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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eu Sei Quem Você É



      Artur, depois de um dia agitado com cuidados com Maria da Graça, deitou-se e logo a mulher abraçou-o. Sabia que esse era um gesto involuntário, talvez um costume de mais de cinquenta anos de uma união de amor, respeito e cuidados um com o outro.

      Um dia, conversando com a mulher, notou que ela estava estranha, que esquecia as coisas e que não conseguia achar o caminho da cozinha para o quarto, deixando-a agoniada. Levou-a ao médico e o diagnóstico foi preciso: Mal de Alzheimer. Naquele dia não tinha ideia do que seria e do que viria pela frente, mas prometeu, em pensamento, mais uma vez, cuidar da mulher até seus últimos dias.

      Com o passar do tempo, mesmo medicada, Maria da Graça foi piorando, se esquecendo, se lembrando de outras coisas do passado e chegou o dia em que não se lembrou de Artur. Ficava se escondendo dele atrás das portas ou então dentro do banheiro. Sorte que ele, por precaução, tirou todas as chaves das portas deixando apenas a porta da frente que dava para a rua trancada e com a chave em seu bolso. Sempre.

      Seus quatro filhos, todos homens, ajudavam no que fosse preciso, mas tinham suas vidas e seus problemas. Artur já estava aposentado e tinha todo o tempo para cuidar e vigiar Maria da Graça.

      Mesmo ela não se lembrando de nada, tratava-a com todo o amor de sempre, com toda a paciência e carinho. E quando ela ficava sentada olhando para o nada, ele se sentava ao seu lado e contava histórias de um passado que ela agora desconhecia, mas que ele fazia questão de se lembrar sempre.

      Como no dia em que chegou em casa e seu filho mais velho já havia nascido com a ajuda de uma parteira, amiga de uma vizinha. Se assustou quando entrou no quarto e viu a mulher com o bebê nos braços a lhe sorrir. "Olha, bem, é homem!", dizia, com um sorriso lindo e olhos brilhantes por poder presentear o marido com um menino-homem. Rafael. Um bebê rechonchudo e chorão, faminto e inquieto. Artur se acabou em lágrimas ao ver a bravura da mulher que escondeu as dores durante o dia inteiro só para não perturbá-lo no trabalho. Ela que preparou tudo, desde as roupinhas que colocaria no filho até a bacia com água, a tesoura e os lençóis branquíssimos para poder acolher o recém-chegado à vida.

      Enquanto contava essa lembrança, Maria da Graça ficava olhando o céu, os pássaros e apontava para eles, sorrindo. Depois olhava para Artur e dizia para que ele saísse de perto dela, que não o conhecia e queria que chamasse sua mãe Albertina. Artur pegava sua mão enrugada, acariciava e dizia que Albertina já estava vindo e que enquanto isso ele faria companhia para ela. Maria da Graça continuava a olhar os pássaros e a falar coisas desconexas, confusas e a rir sozinha.

      Os filhos até sugeriram que Artur internasse Maria da Graça em uma clínica especializada, com enfermeiras em tempo integral e médicos todos os dias. Artur não aceitou, pois ele era o marido e seria ele quem cuidaria da mulher. Ela não o conhecia mais, mas ele sabia quem era aquela mulher. E assim foi feito.

      Nesse dia em que se deitou e Maria da Graça o abraçou, dormindo, ele ficou olhando para aquela pessoa tão indefesa e se lembrou de todos os cuidados que ela sempre teve com ele. Nunca lhe faltara nada, nunca discutiu nem contrariou-o. Não porque o obedecia, mas porque se entendiam até com os olhares, com os pensamentos. O que um queria, o outro concordava prontamente, sem discussão.

      E assim seria até que chegasse a hora da partida. Até que Maria da Graça fosse conhecer uma outra vida, ao lado da mãe que tanto chamava, dona Albertina. E esse dia, com certeza, levaria o coração de Artur que ainda ficaria por aqui esperando sua vez de dar adeus e ir ao encontro da amada numa outra vida, quem sabe...

      Fim.

      Texto publicado em 20 de maio de 2013

11 comentários:

  1. Emocionante e lindo!!! Vale a republicação! beijos,ótimo fds!chica

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    1. É bom relembrar do que escrevemos há tempos, né, Chica?
      Faço isso de vez em quando.
      Beijos, gaúcha querida!

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  2. OI, Clara,
    Lindo demais, gostaria de ter uma companhia dessas no fim de minha vidda.

    Bjokass,
    Sheyla.

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    1. Eu tbm gostaria, Sheyla, mas será que dá? Eu amaria!
      Beijos, querida!

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  3. Por isso, Clara, que "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã...". Porque não sabemos o que nos espera.
    Meu marido chama-se Arthur. Ainda bem que minha mãe não se chama Albertina. rsrs
    Beijo, mana.

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    1. Ufa!
      Ia ficar preocupada agora... rsrsrsrs
      Beijos!!!

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  4. Clara, esqueci-me de comentar sobre o filme lindo que retrata um amor assim, paciente e duradouro, como o que vc mostrou. Acho que já deve ter assistido. Chama-se Diário de um paixão e é maravilhoso.

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    1. Eu assisti esse filme, Lúcia, maravilhoso!
      É uma vida num filme... Ou vidas num filme...
      Vou assisti-lo de novo, com certeza!
      Beijos

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  5. Clara, lindo demais esse caso de amor. Amor verdadeiro, incondicional, que atravessa décadas e mais décadas, que ultrapassa a juventude e seus roupantes. Lembrou demais um amor retratado no filme francês "Amour". Assistiu? Gostei tanto que vi umas quatro ou cinco vezes. Eu recomendo!
    https://www.youtube.com/watch?v=H2INylnfMCU

    Bjs

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    1. Vou assistir, Roseli, obrigada pela indicação...
      Amor muito raro nos dias de hoje, mas inda existe, graças a Deus.
      Bom fim de semana, querida!
      Beijos

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  6. Uma vida de cumplicidade e amor que transcende e por isso tudo suporta.
    Emoção em forma de carinho e ternura de duas vidas em sintonia.
    Linda a decisão do personagem na determinação do zelo e carinho, prova de um amor que existe sim.
    Otimo Clara sua construção e partilha.
    Abraços.
    Bju

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