quarta-feira, 30 de maio de 2012

Tempos modernos demais

   
      - Judith, vamos ao shopping amanhã? - perguntou Leopoldo à sua esposa, que estava passando as roupas da semana.

      - Quê, véio? - perguntou, sem ter prestado atenção, pois ouvia o pequeno rádio que sempre ficava sobre a geladeira, ligado AM, num programa que ela não gostava de perder.

      - No shopping, Judith, vamos no cinema amanhã...

      - Amanhã? Fazer o quê no shopping, véio? - interrompeu o que estava ouvindo e prestou atenção no esposo.

      - Tá passando um filme de umas pessoas azuis, que todo mundo tá falando... Quero ver esse negócio. - respondeu Leopoldo, encostado no sofá, com os pés numa banqueta, que sempre ficava à frente deste.

      - Então tá, vamos! - e continuou Judith a passar roupas e a ouvir o rádio.

      Estavam casados há mais de cinquenta anos, filhos criados, netos crescidos, e agora tinham a liberdade de passear onde tivessem vontade, de fazer o que antes não faziam, pois seus oito filhos vieram logo que se casaram, e não tiveram muita liberdade para aproveitar o casamento. Então agora era a hora.

      Judith era ainda uma adolescente quando foi pedida em casamento por Leopoldo; não sabia nada da vida, mas desde o primeiro instante, se encantara por aquele homem alto, magro, postura ereta, e militar. Logo depois do pedido, Leopoldo foi convocado para lutar na guerra, fora do Brasil, e prometeu que voltaria para se casar com ela, ao qual também se encantara desde o primeiro momento em que a viu.

      Judith então ficou esperando dois longos anos a volta de Leopoldo. Esse tempo foi suficiente para preparar todo o enxoval, bordar os hologramas nos lençóis e toalhas, fazer a camisola, preparar o vestido de noiva e sonhar muito. E sonhou! Até que Leopoldo voltou e logo marcou a data. Tudo muito rápido e nos conformes, como ditava as regras rígidas daquela época.

      Agora, com todo o sossego e silêncio em que viviam, aproveitavam para passear nesses lugares que antes não existiam e nem tinham condições de levar todos os filhos.

      No dia seguinte, Judith desde que acordou, já ficou preparando tudo, para que nada desse errado na hora em que saíssem para o passeio. Ficava tão ansiosa que até diarreia lhe dava; e caminhava feito uma perdida pela casa, para cá, para lá, como se quisesse achar algo, mas não sabia o que era.

      Leopoldo era mais tranquilo, passava o dia como qualquer outro e se aprontava somente meia hora antes de saírem, o que deixava Judith agoniada, com medo de perderem a hora.

      Toda perfumada, maquiada e com um vestido florido feito sob medida para seu corpo já rechonchudo, sapatilhas baixas, lá se foi o casal para o shopping assistir o tal filme dos homens azuis.

      Só não contavam com uma imensa fila, a maioria jovens, conversando, rindo, o que deixou Judith agoniada novamente e até com vontade de desistir. Mas Leopoldo a puxou pelo braço e a colocou na fila junto dele, que andava tão rápido, que até estranharam. Na verdade eram duas filas, e Leopoldo contou vantagem por ter escolhido a fila que andava mais rápido.

      Entraram, sentaram mais na frente e esperaram o famoso filme começar. Começou! Primeiro umas propagandas, uns trailers, depois o filme.

      Dez minutos ali em silêncio prestando atenção, um olhando para a cara do outro sem entenderem nada, mas continuaram em silêncio aguardando o que estaria por vir.

      Leopoldo não se conteve, cutucou o homem do banco da frente e fez a pergunta:

      - Me desculpe, mas esse filme não é aquele dos homens azuis?

      - Não, meu senhor, esse filme é Kung-Fu com Bruce Lee, o último filme dele que estão reprisando. - respondeu educadamente o rapaz.

      - Ah, é mesmo? Obrigada!

      Se encostou, olhou para sua senhora e caiu na risada! E Judith fez a mesma coisa: tapava a boca para não incomodar os outros. O rapaz da frente virou para trás e também riu daquele simpático casal.

      Bem, como já estavam lá dentro, continuaram, mas sem prestarem muito a atenção porque o filme era de luta, e Judith não gostava muito. Então, ela deitou sua cabeça no ombro do esposo e ficou ali, pensando na vida, até que o filme terminasse.

      Mas depois que saíram da sala, caíram na risada mais uma vez, e esse foi o assunto da semana, com todos os filhos, os vizinhos, as comadres e até os netos, que ficaram zombando dos avós que não leram o cartaz antes de entrarem na sala de cinema.

23 comentários:

  1. ahahahahahhahhahahahahahhahahhaha...

    Isso está me parecendo mais uma premonição pessoal do que um conto de ficção.

    Mas fique tranquila....vc vai tirar de letra esses esquecimentos: segue um exemplo. Vc e seu futuro marido!

    "É um casal de 80 anos, que está começando a ter problemas de memória. Eles vão ao médico para ser examinados. O medico faz um check-up e diz aos velhinhos que não há nada de errado com eles, mas que seria bom ter um caderninho para anotar as coisas.
    À noite, quando estão os dois assistindo TV, o velhinho levanta e a mulher pergunta:
    - Onde você vai?
    - À cozinha - responde ele.
    - Você não quer me trazer uma bola de sorvete? - pede ela.
    - Lógico! - responde o marido solícito.
    - Você não acha que seria bom escrever isso no caderno? - pergunta ela.
    - Ah, vamos! Qualé? Ironiza o velhinho - Eu vou me lembrar disso!
    Então ela acrescenta:
    - Então coloca calda de morango por cima. Mas escreve para não ter perigo de esquecer.
    - Eu lembro disso, você quer uma bola de sorvete com calda de morango.
    - Ah! Aproveita e coloca um pouco de chantilly em cima! - pede a velha - Mas lembre-se do que o médico nos disse... escreva isso no caderno!
    Irritado, o velhinho exclama:
    - Eu já disse que vou me lembrar!!
    Em seguida vai para a cozinha.
    Depois de uns vinte minutos, ele volta com um prato com uma omelete.
    A mulher olha para o prato e diz:
    - Eu não disse que você iria esquecer ? Cadê a torrada?"

    hahahahahahhahahahahhaahhahahahahahah...

    Beijuxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx...

    KK

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    1. Exatamente isso....

      Pretendo ser assim até os finais de meus dias com meu futuro esposo.... e continuar rindo muito de tudo isso....

      Beijosssssssssssssssssssssss KK

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  2. rssssssssss...Que legal isso e pode acontecer! Adorei! beijos,tudo de bom,chica

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    1. Acontece sim, Chica... eu que o diga!!!

      Tudo de bom pra vc também! Beijos

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  3. Lindo Clara.

    Eu também ri muito. O que importa é o compartilhamento desse episódio com os seus familiares. Momento de feliz descontração.

    Bjs

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    1. Elisa, acho que o mais importante é o bom humor sempre!
      Pra isso não tem equívoco que aguente!!!

      Beijos

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  4. Clarinha...
    mas isso não é coisa de gente idosa não, viu.
    Maridinho pegou minha receita médica pra manipular.
    dias depois perguntei se o remédio tava pronto.
    Resposta: iche, num lembro em que farmácia eu deixei!
    Hum....... mas será que eu deixei mesmo em alguma farmácia?
    rs

    bom dia florizinha.

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    1. Liliane....
      Eu sempre tenho esses lapsos de memória... sempre! Mas que difícil isso, menina!!! Será a idade "avançando a galopes" rsrsrsrsrs

      Beijos, querida!

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  5. Conheço um monte de "velhinhos" que leem antes pela Internet, qual filme está passando, o enredo, os horários rsrsrrssr
    Isso sim são tempos modernos ..........
    Beijos querida.

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    1. Tempos modernos pra uns.... e bicho de sete cabeças pra outros....
      Conheço alguns novinhos que têm horror a computador!

      Beijos

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  6. Ahhhhhhhhhhhh...como eu não fui com a cara do AVATAR, acho que eles até acabaram se dando bem.....rsrsrs
    Giu

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    1. Giu, eu nem assisti esse Avatar... Não me interessei nem um pouco.
      Acho que se deram bem sim....
      Beijos

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  7. Adorei o seu tempos modernos...rsrs...Já aconteceu de eu ir para um filme e quando entrei era outro...rsrs...
    beijos
    Adriana

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    1. Eita, Adriana....

      Tá antecipando a idade avançada??? kkkkkkkkkk
      Acho tão comum isso, e não é mesmo, privilégio dos idosos.... dos pré-idosos também!!!

      Beijos

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  8. Oi Clara!
    rsssss
    Ver as coisas com bom humor é uma receita infalível. E ninguém está livre desses equívocos, não é? Adorei!
    Beijinhos!

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    1. E não tem idade pra isso não, né?

      Eu vivo dando as minhas.... afffff!!!

      Beijos, querida!

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  9. ahahahah. Clara, nem posso rir, faço cada trapalhada... tenho até medo de imaginar o que vou fazer qdo ficar velhão rs. dessa, do cinema, ainda não fiz. mas não falta mto rs.
    bjs bom dia pra vc!

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    1. Alexandre.... eu sou uma dessas.

      Semana passada fui na reunião na escola do meu filho e assisti quase a metade da reunião na sala erradaaaaaaaaaaaaaaa!!!
      Afffffffffffffffffeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!

      Minha filha tirou o maior sarro da minha cara!

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  10. Que beleza de cronica. Tem um certo humor, mas tem muito mais que isso. É a vida quase alienigena das pessoas idosas no Brasil: nada para fazer, ver o tempo passar ate chegar a hora...
    Adorei. Tem beleza nessa aventura de ser humano.
    Beijos amiga, saudades de voce! Voltei para o blog antigo, ehehehehe.

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    1. Camille, eu vi que voltou pro seu blog antigo... rsrsrsrsrsrs

      Os jovens daquela época e idosos de hoje, ficam assim mesmo, nem todos, mas a grande maioria que eu conheço sim!

      Beijos, querida!!!

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Oi, Clara!! Meu comentário anterior foi antes que tivesse terminado!!
    Eu quero um veinho assim cheio de humor, pois o que vejo por aqui são pessoas ranzinzas que não sabem nada do que é "conviver". Muito fofo os dois!! Beijus,

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  13. Claríssima, que delícia de texto! Eu só voltaria a me envolver com alguém se fosse para construir um amor bem humorado...
    Bjo&Carinho,
    Jussara

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