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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O Nome das Coisas


Um texto de Mário Prata

Outro dia fui compra um abajur. A mocinha me olhou e perguntou: luminária?
Eu olhei em volta, tinha uma porção de abajur.
- Não, abajur mesmo. - eu disse.
- De teto?
Fiquei olhando meio pasmo para o teto, para a vendedora, para a rua.
Ou eu estava muito velho ou ela estava muito nova.
- No meu tempo - e isso faz pouco tempo - o abajur a gente punha no criado-mudo, na mesinha da sala.
E lá em cima era lustre.
- Lustre?
Descobri que agora é tudo luminária.
Pra mim isso é pior que bandeirinha virar auxiliar de arbitragem, e passe (no futebol) chamar-se agora assistência.
Quem são os idiotas que ficam o dia inteiro pensando nessas coisas?
Mudar o nome das coisas?
Por que eles não mudam o próprio nome?
A mocinha-da-luminária, por exemplo, se chamava Mariclaire.
Desconfio até que já tenha mudado de nome.
Pra que mudar o nome das coisas?
Eu moro numa rua que se chama Tertuliano de Brito Xavier.
Sabe como se chamava antes?
Caminho do Rei. Pode?
Pode!
Coisa de vereador com minhoca na cabeça e tio pra homenagear.
Mas lustres e abajur, gente, é demais.
Programação de televisão virou grade.
Deve ser para prender o telespectador mais desavisado.
Entrega em domicílio virou delivery.
Agenda de correio, mailing.
São os publicitários, os agentes de "marquetingui"?
Quer coisa mais bonita do que criado-mudo?
Existe nome melhor para aquilo?
Pois agora as lojas vendem mesa de apoio.
Considerando-se a estratégica posição ao lado da cama, posso até imaginar para que tipo de apoio serve.
Antigamente virava-se santo, agora vira-se beato, como se já não bastassem todas as carolas beatas que temos por aí.
Mudar o nome de deputado para putado ninguém tem coragem, né?
Nem de senador para sonhador.
Sonhadores da República, não soa bem?
E uma bancada de putados?
A turma dos dez por cento agora se chama lobista.
E a palavra não vem de lobo, mas parece.
E por que é que agora as aeromoças não querem mais ser chamadas assim?
Agora são comissárias.
Não entendo: a palavra comissária vem de comissão, não é?
Aeromoça é tão bom e terno como criado-mudo.
Pior se as aeromoças virassem moças-de-apoio, taí uma ideia.
E tem umas palavras que surgem de repente do nada.
Luau - isso é novo.
Quando eu era jovem, se alguém falasse essa palavra ou fosse participar de um luau, era olhando meio de lado.
Era pior que tomar vinho rosê.
Mas a vantagem de ser um pouco mais velho é saber que o computador, que hoje todo mundo tem em casa e que na intimidade é chamado de micro, nasceu com o nome de cérebro-eletrônico.
Sabia dessa?
E sabia que o primeiro computador, perdão, cérebro-eletrônico, pesava 14 toneladas?
E que, na inauguração do primeiro, os gênios da época diziam que, até o final do século, se poderiam fazer computadores de apenas uma tonelada?
Outra palavrinha nova é stress.
Pode ter certeza, minha jovem, que, antes de inventarem a palavra, quase ninguém tinha stress.
Mais ou menos como a TPM.
Se a palavra está aí a gente tem que sofrer com ela, não é mesmo?
No meu tempo o máximo que a gente ficava era de saco cheio.
Estressado, só a turma do luau.
E agora me diga: por que é que em algumas casas existe jardim de inverno e não jardim de verão?
E se você quiser mudar o nome dessa crônica para linguiça, pode.


9 comentários:

  1. Muito bom gostei, mas me parece que o Arnaldo Jabor mudou de nome para Mário Prata.

    Essa crônica é a cara do Jabor!!

    Beijuxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx...

    KK

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    Respostas
    1. É a cara do Jabor mesmo... mas é do Mário Prata que tem uns textos ótimos e bem humorados também.

      Beijos

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  2. Muito boa a crônica, leve e descontraída. E ele tem razão, essa mudança de nome é coisa de quem não tem o que fazer. No meu tempo não tinha essa de ficar estressado. "Estressado mesmo só a turma do luau" Rsrsrs.
    Linda segunda pra vc Clara!!!

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    Respostas
    1. É mesmo, Marli, muito ócio pra pouco resultado!
      Linda segunda pra vc também!
      Beijos

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  3. Bom dia amiga Clara, interessante e divertido o texto de Mario Prata. Apesar do tom de humor ele leva nos a refletir.
    Talvéz o problema de algumas línguas seja dispor somente de uma palavra para exprimir várias idéias. O interessante seria uma língua em que cada ideia fosse expressa por um termo próprio.
    A língua universal Esperanto (criada por Zamenhof), por exemplo, busca diminuir muitas dificuldades de compreensão.
    Grande abraço, saúde e paz interior.

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  4. Clara,que texto mais legal esse do Mario Prata!É bom pra pesquisar na hora de escrever um romance,conto,porque confesso ainda usar palavras de antigamente.Engraçado tb é que pra essas bobagens de nomes de ruas os politicos arrumam tempo de votar!bjs e boa semana,

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  5. Bem humorado(?) o texto nesta linda partilha.
    A gente as vezes se sente perdida mesma com todas estas mudanças.
    Gostei Clara ou curti?kkkkkkkkk
    Uma linda semana a voce amiga.
    Um abração de paz e luz.
    Bjo.

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  6. Excelente texto! É bem verdade que hoje em dia tudo muda, até o nome das coisas...
    Beijos e grata por sua visita.
    Lita

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  7. Clara

    Dígno de aplausos este texto. Escorreito, alegre . Todos os dias mudamos as palavras. Minha filha hoje disse uma que não conhecia. Linguajar de jovens, talvez. Parabéns ao Mario Prata.
    Uma semana iluminada para você.

    bjs.

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