segunda-feira, 16 de junho de 2014

E Então Acordei Assustada

   
      Não sei como esse homem me achou, só sei que corria muito dele por uma estrada comprida, levantando as saias de meu vestido que vez ou outra me faziam cair naquela terra úmida, pós chuva, cobrindo meus joelhos com lama. Rapidamente me levantava e continuava correndo. Olhava para trás e ele continuava a me perseguir, quase me alcançando.

      O vento frio de outono cortava meu rosto e jogava meus longos cabelos cacheados para trás, esvoaçantes e rebeldes, balançavam em harmonia e tapavam meu rosto quando virava para trás. Continuava a correr. Já estava escurecendo e não tinha para onde me esconder. De um lado da estrada um abismo com o mar azul escuro aumentando a maré e batendo nas pedras, espalhando espuma branca por toda a orla. Do outro lado uma floresta fechada, um labirinto que se alguém se arriscasse a entrar, com certeza não sairia nunca mais. O homem me perseguia, eu gritava mas a voz embargava. Comecei a ficar ofegante e meus passos diminuíram. O homem me alcançou, puxou-me pelos cabelos fazendo-me encurvar o corpo para trás. Olhou bem nos meus olhos e deu um sorriso sarcástico. Eu cuspi no seu rosto e ele me deu um beijo na boca. Nojo! Limpei meus lábios com o braço, esfregando várias vezes, tentando tirar o gosto de álcool, com hálito quente daquela boca carnuda.

      Ele me puxava pelos cabelos arrastando-me pela estrada até encontrar um caminho numa rua estreita que seguia direto para o farol, que ficava à beira do mar. Este estava bem agitado.

      Naquela época, mais precisamente em 1832, as jovens eram sacrificadas quando não queriam se casar com os homens que as escolhiam. Se revoltavam, se rebelavam, mas de nada adiantava. Acabavam mortas, ou enforcadas, ou lançadas num penhasco que tinha o mar como chão. 

      Era para esse lugar que o homem forte, bonito, mas nojento, vestindo roupas mal cheirosas, cabelos pretos e longos, barbudo e um nariz comprido e pontiagudo que parecia o bico de um papagaio, me levava.

      Me segurava pela cintura, me levantando e me mandava ficar quieta. Gritava, mas minha voz continuava embargada; então ele repetia várias vezes, mas sem precisar gritar, para eu ficar quieta. Eu me debatia, tentando me livrar de seus braços, mas a força do homem era infinitamente maior que a minha.

      Ainda me segurando pela cintura apenas com um braço subimos a escada em forma de caracol e chegamos ao topo do farol. Grandes janelas nos mostravam o céu com algumas estrelas e alguns raios de sol do outro lado, da floresta. O mar batia nas pedras e fazia um barulho ensurdecedor; gaivotas voavam por ali tentando pegar algum peixe que estava mais na superfície. Um vento gelado uivava competindo com o barulho das ondas e com o canto das gaivotas. Entrava pelas janelas e esvoaçava nossos cabelos, quase que entrelaçando-os, num balé de quase fim de ato.

      O homem me levou até uma janela que ficava do lado mais fundo do mar, segurou meu rosto e me mostrou a linda paisagem. Cochichou alguma coisa no meu ouvido, mas que não consegui entender, com sua enorme mão me segurando do queixo me virou bruscamente o rosto de frente para o seu e mais uma vez me beijou fortemente. Mordi seu lábio inferior que sangrou, então ele se afastou e me deu um tapa no rosto, ainda me segurando firme pela cintura, com seus longos braços entrelaçados. Continuava a me debater, mas estava praticamente imóvel e exausta. Ele começou a me xingar, mas não conseguia entender nada do que ele dizia. Sabia que estava xingando pela expressão de ódio em seu rosto. Mais uma vez ele moveu meu rosto, me mostrando a paisagem que seria a última visão que eu teria. Tentava gritar e não conseguia.

      Num movimento rápido, ele me levantou e me sentou no parapeito da janela. Olhei para baixo e senti vertigem. Gritava, mas era inútil. Mais uma vez ele cochichou algo no meu ouvido e me empurrou para o abismo.

      Neste momento, gritei tão alto que as gaivotas voaram assustadas todas para um mesmo rumo. Segundo a segundo eu via aquele homem se distanciar de meus olhos enquanto eu caía. Um frio tomou conta de meu corpo, meus cabelos longos taparam meu rosto antes mesmo de meu corpo tocar o mar agitado. Parecia que a queda não teria fim. Senti falta de ar, como se minhas narinas estivessem fechadas e meu grito abafado tivesse cortado minha garganta impedindo a saída do ar. Fui caindo e desfalecendo. O barulho do mar era cada vez mais forte, mas já não me importava de morrer. Queria me livrar daquela sensação de morte. Queria a morte de uma vez por todas. Praticamente já sentia as gotas do mar respingando meu corpo. Abri os braços e me entreguei!

      E então acordei assustada, sentindo falta de ar, arrepiada e suando frio. Acendi a luz e fiquei olhando para o teto. Cobri meu corpo dos pés até o nariz, deixando somente os olhos de fora. Que homem era aquele? Não me lembrava de seu rosto, apesar de tê-lo visto nitidamente durante o sonho. Liguei a TV e o rádio. Aquele pesadelo não saía de minha cabeça e até olhei debaixo da cama para ver se o homem estava por lá. Tomei coragem, levantei-me e fui até a cozinha beber água. Estava tremendo. O silêncio da noite era medonho, então voltei para o quarto, me cobri de novo e assim fiquei tentando não dormir com medo de sonhar de novo com aquele homem estranho e asqueroso que queria me matar.

      Será que foi algum resquício de uma vida passada? Comecei a ligar o sonho com o meu pavor de altura e de mar. Será que fui visitar e reviver uma encarnação passada? Que importa isso?  Minha vida é agora!



      Fim.

      Texto publicado em 01 de março de 2013.

9 comentários:

  1. Nooooossa, que sonho!!Acho, pesadelo! Essas sensações aparecem e parecem nos levar a visitar outras vidas.Interessante.Lindo conto! bjs, ótima semana! chica

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    1. Um pesadelo dos brabos, Chica! Um horror sonhar que está caindo ou sendo perseguida... Mas essa é só uma história... rsrsrsrs
      Beijos, querida!

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  2. Vixi.....a coisa foi boa na madruga, mana....

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  3. A coisa foi boa na madruga, mana....Uhuuuuuu...

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    1. Sim, foi boa sim, eu e meu edredon, eternos grudados! rsrsrsrs
      Beijos

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  4. Oi, Clara!
    Pode não ser resquícios de outra vida ou simplesmente o seu subconsciente alimentando os seus medos! Posso contar os pesadelos que tive na vida, mas esse seu supera todos eles. Meus pesadelos são lights (rs*). Não sei se conseguiria ficar na cama, talvez acendesse toda a luz da casa ou acordasse todo mundo para esperar o dia amanhecer, afinal, à luz do dia, eles se amenizam.
    Boa semana!
    Beijus,

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    1. Luma, na verdade não tive esse sonho/pesadelo. Essa é só uma história fictícia. Participei de uma BC na época em que publiquei.
      Mas já tive muitos pesadelos até piores que esse. Sonhar que está caindo é horrível, né? E sendo perseguida? Pior ainda!
      E eu acendia as luzes sim, ligava TV, rádio e ficava de olhos bem abertos até amanhecer. Um horror! rsrs
      Beijos, boa semana!

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  5. Não acredito nessa história de reencarnação, mas se fosse verdade, adoraria saber quem fui noutras épocas. Por outro lado, podia ter uma surpresa assustadora como essa.
    Melhor aproveitar a vida que temos, aqui e agora.
    Beijinho, uma doce semana
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Sim, Ruthia, a vida é aqui, agora, deixemos o depois pra depois.
      Não sei se queria saber quem fui... mas adoraria saber que reencontrei pessoas, mesmo que sejam essas, como esse rapaz asqueroso... rsrsrs
      Beijos, linda semana, menina!

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