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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Morte Matada


Como já viram por aí, além da reforma ortográfica que causou um reboliço, agora estão querendo modificar novamente nossa amada e idolatrada Língua Portuguesa.

Me lembro de meu tempo de colégio, quando éramos obrigados a ler um livro por bimestre, Machado de Assis, José de Alencar, e outros tantos, e íamos muito bem, obrigada. Fazíamos resumo, interpretação de texto e tínhamos apenas onze anos. E nos saíamos muito bem. Afinal era matéria de prova e tinha que ser feito. Não havia escolha. Tínhamos que cumprir as tarefas e ponto final.

Me lembro de minha professora de Literatura, Dona Delze, uma senhora já na época e que não deve mais estar por aqui, altiva, voz firme, elegante e brava, muito brava. Hoje sei que não era brava, era enérgica. E, claro, ninguém gostava dela. Tínhamos medo. Olhava fundo nos nossos olhinhos e arrancava de nós poesias decoradas "Ora direis, ouvir estrelas...", "A última flor do lácio..." ambas de Olavo Bilac, e até parte da poesia Navio Negreiro, de Castro Alves. Tudo pesquisado em Biblioteca, copiado à mão e decorado linha por linha. Um show!

Dona Delze era uma dama. Hoje entendo-a perfeitamente e admiro-a mais ainda. Se falasse o que nos falou, na década de setenta, seria crucificada e quiçá apedrejada virtualmente. Dizia ela, sempre e sempre, que mulher foi feita pra enfeitar o mundo, e que os homens deveriam tratá-la com cuidado, carinho, proteção, amor, respeito... Os meninos riam e nós, as meninas, adorávamos. Claro que não tínhamos noção do que significavam suas palavras, mas era bom de se ouvir. E dizendo essas palavras não permitia que as meninas sequer apagassem a lousa, desejo de todos, e somente os meninos fariam esse trabalho em suas aulas. Que também incluía pegar algum lixo no chão, abrir janela, fechar cortina, abrir porta, enfim, todo o serviço era dos meninos.

Me lembro perfeitamente de tudo e amaria saber de algum aluno, homem, que seguiu seus conselhos tornando-se um gentleman, um respeitador, um educado e gentil com todos e não só com as mulheres.

Nesse mundo tão midiático, tão rápido e intenso de internet, os "sem rosto" esbravejam aos quatro cantos da tela soltando suas iras e dizendo o que não diriam, com certeza, se estivessem cara a cara. O anonimato se tornou uma arma poderosíssima e rápida. Isso me assusta muito. Mas, graças aos meus queridos mestres, como Dona Delze, que aprendi a ter bom senso nas minhas atitudes. Internet é ótimo, usada com moderação, claro. É no mundo virtual que vemos os absurdos que escrevem, tanto como opinião quanto a erros de português. Erros grotescos e totalmente descabidos. Erros amadores e primários, mesmo saindo de mãos de adultos. Ninguém é obrigado a saber de nada, mas falar e escrever corretamente a língua de seu país é uma obrigação, principalmente quando o ensino está tão fácil e tão acessível a todos.

Há uma inversão de valores onde as dificuldades são tratadas como empecilhos para uma boa educação e acham que é muito mais fácil simplificar tudo do que incentivar as pessoas a pensarem, raciocinarem, entenderem e dar sua opinião, segura, própria, sem se deixar influenciar por uma grande massa ou mesmo pelo governo. O governo, ah, esse nosso governo... Pra que iriam querer cidadãos pensantes? Heim?

Sinto pena das gerações futuras, que talvez não saibam nunca a beleza de uma língua, difícil e cheia de regras, harmoniosa e instigante. Pra poucos, garanto, um aprendizado eterno.

Não vou colocar link das mudanças que poderão vir, pois não aceito e não vou espalhar o que não concordo de jeito nenhum.

Tenham todos um ótimo fim de semana.


8 comentários:

  1. Clara, seu belo texto fez-me lembrar do meu professor de Literatura e Língua Portuguesa, que como a sua mestra, já não deve estar entre nós.
    Apresentou-se mostrando o anel de ouro em um dos dedos com as iniciais AAA.
    Almério Antônio Almeida. No seu rigor extremo era divertido. Lemos os clássicos, decoramos trechos de Camões e fomos bem, muito bem.
    Ainda que desmintam, está sim acontecendo algo de ruim, terrível com nossa língua. Alunos que saem do terceiro ano sem saber ler, terminam o fundamental sem conseguir interpretar. As letras de música... melhor parar por aqui.
    Fico com você: um aprendizado eterno!

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    1. O que o governo quer, Ana, são números, estatísticas. Pra que ia querer gente inteligente, pensante, num governo que começou com um que não estudou muito .No início a intenção dele era ótima e nós até ficamos com esperanças, mas tudo desandou. É uma pena matarem a nossa língua assim, sem dó...
      Fico triste, pois ela, apesar de ser tão complexa, não é tão difícil assim. Basta ter um pouco de boa vontade e ler, ler, ler...
      Beijos, Ana, boa semana!

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  2. Olá, Clara, como vai? Confesso que, com algumas mudanças, eu concordo, especialmente ortográficas no que tange ao fonético, porém, também não sou a favor de transformações exageradas que extirpem os recursos que tornam nossa língua tão especial.
    Sobre a tendência a diminuir possibilidades de raciocínio, lembro-me de alguns métodos novos que surgiram para resolver contas de divisão por dois números que tornam o processo exaustivamente longo, como se fosse por tentativa e erro... o que será desse aluno que aprende desse jeito no vestibular?
    Um abraço!

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    1. Então, mais uma vez quem terá mais chances de uma boa educação é que terá chance de entrar pra Universidade. Acho que por isso criaram tantas cotas. Pra tapar o buraco que iam formar, modificando nossa língua. Uma pena tudo isso e não posso compactuar com nada do que estão fazendo.
      Infelizmente só temos que lamentar. Pelo menos por enquanto.
      Beijos, Bia!

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  3. Tem toda razão Clara. Assim aprendemos a escrever- lendo um bocado,livros clássicos e fazendo muita redação. E quando se aprende uma coisa, dá gosto depois de lidar com ela. Estamos aqui com a nossa escrita. Estão simplificando, adulterando o idioma. Isso é absurdo. Como diria ,,,,quem? Acho que Fernando Pessoa. a lingua é a nossa pátria. Daqui a pouco mudam a bandeira tb. E qualquer dia, estaremos em matrix. Nada mais fará sentido, nem falar. Vixe. Pesadelo. Nem tanto. Mas tb acho inaceitavel essa mudança toda hora.Bjoss e boa semana. Cam

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    1. Camille, depois que comecei a escrever aprendi muito. Pensava que era boa em Literatura e Ortografia, mas que nada. Precisei reaver muitas regras, aliás nem me lembrava de tanta regra que tem nossa língua. Mas ler um texto sem erros, com harmonia e competência é outra história. Cativa o leitor, mesmo este não sendo tão culto ou tão graduado.
      A gente vive aprendendo e eu adoro aprender cada vez mais.
      Não queria estar viva pra ver essas mudanças esdruxulas acontecer. Não mesmo!
      Beijos, querida!

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  4. Essa polémica com o acordo ortográfico sente-se igualmente deste lado do Atlântico. Eu também sou um pouco reticente às mudanças, apesar de saber que as línguas são vivas e evoluem. Senão ainda escreveríamos Pharmácia, como antigamente.
    E por falar em línguas difíceis... sabe que comecei a ter aulas de chinês esta semana? Difícil é dizer pouco!
    Beijinho, uma doce semana
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Chinês, Ruthia?
      Quer dizer que em breve estaremos na China? Ah, que maravilha!
      Amo ler seus textos e ver suas fotos!
      As mudanças que aconteceram há anos não foram tão drásticas como está sendo agora. Parece que estão querendo mastigar a língua e entregá-la praticamente engolida pros pobrezinhos dos estudantes. Pode isso?
      Um horror!
      Beijos, boa semana, querida!

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