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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Um Possível Reencontro


      Algum dia tinha que acontecer. Então seria hoje que Cecília encararia sua dor pegando forças num lugar onde nem imaginava que existia, mas precisava ser forte. Um ano sem o filho Thiago, chorando praticamente todos os dias, vivendo por viver, e hoje, acompanhada do marido, iria ao seu túmulo.

      Acordou disposta, sem chorar, acendeu uma vela para Nossa Senhora das Dores lhe dar forças, orou e por uns bons minutos ficou sem pensar em nada. Um vazio enorme rondava sua alma... O silêncio era tanto que Cecília ouvia as batidas de seu coração, baixas, lentas... Que teimava em não parar por todo esse tempo. Morrera naquele dia em que tivera a certeza de nunca mais ver o filho entrando pela porta, com aquele sorriso largo no rosto, indo direto à geladeira beliscar alguma coisa, depois encher a caneca de alumínio com água gelada e virá-la, de uma vez, goela abaixo. Nunca mais!

      O quarto de Thiago ainda estava intacto, tudo no lugar, inclusive as correspondências que chegaram até meses após, todas em cima do criado-mudo, lacradas. Uma peça para o carro que comprara pela internet ainda estava na caixa, também lacrada. Nada mudaria, ordenou a todos. O quarto era dele e sempre será. Repetia isso insistentemente na esperança de um dia acordar e saber que tudo não passava de um pesadelo. Que Thiago entraria pela porta, abriria a geladeira, beberia água gelada e ficaria em seu quarto, ouvindo música no último volume. Bate-estaca, como ela sempre reclamava. Por que reclamava tanto, meu Deus? Ele só estava vivendo e Cecília reclamava! Como queria ouvir esse bate-estaca no último volume todos os dias!

      Colocou uma roupa discreta, um sapato confortável, amarrou os cabelos num rabo de cavalo e sem dizer uma palavra entrou no carro e ficou esperando Roberval levá-la. Antes passaria numa floricultura para comprar cravos. Sempre achou que cravo era flor de homem, apesar de não gostar de seu perfume. Tinha cheiro de morte...

      Chegando ao cemitério, Roberval estacionou bem em frente. Cecília, de cabeça baixa, desceu, esperou o marido lhe dar o braço e entraram. Continuou de cabeça baixa por todo o trajeto. Roberval já sabia o caminho pois sempre visitava o túmulo do filho. Sempre lhe pedia perdão por não levar sua mãe que não tinha condições de ir vê-lo. Chorava pouco, mas chorava no túmulo, como uma criança, soluçava, tapando os olhos com as mãos, sem se importar ser visto por alguém.

      No meio do trajeto Cecília parou. Roberval olha para a mulher e perguntou se estava tudo bem. Ela disse que sim mas temia não suportar e desmaiar. Melhor seria morrer logo de uma vez e acabar com essa tortura. Já estava morta por dentro, então não sofreria tanto com a passagem. Imaginava a alma lhe abandonando o corpo e Thiago a lhe esperar, com a mão estendida, puxando-a num apertado abraço.

      Mesmo com toda a dor no coração Cecília não chorou. Nem ela entendia porque não chorava naquela hora. Todos esses dias as lágrimas caiam... E agora num momento de profunda tristeza se surpreendeu com a força adquirida repentinamente. Foi Nossa Senhora, tinha certeza disso. Chegaram ao túmulo.

      Ainda segurando no braço do marido, ficou parada olhando para aquele concreto que separava-a de seu Thiago. Nem uma palavra, nem uma lágrima. Calmamente soltou o braço de Roberval e se aproximou colocando os cravos nm vaso de cobre, e acariciou a foto do filho. Não pensava em nada. Apenas olhava a foto, fechava os olhos e imaginava suas mãos tocando o rosto do menino Thiago, que dormia tranquilamente em sua cama. Cresceu rápido demais... Viveu... E se foi...

      Abriu os olhos e continuou com o carinho na foto. Roberval só observava, atrás dela, pronto para segurá-la caso desmaiasse. Também ficou surpreso com a força da mulher. Um ano sem o filho e tinha apenas um corpo da mulher. A sua Cecília nunca mais foi a mesma. Agradeceu a Deus por tê-la sempre ao lado, nos momentos bons e ruins e entendeu essa morte em vida e esse tempo para poder ir ao túmulo do filho. Também não chorava.

      Ficaram um bom tempo, em silêncio, sem choro, sentindo a brisa a lhes tocar a face, imaginando ser um sinal de Thiago a beijar-lhes. A dor continuava imensa, mas agora Cecília tinha certeza de que não era um pesadelo. Sabia onde seu filho estava e que não haveria volta. Nunca mais!

      Se despediram, voltaram como vieram, em silêncio e sem lágrimas, continuariam vivendo até quando Deus quisesse.

      Aos poucos e com o passar do tempo a dor daria lugar ao conformismo e à saudade. Doía, doía... Mas não tinha outro jeito. Esperar, viver, respirar... Morrer, assim como tem que ser. A morte em vida.

      Fim.

      Texto publicado em 02 de novembro de 2014

13 comentários:

  1. Te ler é lindo!Sempre bons textos, contos e inspirações tu mostras! beijos,linda semana,chica

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    1. Obrigada, Chica, isso entre nós é recíproco, sempre, gaúcha!
      Beijos

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  2. Clara, conseguiu traduzir em belas palavras a dor de uma mãe. Perder um filho deve ser realmente uma dor infinita. Parabéns por mais esse belo texto!
    Beijos

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    1. Obrigada, querida...
      Deve ser a dor mais insuportável do mundo e acho que todas as palavras ainda assim seriam poucas pra descrever esse sentimento.
      Beijos

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  3. Apesar do sofrimento, ler o que você escreve é ficar preso do princípio ao fim de sua narrativa.
    Você escreve cada dia melhor.
    Beijos.
    Élys.

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    1. Obrigada, Élys, sempre gentil nos comentários...
      Escrever é uma magia onde podemos ir onde quisermos...
      Beijos

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  4. Contaste uma história de uma forma comovente.
    Gostei do texto, bem estruturado e apelativo à leitura.
    Clara Lúcia, tem um bom resto de semana.
    Um beijo.

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    1. Querido poeta, um bom fim de semana!
      Beijos

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  5. Maravilhoso escrito, consegui ver tudo como se estivesse no conto.

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    1. Que bom, Patrícia! Atingir as pessoas com meus contos não tem preço!
      Beijos

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  6. Affff Que pesado, mas é a realidade, né? Fiquei lendo, com a respiração suspensa...Você vai fundo. Pensei em um sinal do Thiago, que ele fizesse alguma coisa, para serenar a mãe e o pai... Lindo, lindo.
    Beijo, Clara.

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  7. Olá, querida Clara
    Muito triste para quem é mãe e morre junto, naturalmente...
    Bjm fraterno

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  8. Ainda emocionante, como na primeira leitura. Beijo, Clara.

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