua vida abriu-lhe os olhos e destruiu até o último grão de autoestima e respeito. A partir de então saberia qual seria seu lugar e de lá não sairia até que alguém a convencesse de que nem era tão insuportável assim. Nem as lágrimas lhe obedeciam como antes. Estava seca por dentro. Exalava repúdio pelos poros que nenhum perfume por mais concentrado que fosse lhe arrancaria desse estado de consciência real, mesmo que tardia. Estava acabada sua vida amorosa.

      Tirou licença do trabalho e ficou em casa, sozinha no silêncio e inconformada por não ter percebido a realidade. Sim, ele tinha razão em tudo o que havia falado.

      Um bom tempo havia passado e Alexia ainda cultivava um luto vivo e eterno de palavras mal-ditas e assimiladas instantaneamente de uma boca que deveria apenas lhe oferecer um hálito fresco e doces palavras de amor. Se ele não a amasse tanto não teria lhe aberto os olhos. Via-o vez ou outra com uma linda mulher, bem parecida com Alexia, um pouco mais gorda e de cabelos curtos, desalinhados. Não usava batom e nem salto alto. Ele tinha o ar de contentamento e demonstrava estar feliz com seu novo amor. Alexia olhava, reparava e não via nada de mais naquela pessoa comum. Achava apenas que ela o satisfazia em todas suas vontades e fantasias. Que bom para ele, pensava. E suas palavras voltavam quase que imediatamente queimando-lhe a vontade de continuar vivendo. Viveria sim enquanto tivesse seu tempo, e se assim teria que ser, assim seria.

      Enquanto andava de cabeça baixa e sem prestar atenção a sua volta uma rosa vermelha apareceu na sua frente. Alexia parou, ainda de cabeça baixa, e seguiu o percurso da rosa, da mão que a segurava e do braço até chegar ao belo sorriso. Parou no sorriso e percebeu um furinho no queixo do rapaz. Seguiu para os olhos e eles também lhe sorriram. Quando percebeu também estava sorrindo para o rapaz. Ficou imóvel até que o jovem comentou que seu braço estava doendo por fica naquela posição e se ela não pegasse a rosa teria uma cãimbra. Foi o suficiente para que ela soltasse uma pequena gargalhada e pegasse a rosa e levasse ao nariz. Fechou os olhos e inspirou seu perfume doce... O rapaz ainda parado a sua frente só observava o encanto da cena. Cruzou os braços e olhou-a de cima a baixo, deixando-a corada de vergonha. Se olhou também de cima a baixo para ver se tinha alguma sujeira na roupa ou um zíper aberto. Não, apesar da roupa simples estava tudo em ordem. Voltou os olhos para ele e ouviu: "linda".

      Se apresentaram e Gilberto disse que sempre a via passar por ali, de cabeça baixa, pensando na vida, então resolveu alegrar seu dia com uma rosa. Ela agradeceu. Enfim, por alguns minutos o luto se fez luz e Alexia reaprendera a sorrir. Trocaram telefone, mas Alexia jogou-o fora. As palavras daquele outro homem, do amor de sua vida, voltaram como um relâmpago lembrando-a de que não seria mais admirada e nem desejada. Talvez esse lhe tivesse dado atenção por pena ou caridade. Ou então seria a boa ação do dia dando-lhe a rosa para ver sua reação. Não arriscaria e nem suportaria ouvir as humilhações de novo. Melhor assim, deixar como está. A vida já era tão complicada e uma pessoa para lhe causar problemas e constrangimentos era o que menos queria. Não sofreria de novo, já estava decidido. Nos outros dias mudara de caminho, mesmo ainda tendo a doce lembrança do rapaz, Gilberto, com o furinho no queixo a lhe sorrir e lhe presentar tão gentilmente.

      Fim.