segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Caçando Lobisomem

Mais uma crônica de Eliana Teixeira, uma mineira pra lá de talentosa.


      Na última noite de lua cheia umas coisas esquisitas aconteceram no galinheiro. A noite estava bem clarinha, mas, de repente, nublou. Eu sei porque estava lá fora, por volta de meia-noite. Nublou e deu uma esfriada súbita, daquelas de arrepiar a espinha. Na manhã seguinte, tinha acontecido uma coisa esquisita: uns trinta pintinhos tinham tido a cabecinha decepada e todo o sanguinho chupado. Seria ataque de um bando de gambás e morcegos? Ou um mão-pelada pelo telhado? Ah, toda explicação tinha suas falhas. 

      
      Lembrei-me de uma história de minha infância. Tinha acontecido uma coisa parecida com a criação.

      Franguinhos, galinhas, mas depois a coisa ficou mais séria. Bezerros começaram a aparecer com o pescoço molinho e o sangue todo chupado. Depois foi uma vaca. Então, sob o comando de Pai Chico, os homens se armaram e foram em bando à caça do bicho, que devia ser coisa grande. Por várias noites ficaram de tocaia e nem sinal de bicho nenhum. Até que chegou a lua cheia. Todos pensaram: hoje não tem jeito, noite clara demais pra caçar, bicho nenhum desentoca. Mas foi justamente na lua cheia que o bicho apareceu. Não tinham se armado nem ficado em campana, mas ouviram ao longe uns guinchos estridentes tão logo a noite nublou e esfriou. Pai Chico entendeu a estratégia: - Ah, o bicho sai é na lua cheia! Deixa quieto! - A lua cheia seguinte deu num dia de finados. Chovia a cântaros. Ninguém nem se lembrava do bicho esquisito. Mas Pai Chico estava de olho fixo no horizonte acinzentado, mirando. De tardezinha o céu começou a limpar. Às seis da tarde o céu estava todo estrelado, clarinho, clarinho. Pegou o Winchester e duas balas de prata que tinha mandado fazer. Pelas sete da noite, mandou avisar à turma que aquela noite era de tocaia na pedra, perto da gameleira. A Lagoa Grande de minha infância era grande como uma sesmaria. Tinha cerrado, buritizais e várzeas. A turma fez pouco caso, mas obedeceu. Ninguém desdizia Chiquitão, mas em lua cheia num pegava bicho nenhum não. Às oito da noite todos se reuniram. Os homens pegaram em armas, mas Chiquitão deu outras ordens. Já estava pronto um chiqueiro-armadilha, com a porta suspensa, à moda de arapuca. Dentro, um bode estava aprisionado. O bicho seria atraído pelos berros do bode. Ao penetrar no chiqueiro, fazia disparar a armadilha; a porta caía, e ele ficava prisioneiro.

      Mas tinha mais. Pai Chico armou um Winchester 44 na vereda por onde o bicho passaria caso escapasse da armadilha. Com duas balas de prata. Se o bicho escapasse do chiqueiro, na saída tropeçaria no cordel, puxando o gatilho da arma. Todo mundo ficou se entreolhando assustado. Afinal, que bicho estavam caçando?


      Perto da meia-noite, o tempo mudou. A noite escureceu de repente e um frio de gelar a alma assobiou na gameleira. Ouviram um barulho esquisito. Era um guincho estridente, depois parecia um choro de criança, um lamento de morte... Um bater de asas, um vôo rasante assustou o bando; parecia um morcego, mas era grande demais, do tamanho de uma anta... Outro vôo rasante... Todo mundo começou a rezar e no meio das avemarias o bode começou a berrar. O bicho voou baixo, entrou na armadilha, arrancou a cabeça do bode e saiu tão depressa que, quando a porta do chiqueiro fechou, o bicho já tinha ido embora. Quando abriu o peito pra alçar vôo, recebeu o tiro certeiro do Winchester; a bala de prata. O bicho caiu mole no chão. A noite estrelou de novo. Dizem até hoje que, quando os homens abriram o bicho, não tinha osso nem vísceras. Só uma baba cinzenta fedendo a enxofre que eles queimaram fazendo o sinal da cruz. E do bicho, pra provar que existiu, ficou o couro. Está por aí até hoje, pra quem quiser ver.
 — em Fazenda Lagoa Grande









Meus amigos, ainda estou com problemas no computador. Assim que possível retribuirei todas as visitas de vocês. Beijos


6 comentários:

  1. Uma crônica bem escrita, com muito talento.
    Tenha uma boa semana.
    Beijos.

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  2. Nossa, essa crônica é de dar medo!rsrsr
    Com certeza, super bem escrita!

    Linda semana pra vc, Clara!Volta logo!Espero que tenha conseguido salvar os arquivos do seu PC!

    Beijos!

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  3. Oi flor!!!!

    Um texto bem escrito!

    Beijos e uma linda semana!

    Selma

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  4. Se o mar adormecer em desvario
    As ondas não mais se formarem
    Se as gaivotas se perderem do ninho
    As árvores mais altas tombarem

    Se o dia não encontrar a manhã
    As nuvens deixarem de chorar água pura
    Se as pedras da ilha roubarem a cor ao verde
    As tuas palavras deixarem de ser raiva dura

    Boa semana


    Doce beijo

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  5. Isso e verdade mesmo?

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  6. Não sei se é verdade, mas esses causos da fazenda sempre têm uma pitadinha de verdade. Eu não duvido!

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