quinta-feira, 21 de março de 2013

Muito Prazer, Papai



Participando do Projeto Bloínquês - 9ª Edição Visual


      Manuela, apesar de não entender nada, esperava ansiosa pela voltado pai Tanaka. Não o conhecia pessoalmente. Quando ainda era bebê o pai resolveu voltar para o Japão e juntar dinheiro para que sua família tivesse um pouco mais de conforto. Sueli, sua esposa, não quis acompanhá-lo por Manuela ser bebê e por querer educá-la no Brasil.

      Sete anos se passaram e hoje seria o dia de Manuela conhecê-lo. Sueli não se continha de emoção e de aflição, e isso fez com que elas chegassem com bastante antecedência ao aeroporto para esperar Tanaka.

      As horas não passavam, Manuela não parava quieta e Sueli ficava impaciente de ver a filha pular em tudo, mexer onde não devia e sair correndo pelos corredores do aeroporto. Por alguns instantes Manuela se aquietou diante das enormes paredes de vidro que davam vista para a pista de pousos e decolagens. A cada avião que pousava olhava para trás e perguntava para a mãe se era esse o avião. Sueli diziam que ainda não  e a menina continuava contando os aviões e conversando sozinha, como se tivesse alguém do outro lado da parede para ouví-la:

      - Olha, é o papaaaaai! Meu papai que tava láááá no Japão e agora vai ficar na minha casa, na minha casinha, né mãe? - perguntava para a mãe. Esta apenas acenava com um sim com a cabeça.

      Não foi fácil para Sueli cuidar da filha, sozinha, pois sua família toda morava em outra cidade, bem distante de sua casa e de seu trabalho. Tanaka era japonês e se encantou por Sueli desde a primeira vez que a viu. Não demorou e se casaram. Logo Sueli engravidou e como a situação dos dois não era tão boa como planejavam, Tanaka resolveu voltar para o Japão. Todos os meses mandava suas economias para Sueli e a filha, e agora era a hora exata de voltar e se juntar à família.

      Sueli, aflita,  não sabia qual seria a reação de Tanaka ao vê-la. Mas criou coragem e resolveu enfrentar de vez os olhos do marido. Sueli estava grávida!

      Tanto tempo longe do marido, Sueli com toda a carência, se envolveu com um amigo de trabalho e engravidou. Como não tinha o costume de se cuidar, engravidou na primeira vez em que saíram. O rapaz não quis assumir e desapareceu no mundo. Sueli enfrentou tudo sozinha e agora enfrentaria Tanaka.

      Para Manuela, Tanaka seria o papai de seu irmãozinho, que ainda estava na barriga da mãe. Ela era uma menina carinhosa, meiga, linda com seus olhos amendoados e seus cabelos negros, lisos. Seus traços eram mais orientais do que brasileiros. Era a cara do pai! E certamente teria um irmãozinho loiro e de olhos claros, se este puxasse o pai sumido. Como explicar isso para uma criança de sete anos?

      O avião pousa, o coração de Sueli acelera, suas mãos suam frio, a voz fica embargada e depois de um tempo surge Tanaka, bem mais magro, cabelos longos, barbudo, óculos escuros e uma imensa tatuagem no braço esquerdo. A tatuagem era o rosto de Manuela. Sueli disfarçou seus sete meses gravidez colocando a bolsa na frente, tapando a barriga. Não correu para ir ao encontro do marido mas o mostrou para Manuela fazer isso. A menina correu e pulou em seus braços. Já se conheciam por vídeo, por fotos, por telefonemas, enfim, só faltava juntar coração com coração num forte abraço.

      Depois de se conhecerem, Tanaka olhou para a mulher e ficou paralisado. Sabia que esse seria o primeiro e último dia em família. Tanaka era um rapaz correto em seus atos, respeitador, defensor dos bons costumes e da preservação da família. A última coisa que esperava era encontrar a mulher grávida. Seu mundo caiu ao fundo do poço. Sueli só chorava e nada conseguia falar. Falar o quê? Tudo já estava explicado. Tanaka chegou perto, olhou bem dentro de seus olhos e nada falou. Pegou na mão de Manuela e foi em direção à porta de saída. Sueli o acompanhou. Nada se falaram.

      Tanaka começou a se lembrar do tanto que foi sofrido ficar longe da família, da filha pequena, de sua casa, da mulher que tanto amava. Não se conformava em ter que enfrentar mais uma situação dolorida. Às vezes passava fome no Japão só para mandar as economias para Sueli. Todo trabalho extra, todo dinheiro que ganhava mandava para o Brasil. E agora um furacão, pior do que aqueles que passam no Japão, estava pairando em sua cabeça. Não conseguia olhar para a mulher. Não conseguia falar nada e nem chorar. Apenas ficava segurando sua filha Manuela, mas mesmo assim, falando muito pouco com ela.

      Tinha tantos planos, tanto o que contar, mostrar... Fez questão de voltar com uma camiseta de mangas curtas só para que Sueli visse sua tatuagem, como uma surpresa. Mas a surpresa ficou sendo só para a filha porque falar da tatuagem era o que ele menos queria. Também queria a opinião da mulher sobre seus cabelos longos, se ficou bom assim ou se deveria cortar. Tudo isso seria compartilhado por aquela mulher que um dia roubou-lhe o coração. Não suportaria ter que ficar perto de uma pessoa que idolatrava, mas que foi capaz de traí-lo. Não importa quem e nem por quanto tempo. Era traição e isso não cabia na vida de Tanaka. Traição não tem volta. Quando o cristal quebra, cola nenhuma o coloca em pé.

      Chegaram em casa, Tanaka sentou em sua cama, aquela que talvez seria o antro de traição, e chorou, como uma criança quando perde um brinquedo muito raro. Sueli achou melhor levar Manuela para a casa da vizinha, para poder brincar com a sua filha. Conversaria com Tanaka, mas já sabendo que nada poderia ser feito, então conversariam sobre Manuela e mais uma vez, a mulher de Tanaka enfrentaria tudo sozinha, com um filho pequeno, agora sem pai, e um filha que acabara de conhecer seu herói que veio de longe para morar com ela. E agora? Como ficaria essa situação?

      Ninguém sabia. Tanaka não conseguia ouvir Sueli. Não falava nada e não prestava atenção no que ela estava querendo explicar. Por fim, pegou suas malas e se foi. Mais uma vez Manuela perdeu o pai, não para outro país, mas para outra casa. Agora teria duas casas. Coisas da modernidade que ela, pela pouca idade, nem sentiria muito. Já sabia como era morar só com a mãe e essa rotina continuaria. Agora saberia como era ter um pai por perto, mesmo não sendo tão perto como imaginava. Mas criança não tem noção do que seja perto ou longe. Estando sempre presente, era o que importava.

      Fim.

15 comentários:

  1. Bom Dia Clara

    Muito bonita a história e como essa existe muitas por ai hoje, infelizmente a essencia da familia com mae , pai , filhos unidos para sempre hoje está cada vez mais distante.

    Beijos e uma otima quinta feira para você

    Janaina

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    1. Infelizmente é assim, Janaína, mas acho que a grande maioria ainda defende a família como ela realmente deve ser defendida.

      Beijos

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  2. Nooossa,que linda inspiração! Triste e pena, tão real! Adorei! beijos,chica

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    1. Obrigada, Chica!
      Nós e nossas inspirações!

      Beijos

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  3. belo conto Clara e real até demais, infelizmente na nossa cltura traição de mulher é semapre relevante, concordo, afinal não fomos feitas para trair e sim para agregar e consolidar valores e princípios. Parabéns pela lucidez do conto.\bjs.

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    1. Traição é uma coisa complicada... tem que pensar bem antes de fazer o que não se deve.

      Beijos

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  4. Clara você escreve cada vez melhor. A leitura nos prende do início ao fim. Beijos.

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    1. Obrigada, Élys.

      Um ótimo restinho de semana pra vc!

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  5. Eu acho que o Tanaka teria que abrir os olhos.

    Só acho...

    Beijuxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx...

    KK

    PS: Esses japoneses... Vou te contar, viu?

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    1. Ele abriu os olhos, KK, mas acho que foi tarde demais... coisas da vida.

      Beijos

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    1. Ninguém merece passar por isso, Inaie, mas tem que ter muita confiança e força de vontade pra ficar anos longe da família. Deve ser difícil...

      Beijos

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  7. A família, a célula da sociedade, como é (ou era?) conhecida, pede socorro... Fatos como esse, do belo texto acima, ocorrem com frequência, por motivos vários. Em outros tempos, havia os mesmos motivos; a diferença é que os casais se sacrificavam em prol da unidade familiar. Duro é responder à pergunta: o que é mais certo? Parabéns, Clara, pelo belo, embora triste, texto. Bjs

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  8. Clara, o que admiro em você é a capacidade de ser realista, não dourar a pílula, mostrar a vida como ela é.
    Eu, (acho que vc já sabe! rs) faria com que a história fosse outra, tipo assim: Tanaka chegaria "com um pé atrás", pensando em como contar a Sueli que se envolvera com uma moça, no Japão, que ela tinha engravidado, mas perdeu o filho ao nascer. Que ele vivia se consumindo por isso, e não sabia como pedir perdão à mulher que tanto amava, então, entendia o deslize dela e estava pronto para criar aquele filho, certamente tão diferente dele, mas que, com amor, saberia aceitar como seu. rs Muito louco, né? Acredito sempre em finais felizes. rs
    Beijo!
    (quem sabe a história continua, com Tanaka perdoando Sueli? rs)

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  9. Olá Clarinha.

    O teu conto está muito bom. Aborda temas importantes como a emigração, infidelidade, gravidez indesejada, decepção... São coisas da vida real. Apesar de não ter um final feliz, gostei de ler.
    Parabéns, amiga.
    Também participei no bloinquês, só não sei se a prova foi superada... Se quiseres ler, deixo-te o link. É um pouco diferente do teu, não sei se gostas...

    http://oqueomeucoracaodiz.blogspot.pt/2013/03/chocolate-quente.html

    Obrigada.

    Beijinhos,

    Cris Henriques

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