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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Prazer Platônico


      Carolina, num daqueles dias estafantes, com faxina por fazer, pia cheia de louças para lavar, roupas para colocar na máquina de lavar, dor de cabeça, angústia, tristeza, choro... Algo não estava indo bem nesse casamento de doze anos, onde ela, por opção, resolvera ser dona de casa abandonando uma profissão em que seria bem-sucedida. Não tinham filhos e isso deixava-a agoniada, pois o esposo se tornara um robô, apenas cumprindo os deveres de esposo e nada mais.

      Não sabia dizer se arrependera ou não de ter mudado radicalmente a vida abandonado seus sonhos, sua profissão e sua liberdade por um casamento que há tempos não era mais aquele mar de rosas. Aliás, o casamento nunca fora um mar de rosas, mas como boa companheira sabia contornar todos os problemas domésticos e rotineiros, deixando até de participar seu esposo, resolvendo ela mesma algumas chatices corriqueiras.

      Agora se achava solitária, numa casa vazia, apenas objetos para serem limpos, arrumados, organizados, e um esposo indiferente que amava-a, mas raramente demonstrava algum gesto de ternura por ela. O sexo já se tornara automático, e ela usava de artifícios após a relação para poder relaxar e, sozinha, se satisfazer. O esposo nem desconfiava achando que tudo caminhava muito bem com ambos.

      Rodrigo não se importava em não ter tido filhos, aliás ele nunca quisera tê-los. E nem animais de estimação. Isto deixava Carolina deprimida, pois não tinha com o que se distrair. Tempos atrás ela até fez cursos de pintura em tecido, bordados, crochê, mas era muito pouco para uma mulher que gostava de produzir, criar, construir. Queria um pouco de emoção, de atenção, de carinho, de sexo selvagem, de gestos proibidos, pensamentos pervertidos, mas Rodrigo, sendo treze anos mais velho, não acompanhava a jovialidade da esposa. O tédio matava-a dia a dia. Tinha muito amor guardado, embutido, esperando uma oportunidade para desabrochar

      Sexta-feira, Carolina corria contra o tempo para colocar a casa em ordem e esperar pelo marido, como sempre fazia, para satisfazer seus desejos carnais. Rodrigo chegava, tomava um banho, jantava, olhava para ela, dava-lhe um beijo na testa dizendo que amava-a e arrastava-a para o quarto. Tudo era sempre muito automático e Carolina nunca tivera a coragem de conversar sobre esta situação com o esposo, pois sabia que ele nunca a entenderia e a condenaria, desconfiando de suas atitudes. Ela era muito calma e calada, preferindo concordar com a situação ao invés de enfrentar os olhos brilhantes e verdes do esposo, que lhe davam um certo temor quando os encarava. Então se fechava e permitia toda esta rotina.

      No quarto tudo era sempre igual: eles se deitavam, ele beijava-a, passava a mão em seu rosto, fazia uma declaração de amor, beijava-lhe o corpo, mas só quando estava de bom humor, e começava a relação, tudo muito rápido e automático. Pronto! Virava para o lado e dormia. Carolina ia para o banheiro, ligava a ducha e se enfiava debaixo. Sonhava acordada com um homem a beijar-lhe, tocando-a delicadamente, encostando-a na parede e prensando-a com seu corpo quente e másculo. Alguém que lhe beijasse loucamente a boca, lhe revirasse do avesso e que lhe desse tanto prazer que seria capaz de ficar um ano inteiro sem sexo, apenas com as lembranças de momentos intensos e inesquecíveis. Queria ser adorada e desejada mesmo que por um dia, por um estranho. Imaginava um lindo ator, às vezes um cantor popular desses másculos e jovens, e se deliciava com um homem maduro, comum, sem rosto, mas que tocasse sua alma através das mãos descobrindo em cada toque uma fonte de arrepio e desejo.

      Chorava enquanto a água escorria pelo seu rosto e lamentava por aceitar esta situação em vez de conversar com o esposo ou mesmo contar do que gostaria que ele lhe fizesse. O medo era maior do que a coragem. Se contentava com suas fantasias solitárias, com um homem sem rosto, com corpo forte, com boca quente, com voz macia declarando em seus ouvidos e a dar-lhe um prazer que nem o mais sensível poeta seria capaz de descrevê-lo.

      Fechou a ducha, se enxugou, colocou a camisola, algumas gotas de perfume e foi se deitar do lado do esposo, que a essa hora, já roncava como um porco, pronto para o abate. A tortura da semana já havia terminado e no outro dia tudo continuaria como sempre fora, com toda aquela rotina, todo aquele tédio que deixava-a aliviada, pois ainda faltaria uma semana para a próxima sexta feira, quando outra sessão de tortura aconteceria novamente.

      E assim continuaria vivendo, como Deus queria... Era como Carolina definia sua vida.

      Fim.

      Texto publicado em 26 de junho de 2012. Editado

5 comentários:

  1. Putz! A rotina de tantas e tantas mulheres! Acho que é por isso que fiquei só. Não conseguiria viver dessa forma. Dois solitários vivendo debaixo do mesmo teto. Lindo texto Clara. Aliás, mais um.
    Bjs

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    1. Triste, né, Roseli, mas acho que essa situação não combinaria nada com a gente. Somos inconformadas demais pra aturar o que não nos faz bem. Que bom!

      Obrigada, querida, é sempre bem-vinda por aqui!
      Beijos

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  2. Uma situação bem repetitiva nas relações.
    Uma volta ao velho chavão da discussão da relação em todos os sentidos.
    Triste vida de quem se sujeita a levar uma vida de mesmices e tédio.
    Mais um belo conto com toda sua arte de prender o leitor e abrir reflexão sobre a relação.
    Parabéns Clara pela construção.
    Carinhoso abraço amiga e uma boa e bela semana a voce.
    Beijo de paz.

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    1. Muito comum mesmo essa situação, infelizmente, amigo. Mulheres preferem o conforto de ter um lar do que encarar a realidade e mudar o tédio. Mas, cada um sabe de sua vida. rsrs
      Um grande abraço, amigo poeta e uma linda semana pra vc também!

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  3. Oi Clara, tem tanto casal assim... e as vezes vivendo de aparência. Isso é um horror.
    Acredito na força do dialogo, mas ele prefere ficar caladinha... Paciência.
    Excelente conto, como sempre.

    Abraços

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