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terça-feira, 22 de julho de 2014

Uma Linda Mulher - Parte 1

   
      Linda, exuberante, de corpo e alma. Ana é o seu nome, assim como é, simplesmente Ana; não gosta do diminutivo Aninha.
   
      Bem sucedida na vida, ótimo emprego, ótimo salário e dois casamentos fracassados.
   
      O primeiro foi como um sonho, que pensava ter encontrado o príncipe encantado. E encontrou, mas não soube conduzir a relação e o casamento acabou.
   
      Jurou nunca mais se casar, até que conheceu Tomás, o homem dos sonhos de muitas moçoilas casadoiras.
   
      Tinham suas desavenças, Ana abriu mão de muitas coisas, mas mesmo assim acabou o casamento. Não tinha disposição para persistir e sempre acabava desistindo dos relacionamentos.
   
      Tomás ainda a ama, mas Ana, uma mulher arredia, achou melhor mudar de cidade para não cair em tentação e voltar com Tomás. Tinha uma certa preguiça em recomeçar. Não lhe atraia o fato de ter que apagar um passado e recomeçar como se nada tivesse acontecido. Não era assim.
   
       Para ela, Tomás era o homem perfeito e faria-a esquecer tudo, ou quem sabe dar um outro rumo em sua vida. Mas não deu. Por culpa dela mesma, não suportava viver feliz. Incomodava-a muito esse comodismo de felicidade.
   
      Desde sempre já combinara que não queria ter filhos de jeito nenhum. Adorava crianças, mas por medo de sofrerem, não queria-as como filhos.
   
      Chegou ao ponto de consultar um médico ginecologista para que lhe arrancasse o útero, para que esse assunto nem fosse mais motivo de discussão. É claro que o médico achou um absurdo e não cometeu esse crime. Saiu contrariada do consultório, mas aceitou e ficou aliviada de ter inúmeros métodos de engravidar. Usaria dois ou mais para não correr o risco.
   
      Para Ana era muito sofrido pensar em um filho e vê-lo passar por todos os transtornos, todos os sofrimentos, como fora sua vida, sua infância.
   
      Seus pais já eram falecidos, e por sobrevivência se afastou de toda a família. Como tinha um excelente emprego poderia muito bem ser transferida de cidade em cidade, e era o que tinha feito até então.
   
      Uma fuga, um refúgio, um modo de apagar traumas, de arrancar da mente momentos de tortura... Sofrimentos.
   
      Apesar da pouca idade quando criança, se lembrava perfeitamente da cena: o homem - o pai - vindo ao seu quarto e molestando aquele corpinho inocente... Amedrontada se cobria com o cobertor, seu único protetor, mas era lhe arrancado com tanta facilidade que se sentia nua quando o homem se aproximava.
   
      Naquela época, claro, Ana não entendia o que significava. Era tão ameaçada de não contar nada para ninguém que a única coisa que pensava na hora do ato era em suas bonecas. Depois que o homem saía ela agarrava todas e ficava cantando baixinho, como se quisesse fazê-las dormir e se esquecer do que havia acontecido. E acaba adormecendo...
   
      Quando ficou um pouco mais crescida e começou a entender a situação teve coragem e contou a sua mãe; silêncio...
   
      - Não repita mais isso, menina, bata na boca e respeite seu pai! - esbravejou a mãe, vermelha de ódio e com vontade de dar-lhe uma surra.
   
      Pronto, a partir daí nunca mais tocou no assunto. Mas a situação continuou como se nada tivesse acontecido.
   
      Ana se sentia um trapo, um pano de chão, um móvel, um enfeite de casa. Se trancava no quarto e quase não tinha amigas. Não tinha expressões no rosto; se estava triste ou alegre era sempre a mesma expressão.
   
      Ficou mocinha, mas não se interessava por meninos; queria mesmo era ficar em um canto, no seu quarto, lendo todos os livros possíveis. Eles sim eram seus verdadeiros amigos. Devorava todos possíveis, desde contos de fadas até ficção científica. Não importava qual gênero. Lia todos.
   
      Um dia, sua mãe adoeceu e precisou de transfusão de sangue. Corre daqui, corre dali e encontraram um doador. Ana, como uma moça curiosa, foi conferir os exames da mãe.
   
      Estranho... O sangue dela tipo B, do pai tipo O e o da mãe, tipo A. De onde saiu esse tipo B?
   
      Não teve respostas Sua mãe faleceu e Ana foi morar com uma tia, para não ficar sozinha com o pai.
   
      A família inteira sabia que Ana era uma filha bastarda, mas ninguém imaginava que Ana também sabia dessa história.
   
      Quem é o pai de Ana? Para quem ela perguntaria? Com quem Ana se parece? Teria irmãos? Ana ficou apavorada quando começou a imaginar se relacionando com um provável irmão sem saber que seria. Uma irresponsabilidade durante a vida toda. Um roubo de um passado e uma conspiração contra seu presente e futuro. Um vazio invadiu-lhe a alma e cada vez mais se fechou em seu mundo imaginário.
   
      Muitas respostas concluídas e mais outras perguntas sem respostas.
   
      Logo, o pai faleceu e Ana seguiu seu caminho. Ficou aliviada de ter certeza de que não seria mais molestada. Mas apagar as lembranças dos pensamentos seria impossível. Roubaram-lhe o passado, mas as lembranças ficariam para sempre.
   
      Como ótima pessoa, estudiosa, aplicada e linda conseguiu todo o sucesso que queria na área profissional.
   
      E jurou que nunca, jamais, teria filhos.
   
      Teve muitos namorados, conseguia até ser bem-humorada e ter uma ótima vida social. A felicidade estava sempre estampada em seu rosto, mas seu coração continuava um gelo, inabitado por quem quer que ousasse perfurá-lo e aquecê-l.
   
      Mas por mais que mudasse de cidade o pesadelo perseguia-a, Mesmo com anos e anos de análise o pesadelo estava enraizado em sua mente, Mesmo com todo o sucesso profissional a dor ainda perfurava seu coração, Mesmo com todos os amigos sinceros, todos os homens apaixonados, o passado sempre era presente.
   
      E assim viveu.
   
      E assim vive, tentando não ficar se lembrando para tentar perdoar.
   
      Perdoar para ser feliz.
   
      Ser feliz para amar.
   
      Amar para construir uma família.
   
      Uma família para cuidar e amar.
   
      Cuidar e amar uma família para ter certeza que a vida, apesar de tudo, vale a pena!

Continua...

Texto publicado em 04/11/2011 - Editado


16 comentários:

  1. Que história triste da Ana..
    Tem continuação... vejo reviravoltas quando ela descobre quem são os verdadeiros pais..
    Dá um romance Clara... pensa nisso ;)
    Besitos.. otima sexta

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  2. QUe interessante que voce escreve contos, qualquer hora temos um livro inteiro por ai.
    Essa situaçao de Ana é comunissima, mesmo que nao fosse filha "bastarda" e o molestador fosse pai dela biologico, isso aconteceria igualmente. E a mae muitas e muitas vezes é cumplice da situaçao pelo fato de que nao quer ver, nao consegue ver, denega, finge que aquilo nao esta acontecendo. Para suportar a vida. Tem coisas que nao se perdoa nos outros. So Deus é capaz, vamos dizer. Mas Ana pode perdoar a si mesmo por ter se deixado passar por isso: era criança, inocente, temerosa, apavorada mesmo, e mesmo que sentisse prazer com aquilo nao deve se culpar. Criança ja esta perdoada de qualquer coisa, por que em geral nao escolhe, é vitima.Ainda mais de pai que tem uma influencia tao forte e o filho ama muitas vezes incondicionalmente. Vamos dar um carinho para essa Ana da historia, ela precisa, mesmo que seja um personagem, personagens tem sua vida e seu sofrimento.
    Beijos,
    Cam

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  3. Eu amo a sua forma de escrever, AMOOOOO! ;) Beijo, beijoooo
    She

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  4. Uma história em que um trauma é instalado e é de difícil cura, pois a própria Ana, não se deu conta que tudo é passado e que assim como outras pessoas conseguem viver feliz ela também poderá um dia ser.

    Você escreve muito bem. Parabéns.
    Tem um bom fim de semana.
    Beijos.

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  5. A vida sempre vale a pena , desde que mesmo nas maiores adversidades se tire uma lição que possa se tornar em algo positivo.
    Bjus.......

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  6. Oi,
    Diva, Camila, She, Élys, Anônimo...

    Muito obrigada pelas palavras...
    Vcs são muito queridos e bem vindos aqui!

    Eu vou continuar a história...

    Beijos e ótimo fim de semana pra vcs!!!

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  7. Oi Clara!
    Que história linda, triste e muito bem escrita!
    A Ana coitada, foi uma vítima que mesmo superando racionalmente, ficou com marcas para vida toda. Ela não consegue encontrar o seu eu, onde estão as suas verdadeiras emoções. Noooossa quando será que ela vai se encontrar?
    Beijinhos e um lindo fds!

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  8. Eu conheço várias Anas. Ao longo da minha vida já encontrei e me relacionei com várias.
    As feridas não cicatrizam nunca.

    Ajudei algumas que permitiram ser ajudadas.

    Mas é difícil......muito difícil!!

    Beijuxxxxxxxxxxxxx, Claritcha.

    Kikinho.

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  9. Kiko, é verdade...
    Cicatrizes que não curam nunca!

    Beijossssss

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  10. Clara,muito triste sua história mas acontece muito!Fiquei emocionada com seu conto e é mesmo uma pena que Ana não se permita ser feliz!Se perdoar ás vezes é mais dificil que perdoar o outro!Lindo seu conto!Bjs,

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  11. Clara querida,

    Mais um belo trabalho! Triste também. Mas os homens fazem coisas tristes e feias. Temos é que aprender a conviver com a maldade humana da melhor forma para não nos tornarmos infelizes.
    Girassóis nos seus dias, meu anjo. Beijos

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  12. Clara,
    uma história,infelizmente mais comum do que gostaríamos de saber, porém necessária de contar, como vc tão bem o fez numa narrativa intensa que nos deixa com gosto de "quero mais";saber da Ana, de como conseguirá superar seus traumas, pois não acho que seja caso de perdão, mas de superação.
    Nessa tua constante produção, sinto que muitas outras boas histórias aí virão, heim?
    Bjkas,
    Calu

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  13. Clara
    Na minha vida já conheci histórias parecidas - pais, avôs, tios - e mãe omissa, e sempre fico indignada.
    Como pode alguém marcar tão cruelmente a vida de uma criança inocente não é?
    Mas, essas coisas continuam a acontecer, não importa a classe social.
    beijos

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  14. Olá, Clara.

    Comovente a história da Ana que você descreve tão bem. Momento da vida humana com suas facetas de violência física e moral. Em se tratando de criança causa-nos mais perplexidade ainda, pois este é um momento no qual ele precisa de todos os recursos de proteção, como se faz às plantinhas, para que elas cresçam viçosas. A Ana, pelo visto, tem a alma forte, assim como a planta,cuja semente sendo forte, ela vem demonstrando superar as intempéries da vida, mesmo com as dificuldades existentes no amargurado psiquismo. Ainda vou ler o desenrolar do segundo capítulo e torço para que ela tenha vencido esta trajetória de situações angustiantes.

    Um abraço.

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  15. Que mulher LInda!
    Decidida... resoluta pelo amar...

    Isso dá um livro hein!

    Li todos e amei!

    Quero mais!

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  16. Beleza isso: "E assim viveu.
    E assim vive; tentando não ficar se lembrando para tentar perdoar.
    Perdoar para ser feliz.
    Ser feliz para amar.
    Amar para construir uma família.
    Uma família para cuidar e amar.
    Cuidar e amar uma família para ter certeza que a vida, apesar de tudo, vale a pena!"

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