segunda-feira, 11 de junho de 2012

O primeiro beijo



      Carla, como sempre, se aprontava muito rápido: a roupa já era programada em sua memória durante o dia, que fazia combinações possíveis, até achar o que lhe ficaria melhor naquela noite. Então, era só tomar um bom banho, secar os cabelos, maquiagem leve, pois ainda era uma adolescente, e a roupa escolhida. Linda! Era o que todos diziam quando aparecia toda produzida, na sala de sua casa.

      Ficara de se encontrar com as amigas no centro da cidade, que não ficava tão longe assim, e naquela época, início dos anos oitenta, era tranquilo caminhar pelas ruas sem se importar com algum provável perigo.

      Chegando no local marcado, todas as meninas bem parecidas, adolescentes com o frescor da juventude a lhes escapar pelos poros, olhos atentos a procurar por algum "paquera", ou achar alguém interessante que estivesse por ali.

      Carla era uma menina tímida, que ficava pelos cantos só observando o movimento do ir e vir das pessoas, naquele calçadão com vários bares, frequentado por jovens da cidade. Praticamente ficava se escondendo atrás das amigas, caso algum moço lhe olhasse mais nos olhos, lhe piscasse ou lhe acenasse para poder conversar. Na verdade seu jovem coração já batia acelerado por um rapaz, um pouco mais velho que ela, muito cobiçado e que achava impossível ele lhe dirigir o olhar. Mas mesmo assim suspirava quando Alfredo passava por ela, exalando aquele perfume marcante de homem mais velho, um sorriso lindo, que derrubava qualquer garota de sua idade.

      Já o conhecia há algum tempo; apenas conversaram um pouco, mas devido a sua pouca idade, não tinha esperanças com aquele homem perfeito de lindo. Ficava de olho, mas de longe, e desviava o olhar caso Alfredo lhe encontrasse em algum lugar.

      Nesse dia, Carla estava exuberante e não tinha como não ser notada. Então, Alfredo, com toda a sua simpatia, passou por ela, mas chegando por trás, sem ser notado e de surpresa segurou em sua cintura e disse um "oi" praticamente sussurrando em seu ouvido. Carla, assustada, se virou para ver quem era o atrevido a lhe tocar o corpo... e quase desmaiou quando viu todo aquele sorriso só para ela. Teve a impressão de mudar de cor... engoliu seco, e com muito custo retribuiu o "oi", dando-lhe um beijo no rosto, como era o costume. Mas por dentro, Carla tremia, o coração disparou... e o susto provocou nela uma reação que nunca havia sentido: uma paixão platônica que deixaria de ser e se tornaria real, as pernas bambas que mal a sustentavam num pequeno salto, mãos geladas que não se decidiam onde ficar, um frio na barriga e uma voz embargada, como quem tem que encarar uma multidão e não saber qual a primeira palavra a ser pronunciada. "Oi", foi o máximo que conseguiu soltar, com voz baixa, trêmula... e deixou que Alfredo, para o bem de todos, conduzisse a conversa.

      Alfredo deve ter percebido o brilho nos seus olhos e isso o encantou; a meiguice e doçura de Carla era cativante e não seria diferente com aquele rapaz que de certa forma, já tinha uma experiência com garotas. Mas não como Carla, doce e terna, olhar inocente mas sedutor, menina com corpo de mulher... Ficou encantado de vê-la tímida e mal respondendo suas perguntas.

      O tempo foi passando e a hora de voltar para casa se aproximava, pois como toda "moça de família", tinha hora certa para estar dentro de casa. Se despediu das amigas, e disse para Alfredo que precisava ir. Mas como bom cavalheiro, se ofereceu para levá-la para casa. Carla se surpreendeu, pois apesar de sua paixão platônica, nunca imaginara estar ao lado de um homem como Alfredo. Aceitou.

      Entraram no carro de Alfredo: um Chevette marrom, o carro da época, dos jovens, e ouvindo música romântica, inocentemente Carla, chegando à frente de sua casa, abriu a porta do carro para descer... mas Alfredo a puxou de volta, segurou no seu rosto e lhe deu um beijo na boca, daqueles de língua, de tirar o fôlego, de bambear as pernas, de perder o juízo... Carla retribuiu o beijo apesar de ter ficado zonza, apesar de não ter noção do que estava acontecendo, e nem dando tempo de se preparar para um acontecimento tão importante ao qual estava esperando há algum tempo.

      "Deus do céu!" Pensou Carla... "O que aconteceu aqui? Esse foi meu primeiro beijo na boca e Alfredo nem sabe disso... ". Se despediram; Carla entrou em sua casa, e ficou a noite toda acordada, ainda com aquele gosto do beijo na boca, ainda com o perfume daquele homem que antes era inatingível, e com um frio na barriga. Ansiosa, ficou imaginando um namoro, um noivado e até quem sabe, um casamento com aquele primeiro amor a lhe beijar a boca. Agora, deitada em sua cama, é que conseguiu sentir de verdade aquele primeiro beijo, o gosto da saliva de um homem, a respiração tão próxima de seu rosto, a maciez dos lábios, olhos fechados... engraçado que ela ficava se perguntando por que fechar os olhos; e depois daquele beijo, viu que é um gesto automático, como se tivesse um botão que quando encostar em outros lábios, os olhos se fecham, acionados por esse botão. Deitada, de olhos fechados, ela passava seus dedos nos lábios, ainda imaginando aquele gesto que mudara completamente sua vida, que se tornara um marco divisor entre menina e agora mulher. E continuava a sentir aquele gosto mágico, aquele gesto tão comum, mas que naquele dia invadiu sua vida, sem querer, sem pedir, sem avisar...

      Mas Carla nunca mais ouviu falar de Alfredo. Procurava pelas ruas, nas noites, onde tinha o costume de vê-lo, mas não sabia por onde ele andava. E o tempo foi passando, os anos, Carla namorou outros rapazes, mas nunca, nunca se esqueceu daquele primeiro beijo que lhe foi roubado, e que ela queria muito devolvê-lo para aquele homem inatingível, que por um dia, lhe atingiu o coração. Simplesmente inesquecível!

8 comentários:

  1. Beijos assim são pra sempre lembrados!! Lindo!beijos,ótima semana! chica

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  2. Bom dia Clara,
    curti o conto, parabéns, faz nos viajar em seus textos.
    Abraços, saúde e paz interior.

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  3. Legal.....mas faltou uma possível continuação.
    Nada acaba assim!!

    Beijuxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx...

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  4. Ai! Deu vontade de beijar... Clara, Olha o que vc faz com a gente! E maridão foi p/ o trabalho, de homem aqui só o Saci, e cachorro não vale rsrsrs.

    Sensível conto! Tudo haver com a semana...

    Tenha uma semana muito especial!

    Bjooooooooo

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    1. ai Bia... que maldade.
      Achei que era só eu que queria levar um beijaço desse.
      Mas, afff... beijar o Saci????
      rsrsrs
      Acho que prefiro beijar os bichinhos de pelúcia dos meus meninos.
      rs
      Já pensou se me apaixono no Saci, Clarinha?
      Eu vou virar o que?
      rs
      beijinho procêis.

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  5. Oi Clara!
    Que maravilha menina! E quem nunca sentiu isso heim? Noooossa você foi bem no inconsciente coletivo das mulheres.rsssss
    Beijinhos e uma linda semana!

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  6. Eita Clara, que vc tá se saindo uma super escritora de contos de amor! mto bom esse aqui!
    bom dia pra vc querida amiga

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  7. ah Clarinha....
    puxa vida, na minha época não apareceu nenhum príncipe de chevette.
    ai que nhaca....
    Custou pra véia desencalhar, viu.
    rs
    Hummmmmmmmmm
    vou lá beijar meu príncipe marido.
    Ufa.... tudo é possível acontecer depois de um beijinho inesquecível, né.
    rs
    abraço procê.

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