quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Viagem de Balão



      Cíntia, mais que depressa, ainda eufórica por ter sido a ganhadora num sorteio pela primeira vez na vida, ligou para a amiga Camila e quase não conseguiu contar com detalhes que sorteio era esse que ela, por maldade segundo Camila, não avisou para participarem juntas. Cíntia não parava de rir e de pular com o telefone na mão, até que deixou-o cair e sem se despedir, colocou-no no gancho.

      Mais que depressa foi tomar um banho rápido, colocou uma roupa nova, um sapato que não combinava com nada, mas que ela gostava muito, passou chapinha na franja, pegou bolsa, documentos, o capacete pois tinha uma moto, e foi buscar seu prêmio no supermercado que ficava no bairro vizinho ao que morava.

      Para ganhar o sorteio, a pessoa teria que comprar seis potes de uma marca nova de iogurte, sabor melancia. Cíntia odiava melancia, mas como era para participar, comprou assim mesmo. Nem se deu ao trabalho de experimentar o iogurte, apenas guardou a nota fiscal que comprovasse a compra. E deu certo! Foi sorteada! O prêmio? Ela não se lembrava... Iria no supermercado pegá-lo.

      Chegando lá, entrou com tudo no supermercado, sem tirar o capacete, Todos ficaram olhando, sem entender nada e alguns até se afastaram pensando ser algum assalto. O segurança do local foi atrás de Cíntia, segurou em seu braço e pediu para que tirasse o capacete. Ela se assustou, não entendendo nada, ficou olhando para o rapaz enorme, corpulento, de terno preto e com fone no ouvido. Aí se lembrou do capacete e tirou-o, rindo e pedindo desculpas. Contou sobre o sorteio e pediu informação de quem ela deveria procurar. Ele a encaminhou para uma sala. O gerente estava esperando-a.

      - Parabéns, dona Cíntia! - cumprimentou-a, mas o que lhe chamou a atenção foi o sapato roxo com detalhes em amarelo, que ela insistia em usar, mesmo não combinando com nada. - Que dia vamos marcar o passeio?

      - Passeio? Ganhei um passeio? Pra onde? - perguntou, com um sorriso estampado na cara.

      - Pela região mesmo. O baloeiro vai lhe mostrar as regiões montanhosas por aqui perto. Podemos marcar para sábado? - respondeu o gerente.

      - O quê? Passeio de balão? Que balão? Aqueles enormes, que tem fogo dentro? Ai, meu Deus! - Cíntia sentou na cadeira que ficava frente à mesa do gerente.

      - Sim, não viu o cartaz com a promoção e o balão imenso?

      - Ahãm... vi! Como é que eu vou subir num troço daquele? Não subo nem escada, nem salto alto eu uso, como é que vou andar de balão? - começou a se perguntar, em voz baixa, mesmo sabendo que o gerente ouviria tudo.

      - Fique tranquila, tudo vai dar certo! E não precisa ficar com medo, é tudo muito seguro, eu te garanto! - respondeu o gerente, apertando a mão de Cíntia e mais uma vez conferindo seu sapato estranho.

      No sábado, Cíntia acordou bem cedo, fez uma prece, ligou para a amiga Camila e disse que não iria porque aquilo não era para ela. Camila tranquilizou-a e disse que estaria rezando por ela, que o importante era estar sobre terra. Imagina se fosse sobre o mar? Riu de sua piada sem graça e desligou o telefone.

      Cíntia colocou o capacete, pegou a bolsa, e foi! Com o mesmo sapato roxo com detalhes em amarelo. Chegando lá todos a receberam com entusiasmo e depois que entrou naquele quadrado do balão, não aguentou e se sentou. Estranhou todos ficarem olhando para ela e sorrindo, até que o piloto lhe sugeriu tirar o capacete, porque o passeio seria seguro e tranquilo. Ela, mais uma vez sorriu timidamente e tirou o capacete, entregando-o a um homem que estava ajudando na organização do passeio. O piloto ligou o fogaréu, desamarrou as cordas e partiram.

      Cíntia não fazia outra coisa a não ser rezar, o tempo todo fazendo o sinal da cruz, segurando o rosário que era de sua mãe. Implorava para o passeio terminar rápido. O piloto ria de seu pavor, conversava com Cíntia e conseguiu, depois de alguns minutos, segurar em sua mão.

      - Venha ver que lindo! Olha o sol que majestoso! Olha a brisa suave, olha os passarinhos nos acompanhando...

      De tanto ele insistir e puxando-a pela mão, Cíntia conseguiu ficar agachada, de forma que só sua cabeça ficasse para fora, para ver a paisagem.

      - Ahhhhh, que lindo! - admirou o que viu, mas continuou agachada.

      Aos poucos, foi se levantando e, agarrada ao piloto, ficou de pé. Praticamente não respirava e apertava tanto o rapaz que ele só achava graça da medrosa. O passeio demorou meia hora, com um dia lindo, ensolarado e pouco vento.

      Pronto! Terra firme! Cíntia saiu do balão e não conseguia andar. Caiu de joelhos no chão e ali ficou, não acreditando no que havia feito. Mas a paisagem era tão linda, que por fim ela relaxou e sorriu. Agradeceu a todos, colocou o capacete e se foi!

      Chegou em casa e foi direto à geladeira. Pegou o iogurte, abriu e colocou uma colherada na boca. Fez cara de asco e jogou-o fora junto com os outros cinco. - Pelo menos esse horror asqueroso serviu para alguma coisa - pensou em voz alta, ainda em êxtase por tamanha aventura que jamais havia pensado que um dia iria realizar.

      Foi o assunto do mês para Cíntia, que tinha pavor de altura, mas que enfrentou o medo e seus olhos presenciaram as paisagens mais espetaculares que já havia visto.

      Fim.

Participando do projeto Bloínquês - 5ª Edição Visual - Tema: Viagem de Balão.


19 comentários:

  1. Adorei teu conto e participação! beijos,chica

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  2. Chica, daqui a pouco vou lá no seu canto, que eu gosto tanto!

    Beijos

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  3. É preciso enfrentar os nossos medos. Corajosa essa menina.
    Uma vez fiz um pequeno passeio de balão. Bem, foi mais uma subida e descida, com o balão preso à terra, mas valeu pela experiência.

    Aí deixo o link:
    http://bercodomundo.blogspot.pt/2012/07/anonimos-num-balao.html

    Beijinho
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Eu não tenho essa coragem não! Mas deve ser tranquilo, só sendo levado pelo vento... mas muito alto pra mim!

      Vou ver o link!
      Beijos

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  4. Olá, querida Clara
    Se eu tivesse, também me arriscaria a viajar num balão... inclusive fui a S. Lourenço e não ousei ainda...
    Bjm de paz e orante

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    1. Eu tenho pavor! Não ando nem em roda gigante... acho que não teria coragem não...

      Beijos, querida!

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  5. Oi, Clara

    Que bela estória, acho que não teria coragem de jeito nenhum, morro de medo de avião, imagina viajar de balão, nem subiria nele rsrsrs

    bjokas mil

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    1. Sheyla, eu tenho pavor... mas não sei, sou imprevisível, pode ser que eu me arrisque, nem que seja pra ficar sentada, como ela ficou no começo....
      Não ando nem em roda gigante... isso é pavoroso!!!

      Beijos

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  6. Muito bem Clara,uma otima construção para esta desavisada.
    Pena que a personagem nao levou uma maquina para registrar seu passeio de medo e extase.
    Parabens amiga.
    Meu terno abraço.
    Bjo.

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    1. O pavor faz a gente esquecer de tudo! Pra vc ver que ela nem mencionou não levar a máquina.... rsrsrsrs...

      Um ótimo fim de semana, amigo!
      Beijos

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  7. Olá Clara,

    Parabéns por esta criativa e bela participação.
    Eu abriria mão desse passeio, com certeza-rsrsrs.
    Até para ousar tem limite, né?
    Adorei a leitura.

    Beijo.

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    1. Olha, eu tenho pavor de altura, mas quem sabe eu arriscaria, como a Cíntia? Não sei... só na hora pra ver... rsrs

      Beijos

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  8. Clara,
    o texto fluiu tão naturalmente! Bem construído que foi. Gostei!
    Abraço,
    Jussara

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    1. Jussara, um lindo fim de semana, mineira!!!
      Beijos

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  9. Um dia, quem sabe, ainda conhecerei essa Cíntia!!!

    hahahahahahahahahahhahhahhah...

    Beijuxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx...

    KK

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    1. Essa Cíntia é uma maluca, sem noção, mas corajosa!
      Vc ia se divertir com ela.

      Beijos

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  10. gosto de ler suas crônicas, Clara. a gente lê e entra na história. e que baixe essa cíntia em todos os medos que temos! é isso aí!
    bjos querida amiga

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    1. Alexandre, meu amigo... que bom te ter de volta!

      No fundo eu sou uma Cíntia, medrosa com altura, mas se for presente, por que não?

      beijos, querido!

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  11. Muito bom. Legal essa iniciativa do Bloínques, né? Tô até pensando em participar com o meu blog novo, que ainda tá meio vazio... MAs claro que nem dá pra competir com você, Clara... Manda sempre muito bem!
    Bom final de semana!!!!

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