segunda-feira, 8 de abril de 2013

Da Janela do Hospital


Participando do Projeto Bloínquês - Edição Especial Conjunta
11ª Edição Visual + Edição Cartas.

      São Paulo, abril de 2013

      Para minha filha Camila.

      Não sei que dia é hoje, acho que 3 ou 4, mas o mês é abril que eu sei porque é seu aniversário, filha. Então, como não tenho como preparar aquela festa que preparo todos os anos, escrevo essas linhas de coração, com todo o amor do mundo que tenho por você.

      Pelas contas de cabeça que ainda consigo fazer, já vai fazer quase um ano que estou aqui, praticamente vegetando nessa cama. Como o tempo passa...

      Não é fácil, filha, ficar esperando a morte de alguém para outro alguém ter esperanças de vida. Não é justo, mas é a vida. Parece até que ficamos implorando uma migalha de algo que não servirá para nada, mas que viveria em outro corpo. Bem, deixemos esse assunto para lá.

      Olhando agora da janela do hospital, percebi que fizeram um jardim lindo aqui embaixo. Com margaridas! Como são lindas! Mesmo não sendo primavera, está florido, e perto do muro plantaram hortênsias. Filha, quando vier aqui, dê uma caminhada lá embaixo e tire fotos para me mostrar? Ou então peça autorização para o médico para eu poder dar uma volta?

      O dia hoje está lindo, com um céu brilhante, sem nuvens, um sol que parece não estar muito quente; percebo pelas roupas das pessoas que não são tão leves, como no verão. Outono... Adoro outono.

      Consegui me levantar um pouco e vi que colocaram bancos de madeira no jardim. Mas não vi ninguém sentado neles.

      Me lembro quando cheguei aqui e estava um calor insuportável. Não podia colocar ventilador nos quartos, por regras do hospital, e não me lembro de ter prestado atenção se haviam flores ou mesmo um jardim aqui embaixo. Ficava praticamente sedada, com essa agulha enfincada no meu antebraço o tempo todo. Mas me lembro do grande movimento de carros e de pessoas que passavam pela rua. O que aconteceu? Desviaram o tráfego? E me lembro também de um edifício no outro quarteirão que estava em reformas. Daqui da janela eu via os homens, parecendo miniaturas, trabalhando e fazendo muito barulho. Parece que terminaram a reforma.

      O céu continua o mesmo, com as nuvens de algodão nos presenteando com figuras diferentes, ora decifráveis e ora todas emboladas, sem definição nenhuma. E quando ficam todas escuras, dá um medo imenso, ainda mais quando estou sozinha. Fecho os olhos e me imagino voando sobre as nuvens, achando um sol brilhante, que queima minha pele e que sorri para mim, me desejando boa sorte. Depois acabo adormecendo e nem vejo a tempestade.

      Camila, minha filha, todos os dias eu rezo por você para que Deus lhe abençoe, lhe dê toda a felicidade que você mereça, que se cuide, que seja feliz do fundo do coração. Que mesmo estando longe, estou sempre por perto, e mesmo que não consiga um coração novo, este meu velho sempre baterá por você, de onde eu estiver.

      Não fique triste, filha, um dia todos nós iremos embora. É a vida.

      Que Deus lhe abençoe!

      De sua mãe Eunice, que lhe ama mais do que tudo. E essa margarida eu pedi para uma enfermeira colher do jardim para lhe dar. Por enquanto está aqui na mesinha do quarto, dentro de um solitário, lhe esperando para ganhar outra paisagem e um carinho de suas suaves mãos jovens.


7 comentários:

  1. Um omento da vida que muitos passam ... Você tem estado muito inspirada.
    Beijos.

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    1. Ultimamente estou inspirada mesmo, Élys, e tenho que aproveitar pra escrever, porque de vez em quando bate um "branco" que não consigo nem digitar o título...

      Beijos

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  2. Respostas
    1. Vida em hospital não deve ser fácil, Chica, e sempre é sofrida...

      Beijos

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  3. li e fiquei emocionado, muito mesmo. vc retratou mto bem o sentimento dos que estão em um hospital, Clara. é angustiante rs.

    contente de ver seus textos, tão bem escritos. gosto do sentimento q vc põe nas palavras, parece q vc "transborda" em cada frase, é especial

    bjs e bom dia pra vc querida amiga

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    1. Querido Alexandre...

      Os sentimentos angustiantes são doloridos, exclusivos de cada um... infelizmente.
      Espero que esteja bem e que volte a blogar como antes. Sentimos dua falta, querido...

      Beijos

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  4. .




    Caso fraquejem as minhas palavras,
    eu te quero. Mesmo que a minha alma
    desista do meu sofrido corpo, eu te
    desejo e se enfraquecido continuar
    capengando no meu peito um coração
    mesmo assim eu te amarei. Amo-te por
    fazeres parte de mim. Parte do meu
    passado e da minha história. Parte
    da vida que vivi feliz praticamente
    a vida inteira e hoje, aqui sozinho
    me vejo fazendo contas dos momentos
    bons e dos não tão importantes, mas
    que fizerem de mim a pessoa forte que
    ainda me vejo. Outros passaram por
    aqui e não tiveram a sorte pela qual
    luto, mas alguns saíram melhores do
    que esperavam. Aqui, aonde se recicla
    a esperança, também se tem a chance
    de vencer a morte e como um gigante
    voltar à vida e fazer o que a vergonha,
    o medo de errar ou a fé nos proibiu;
    amar a qualquer custo. Amar a vida e
    aqueles que vivem sem ao menos, temer
    morrer por ela.

    Coragem Lúcia!
    Não se entregue, Clara.


    silvioafonso











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