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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Amar e Ser Amado


      Depois de um dia exaustivo, Carlos só queria voltar para casa e relaxar sentando na sua poltrona, que ficava em frente a uma janela imensa de vidro com vista para o jardim muito bem cuidado. Um gramado verdinho e muitas flores plantadas num canto, encostadas no muro, enchiam os olhos de quem parava por uns instantes para apreciar a beleza da natureza. Pegaria sua cerveja gelada, tiraria a roupa e colocaria um short folgado, ouviria uma música e ali ficaria até o anoitecer.

      Isso se tivesse a paz que tanto necessitava em seu lar, porque geralmente isso era só um sonho...

      Fabiana, sua mulher, vivia irritada, parecia que sentia ódio da vida e não fazia outra coisa a não ser reclamar de tudo e de todos. Carlos tinha toda a paciência do mundo em ouvi-la, pois amava aquele baixinha invocada que quando queria era uma formosura de mulher.

      O trânsito estava infernal e o calor insuportável. Mesmo assim, Carlos teve paciência de esperar o fluxo de veículos andar num ritmo lento, quase parando. Pensava no frescor que era sua casa, e isso o animava.

      Como era previsto, Fabiana estava num dia não muito bom. Para começar, Carlos encontrou a mulher dormindo no sofá, com a TV ligada num daqueles programas de tragédias familiares. Ela estava toda desgrenhada, com uma roupa velha: um short dois números maiores que seu corpo e uma camiseta de propaganda política, já bem surrada. Aliás ela adorava usar essas camisetas como camisola. Carlos não gostava, mas aceitava o jeito da mulher. Assim que entrou em casa fechou a porta. Fabiana acordou com o  rosto todo amassado e já soltou sua primeira reclamação:

      - Precisa bater a porta para entrar, Carlos? O que custa fechar com educação? Sua mãe não te ensinou bons modos não? - rosnou, franzindo a testa e apertando os lábios a ponto de deixá-los esbranquiçados.

      Ele apenas disse um oi para a mulher e seguiu para seu quarto a fim de se livrar daquelas roupas pesadas e quentes. Carlos era organizado, e tudo o que tirava colocava sempre no lugar de costume. Já Fabiana era a bagunça em pessoa,  não conseguindo deixar nada, absolutamente nada no lugar. Isto era motivo de brigas diárias, mas quando chegava a noite o amor sempre falava mais alto.

      Depois de se refrescar, Carlos pegou sua cerveja e foi se sentar em sua poltrona macia e confortável. Cadê a poltrona?

      - Fabiana, cadê minha poltrona? - perguntou irritado.

      - Joguei ela fora! Muito feia e você não faz outra coisa a não ser ficar sentado nela. Joguei fora mesmo! - respondeu, com a maior arrogância.

      Carlos coçou a cabeça, passou as mãos pelo rosto, pegou sua cerveja e foi se sentar no chão da varanda... E chorou.... Nem em sua casa teria o sossego que queria e precisava. Na verdade estava cansado dessa vida onde fazia de tudo, mas o que recebia de volta era reclamações e mais reclamações. Enquanto tomava sua cerveja, ouvia os gritos da mulher, de dentro da casa, dizendo que Carlos precisava ser mais compreensivo, mais amoroso e mais presente. Carlos, ouvindo todas as intermináveis cobranças, não sabia porque ainda suportava um casamento falido. Por mais que fizesse, nunca estaria bom para a mulher. Além do mais, ela já não era mais aquela mulher linda, vaidosa e perfumada que ele conhecera há alguns anos. Era desleixada com tudo, não penteava os cabelos, sempre estava com um chinelo de dedo e uma roupa bem batida de velha. Tinha vergonha de levá-la a algum lugar, porque além de reclamar de tudo, não se produzia mais como antes.

    Tomou o último gole da cerveja, olhou para o chão e percebeu que seu abdômen  não estava como antes. Teria que tomar cuidado para não se tornar aquele homem casado e barrigudo que tanto implicava. Levantou-se, colocou uma camiseta e saiu de casa, sem rumo certo, queria paz, sossego e quem sabe alguém que o compreendesse. Não era uma fuga e sim um estado de saturação em ter que ouvir todos os dias as mesmas palavras, e saber que o tesão que antes sentia pela mulher, dia a dia estava acabando. Até quando o amor suportaria uma situação dessa? Era o que pensava enquanto dirigia. Lembrou-se de sua lua de mel, quando escutou sua mulher conversando com a mãe, dizendo que agora já tinha laçado um marido e não precisava mais se preocupar com nada! Será que marido é só para isso? Para um conforto de uma casa? Ou para servir de saco de pancadas, onde se pode esmurrar sempre? Não! Carlos precisava de muito mais que isso; queria amar e ser amado, queria compartilhar uma vida a dois, queria uma companheira, uma amante e um amor, e isso ele não tinha com Fabiana, infelizmente.

       O mundo aguardava-o lá fora, com todo seu encanto e mistério, e quem sabe alguém um pouco mais interessante do que Fabiana. Coisas da vida...

      Texto publicado em 19 de setembro de 2012 - Editado

domingo, 27 de julho de 2014

Maçã de Ouro

Me dá água na boca só de olhar...
Para uns pode parecer bobeira, mas para quem passa por situações fica a marca como cicatriz. Captamos situações na infância, absorvemos o que sentimos e levamos conosco por toda a vida.

Quando ainda era pequena, aliás, a lembrança mais remota que tenho da infância é quando tinha quatro anos, sempre brincava sozinha, conversando muito com bonecas; coisa de criança mesmo. E como era pequena minha mãe sempre me levava consigo em todos os lugares.

Um dos lugares era a feira livre. Ah, para mim era um encanto! Aquele monte de gente, aquele cheiro de frutas, todos comprando - ainda não tinha noção do valor do dinheiro - todos com sacolas lotadas e eu com os olhinhos curiosos observando tudo, de mãos dadas com mamãe. Me encantava todo aquele movimento num só lugar. Feirante gritando, caixas sendo carregadas a toda hora, uma grande variedade de produtos, cheiros diversos, cores intensas... Uma rua livre de trânsito de carros, só com barracas e gente falando, gritando, andando. Não entendia nada e minha mãe só puxava minha mão para andar rápido, pois já sabia o que e onde comprar.

De tudo que tinha o que mais me chamava a atenção eram as maçãs. Deus do céu, que aroma inesquecível, que vermelho lindo, todas separadas com papéis roxos... Hmmmm, só de lembrar me dá água na boca. Acho que criança é como mulher grávida, tem que comer exatamente aquilo senão não vale.

E minha criação era rígida: não podia conversar, não podia rir, não podia chorar, não podia pedir. Mas eu pedia assim mesmo. Todas as vezes eu pedia maçã na feira. Me lembro como se fosse hoje... E minha mãe só me respondia brava: Não! E continuava andando segurando minha mão para ver se eu me esquecia do vermelho luminoso da maçã.

Ficava de longe imaginando o seu sabor, como seria aquele gosto vermelho por fora e amarelado por dentro... Será que era doce? Por que será que minha mãe não comprava? Comprava só banana e laranja.

Para mim, na época, maçã era preciosa, cara, que só os ricos que tinham carro podiam comprar. Vida regrada, mas sem faltar nada. Tínhamos o básico e eu muita vontade de comer o que não tinha. Normal, creio eu, naquela época em que poucos tinham regalias e facilidades. 

O tempo passou. E nunca me esqueci daquela maçã vermelhinha da feira.

Quando comecei a trabalhar, aos 13 anos, uma das primeiras coisas que comprei foi... Maçã.

Gente, mas maçã, aquela preciosidade tão cara aos meus olhos, tão perfumada, e tão... Barata! Por que será que nunca compraram para mim? Porque não, oras! Se comprasse para mim teriam que comprar para a família toda. E aí ficaria caro. O dinheiro era contado para comprar o básico do básico. Hoje entendo perfeitamente aquela situação da família.

Na época não entendia, mas com o passar dos anos, e ainda me lembrando da maçã, uma pergunta não se calava em minha mente: como meu pai bebia praticamente todos os dias e minha mãe se arrumava em salão todas as semanas e nunca compraram sequer uma maçã para mim? Passou, tudo bem.

Hoje em minha casa ela é presença constante, dentre outras coisas, mas aquela maçã vermelhinha, perfumada e brilhante da minha infância, ficou só na lembrança... Nunca saberei o sabor.

Coisas da vida...

Texto publicado em 11 de julho de 2011 - Editado



terça-feira, 22 de julho de 2014

Uma Linda Mulher - Parte 4 - O Amor Contagia


Continuação...

      Ana, já com nove meses, um barrigão imenso e Talarico todo cuidados com ela. O que ele tinha de tamanho tinha de carinho, paparicos e todo o encantamento quando colocava a mão na barriga e sentia o bebê mexendo. Uma menina! Júlia.

      A gravidez foi tranquila, apesar de Ana ter passado quase todo o tempo praticamente sozinha. Talarico, durante esse tempo todo, mesmo estando em Paris, todos os dias queria ver Ana. Abençoada internet! Se derretia vendo a barriga crescer e Ana cada vez mais linda com todo o brilho especial que as mães têm.

      Talarico, agora morando com Ana, era uma pessoa surpreendente e bem humorado, atencioso, divertido e encantador. Quem o conhecia era impossível não se encantar por ele. Ana bem sabia disso e não confiava tanto... Sabia muito bem o quão canalha era. Encantador e canalha. E folgado e espaçoso. E irritante e bagunceiro. E amava todos os defeitos que ele tinha. Sim, Ana se convencia que amava Talarico.

      Uma noite, de madrugada, Ana acordou e se levantou para ir ao banheiro. Mal colocou os pés no chão e uma poça d'água formou-se sob seus pés: "A bolsa estourou!"

      Não sabia o que fazer, se acordava Talarico, se ligava para o médico, se ia ao banheiro primeiro, se chorava, se gritava, se ficava ali mesmo, imóvel. Começou a chorar. Talarico acordou com o choro e num pulo já estava com Ana nos braços, pensando que ela estava passando mal, e colocou-a na cama: "Não, Talarico, eu quero ir ao banheiro", dizia, com lágrimas escorrendo pelas bochechas. Imediatamente pegou-a no colo novamente e levou-a ao banheiro. Ana, por fim, não aguentou e começou a rir da atitude desse pai de primeira viagem. Além de todos os defeitos era todo atrapalhado e exagerado. Amava-o ainda mais.

      Ligou para o médico e começou a se preparar para ir ao hospital.

      Nesta hora, um pavor imenso invadiu Ana. Até então, gravidez ainda era algo não programado, não pensado em toda sua vida, mas aquela pessoinha que chutava tanto já estava querendo ver a luz do dia.

      Como seria dali por diante? Ana se lembrou de sua avó e mentalmente pediu que onde quer que ela estivesse que a ajudasse nesta hora. Chorou mais uma vez...

      Já estava pronta e Talarico se aproximou para pegá-la no colo, o que fez Ana rir ainda mais. "Não precisa, eu posso andar!". Mesmo assim ele apoiou-a em seu braço até colocá-la no carro, no banco de trás, com cinto de segurança e um travesseiro de cada lado dela. A cada gesto de Talarico Ana ria compulsivamente.

      Entrou no carro e ficou procurando, procurando, procurando e não sabia o quê. "O que foi?", "Acho que estou esquecendo algo..."; eram as chaves! Os dois riram e Ana segurou a barriga temendo que Júlia lhe escapulisse com cada gargalhada.

      No trajeto de sua casa até o hospital silêncio absoluto de Ana e Talarico perguntando o tempo todo se ela estava se sentindo bem. Ana, neste momento, se lembrava de sua infância, sempre sozinha, com suas bonecas, e também ficava imaginando como seria cuidar de um bebê. Apesar de toda lembrança triste, agora já não conseguia mais imaginar sua vida sem aquele bebê.

      Chegando ao hospital Talarico ajudou-a a sair do carro e pegou-a no colo fazendo-a rir muito da situação e também uma certa vergonha, pois todas as pessoas ficaram olhando e não entendendo nada.

      Em vez de parar na portaria Talarico, com Ana nos braços, passou direto e já queria subir para a sala de cirurgia, mas foi impedido pelo segurança e voltou para fazer a ficha de Ana. Logo já arrumaram uma cadeira de rodas e Ana ficou mais confortável.

      Na sala de parto, Talarico já vestido a caráter, ficou o tempo todo acariciando o rosto de Ana, e ela, neste momento, foi invadida por muitas perguntas: como Deus é perfeito, como pode não amar e não querer um ser que se forma dentro do ventre, como pode uma mãe ignorar seu filho, como pode permitir que uma outra pessoa faça sofrer um filho, e Talarico ali, todo carinhoso.

      Nasceu Júlia!

      Ana começou a chorar e... Talarico, aquele homem enorme desmaiou! Ana imóvel sob efeito da anestesia e Talarico inerte no chão. Ana chorando de emoção ao ver Júlia, ouvir seu choro, sentir seu cheiro, beijar aquele bebezinho rosadinho de olhos arregalados, todo sujinho, e Talarico estatelado no chão sendo acudido por enfermeiras. A cena era hilária e mais uma vez Ana não se conteve no riso.

      Já refeito, branco como uma folha de papel, Talarico ficou sentado próximo a Ana e também não conteve o choro. Bem baixinho, disse no seu ouvido que a amava e que não iria deixá-la nunca mais, que cuidaria de Júlia e que era o homem mais feliz do mundo, e que também pediu sua transferência para o Brasil. Ana, fixando seus olhos nos de Talarico, conseguiu dizer que também o amava... Chorou...

      Agora, neste exato momento e pela primeira vez, Ana soube o que é o amor, tanto pelo nascimento de Júlia quanto pela presença de Talarico. Neste momento ela soube o que é ser cuidada, ser amada, protegida, abençoada... Neste momento, mais do que tudo, Ana soube o que é uma família, o que é compartilhar, o que é se entregar, sem medo, sem culpas, sem mágoas, sem dores, sem rancores; neste momento ela tinha certeza que havia perdoado seus pais. Neste momento Ana era a pessoa mais feliz do mundo.

      Já não tinha medo, queria sim continuar com Talarico não importando se seria para sempre ou não. O que importava é que começava ali uma nova família.

Texto publicado em 11/11/2011 - Editado

F I M

Uma Linda Mulher - Parte 3 - Talarico

...Continuação
               

      Depois do choque da gravidez, depois da festa de Talarico como o mais novo pai do pedaço, hora de marcar consulta com um obstetra. Nunca em sua vida imaginara algo parecido, mas uma amiga indicou um de confiança e Ana marcou para a mesma semana.
   
      Talarico não se continha de tanta felicidade, e Ana, agora acuada, começava a se trancar em seus pensamentos.

      Talarico... Homem lindo, 1,90 m, moreno, cabelos grisalhos, olhos negros, sorriso perfeito, voz firme e... Canalha. Aos 49 anos ainda solteiro! Isso devia ter uma explicação. Talarico era um homem do mundo, que não se prendia a ninguém, que não criava raízes em lugar algum, que escolheu ser livre para voar onde sua imaginação alcançasse. E o filho? Como será que se portaria como pai e como marido? Ana sabia que ao menor sinal de descaso ou de abandono largaria tudo e voltaria para sua vidinha medíocre e solitária. Não tinha tolerância e nem paciência para ficar tentando e recomeçando, então sempre tinha uma pulga atrás da orelha com essa relação.

      Ana sentia, desde o primeiro olhar, uma irresistível atração por ele, tanto é que não mais se separaram. Muito carinhoso, atencioso, um verdadeiro gentleman. Era isso que sabia de Talarico. Como pode engravidar de alguém que mal conhecia? Mas que importância teria agora, já que viveu tantos anos com pessoas que pensava que conhecia, mas que só a enganaram, mentiram, ignoraram, maltrataram? Na verdade nunca conhecemos as pessoas, ou as pessoas nunca se deixam conhecer.

      Talarico, apesar do pouco tempo que o conhecia, não escondia como era e a pessoa ao seu lado, por bom senso, que o aceitasse como tal. Nisso ele era verdadeiro.

      No dia da consulta, estava mais ansioso que Ana, que continuava presa em seu silêncio.

      No consultório, quatro mulheres antes de Ana aguardavam ser chamadas. Enquanto isso, Ana, ainda calada, foi tomada de uma angústia e começou a chorar compulsivamente. Talarico não entendia nada e as mulheres que aguardavam também ficaram preocupadas, a ponto de perguntar a Talarico se estava tudo bem. Ele apenas fez um gesto afirmativo e carinhosamente encostou a cabeça de Ana em seu peito, alisando seus cabelos e beijando-lhe a testa.

      Era inevitável, Ana se lembrava da infância, e o que mais queria naquele momento eram suas bonecas. A ideia de que o médico iria tocá-la deixava-a apavorada ao mesmo tempo em que se enternecia com o fato de que agora um bonequinho de verdade estava em seu ventre.

      Acuada, foi se encolhendo cada vez mais no peito de Talarico que era só carinhos com ela. Estava realmente apaixonado por Ana e por seu filho.

      Já Ana tinha muita dificuldade de dizer "eu te amo". Raríssimas vezes ousou falar sobre esse assunto e nunca conseguiu se entregar de corpo e alma a ninguém. Como alguns deles diziam: "você se basta!". O medo de ser rejeitada, de ser excluída, ignorada, o medo de sofrer tudo de novo era mais forte do que qualquer sinal de entrega, de amor.

      Tudo certo durante a consulta, tudo certo com o bebê e voltaram para o apartamento.

      Pensava muito em sua avó e sua madrinha e algo não lhe saía da cabeça: quando, ainda adolescente, quando aparecia com algum namorado sua mãe lhe inundava com perguntas sobre a família do moço, de onde eram, como se chamavam etc. Pelo menos a mãe de Ana ficava com medo de um incesto, mas tinha a ingenuidade de pensar que a filha lhe contava sobre todos os namorados. Isso deixava Ana apavorada. E logo se lembrou da investigação minuciosa que fizera com Talarico e a certeza de que não precisava se preocupar.

      Depois de muito pensar decidiu não mudar de país; Não iria morar com Talarico; não se casaria com ninguém.Teria o bebê e continuaria como sempre fora, sozinha. Outra fuga, outro recuo, preferia ficar trancada em seu mundo do que tentar compartilhar uma vida a dois, se entregar numa família, quem sabe, feliz.

      Para Talarico isso foi um choque, mas passado o momento ele acabou aceitando. Afinal ele também sabia que não duraria muito esse relacionamento. Melhor viverem em casas separadas, quer dizer, em países diferentes. Voltaria sempre que possível e quando o bebê nascesse estaria por perto.

      E assim fizeram... O tempo passou e Ana estava prestes a entrar no nono mês. Talarico já estava por perto e muito, muito feliz...

Continua...

Texto publicado em 09/11/2011 - Editado


Uma Linda Mulher - Parte 2 - O Milagre da Vida


... Continuação

      Ana, decidida a viver só, foi transferida para uma cidade bem longe da sua, Queria fugir, apagar, romper com todo o passado que a perseguia, e, crendo ela, a distância apagaria tudo.

      Ainda sofria pela falta de Tomás, que ainda a amava, mas insistia pela paternidade. E Ana tinha descartado qualquer possibilidade de gerar uma vida. Queria seu bem e por isso se afastou dele para que pudesse ter a família e filhos que sempre quisera ter. Isso ela não podia dar-lhe e não mudaria de ideia em nenhum momento. Não arriscaria passar sobre suas convicções por puro capricho de um homem. Melhor se afastar e continuar sozinha.

      Alguns meses se passaram e uma amiga de sua cidade natal lhe comunicou de uma grave doença de sua madrinha. No início não deu muita importância, mas a insistência da amiga era tanta que resolveu procurar pela família. Voltou... Estava inquieta em ter que reencontrar todos e se lembrar bruscamente de toda a tortura, mas seria forte para ser solidária com a madrinha que nada tinha a ver com sua triste história.

      Encontrou-a já acamada, praticamente em estado terminal de uma grave doença degenerativa. Muita emoção nesse reencontro, afinal a madrinha era uma das poucas pessoas que disponibilizavam um gesto de afeto à Ana. As duas se entendiam apenas com o olhar, e além da avó materna, a madrinha era seu porto seguro. Chorou ao pegar as mãos da madrinha tão secas e geladas onde as veias azuis faziam caminhos tortuosos denunciando que o fim estava próximo.

      Ana sentou-se na beira da cama e começou a conversar carinhosamente. Mas o que a madrinha queria era falar sobre outro assunto.

      - Ana, minha doce afilhada, eu tenho algo a lhe contar... - com os olhos fixos na afilhada, cumpriria seu objetivo e obrigação de partir dessa sem levar nenhum peso na consciência.

      - Madrinha, não se esforce tanto, fique calma! - Ana ficou apavorada temendo pelo pior em suas mãos.

      - Não, querida, eu prometi a Deus que não morreria sem você saber a verdade...

      Ana gelou, paralisou e depois desabou num choro.

      - Eu vou direto ao assunto: o seu pai não é seu pai. Na verdade não sabemos quem é o seu pai biológico. Sua mãe teve uma aventura e gerou você com outro homem. Toda a família sabe disso, e agora é a sua hora de saber. Mas quero que saiba que você é muito amada por mim e foi também por sua avó. Isso já é passado e você precisa perdoá-los... Já estão mortos e você tem toda uma linda vida pela frente. - Suspirou aliviada, fechou os olhos e assim permaneceu até quando Ana se despediu com um beijo em sua testa.

      Ana não teve coragem de contar à madrinha que já sabia desta história. A única atitude que conseguia ter era chorar, chorar, chorar... Dois dias depois sua madrinha faleceu e Ana voltou ao trabalho.

      Mais alguns meses se passaram e aquela lembrança da infância, do sofrimento, da morte dos pais e da madrinha ainda lhe corroíam a mente. Ainda não havia perdoado e de certa forma se culpava por não ter reagido às investidas do pai. Teria que ter sido mais forte e impedido de alguma forma aquele abominável homem a tocar-lhe a pureza.

      Um dia, chegando ao trabalho, alguém lhe chamou a atenção, como um imã que puxava-a com os olhos para aquele homem de voz firme, gestos calmos e lindo, extremamente lindo.

      Era Talarico, o administrador de uma filial de Paris. Mas era brasileiro.

      Imediatamente ele também percebeu a presença de Ana e a partir daí não paravam de se olhar.

      Ana não entendia nada do que estava acontecendo e seguia sua rotina. Mas Talarico não desistiu até conhecê-la. A empatia foi imediata e não mais se desgrudaram.

      Mas, e todas aquelas travas que Ana insistia em carregar? Continuavam todas ali. Era uma pessoa de personalidade firme, decidida e depois de toda aquela revelação sobre sua paternidade tinha um certo receio com os homens temendo que fossem algum parente ou, quem sabe, um irmão... Deu um jeito de investigar se havia alguma possibilidade e saber sobre sua origem antes mesmo de se apegar e se entregar.

      Talarico não tinha a menor possibilidade de ter laços sanguíneos com Ana, e tendo essa certeza não resistiu aos seus encantos e investidas e se entregou. Fazia tempo que não se sentia tão realizada e amada. Talarico era carinhoso e atencioso, mesmo em alguns momentos em que deixava-a irritada com sua falta de organização. Estava acostumada a viver sozinha e Talarico ocupava quase que todo o espaço do apartamento. E ocupava seu coração por completo. Ana ficava receosa de que todo o encanto se acabasse, como já acontecera outras vezes, mas se sentia tão preenchida que logo o receio dava lugar à noites intermináveis de amor, de prazer, de uma louca paixão. Talarico queria se casar e  levá-la a Paris. Tudo certo, desde que não tocasse no assunto maternidade.

      Antes de sua transferência de país, Ana adoeceu, quer dizer, começou a se sentir mal, com enjoos, tonturas, vômitos, mas não procurou médico, pensou ser apenas um mal-estar.

      No outro dia continuou o enjoo e só então procurou ajuda médica.

      - Parabéns, dona Ana, a senhora está grávida! - noticiou todo sorridente o médico.

      - ????????? - Ana não teve outra atitude que não fosse ficar paralisada e de boca aberta.

      O chão lhe saiu dos pés, não suportava a ideia de ver uma criança sofrer e a maternidade para Ana significava sofrimento.

      Mas a sensação de carregar um ser em seu ventre mudou tudo! Imediatamente um imenso amor lhe invadiu a alma e ela não sabia explicar o que acontecia. Choro, dor, revolta, sofrimento, ódio, vingança... Não! Mas se sentia mãe...

      Amor, compaixão, ternura, esperança, perdão... Perdão... Perdão...

      Talarico, uma pessoa rara, que parecia ser feito justamente para Ana, que entendia cada olhar, cada gesto, cada lágrima, cada dor, estava bem ali ao seu lado, vibrando com a novidade de ser pai.
   
      Praticamente comprou uma floricultura inteira para Ana, com muitos bilhetinhos, carinhos, afagos...

      Ana, à partir do momento em que soube que seria mãe, nasceu de novo.. E todo aquele passado, toda aquela dor agora estava cada vez mais distante.

      Esquecer? Não! Mas não ficaria mais se lembrando, agora o tempo todo disponível seria para aquele filho amado, gerado com muito carinho. Todo o amor embutido por anos seria dado ao filho, em abundância.

      Bem, quanto a Talarico, como todo homem, perfeito é que não era. Tinha aquele lado canalha, mas para Ana isso era tão irrelevante, que nem se importava. Talarico sempre tratou-a como uma rainha, sempre a amou, e sempre esteve ao seu lado e isto sim era o que importava. O resto, era simplesmente resto.

      É a vida que segue!

      Continua...

      Texto publicado em 07/11/2011 - Editado

Uma Linda Mulher - Parte 1

   
      Linda, exuberante, de corpo e alma. Ana é o seu nome, assim como é, simplesmente Ana; não gosta do diminutivo Aninha.
   
      Bem sucedida na vida, ótimo emprego, ótimo salário e dois casamentos fracassados.
   
      O primeiro foi como um sonho, que pensava ter encontrado o príncipe encantado. E encontrou, mas não soube conduzir a relação e o casamento acabou.
   
      Jurou nunca mais se casar, até que conheceu Tomás, o homem dos sonhos de muitas moçoilas casadoiras.
   
      Tinham suas desavenças, Ana abriu mão de muitas coisas, mas mesmo assim acabou o casamento. Não tinha disposição para persistir e sempre acabava desistindo dos relacionamentos.
   
      Tomás ainda a ama, mas Ana, uma mulher arredia, achou melhor mudar de cidade para não cair em tentação e voltar com Tomás. Tinha uma certa preguiça em recomeçar. Não lhe atraia o fato de ter que apagar um passado e recomeçar como se nada tivesse acontecido. Não era assim.
   
       Para ela, Tomás era o homem perfeito e faria-a esquecer tudo, ou quem sabe dar um outro rumo em sua vida. Mas não deu. Por culpa dela mesma, não suportava viver feliz. Incomodava-a muito esse comodismo de felicidade.
   
      Desde sempre já combinara que não queria ter filhos de jeito nenhum. Adorava crianças, mas por medo de sofrerem, não queria-as como filhos.
   
      Chegou ao ponto de consultar um médico ginecologista para que lhe arrancasse o útero, para que esse assunto nem fosse mais motivo de discussão. É claro que o médico achou um absurdo e não cometeu esse crime. Saiu contrariada do consultório, mas aceitou e ficou aliviada de ter inúmeros métodos de engravidar. Usaria dois ou mais para não correr o risco.
   
      Para Ana era muito sofrido pensar em um filho e vê-lo passar por todos os transtornos, todos os sofrimentos, como fora sua vida, sua infância.
   
      Seus pais já eram falecidos, e por sobrevivência se afastou de toda a família. Como tinha um excelente emprego poderia muito bem ser transferida de cidade em cidade, e era o que tinha feito até então.
   
      Uma fuga, um refúgio, um modo de apagar traumas, de arrancar da mente momentos de tortura... Sofrimentos.
   
      Apesar da pouca idade quando criança, se lembrava perfeitamente da cena: o homem - o pai - vindo ao seu quarto e molestando aquele corpinho inocente... Amedrontada se cobria com o cobertor, seu único protetor, mas era lhe arrancado com tanta facilidade que se sentia nua quando o homem se aproximava.
   
      Naquela época, claro, Ana não entendia o que significava. Era tão ameaçada de não contar nada para ninguém que a única coisa que pensava na hora do ato era em suas bonecas. Depois que o homem saía ela agarrava todas e ficava cantando baixinho, como se quisesse fazê-las dormir e se esquecer do que havia acontecido. E acaba adormecendo...
   
      Quando ficou um pouco mais crescida e começou a entender a situação teve coragem e contou a sua mãe; silêncio...
   
      - Não repita mais isso, menina, bata na boca e respeite seu pai! - esbravejou a mãe, vermelha de ódio e com vontade de dar-lhe uma surra.
   
      Pronto, a partir daí nunca mais tocou no assunto. Mas a situação continuou como se nada tivesse acontecido.
   
      Ana se sentia um trapo, um pano de chão, um móvel, um enfeite de casa. Se trancava no quarto e quase não tinha amigas. Não tinha expressões no rosto; se estava triste ou alegre era sempre a mesma expressão.
   
      Ficou mocinha, mas não se interessava por meninos; queria mesmo era ficar em um canto, no seu quarto, lendo todos os livros possíveis. Eles sim eram seus verdadeiros amigos. Devorava todos possíveis, desde contos de fadas até ficção científica. Não importava qual gênero. Lia todos.
   
      Um dia, sua mãe adoeceu e precisou de transfusão de sangue. Corre daqui, corre dali e encontraram um doador. Ana, como uma moça curiosa, foi conferir os exames da mãe.
   
      Estranho... O sangue dela tipo B, do pai tipo O e o da mãe, tipo A. De onde saiu esse tipo B?
   
      Não teve respostas Sua mãe faleceu e Ana foi morar com uma tia, para não ficar sozinha com o pai.
   
      A família inteira sabia que Ana era uma filha bastarda, mas ninguém imaginava que Ana também sabia dessa história.
   
      Quem é o pai de Ana? Para quem ela perguntaria? Com quem Ana se parece? Teria irmãos? Ana ficou apavorada quando começou a imaginar se relacionando com um provável irmão sem saber que seria. Uma irresponsabilidade durante a vida toda. Um roubo de um passado e uma conspiração contra seu presente e futuro. Um vazio invadiu-lhe a alma e cada vez mais se fechou em seu mundo imaginário.
   
      Muitas respostas concluídas e mais outras perguntas sem respostas.
   
      Logo, o pai faleceu e Ana seguiu seu caminho. Ficou aliviada de ter certeza de que não seria mais molestada. Mas apagar as lembranças dos pensamentos seria impossível. Roubaram-lhe o passado, mas as lembranças ficariam para sempre.
   
      Como ótima pessoa, estudiosa, aplicada e linda conseguiu todo o sucesso que queria na área profissional.
   
      E jurou que nunca, jamais, teria filhos.
   
      Teve muitos namorados, conseguia até ser bem-humorada e ter uma ótima vida social. A felicidade estava sempre estampada em seu rosto, mas seu coração continuava um gelo, inabitado por quem quer que ousasse perfurá-lo e aquecê-l.
   
      Mas por mais que mudasse de cidade o pesadelo perseguia-a, Mesmo com anos e anos de análise o pesadelo estava enraizado em sua mente, Mesmo com todo o sucesso profissional a dor ainda perfurava seu coração, Mesmo com todos os amigos sinceros, todos os homens apaixonados, o passado sempre era presente.
   
      E assim viveu.
   
      E assim vive, tentando não ficar se lembrando para tentar perdoar.
   
      Perdoar para ser feliz.
   
      Ser feliz para amar.
   
      Amar para construir uma família.
   
      Uma família para cuidar e amar.
   
      Cuidar e amar uma família para ter certeza que a vida, apesar de tudo, vale a pena!

Continua...

Texto publicado em 04/11/2011 - Editado


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Cora Coralina


Conclusões de Aninha
Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
“A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar.”
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.
 

Este poema me lembrou do Bolsa-família. Acho que a pior das angústias é passar fome. Não dá pra esperar até amanhã ou até a semana que vem. A fome é diária. 
Claro que tem abusa da ajuda do governo, mas muitos que não tinham o que comer hoje já podem se alimentar com gosto.
Uma situação pra se pensar quando for ajudar ou julgar alguém ou alguma família.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

No Ônibus


      Hoje lotado, vidros fechados por causa do frio... Dá pra imaginar a situação, não é?
      A gente olha pra um lado e pro outro, um olhando na cara do outro com aquela angústia de querer que metade do ônibus desça no próximo ponto. Menos nós que esperamos até o ponto em que descemos. 
      Fui até o fim e parei onde estavam sentados a mãe e seus dois filhos. Ela segurava no colo uma menina com seus 3 anos mais ou menos. Quietinha e olhando todo mundo. Seu irmãozinho que estava no banco do lado tinha uns 5 anos talvez. Dormia, com a cabeça apoiada no ombro da mãe e com a boquinha aberta nem se importando com o tumulto a sua volta. Dormia tranquilamente. A mãe segurava suas perninhas que estavam cruzadas pra evitar que ele se escorregasse e ela não conseguisse segurá-lo. No chão duas mochilas e do lado da mãe, espremida, estava sua bolsa que também não era pequena. e apoiada nas suas pernas estava um sacola de supermercado quase cheia. Não usava aliança.
      Deve ter ido trabalhar e depois deve ter buscado as crianças em alguma creche.
      Tem coisas que são assim, custosas, sofridas, mas não há opção. Tem que ser assim. Todos os dias ela deve fazer esse trajeto com as crianças. Dois trajetos, ida e volta.
      Depois a menininha levantou a cabeça e começou a conversar com a mãe, falando baixinho e rindo. Vez ou outra tocava seu rosto com as mãozinhas minúsculas e com unhas bem aparadas. Depois se deitava e continuar com o olhar curioso na multidão.
      Sorri pra ela... Ela colocou o dedinho na boca e tapou os olhos, olhando por entre os dedos, envergonhada. Olhei para a mãe e ela estava com os olhos fechados. Cansada...
      O ônibus não estava mais tão cheio e meu ponto chegou. Olhei para a menininha e sorri de novo. Ela colocou o dedinho na boca e sorriu timidamente. Desci.
      A vida como ela é. Talvez ela não ache que seja dureza essa rotina. Talvez ou com certeza nunca teve uma vida diferente...



S2 S2 S2 S2 S2 S2 S2 S2 S2

Meu meio de transporte até o trabalho é o ônibus. E como boa observadora não deixo de reparar nas pessoas que de alguma forma me chamam a atenção. Então compartilho, antes no facebook, mas agora resolvi postar no blog. São momentos, instantes, cliques de vidas diferentes que dividem um mesmo espaço. Basta prestar atenção e soltar a imaginação.
Essa de hoje me chamou muito a atenção. A mulher e suas crianças...


terça-feira, 15 de julho de 2014

O Segredo da Família Birautes


A família Birautes morava na esquina da rua Massapé, naquele tradicional bairro de classe média da cidade. Seu Joaquim e Seu Barroso trabalhavam como porteiro e segurança da residência. O que eles não sabiam era o que acontecia todos os sábados pela manhã naquela casa. Era incrível, todos os sábados, como se fosse uma devoção. Todos os familiares dos Birautes iam para lá. Ao todo entravam ali mais de dezessete carros. Neste horário todos os empregados eram dispensados e só voltavam no outro dia, mas somente Seu Joaquim e Seu Barroso trabalhavam, afinal de contas eles cuidavam da segurança da casa e ficavam lá na frente na entrada principal e não corria-se o risco de nenhum deles entrar, ou de nenhuma informação vazar. Certo sábado, quando todos entraram Seu Barroso resolveu arriscar; combinou com o Joaquim para que ficasse na portaria enquanto ele ia bisbilhotar. Tirou os sapatos para não fazer nenhum barulho, colocou boné e óculos de sol para não ser reconhecido. Quando Seu Barroso atravessou a sala principal para adentrar a parte superior da casa, pode observar com os seus próprios olhos. E era exatamente aquilo que ele imaginava ser, o coração deu uma rápida acelerada e ele continuou a observar. Resolveu voltar pra contar ao amigo. Correu. Sentia arrepios. Curioso Seu Joaquim perguntou: 
- E aí? Conseguiu ver algum coisa?
Seu Barroso não sabia se ria, se chorava ou se gritava, ele sempre queria saber o que acontecia ali. Seria um ritual, uma reunião de família, contagem de dinheiro familiar? E hoje ele conseguiu descobrir. Seu Joaquim já estava inquieto quando novamente perguntou: 
- E aí? Conta logo....
- Joaquim, era exatamente aquilo que imaginei... 

(Essa foi a parte criada pelo Carlos Hamilton, abaixo meu desfecho) 

Quando os familiares entravam iam direto aos quartos reservados e se trocavam. Colocavam roupas esvoaçantes, sapatilhas, as mulheres amarravam seus cabelos num rabo-de-cavalo e os homens colocavam chapéu panamá.
Depois seguiam todos para o grande salão onde todos se posicionavam. As crianças ficavam divididas nos quatro cantos e os adultos enfileirados, de um lado os homens e do outro as mulheres, frente a frente.
Começava com uma valsa e os casais se formavam. Depois bolero, tango, e por fim os casais eram desfeitos voltando aos seus lugares. As crianças que estavam nos cantos se posicionavam entre a fileira dos adultos e uma porta se abria e matriarca entrava, com um manto vermelho e uma coroa. Caminhava até o fim da fileira. Depois agradecia e logo depois começava a discoteca. E cada casal simulava chamar os convidados para participarem.
Isto nada mais era um ensaio para o aniversário de oitenta anos da matriarca Ofélia. Fora bailaria na juventude, ganhou vários prêmios e viajou pelo mundo se apresentando. 
Estava no esquecimento, pois muitos já haviam morrido, principalmente quem se lembrava dela. 
Então essa foi uma maneira de homenagear a querida mãe, avó e bisavó. Uma foto com a família toda dançando, relembrando os bons momentos da juventude e tendo a certeza de que tudo passa muito rápido.
Ofélia sempre chorava no final do ensaio temendo não ter saúde suficiente para aguentar até o dia da apresentação, que seria num teatro. 
A ansiedade era tanta que uma das netas que já havia se formado em enfermagem estava sempre de prontidão para atender a avó, caso precisasse.
Como Seu Barroso foi fuxicar e estragou a completa surpresa, foi convidado a participar da apresentação, juntamento com Seu Joaquim. Ainda não sabiam quais papeis teriam, mas choraram de emoção com o convite.
Fim.


Esta é minha participação da Blogagem Coletiva do Blog Mesa de Conversa. Várias histórias por lá. Querem conferir? Cliquem no link.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Cena de Filme

Uma Linda Mulher


      O silêncio foi quebrado por um sussurro vindo do banheiro. Parou para ouvir melhor e não conseguiu entender do que se tratava. Calmamente abriu a porta e se deparou com a mais linda mulher deitada na banheira, com espumas brancas como algodão a lhe tocar, a lhe acariciar a pele macia, a lhe envolver o corpo perfeito e perfumado. Estava de olhos fechados e distraidamente cantava com os fones nos ouvidos. Tinha a certeza de não ser observada e nem interrompida. Se entregava à melodia com trejeitos esquisitos que ele não conseguia decifrar qual música seria aquela que encantava a linda mulher.

      Ah, se todos os homens pudessem ter a visão do paraíso seria essa a visão perfeita para um fim de tarde. Cabelos molhados, sem maquiagem e uma voz sem afinação nenhuma cantava como se nada de ruim pudesse acontecer naquele momento.

      Ainda admirando a bela cena, por um instante deixou de prestar atenção na música e tentou adivinhar seus pensamentos. O que uma mulher linda pensaria enquanto estivesse numa banheira de espumas perfumadas? Logo o sonho se acabaria e a vida da moça de programa voltaria ao que era antes. Que importância teria tudo isso se agora ela se perdia na letra da música e na maciez das espumas que nunca mais tocariam seu corpo? Vivia intensamente aquele instante sem pensar que tudo não passava de uma ilusão. Uma doce ilusão. Não sabia que aquele homem que a contratou e que encantado estava naquele momento já não queria que ela saísse de sua vida. Já estava envolvido o suficiente para encarar um passado que condenava, mas que o futuro seria encantador ao seu lado. Já não imaginava sua vida sem ter, vez ou outra, uma visão maravilhosa como essa quando voltasse para casa depois de um dia cansativo.

      Ela abriu os olhos e, envergonhada, sorri, perguntando se ele estava por perto há muito tempo. Mesmo com toda sua sutileza ela percebeu o encantamento nos olhos dele. E um pouco de paixão também, mas não pensou nesta possibilidade. Afinal contos de fadas são só contos de fadas. E enquanto não chegasse o "e viveram felizes para sempre" ele se jogou na banheira e ficaram os dois, abraçados, na água morna.

      Fim... Mas o filme continua...


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Teve Copa

E tenho dito! 

Nem Jesus tá crendo! Voltem pra um recall...

#somostodosfred

Aceita que dói menos

Ilusão... Esperança...

Não quero mais brincar de fuleco!

Não foi replay...

Enquanto isso...

Tem coisa pior...

Lamento lhe informar, Presidenta!

Saindo pela esquerda...

Só mais seisinhos.... Pode ser?
Ah, tá explicado! Mick Jagger!

Sim, fia, ufa!

E vamu que vamu que a vida é muito curta pra ficar sofrendo por mais de meia hora.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Neymar


Uma polêmica nas redes sociais por causa da Copa e outra polêmica maior ainda por causa de Neymar estar fora da Copa.

Está tendo Copa, querendo ou não. Aparentemente está sendo ótima e descaradamente houve um arrombo nas finanças. Isso já era de se esperar. O que podemos fazer? Ficar de olho, cobrar, votar direito, denunciar e principalmente não ficar endeusando candidato que não mereça. É fato que quem faz as leis são eles. Será que eles fariam leis que os prejudicassem? Claro que não! Então quem é de briga e de discussão a hora é em outubro de empunhar o dedinho e votar direito. Será que a nossa querida maquina de votar vai obedecer nosso voto? Tenho grandes dúvidas, quase certezas...

Neymar machucado causou revolta contra o colombiano e sua família. Gente, quem tem que resolver a punição é a FIFA. O que a família do rapaz tem a ver com isso? Se foi proposital ou não ninguém tem o direito de ameaçar seja lá quem for.

Também causou revolta em muita gente, pois tantos morrem assim ou assado e nada é feito e um jogador que nada representa para ninguém se machuca e o Brasil todo lamenta...

Uma coisa não tem nada a ver com outra. Que mal há em gostar de futebol, de torcer, de vibrar, de ficar triste? Que mal há se Neymar tem uma profissão que lhe rende um maravilhoso salário? Quem paga seu salário, nós? Que mal há nele ter toda a tecnologia para ter uma excelente recuperação? É crime ter dinheiro? É crime ter uma excelente profissão? Quem é rico ou está feliz sempre é criticado. Afinal tantos passando necessidade e alguns tão ricos ou felizes, né?

Que inveja é essa que a pessoa não pode ter por direito que alguns já criticam? Por que em vez de criticar não vão se profissionalizar e se tornar o melhor de todos também? Nem todas profissões são bem-remuneradas. Alias, a maioria não é.

Sim, a maioria é pobre e necessita de ajuda e de cuidados. A maioria ganha salário mínimo e não tem condição de uma boa assistência médica. A maioria não tem uma boa educação. A maioria.... Enfim. Eu estou no meio dessa maioria aí. E daí? O Neymar é culpado? Ou então o artista do momento, ou então o escritor TOP, ou então a modelo mais bem paga? Eles têm culpa por eu ser classe baixa? Se você estivesse no lugar de alguns desses que têm condições de uma boa vida, se precisasse de um atendimento de urgência no melhor hospital do país, com os melhores médicos, você abriria mão de tudo por causa das milhares de pessoas que não têm acesso a tudo isso?

O Brasil precisa sim de hospitais, de escolas, de políticos corretos, de gente educada... De gente que não queira levar vantagem na fila do banco ou na vaga para deficiente. De gente que não corrompe, que não rouba, que não joga a culpa de sua infelicidade nos ombros alheios, gente que não entope as bocas-de-lobo ou boeiros de lixo, de gente que não fica esperando a ajuda do governo para ir em busca de seu sustento, gente que não frauda documento, gente que não respeita, gente que não desafia as leis se achando a própria lei, gente que não paga propina, gente que não recebe propina, não precisa de gente sem escrúpulos, de gente que não cuida do que é seu só porque lhe foi dado e sabe que vai ganhar de novo, porque os outros têm obrigação de lhe dar coisas para sobreviver, não precisa de gente que só reclama, reclama, reclama, gente que não mata sem motivo nenhum... Gente...

Quando foi decidido que a Copa seria no Brasil muitos gostaram e outros não. Normal num país que se diz democrático. Já sabíamos que haveria roubo e já sabíamos que tudo seria encoberto. Ou não sabíamos? E resolveu sabermos disso? Ainda não.

O exagero do momento é toda essa hipocrisia em criticar, criticar, criticar e se achar o dono da razão. Será que todos que têm o hábito de xingar e difamar em rede social, se tivesse a oportunidade de estar cara a cara com milhares de ouvintes falaria o que escreveu? Rede social tem esse lado obscuro, gente representada por uma foto, que fala o que quiser e salve-se quem puder. É bom ter opinião formada, é bom poder falar sem ser interrompido, é bom criticar quando não gostamos de algo. Mas tudo tem limite. E respeito é bom, apesar de estar em desuso.

Que Neymar se recupere, que o Brasil vença na terça feira e no domingo, que todos os brasileiros sejam felizes com essa vitória e comemorem muito.

Eu acredito que o golpe foi proposital. Não teve nada de acidente. Foi injusto! Neymar estava sendo perseguido desde o primeiro jogo. Craque é assim mesmo, assusta. E espero que o colombiano seja punido severamente e que o Brasil ganhe forças para jogar melhor do que nunca e vencer a Copa.

Que Deus conforte as vítimas do mau uso do dinheiro em construções duvidosas e em assistência médica precária, que as famílias sejam acarinhadas pela solidariedade dos demais familiares e amigos.

O povo brasileiro é solidário, ajuda muito quando precisam, torce pelo sucesso do outro principalmente quando o outro não teve tantos recursos assim, sofre com as tragédias que acontecem, chora com mortes, se solidariza com a dor alheia, se comove, luta junto, faz campanha, arrecada... Ajuda. Sempre foi assim e sempre será. E isso nem sempre é mostrado. Solidários do Brasil inteiro estão ajudando todos os dias, mas isso não é mostrado porque não dá ibope. Graças a Deus existem mais pessoas do bem do que do mal, mas os maus sempre são notícias. Os bons vivem no anonimato.

Somos diferentes um do outro no Universo. Não podemos viver a vida do outro, não podemos sofrer e nem nos alegrar no lugar do outro. Temos a Copa e estamos vibrando com uma possível vitória do Brasil. E ficamos tristes com tantas tragédias diárias que acontecem... Nem uma nem outra nos faz menor ou maior. Nem uma nem outra nos faz culpados ou inconsequentes. Ou vitoriosos... Apenas estamos vivendo nosso mundo e assistindo os outros a viverem a vida deles. Simples.

Um dia um menino nasceu, família humilde, porém não desistiram. O menino tinha um sonho e muito talento. E foi em busca do seu sonho para realizá-lo. Realizou, com esforço e ajuda da família. Enriqueceu e a família deixou de ser pobre, porém continuou a ser humilde. Durante esse sonho uma fatalidade o afastou. Estava fora. Sonho adiado por quatro anos. Esse menino é Neymar. E se fosse seu filho?

Quem gosta de Copa, assiste a Copa, quem não gosta, faça o que tiver vontade. Simples.

E quem é cidadão que não se esqueça do que aconteceu antes da Copa. Infelizmente temos o voto, que é duvidoso com a urna eleitoral, mas é a que temos no momento. Vamos ter esperanças, vamos fazer por onde, vamos ser honestos e votar na certeza de que nosso voto vai fazer diferença sim. Vamos, Brasil!





sexta-feira, 4 de julho de 2014

Mude



Mude.
 
Mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade. 
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. 
Mais tarde, mude de mesa. 
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. 
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa. 
Tome outros ônibus. 
Mude por uns tempos o estilo das roupas. 
Dê os teus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. 
Tire uma tarde inteira pra passear livremente na praia, ou no parque, 
e ouvir o canto dos passarinhos. 
Veja o mundo de outras perspectivas. 
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. 
Durma do outro lado da cama... Depois procure dormir em outras camas. 
Assista a outros programas de TV, compre outros jornais... Leia outros livros. 
Viva outros romances. 
Não faça do hábito um estilo de vida. 
Ame a novidade. 
Durma mais tarde. Durma mais cedo. 
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua. 
Corrija a postura. 
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias. 
Tente o novo todo dia, o novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo 
jeito, o novo prazer, o novo amor, a nova vida. 
Tente. 
Busque novos amigos. 
Tente novos amores. 
Faça novas relações. 
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria. 
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa. 
Escolha outro mercado... Outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários. 
Use canetas de outras cores. 
Vá passear em outros lugares. 
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes. 
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias. 
Jogue fora os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores. 
Abra conta em outro banco. 
Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus. 
Mude. 
Lembre-se que a vida é uma só. 
E pense seriamente em arrumar um novo emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano. 
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. 
Seja criativo. 
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. 
Experimente coisas novas. 
Troque novamente. 
Mude, de novo. 
Experimente outra vez. 
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas. 
Mas não é isso o que importa. 
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. 
Só o que está morto não muda!


Edson Marques


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Apesar de me considerar metódica, gosto das mudanças. São necessárias para dar uma colorida de vez em quando... Mude, não tenha medo! Se não gostar, volte!


Bom fim de semana!



Como dizia nosso velho guerreiro Chacrinha, nada se cria, tudo se copia. Sobre este texto acima uma querida amiga virtual me alertou sobre a autoria. Não é de Pedro Bial e nem de Clarice Lispector e muito menos de Paulo Coelho. É de Edson Marques que está movendo um processo defendendo sua autoria. Amigos a gente tem, não importa se é perto ou longe, são amigos. E amigos que nos querem bem, nos avisam de algum provável deslize. 
Então está aí a autoria correta: EDSON MARQUES.

Pra quem quiser saber a procedência, tem esse blog AQUI!


quarta-feira, 2 de julho de 2014

A Primeira Vez...


"A primeira vez a gente nunca esquece" foi o que alguém disse. Hoje estava me lembrando, ou tentando me lembrar quando foi a primeira vez que me senti feliz... Sabe aquela felicidade plena, um estado de graça, de paz, de satisfação? Não sei.

Talvez na infância tive a primeira sensação de felicidade. Me lembro quando ganhei uma boneca que queria muito, a Susi. Fiquei muito, mas muito feliz mesmo! Geralmente criança é feliz. Sofre também, mas pela inocência é feliz. Sem maldade, sem rancor, é feliz.

Na adolescência também tive meus momentos felizes, claro, quando descobri como é bom ter o próprio dinheiro. Naquele tempo começávamos a trabalhar bem jovens, com treze, quatorze anos, e ter um salário para quem não tinha nada era o máximo do máximo. Podia comprar o mundo, podia ter, ter, ter...

Dinheiro é importante sim; não que seja a razão de tudo, mas ajuda muito. Não é essencial, mas é necessário. Não é felicidade, mas nos deixa feliz com o que ele nos proporciona.

Sonhos... Tinha muitos, todos ao meu alcance. Sonhei com bom trabalho, com estudo, com casamento, com casa própria, com filhos, com família, com felicidade. A gente sonha em ser feliz, né? Mas como ser feliz? O que é ser feliz? Qual a sensação de ser feliz e não somente estar feliz?

Posso dizer sem medo que o momento mais feliz da minha vida foi quando presenciei o milagre de Deus, da vida, quando tive meus filhos... Não existe explicação, não existe sensação mais maravilhosa do mundo do que gerar um ser, de vê-lo nascer... A primeira olhada, o primeiro choro, o primeiro toque, e ao mesmo tempo sentindo seu coração se partir em dois, depois em três e assim sucessivamente quantas vezes forem os filhos nascidos.

Mas essa é uma felicidade compartilhada. É claro que de coração, de alma... Mas não é nossa, somente nossa, entendem? São nossos filhos mas estão por aí, hoje aqui, amanhã lá, depois de amanhã quem sabe?

Agora, o momento mais feliz que tenho em mente não faz muito tempo assim. Foi depois de um processo doloroso da minha vida que durou alguns anos e que um dia, não me recordo qual dia, percebi que não podia fazer nada para mudar tudo, mas podia fazer tudo para mudar meu mundo. E mudei.

As pessoas são como são, o tempo é como é, os lugares são os mesmos, as palavras vêm e vão, o amor começa e acaba... A vida continua... Nós dominamos nosso mundo, nosso interior. Aprendi a dizer não quando queria dizer não. Aprendi a ver as pessoas como seres únicos e não como gostaria de vê-los. Aprendi a ter o tempo a meu favor, aprendi a dar valor nas coisas que não têm preço, a pedir ajuda quando precisasse, a ajudar sem esperar retorno, a não me importar com o que acham ou o que falam de mim, a elogiar, a rir, a não me preocupar tanto, a perdoar, a me perdoar, a orar... a agradecer, a agradecer, a agradecer... a agradecer...

Foi libertador descobrir tudo!

Foi nesse momento que senti a felicidade perto de mim, peguei-a nas mãos e não deixei mais escapar. Me dou o direito de tê-la todos os dias, apesar dos pesares. Aconteça o que acontecer, eu mereço ser feliz, por nada e por tudo.

Tão simples e tão complexo. Tudo é muito simples e nós complicamos demais. Já tentaram descomplicar a vida? Já resolveram os problemas sem ficar reclamando? Já sorriram hoje? Já riram de suas trapalhadas?

Falando em primeira vez, me digam, qual a lembrança mais remota que vocês têm da vida? Quantos anos tinham quando a primeira imagem lhes vêm à mente? Me lembro de uma casa com escada, eu brincava de noiva, onde prendia panos na cabeça com pregadores de roupa e subia as escadas segurando uma florzinha bem pequenininha. Eu era a noiva. Acho que tinha uns quatro anos. Foi nesta casa que ganhei a Susi...

Fim.